Cinthia
Algumas semanas depois...
Tinha acabado de acordar quando peguei meu celular e vi que já era meio-dia. Levantei, tomei um banho, fiz minha higiene pessoal e coloquei um vestido florido. Desci as escadas e vi que a mamãe já tinha feito o almoço, enquanto a Clara ainda dormia. Essa semana passou rápido.
Coloquei meu almoço no prato e comecei a comer quando o celular começou a tocar.
Ligação…
Piranha: Fala, gata. Partiu praia hoje.
Você: Amiga, tô com uma dor de cabeça.
Piranha: Uhum. A Vivi e a Anita tão vindo pra cá.
Você: Vou arrumar umas coisas aqui em casa, depois te mando mensagem, chata.
Piranha: Tá bom, bjs, te amo.
Depois que desliguei, fui arrumar a casa. Alguns minutos depois, terminei. Coloquei meu biquíni, vesti um short por cima, passei protetor solar, organizei minhas coisas na bolsa e mandei mensagem pra Lavínia vir me buscar.
WhatsApp
Você: Vem me buscar, tô pronta.
Piranha: Tô indo, mais as meninas.
Você: Tá.
Não demorou muito e ela chegou buzinando na frente de casa. Tranquei a porta e parti pra praia com elas. Eu tava precisando mesmo de um sol.
(...)
Fomos o caminho todo conversando dentro do carro.
Lavínia: Tô ficando com um cara do morro.
Cinthia: Quem é já?
Lavínia: O vulgo dele é Cabelinho.
Viviane: Ah, é o amigo do Chefin.
Cinthia: Olha aí, sentando pra bandido.
Lavínia: Até parece, Cinthia. Semana passada tu não tava de papinho com o Urso?
Cinthia: A gente só conversou, nada demais. E também nem foi muito tempo assim.
Anita: Sei…
Chegamos na praia e tava super lotado.
Lavínia: Vou comprar umas bebidas.
Lavínia saiu com a Anita, e fiquei só com a Vivi. Logo o Chefin chegou, abraçou ela e depois sorriu pra mim.
Chefin: Oi, feia. Não vai entrar na água?
Cinthia: Talvez depois.
Viviane: Amiga, vou ali com o Chefin, tá?
Cinthia: Vão lá, sem problemas.
Coloquei meus fones, ajeitei minhas coisas na canga. Quando olhei pro lado, vi o Urso chegando na praia com a Amanda e os amigos dele.
Anita e Lavínia tinham voltado com as bebidas. A gente tava rindo e conversando quando dois caras se aproximaram.
Xxx: Boa tarde, minhas lindas.
As meninas sorriram, mas eu só olhei de lado. Um deles não tirava os olhos de mim até que resolveu sentar perto e puxar assunto.
Xxx: Oi, prazer, Thiago.
Cinthia: Prazer, Cinthia.
Thiago: Você é daqui de perto?
Cinthia: Sou do Complexo do Alemão.
Thiago: Aaah, entendi.
A conversa rolou, e ficamos conversando por algumas horas.
(...)
Mais tarde, Lavínia me deixou em casa. Agradeci, porque o sol dessa tarde tinha acabado comigo — fiquei até marcada. Hoje ainda ia rolar pagode no bar do Seu Juca, e as meninas já estavam planejando me arrastar.
Tomei um banho rápido, eu tava cheia de areia. Quando chegou uma notificação no celular, número desconhecido.
WhatsApp
Número desconhecido: Boa noite, desculpa chegar assim, mas sua amiga me passou seu número. Thiago aqui, linda.
Você: Oi.
Não gosto quando passam meu número sem minha permissão. Essa Lavínia é uma vagabunda mesmo.
Número desconhecido: Tô indo hoje dar uma passada no pagode do Seu Juca. Você vai?
Você: Talvez sim, talvez não.
Número desconhecido: Tá bom então.
(...)
Eu já tava arrumada esperando as meninas. Fiz uma maquiagem básica, meu cabelo tava bem volumoso. Coloquei um vestido vermelho justo, curto, com uma f***a na perna — amo vestidos. Calcei minha sandália, dei uma última olhada no espelho. Eu tava pronta.
Quando saí do quarto, as meninas já tinham chegado.
Lavínia: Tá cheirosa, hein.
Cinthia: Me fala, por que tu passou meu número pra aquele tal de Thiago?
Lavínia: Achei super legal vocês dois conversando na praia. Vai que rola algo. Faz meses que não te vejo com ninguém.
Cinthia: Eu não tô desesperada.
Lavínia: Relaxa.
Chegamos no pagode. O clima tava bom, muita música, carne assando, cerveja gelada. O Thiago também já tava aqui, mas ainda não tinha me visto — tava ocupado conversando com uns homens. De repente avistei a Amanda chegando e, logo depois, o Urso com os amigos de sempre.
Ele tava muito bem vestido, corpo musculoso, tatuagens à mostra. Só de olhar, fiquei arrepiada. Nem entendi o porquê. No baile passado, a gente tinha trocado umas palavras, e achei ele simpático, super educado, sorriso bonito.
Viviane: O Chefin tá me chamando.
Lavínia: O Cabelinho também.
Anita: Tô saindo também.
Fiquei sozinha.
Tava aqui, bebendo uma cerveja, quando o Thiago apareceu.
Thiago: Boa noite. Você tá muito bonita.
Cinthia: Obrigada.
Ele puxou assunto.
Thiago: Você trabalha?
Cinthia: Sim, no salão de beleza aqui do morro, com as minhas amigas. E você?
Thiago: Ajudo meu tio no trampo.
Cinthia: Aaah, entendi.
A conversa seguia, até que o Urso surgiu.
Urso: Cinthia, quero trocar uma ideia contigo.
Cinthia: Pode falar aqui.
Urso: Melhor a sós.
O Thiago ficou olhando sem entender. Acompanhei o Urso e fomos pra um lugar mais vazio.
Cinthia: O que você quer?
Urso: Desde o baile passado, eu não consigo parar de pensar em você.
Ele me olhou firme. Eu não sou de me envolver com cara dessa vida, mas com ele eu senti algo diferente.
Urso: Tu é tão linda… Não merece aquele cuzão.
Cinthia: Eu não tenho nada com ele.
Ele se aproximou mais. Dava pra sentir o perfume misturado ao cheiro forte da maconha.
Urso: Você mexeu comigo de um jeito que nem sei explicar. Desde aquele dia no baile…
Nossos olhares se encontraram e, sem pensar, acabamos nos beijando. O gosto dele era de whisky e maconha. Suas mãos firmes apertavam minha cintura, os dedos entrelaçavam no meu cabelo. Beijava bem demais.
Quando paramos, sem ar, ele segurou meu rosto e falou baixinho:
Urso: Na próxima, quero repetir esse beijo.
Cinthia: Não vai ter próxima.
Ele se afastou sorrindo de lado e me deixou ali parada, sem acreditar no que tinha acabado de acontecer.
(...)
O pagode ainda rolava. O Thiago já tinha ido embora pelo visto. Eu tava sentada com as meninas quando o Chefin e o Cabelinho chegaram. Clara apareceu com o TZ, e logo depois veio o Urso acompanhado da Amanda.
Ela me encarou e abriu um sorriso cínico.
Amanda: Oi, Cinthia.
Cinthia: Oi.
Nunca trocamos muitas palavras, só quando ela ia retocar aquele mega falso no salão da Vivi. Ainda se achava como se fosse dona de tudo.
Urso passou a noite me encarando. Eu desviava sempre. TZ puxou a Clara pra dançar, Chefin levou a Vivi, Cabelinho chamou a Lavínia. Anita já tinha ido embora. Amanda, achando que ia ser chamada pelo Urso, ficou só esperando, mas ele ignorou. Ela saiu furiosa, mandando ele se fuder.
Ele só riu, acendeu um cigarro e voltou a me encarar.
Urso: Quer dançar agarradinho, princesa?
Cinthia: Tô de boa, não quero.
Urso: Qual é…
Esse “princesa” tava virando marca dele. Fomos dançar e ele sorria enquanto me segurava.
Cinthia: Essa mão tá descendo demais.
Urso: Também né… com essa b***a grande…
Já eram três da manhã, minhas pernas estavam doendo. Chamei as meninas.
Cinthia: Tô indo embora.
Urso: Vou te ver de novo?
Cinthia: Ué… eu moro aqui.
Ele riu e ficou me olhando até eu sair. Clara já tava me chamando.
Amanhã, com certeza, eu ia ter que responder um monte de perguntas:
“Não era você que dizia que não se envolvia com bandido?”
Mas eu não me envolvi… só aceitei dançar com ele. E aquele beijo foi um erro.
Em casa, minhas pernas estavam exaustas. Subi, tomei um banho rápido, coloquei a touca de cetim, meu pijama e deitei. Mas não conseguia parar de pensar no beijo dele.
Eu sei como é a vida dele — a quantidade de mulheres, a Amanda no pé… mas mesmo assim, ele mexeu comigo.
Apaguei o abajur e adormeci.