Katarina Alexander
Mais uma vez ao contrário do meu desejo, fiquei calada ao lado dele assistindo o filme até outro começar, o entardecer se prolongando numa noite fria de outono na cidade.
— Posso ir pegar o cobertor se quiser. — Oferece percebendo a maneira como movimento os pés.
— Diana está demorando. — Falo repassando na mente os passos que fiz.
Em um jogo de xadrez cada movimento é planejado como se fosse o último, viver na máfia não é tão diferente assim, afinal um passo em falso e todo o castelo de cartas irá desmoronar. As vezes precisamos esconder segredos até mesmo do espelho.
É um acordo silencioso falarmos os nomes falsos em voz alta, não é so dentro das mansões da máfia que as paredes tem ouvido, arriscar seria um erro de principiante.
— Ela gostou do motoqueiro. — Fala com certo desgosto, encontro seu olhar apertando os olhos para ver a velha fagulha lá.
Sempre foi um jogo sujo entre nós duas, uma visão distorcida das nossas imaginações e da maneira como crescemos acreditando ser uma única, as dores dela são minhas, os meus desejos são os dela e a nossa vida se completa como uma só. Por isso, Beatrice está se divertindo com Dragon, por que ela sabe das cobiças do soldado ao meu lado, é a sua maneira de abrir mão deixando o tabuleiro em minha disposição, para jogar.
— Algum problema? — Questiona percebendo o meu olhar.
Esse é a maior dificuldade da rachadura fazer com que a água contida dentro da barragem não vaze.
— Quando vai parar de desejar ela?
Frank pisca atordoado com a pergunta engolindo em seco fazendo o pomo de adão subir e descer com força. Levanto do sofá, não para fugir da resposta, mas, por saber que ele não tem como responder.
— Isso te chateia?
Antes que os meus ombros fiquem tensos entregando a verdade, dou de ombros lhe dirigindo um olhar de esguelha.
— Acho que você deveria recomeçar.
Minto como a maldita mentirosa que sou, lembro bem do seu olhar nas minhas costas durante aquele evento, a mão de Stefano acariciando meus quadris enquanto o soldado admirava cada detalhe meu, acreditando ser Beatrice tanto quanto Stefano sorrindo de lado com a visão da esposa perfeita.
Eu disse, que nós duas somos unidas como uma única, sempre saciando as vontades da outra em um vórtice doentio.
Entro na cozinha abrindo a geladeira pegando um copo e servindo com água, pelo canto posso ver a maneira curiosa como Frank se move, por isso continuo com o copo erguido até escutar a batida na porta. Automaticamente a garota inocente e amedrontada volta para encobrir os meus desejos.
Não escutei nenhum passo no corredor, então não é algum dos homens do Dragon, olho para o soldado que puxa uma arma debaixo da almofada fazendo um gesto, sinto vontade de sorrir com a sua preocupação comigo, por isso obedeço encostando o corpo na parede ao lado da geladeira ficando com o corpo escondido. Mesmo sem realmente precisar da proteção do soldado gosto de manter a aparência de princesa a ser salva e protegida.
Escuto o som da dobradiça rangendo ao ser aberta.
— Katarina. — A voz contendo um tom urgente atrai minha atenção.
Saio do lugar encontrando o olhar curioso de Frank encarando Jackson.
— Qual problema? — Falo baixo mantendo o tom de voz cauteloso, mesmo sabendo que meus irmãos sempre percebem a mentira.
Ele responde antes que possa falar.
— Preciso da ajuda dela.
— Para que?
Controlo as minhas expressões com a pergunta de Frank, sua voz autoritária quase me faz sorrir, quase.
— Não que precise te dar satisfação, mas tenho uma aliança de noivado para comprar e não sei o que escolher.
Frank cruza os braços com a resposta, desconfiando o que só me faz dar mais passos a frente para encerrar a conversa.
— Se a Diana não der noticias até amanhã, me ligue. — Peço ao calçar as sapatilhas próximas a porta.
— Posso ir com vocês. — Resmunga e mais uma vez finjo não estar surpresa.
Ergo a mão tocando seu peitoral coberto apenas por uma camiseta, adorando o calor contra a palma, desvio o olhar de maneira ensaiada quando gostaria de passar a língua nos lábios secos de desejo.
— Não se preocupe, as pessoas irão pensar que sou mais uma das garotas do Jackson.
Seu olhar muda com um brilho que ainda não tinha visto até agora.
— Você não é, outro motivo pelo qual estou indo junto. — Decreta com uma autoridade no tom de voz que até agora não havia usado comigo.
Sem esperar outra palavra, Frank se movimenta pelo apartamento pegando uma camisa gola polo passando por cima da cabeça enquanto encaixa a arma no quadril.
—Agora, corte a merda e diga o que aconteceu. — O soldado decreta pela segunda vez na noite e demonstra ser bem mais inteligente do que imaginei.
Andamos lado a lado em silêncio até alcançarmos os degraus, irritada refaço a pergunta do Frank, principalmente por saber que Jackson não irá falar sem ser pressionado.
— O que aconteceu?
— Giácomo descobriu.
Arregalo os olhos sem conter a p***a da surpresa, sabendo bem do que se trata e o quanto meu irmão mais velho consegue tomar atitudes inesperadas quando se trata da De Angelis.
Beatrice sabe melhor do que ninguém o quanto é complexo se jogar com os desejos obsessivos dos homens da máfia e ainda quis prolongar isso. Passo a mão no rosto pensando em alguma coisa. As opções são limitadas principalmente com o jogo que está se movimentando dentro da minha mente agora, perder ou não uma torre?
— Ele foi até a casa dela quando os dois viajaram para resolver a pendencia do Ricci em Las Vegas. — Continua falando antes de desviar o olhar e voltar a descer mais alguns degraus.
— O que ele fez?
— Não sei — Dá de ombros — Ou não fez nada ainda, está enlouquecido e furioso no apartamento.
Viro o rosto para cima e para baixo procurando alguém garantindo que ninguém está ouvindo essa conversa. Encontro o olhar curioso de Frank o que acaba fazendo com que volte a posicionar a mascara no rosto pronta para esconder cada um dos detalhes que gostaria de falar agora com Jackson.
Suspiro com força.
— Vamos até lá.
— Isso é arriscado demais, Katarina, ainda tem o soldado de confiança do seu irmão. — Frank menciona os riscos como se eu não soubesse.
— Ele precisa de mim e estarei lá. — Digo a verdade o encarando, os belos olhos verdes, para que saiba que nada irá fazer com que desista de ir ao encontro dele.
— Posso lidar com Guiseppe caso algo dê errado. — Jackson quebra o momento tenso entre nós.
Observo o olhar de Frank, sei que o soldado mais velho é seu padrinho, mas ele permanece quieto, a aceitação da morte é algo tão comum que as vezes a vida parece banal.
— Vamos. — Resmungo quebrando o silêncio.
Lembro de uma música que adoro enquanto caminhamos em silêncio, quem sabe possa canta-la para ele em algum momento quando estivermos livres para irmos ao bar do motoclube.
Deixo que abra a porta do carro e entro, passando a encarar as ruas escuras da cidade, o caos dentro da minha mente se misturando a canção melancólica das decisões que preciso fazer para garantir uma vitória. Ninguém dá crédito suficiente a rainha antes de sacrifica-la para proteger o rei.
Giácomo realmente deseja manter aquela garotinha de asas quebradas para si mesmo?
Engulo a risada sarcástica, ele sempre foi obcecado por coisas quebradas mesmo sabendo ser incapaz de consertar, talvez sua fúria agora seja por não ter sido o primeiro a faze-la quebrar. Mas isso, já sabíamos.