Pré-visualização gratuita cap 01 minha família
Cinthia
Nasci e cresci no Complexo do Alemão.
Minha vida sempre foi cercada pelas cores, sons e histórias desse lugar que moldou quem eu sou.
Trabalho no salão de beleza com as minhas duas melhores amigas, Lavínia e Vivi. Nós três somos como irmãs inseparáveis. Dividimos mais que memórias — dividimos a paixão por transformar pessoas. Ver cada cliente sair do salão se sentindo linda e confiante é o que nos move todos os dias.
Em casa, a força tem nome: minha mãe. Ela sempre foi meu maior exemplo, uma mulher resiliente que nunca abaixou a cabeça diante das dificuldades. Criou a mim e à minha irmã, Clara, sozinha, com dignidade e amor.
Meu pai? Foi embora antes mesmo de eu nascer. Nunca o conheci — e talvez nem queira. Quando eu perguntava sobre ele, minha mãe apenas desviava o olhar e dizia:
“Tem coisa que não precisa ser conhecida pra ser superada.”
Essas palavras ficaram gravadas em mim. E é por isso que hoje tudo o que faço é por ela. Cada conquista, cada passo, cada sonho que persigo é a forma que encontrei de retribuir o esforço, as noites m*l dormidas e os sorrisos escondidos atrás das lágrimas que ela nunca deixou transparecer.
Mesmo com as pedras no caminho, sigo firme. Quero voar alto, quero chegar longe.
Eu estava perdida nesses pensamentos quando a voz da Anita ecoou, agitada, chamando minha atenção enquanto falava sobre o baile que ia acontecer.
Anita: Tô falando com você, Cinthia!
Anita é prima da Lavínia. No começo, a gente não se dava muito bem — sempre tínhamos aquelas brigas bobas — mas depois percebi que a Anita é mais louca do que eu.
Cinthia: Foi m*l, amiga, eu não tava prestando atenção. O que você tava falando?
Anita: Do baile de amanhã!
Cinthia: Não tô com vontade de ir.
Anita: Ah não, amiga! Tu não vai ficar enterrada no teu quarto como se fosse castigo. Bora sair, se divertir, beijar na boca, sentir a vida pulsar! A gente só vive uma vez!
Cinthia: Ai, pronto, começou o discurso. Só pra deixar claro: não tô desesperada por macho nenhum, viu? Minha última vez foi com meu ex, e eu sigo vivíssima. Não tô mofando em canto nenhum, tô ótima do jeito que tô.
Anita: Como tu é chata, hein!
Viviane: Vou terminar de arrumar esse cabelo aqui e depois partir pra casa. Preciso de um banho e descansar um pouco.
Cinthia: Também quero um banho e dormir. Desde ontem o salão não para de encher — cabelo, unha, tudo ao mesmo tempo. Minhas costas tão me matando.
Anita: Se vocês quiserem ir, podem ir. Eu fecho depois.
Lavínia: Vamos terminar tudo logo.
Viviane: Tão sabendo?
Cinthia: Lá vem a fofoqueira...
Viviane: Amanda deu uma de louca de novo! O povo aqui do morro tava comentando que ela deu uma surra na Ingrid por causa do Urso.
Lavínia: Aff, tudo por causa de macho.
Cinthia: Amanda devia era se valorizar.
Anita: Mas é o dono do morro, né, gata? Quem não sentaria pra ele?
Cinthia: Eu mesma não sentaria. Já vi umas fotos dele e não achei bonito.
Anita: Só tá falando isso porque não conhece ele pessoalmente. Tenho certeza que, quando conhecer, vai querer ficar com ele.
Cinthia: Eu mesma não.
Lavínia: Aham, sei.
Ah, fala sério. Essas meninas tão viajando.
Eu, me envolver com traficante? Deve ser piada, né? Nunca que eu ia me envolver com dono de morro. Sei quase nada sobre esse tal de Urso e não sou dessas que perdem a cabeça e saem brigando por homem.
(. . .)
Tinha acabado de chegar em casa quando subi direto pro meu quarto. Depois de um banho demorado, saí do banheiro e vesti uma roupa bem confortável — short soltinho e blusa larga. Peguei o celular, que tava cheio de notificações, coloquei pra carregar e notei que já passava das 18h40.
Desci as escadas tranquilamente e fui até a cozinha procurar algo pra comer.
Clara: Tô fazendo lasanha.
Cinthia: Ah, então é por isso que tá esse cheiro estranho na casa.
Clara: Estranho nada! Eu cozinho mil vezes melhor que você.
Cinthia: Até parece.
Clara: Uhum, duvida não.
Cinthia: Cadê a mãe?
Clara: Foi na casa da Dona Rosa.
Cinthia: Ficou sabendo do baile de amanhã?
Clara: O Tz me mandou mensagem perguntando se tu ia também. Disse que vai passar aqui pra me buscar.
Cinthia: Sinceramente, não tô com vontade de ir.
Clara: Ah, bora, Cinthia! As meninas vão também. A gente se diverte, bebe, ri... Tu só quer ficar trancada em casa vendo esses doramas e ídolos coreanos.
Cinthia: Eu prefiro meus doramas do que baile.
Olhei pra Clara e a gente acabou rindo juntas.
Clara: O Tz tem vários amigos. Se quiser, peço pra ele te apresentar algum. O LN tá solteiro.
Cinthia: Ah, Clara... esses caras aqui do morro, nenhum presta. Prefiro ficar na minha. Não quero doida me xingando por causa de macho. Hoje mesmo, a Vivi comentou que a Amanda bateu na Ingrid por causa daquele Urso.
Clara: Normal. Todas acabam brigando por causa dele.
Cinthia: Já vi umas fotos desse cara e, sinceramente, não achei bonito não.
Clara: Hum, sei...
Clara terminou a janta e nós duas arrumamos a mesa. Depois coloquei a lasanha no prato e começamos a comer. Mamãe tinha acabado de chegar, e o morro tava bem silencioso naquela noite — só se ouvia o ronco das motos e alguns carros passando.
Helena: O cheiro dessa lasanha dá pra sentir lá de fora.
Clara: Minha comida é uma maravilha, eu sei.
Cinthia: b***a.
Helena: O Tz não vai vir jantar com a gente, filha?
Clara: Ele mandou mensagem dizendo que tinha umas coisas pra resolver, mas pediu pra eu guardar um pedaço pra ele.
Cinthia: Esqueci o quanto ele é esfomeado.
Helena: Que isso, Cinthia!
Clara: Igualzinho a você.
(. . .)
Depois do jantar, a gente limpou a cozinha. Clara foi pro quarto dela e mamãe ficou na sala assistindo TV. Dei um beijo na testa dela, desejei boa noite e fui pro meu quarto. Coloquei minha touca de cetim, vesti meu pijama — o banho já tava tomado.
Clara e o Tz se conhecem desde a escola. Na verdade, todo mundo aqui do morro cresceu junto: eu, Lavínia, Vivi, o Chefin e o Tz. No começo, mamãe não aprovava o relacionamento da Clara com ele, porque sabia bem o caminho que o Tz tinha escolhido. Mas não dava pra mudar isso, então acabou aceitando.
Hoje, eles têm um relacionamento saudável, e minha mãe já considera tanto o Tz quanto o Chefin como filhos. Esses dois são insuportáveis, mas amo eles.
Saí dos meus pensamentos, apaguei o abajur e, com os olhos já pesados, acabei dormindo.