Urso
Tenho orgulho de quem eu sou, mesmo que minha caminhada tenha sido cheia de dor.
Tudo que sou hoje é reflexo do meu pai. Antes, ele era o dono do Complexo do Alemão — respeitado por uns, temido por outros.
Mas meu coroa se foi de repente, vítima de um infarto, e o peso do mundo caiu nas minhas costas. Eu era novo, mas alguém precisava assumir. Desde então, o morro virou minha responsabilidade. Hoje me respeitam como respeitavam ele.
Meu coroa foi um dos melhores pais que alguém poderia ter. Nunca deixou faltar nada em casa, sempre lutou por nós, pela família. Ele não era r**m, só foi forjado pela vida. Quando completei dezessete anos, colocou uma arma na minha mão pela primeira vez. Sempre me dizia:
“Essa vida não é pra você, filho. Vai estudar, ser alguém melhor do que eu.”
Eu até tentei ouvir, mas quando ele partiu, tudo desabou. Foi aí que entrei de vez no tráfico. Fiz meu primeiro corre, meu primeiro roubo — e dali não parei mais.
Hoje sou um dos traficantes mais procurados do Rio. Tenho vários inimigos, mas continuo de pé. Não deixo ninguém me ver cair. Só quero dinheiro no bolso, poder no morro e mulher do lado. Foi isso que a vida me ensinou: quem se arrisca de verdade, merece viver o extraordinário.
Agora tô aqui, sentado, bolando um beck, tentando calar meus pensamentos.
A porta se abre sem aviso. Amanda entra com aquele jeito dela, achando que tem lugar fixo na minha vida. Detesto quando não bate na merda da porta. Ela sonha em ser a fiel do morro, mas não passa de mais uma. Amanda gosta de luxo, de dinheiro fácil. Vive se iludindo, achando que um dia eu vou tratar ela diferente.
Amanda: Eu tava morrendo de saudades, amor.
Urso: Já te falei pra tu não me chamar de amor, p***a.
Amanda: Não fala assim comigo, Felipe.
Urso: c*****o, tu sabe que eu não gosto que me chamem pelo nome. Meu vulgo é Urso, entendeu?
Amanda: Tá bom, desculpa, gatinho... quer que eu te faça relaxar um pouco?
Amanda se sentou no meu colo e começou a tirar a blusa junto com o sutiã. Ela é bonita, só não sabe se valorizar. Meu p*u logo deu sinal de vida — a safada sabia como me provocar. Eu não gosto que me beijem, e ela sabia disso, por isso nem tentou.
Segurei ela com força, joguei em cima da mesa, coloquei a camisinha e meti nela ali mesmo, de todas as formas possíveis. Quando já tava quase gozando, ela se ajoelhou e começou a chupar meu p*u até eu explodir dentro da boca dela — e a miserável engoliu tudo sem pensar duas vezes.
Ela se vestiu rápido e saiu da sala. Peguei três notas de cem e joguei em cima da mesa pra ela.
(...)
Pouco tempo depois, Tz e o Cabelinho entraram na sala me perturbando.
Os dois são meus melhores amigos, meus braços direitos pra tudo — gente em quem eu realmente confio.
Urso: O que vocês querem já?
Tz: Tá estressado, amor?
Urso: Viado.
Cabelinho: Relaxa, vida.
Tz: Tava comendo a Amanda de novo?
Urso: Aquela louca tava aqui atrás de dinheiro.
Cabelinho: Nossa, que novidade.
Tz: Baile hoje, irmão.
Urso: Já tá tudo no esquema.
Tz: O Chefin e os outros terminaram de comprar o que tava faltando pra hoje à noite.
Urso: Certo.
Tz: A irmã da Clara vai colar no baile.
Urso: Tu já falou dessa mina uma vez, mas nunca vi ela pelo morro assim não.
Tz: Ela trabalha no salão da Vivi, nem é muito de sair de casa, só quando as meninas arrastam ela.
Urso: Agora tô curioso pra saber quem é.
Cabelinho: Uhum, sei.
Olhei pra eles e já mandei saírem da minha sala.
Cabelinho: Tamo indo já, amor.
Urso: Vai se fuder.
Tz: Falou, irmão.
Urso: Fx.
(...)
Saí da boca e fui direto pra casa. De longe já sentia o cheiro da comida da minha coroa — a mulher manja em tudo. Entrei, depositei um beijo na testa dela e vi a mesma tomando uma cervejinha.
Urso: Olha a velha aí.
Alerte: Velha é teu passado, moleque.
Urso: Cadê a Isa?
Alerte: Chegou da escola, deve tá no quarto dela.
Urso: Vou subir tomar um banho, mais tarde tem baile, tenho que me arrumar.
Alerte: Vai lá, meu filho.
Subi, tomei um banho e depois de uns minutos desci. O celular tava no carregador e eu só pensava em comer, porque tava brocado.
Quando cheguei na cozinha, a Isa apareceu atrás de mim, já com aquela cara de chata de sempre.
Isadora: Hoje eu vou pro baile, e não quero você me vigiando. Sei me cuidar sozinha.
Urso: Então vai nessa.
Isadora: Ai, ai, ai.
Alerte: Seu irmão tem razão. Só porque você fez dezoito anos, não quer dizer que não precise de cuidado. O mundo tá cheio de homem doente por aí, mocinha.
Isadora: Tá bom, mãe, já entendi.
Urso: Otária.
Isadora: Vai se fuder.
Alerte: Olha a boca, menina!
(...)
Saí da cozinha e fui direto pro quarto. Mandei mensagem no grupo confirmando o horário — tava fechado pras 10h30. Comecei a me arrumar: puxei uma calça jeans preta bem ajustada, coloquei um cinto estiloso e vesti uma camisa da Lacoste branca com o jacaré bordado no peito, toda alinhada.
Nos pés, escolhi um Air Force branquinho estourado, que chamava atenção de longe. Completei com meus cordões dourados reluzindo no peito e alguns anéis que sempre davam aquele destaque.
O corte tava na régua, zero falha. Passei um perfume marcante que tomou conta do quarto. Sorri de canto, satisfeito com o resultado. Peguei minha Glock, encaixei na cintura com cuidado, ajeitei a camisa por cima e saí do quarto.
A Isa já tava pronta. Dona Alerte tava na sala, curtindo as músicas dela e tomando cerveja. Daqui a pouco eu já sabia: ia capotar bêbada no sofá.
Urso: Não vai beber muito e dormir no sofá, velha.
Alerte: Vai caçar uma velha pra chupar teu beiço.
Urso: Deus me livre, velha. Te amo.
Alerte: Fala direito, moleque. Amo vocês dois, se cuidem.
Isadora: Amo você também, velha.
Saímos de casa — e claro, a mãe começou a brigar porque odeia ser chamada de velha.
(...)
Cheguei no baile e o pessoal já abriu espaço pro chefe aqui passar — respeito é respeito dentro do meu morro.
Tz e o Cabelinho tavam do meu lado. A Isa disse que ia no banheiro, mas sei bem o que ela foi fazer. Nem vou falar nada — essa garota às vezes me irrita pra c*****o.
Subi pra área VIP e os outros mano tavam lá: Chefin, LN e PH.
Peguei meu copo de whisky, joguei gelo e misturei com vodka e gin.
Amanda chegou do nada e se jogou no meu colo. Que mina chata, parece carrapato, não desgruda.
Olhei pro lado e vi que as amigas da Clara já tavam no baile também. Mais pro fundo do bar tinha uma mina sentada mexendo no celular.
Cabelo cacheado, sorriso bonito, linda demais. Suas tatuagens se destacavam de longe. Logo depois, ela veio pra área VIP junto com as amigas e se sentou bem na minha frente.
Não tinha como não encarar. A mesma olhou pra mim, desviou rapidinho, mas não adiantou nada: já tinha chamado minha atenção.
A Anita puxou ela pra dançar, e quando começou a rebolar aquela b***a grande dela, eu só pensei: preciso saber quem é essa mina.
Tz: Esse whisky tá forte demais.
Fizemos quatro fileiras e começamos a cheirar. Tz não quis, sabia que a Clara ia embaçar com ele.
Cabelinho: Terror passou a visão que cola mais tarde aí, irmão.
Urso: Pdp.
Terror é parceiro das antigas, trampava pro meu coroa quando ele ainda tava vivo. Hoje é dono do Jacarezinho junto com o Evandro.
Mesmo assim, minha cabeça só tava pensando naquela mina.
Desci lá embaixo, indo na direção que ela tava.
Urso: Boa noite, princesa.
Ela levantou os olhos do celular e prestou atenção em mim.
Cinthia: Boa noite.
Urso: Primeira vez vindo em um baile?
Cinthia: Sim, eu não sou de sair muito, então as minhas amigas me arrastaram.
Até que ela foi educada. Pensei que ia me ignorar só porque eu tava lá em cima.
A gente ficou sentado frente a frente. Ela só olhava e desviava.
Urso: Satisfação, Urso.
Ela ficou me encarando por uns segundos, depois respondeu:
Cinthia: Cinthia, prazer.
Urso: Nome lindo.
Ela deu um sorrisinho bobo. Linda demais.
Urso: Aproveita sua noite. Espero te encontrar mais vezes por aí, princesa.
Ela sorriu de lado — e eu já tava desarmado. Essa mina mexeu comigo.
Eu já tava bebendo e fumando com os mano, mas não tirava os olhos dela.
De vez em quando nossos olhares se cruzavam, e aquilo me deixava agoniado. A Amanda ainda insistia no meu colo, até que mandei ela sair. Saiu brava, mas f**a-se.
(...)
Já eram quase cinco da manhã. Eu trocava ideia com o Terror, os outros parceiros já tinham vazado e o baile tava quase esvaziando. Procurei a mina, mas parecia que já tinha ido embora também.
Saí do baile e acionei os vapores da segurança pra limpar tudo e mandar o resto do pessoal embora. Liguei pra Isa, mas a mesma não atendeu. Fiquei puto.
Cheguei em casa e encontrei a dona Alerte dormindo no sofá. Peguei ela no colo e levei pro quarto. Tomei um banho rápido, coloquei só um calção e me joguei na cama.
Mas aquela mina não saía da minha cabeça.
O dia já clareava tudo, e eu capotei.