- Pronta?
Com o corpo incrivelmente tenso enquanto ele a abraçava, Bella apenas mordeu o lábio e assentiu vagarosamente, enquanto olhava, inserta, para o início da cidade diante deles. Ao longe, eles avistaram um homem uniformizado ativar o aparelho de segurança usando um pequeno controle remoto, antes de entrar em seu carro e rapidamente se afastar da grande fábrica enferrujada.
- Você vai se sair bem. – ele garantiu, acariciando com os lábios a pele sensível abaixo do lóbulo de sua orelha, fazendo-a se arrepiar – Não se preocupe.
Apesar de ainda não parecer muito convencida, Bella suspirou e assentiu suavemente, saindo de dentro de seu abraço e entrelaçando seus dedos nos dele antes que eles avançassem, virando um borrão enquanto ele a guiava pelas ruas vazias da região industrial, passando facilmente pelo sistema de segurança ultrapassado da antiga fábrica, até o grande galpão desabitado, repleto de máquinas como perfuradoras e fundidoras de ferro. Embora o cheiro metálico também fosse intenso no ambiente, o aroma doce de sangue humano ainda permeava fortemente o ar e ele sentiu Bella ficar tensa ao seu lado, rapidamente agarrando-se a ele, procurando por apoio.
- Tem certeza que não tem ninguém aqui? – ela o questionou, parecendo preocupada, e estremeceu logo em seguida; ele imaginou que talvez por ter sentido o ar perfumado em sua língua.
- Eu observei esse lugar por algum tempo. Nos sábados, como hoje, nenhum dos funcionários passa a noite aqui. Mas, em compensação, todos eles trabalham bastante aqui durante a tarde, então o cheio deve permanecer um bom tempo, para um primeiro teste. Está tudo perfeitamente seguro. – ele lhe garantiu – E eu estarei em alerta a noite toda. Prometo que vou coloca-la no meu ombro e correr para o mais longe possível ao menor sinal de uma mente humana. – ele brincou, tentando fazê-la relaxar.
Bella sorriu timidamente, apesar de ainda estar claramente preocupada, olhando ao redor ansiosamente, enquanto o cheiro de sangue ainda permanecia pesado no ar, rodeando-os como uma brisa quente.
Gentilmente, ele colocou os braços ao redor dela, abraçando-a por trás e aconchegando o queixo no topo de sua cabeça, ternamente segurando-a da maneira mais adequada, caso precisasse contê-la, o que ele duvidava que aconteceria – aquela velha fábrica ficava praticamente abandonada aos fins de semana, ele bem sabia. Se assegurara de encontrar o melhor lugar possível para que Bella pudesse entrar em contato com o cheiro de sangue humano sem precisar passar por um trauma novamente.
- Respire fundo. – ele sussurrou docemente, apertando seu pequeno corpo tenso ainda mais contra o dele – A queimação na garganta incomoda bastante, eu sei, mas com o tempo você vai conseguir se acostumar.
Ainda que visivelmente fosse difícil para ela controlar o desejo de sangue que surgiu daquele ato, Bella aceitou seu conselho e respirou profundamente, tornando-se uma perfeita rocha que apenas respirava, paralisada enquanto tentava se concentrar – provavelmente em não arrancar os braços dele e correr para longe, ansiosa por caçar um humano. Pacientemente, Edward permaneceu abraçando-a em total silêncio. Por mais que aquilo fosse doloroso, ele sabia que ela infelizmente precisava passar por aquela provação antes de conseguir ver o pai novamente, mesmo que à distância. Por isso, mesmo que fosse contra sua natureza permitir que ela passasse por qualquer tipo de sofrimento, ele permaneceu quietamente segurando-a, tomando cuidado para não desconcentra-la.
Os minutos passaram rapidamente e o vento gélido da noite foi limpando cada vez mais o ar ao redor dos dois, o que foi relaxando Bella aos poucos, até que sua tensão foi substituída por um aconchego confortável contra seu peito, parecendo desgastada, mas ainda assim um pouco satisfeita.
- Você foi ótima. – ele a elogiou, trazendo umas das mãos até seu queixo para poder virar seu rosto e beijá-la – Como se sente?
- Com sede. – ela suspirou, mas logo sorriu – Mas não chegou nem perto da insanidade que senti naquele dia. Foi tentador, mas eu consegui raciocinar. Consegui me controlar. – seu sorriso aumentou, claramente esperançoso com aquele avanço.
- Isso é ótimo. Ficará cada vez mais fácil com o passar do tempo, prometo. – ele beijou sua testa – Uma vez que se acostumar com o cheiro de sangue humano, poderá fazer o que quiser.
- Tem certeza? – ela mordeu o lábio, preocupada – Quer dizer, eu fui bem hoje, mas não sei como reagiria se houvesse um humano por perto. E se eu acabar cedendo ao instinto de caçar? E se eu encontrar um humano ferido, como naquele dia, e você não tiver como me conter...?
Ele a interrompeu com um longo e profundo beijo, percorrendo cada centímetro do interior de seus lábios com a língua, antes de libertá-la, ainda um pouco inebriado por seu hálito doce, e unir suas testas, enquanto lhe dizia.
- Isso não vai acontecer. – ele afirmou, sem qualquer dúvida em sua voz – Você vai avançar aos poucos, Bella. Prometo que jamais permitirei que corra o risco de machucar qualquer pessoa. – ele tornou o termo o mais genérico possível, sabendo que ela se preocupava em machucá-lo tanto quanto a qualquer ser humano, mesmo que ele fosse tão resistente quanto ela – Você só vai estar entre os humanos novamente quando for completamente seguro. Então confie em si mesma, está bem? – ele sorriu orgulhoso – Você foi fantástica hoje. Seu autocontrole é surpreendente. Não deixe que o medo anule isso.
O sorriso profundamente agradecido que ela lhe deu fez seu peito apertar de maneira cálida e, quando Bella se virou para enlaçar seu pescoço com os braços e beijá-lo, Edward a ergueu um pouco nos braços, praticamente pegando-a no colo enquanto a apertava contra o peito. Eles passaram vários momentos apenas imersos naquele beijo amoroso, até que Bella afastou um pouco a cabeça, o brilho indeciso nos olhos cor de âmbar lhe dizendo que ela estava refletindo sobre algo – algo que ainda não queria que ele soubesse, já que deliberadamente manteve sua mente silenciosa.
- Acha mesmo que logo eu vou ser capaz de chegar perto dos humanos? – ela perguntou cautelosamente, mas algo o fez pensar que certamente não era aquilo que a estava deixando tão tensa.
- É claro. – ele sorriu simpaticamente – Mais alguns dias treinando seu autocontrole em lugares desertos e passaremos a ir até os limites da cidade, onde o cheiro vai ser mais forte. Depois passaremos a ir a lugares com pouca movimentação até passar aos mais populosos. E logo, você poderá ver seu pai novamente. – ele assegurou – Você me contou que havia árvores próximas a sua casa. Tenho certeza de que poderemos observá-lo do alto delas, sem qualquer tipo de risco, nem para ele, nem para nós.
Bella lhe deu um sorriso tão estonteantemente alegre que ele quase perdeu o fôlego – ou perderia, se estivesse respirando. Felizmente, as coisas estavam, aos poucos, se ajeitando para os pais dela. Faltando poucos meses para que o desaparecimento de Bella completasse um ano, obviamente os dois ainda permaneciam à sua procura, aguardando ansiosamente por notícias que nunca chegavam. Contudo, segundo o psiquiatra, Renée estava aos poucos recuperando, mesmo que melancolicamente, sua velha rotina como professora e o marido a convencera a encontrar algum novo hobbie extravagante que a mantinha distraída na medida do possível, junto que os antidepressivos.
Paralelamente, o círculo de apoio dos amigos de Charlie estava sendo cada vez mais bem-sucedido em mantê-lo são e saudável, indo na maioria das sessões de terapia e se certificando que tomasse os remédios controlados, ainda que ele permanecesse firme em não abandonar as buscas pela filha. Ainda que se tratassem de melhoras ínfimas e fosse dolorosamente inevitável que o sofrimento dos pais de Bella se arrastasse provavelmente até seus últimos dias de vida, o coração de Edward sempre ficava um pouco mais leve ao ver a felicidade no rosto da mulher que amava ao saber que eles estavam, a passos lentos, voltando a viver normalmente.
Ele pensou ter acertado que era sobre isso que ela estava pensando de maneira tão concentrada, quando Bella ergueu novamente os olhos para fita-lo longamente antes de perguntar, ainda muito lentamente, parecendo estar escolhendo as palavras a dedo.
- Então... Logo poderemos ir para Forks, não é? – ela mordeu o lábio inferior com força.
- Sim. – ele respondeu, confuso com qual era a fonte da preocupação dela – Tenho certeza de que você logo será capaz disso.
- É que... Bem... Eu estava pensando... – ela desviou o olhar do dele, claramente embaraçada – Tem uma coisa que eu... Que eu gostaria de fazer.
Querendo limpar aquela expressão inquieta das feições dela, - quase como se ela estivesse com medo de que ele a repreendesse - Edward deu uma risada descontraída e a abraçou ainda mais firmemente contra si, girando-a gentilmente no ar, ficando satisfeito ao ouvi-la dar uma gargalhada melodiosa por conta do movimento repentino. Ainda sorridente, ele tomou seus lábios em mais um beijo apaixonado, dessa vez mais lento e sentimental, querendo que ela sentisse que não havia nada a temer: ele a amava e ela sempre poderia abrir todos os seus pensamentos para ele. Céus, ele na verdade estava explodindo de felicidade: era a primeira vez que ela verdadeiramente lhe pedia algo e nada o faria mais feliz do que atendê-la.
- Você está nervosa porque quer que eu te dê alguma coisa? – ele riu assim que os dois romperam o beijo – Bella, eu seria capaz de te dar o céu, se você pedisse. Diga-me o que você quer fazer. Quer conhecer outro país? – ele a rodou no ar novamente, arrancando-lhe outra risada - Morar no lugar dos seus sonhos? Cursar uma Universidade? – ele parou para olhá-la no fundo dos olhos, em total e encantada expectativa - Apenas me diga o que quer e eu farei acontecer. – ele prometeu, deliciado e determinado.
- Bem, eu... – ela respirou fundo antes de continuar – Eu só estava pensando... Já que eu vou reencontrar meu pai, mesmo que de longe... Nós poderíamos fazer uma visita ao Dr. Cullen também.
Pego de surpresa, Edward congelou por conta do choque, tempo o suficiente para que a expressão de Bella se tornasse culpada.
- Eu sinto muito, eu só... – ela suspirou, entristecida, antes de erguer uma das mãos e acariciar docemente o rosto dele – Eu apenas gostaria de ver essa sombra, que às vezes aparece no seu rosto, ir embora. Sei que sempre pensa neles e se sente culpado por tê-los deixado, Edward. Eles eram seus pais e tenho certeza que também ficariam muito felizes por tê-lo de volta. E eu quero que você seja feliz. – ela sorriu timidamente – Então, por que não?
Sem palavras, ele apenas permaneceu olhando-a por alguns momentos, até que a expressão esperançosa dela desabou e Bella suspirou novamente, dessa vez soando desolada.
- Sinto muito, eu não deveria ter me intrometido...
- Não, amor... – ele a pôs no chão com delicadeza, mantendo-a abraçada a ele com um dos braços enquanto erguia a outra a mão até a cabeça, desorientado – Não estou bravo com você, nem nada remotamente perto disso, apenas... Eu... Eu não sei se seria capaz. – ele confessou, desviando o olhar para o chão – Na verdade, sei perfeitamente que não seria capaz de deixá-los novamente se os visse e, especialmente, se eles me vissem.
- Então é mais um motivo para irmos. – ela argumentou, aparentemente ainda dividida entre tentar convencê-lo e ainda assim não ser tão insistente – Os Denali vivem dizendo o quanto eles sentem sua falta. E você sente a deles. Apenas uma viagem e vocês podem voltar a ser uma família...
- Não é tão simples, Bella. – ele resmungou, envergonhado – Eu recusei a vida extraordinária que eles me ofereceram. Fui egoísta e passei décadas indo contra todo e qualquer princípio que eles acreditam e defendem. E agora devo voltar, como um filho pródigo, pedindo que me aceitem de volta como se meus milhares de erros grotescos não fossem nada? – ele exclamou, exasperado, não com ela, mas consigo mesmo – Não, nem mesmo eu sou tão baixo. Eles estão melhores sem mim e devem permanecer assim.
- É claro que não! – Bella discordou imediatamente, emendando sua frase na dele, parecendo surpresa e revoltada – Você é o filho deles, Edward! E eu tenho certeza de que eles sentem sua falta. Estarão melhor quando você voltar para eles!
- Eles construíram uma família de verdade agora, Bella... – ele contra-argumentou, mesmo com o coração se partindo ao pensar que talvez Carlisle e Esme realmente já o tivessem renegado ao passado – Isso é bem óbvio pelo que você contou sobre os novos Cullen. Não quero atrapalhar, com minha presença.
- Como pode dizer isso? – ela engasgou – Edward, você não vê? Eles devem estar sofrendo tanto quanto os meus pais! O filho deles sumiu e eles pensam que talvez jamais o verão novamente. – os olhos chorosos dela fitaram o chão, desolados – Eu gostaria de poder ter a escolha de ver meus pais novamente, mesmo que uma última vez.
- Oh, Bella... – ele lamentou, apressando-se em acariciar seu rosto, tentando, mesmo que debilmente, amenizar sua dor – Minha situação é muito diferente, por favor, entenda. Você foi arrancada da sua família por forças que estavam além do seu controle. Quanto a mim? Eu escolhi me afastar, - ele encolheu os ombros, a culpa corroendo-o – Tive a oportunidade de me manter com meus pais e ser alguém de quem eles pudessem se orgulhar, mas ao invés disso lhes dei as costas. Essa é a diferença, Bella: como um t**o, escolhi um caminho sem volta. Escolhi um mundo de escuridão. E me tornei um monstro.
- Você não é... – ela começou a argumentar, exasperada, mas ele a interrompeu.
- Eu fiz muitas coisas horríveis durante esses anos todos, Bella. – sua voz baixa e vazia soava cortante – Coisas que sou egoísta demais para contar a você, não apenas porque não gosto de recordá-las, mas principalmente porque tenho medo que elas a façam se decepcionar irreversivelmente comigo. Mas, por favor, meu amor, acredite em mim quanto eu digo... Eu sei reconhecer o que eu sou. Ou, como você gosta de dizer, o que eu fui. – ele sorriu melancolicamente para a expressão repentinamente irritada dela – Sei que sou um monstro. Gostaria de poder apagar tudo o que fiz no passado... Para poder me tornar o homem que você e meus pais merecem ter por perto... Mas, infelizmente não posso. – sentindo-se jubilado pelo peso do arrependimento e da culpa, Edward se afastou minimamente dela, a aversão que sentia por si mesmo obrigando-o a colocar alguma distância entre si e aquela mulher tão extraordinariamente diferente dele, inocente e corajosa – Sei que não mereço o perdão deles. E, por mais que eu queria, é egoísmo demais, até mesmo para mim, retornar depois de tanto tempo e pedir que eles me ofereçam isso.
- Não é sobre mudar o passado, Edward, eu já disse isso a você. – ela resmungou, claramente incomodada com seus argumentos – E porque você não deixa os próprios Carlisle e Esme decidirem se querem te perdoar ou não? Essa não é uma decisão que cabe a você.
Ele estava prestes a contra-argumentar quando Bella se apressou em falar novamente, surpreendendo-o com sua pergunta.
- Você sinceramente acredita que eles expulsariam você, se voltasse para eles? – ela ergueu uma sobrancelha, os olhos astutos encarando-o com desafio e intensidade enquanto esperavam por sua resposta.
Ele demorou um momento para respondê-la, remoendo as emoções antagônicas que o preenchiam, até finalmente responde-la, com um suspiro derrotado.
- Não. Eles são bondosos demais para isso. – ele balançou a cabeça, inconformado – Talvez... – ele engoliu em seco – Talvez mesmo ficassem felizes em me ver depois de tanto tempo, mas isso não significa...
- Isso significa tudo, Edward! – ela o interrompeu, angustiada – Eles são seus pais! Eles te amam! Por que não quer estar com eles? – a óbvia dor na voz dela o fez perceber que certamente devia ser terrivelmente revoltante para ela o fato de que ele tinha sua família ao alcance da mão e mesmo assim se mostrava tão avesso a dar um passo à frente; se ele ao menos pudesse fazê-la entender...
- É claro que eu quero voltar a estar com eles, Bella... – perturbado, ele se aproximou dela em ímpeto, correndo as mãos por seus braços delicados – Eu os amo, mas... – a intensidade da emoção quase trancou sua voz dentro da garganta – Eu não poderia ser tão baixo, tão dissimulado... Estar diante deles, querendo aceitação e perdão sabendo de tudo o que fiz, de como sou indigno... – o som de seus dentes trincando enquanto falava provocaram sons agoniantes no ambiente – Mesmo que eu saiba que eles talvez ainda me vejam como filho, sei que não mereço isso. E não é justo com eles que eu haja como se merece...
- Edward...! – triste e perturbada, ela tentou interrompê-lo, mas ele se manteve firme em sua explicação.
- Não, Bella. Eu já estou cometendo o mais atroz dos egoísmos me permitindo estar aqui com você... Desfrutando enquanto você se liga eternamente a alguém que obviamente jamais será merecedor sequer de estar na sua presença, muito menos do seu amor... – ansioso e terrivelmente perturbado, ele passou as mãos pelos cabelos e pelo rosto – Mas, ainda assim, eu ainda estou aqui, tentando ignorar o fato de que você merece infinitamente mais do que um monstro como eu... Agradecendo a benção que é o seu amor, mesmo sabendo que não sou digno dele... – ele a olhou de relance por menos de um milésimo de segundo, absorvendo apenas sua expressão frustrada e zangada, quietamente escutando-o, antes de desviar o olhar para o chão novamente, incapaz de olhá-la enquanto murmurava aquelas confissões; uma parte dele não conseguindo evitar temer que ela finalmente se desse conta da criatura abominável que ele era – Sei que já passei todos os limites me permitindo estar aqui com você, mas nem mesmo eu seria tão descarado ao ponto voltar a viver com eles como se minha presença fosse o suficiente para limpar todo o sangue que tenho nas mãos... Eu sei que você pensa o contrário, Bella, mas nem mesmo o mais profundo arrependimento supera certos erros. Talvez, décadas atrás, se eu tivesse simplesmente cedido ao meu asco por mim mesmo e abandonado essa vida, então talvez fosse possível que eu pudesse retornar com alguma dignidade. Mas não agora! – ele balançou a cabeça desconexamente, desolado – Não depois de tantos erros! Não depois de ter escolhido permanecer sendo um assassino, um monstro, um...
Repentinamente, ele a viu aproximar-se dele. Os braços se tornaram um borrão conforme ela os ergueu para segurar seu pescoço com as mãos e trazer seu cabeça para perto dela, unindo suas testas em um movimento quase rude, conforme ela permanecia olhando-o intensamente. Por um segundo, ele permaneceu congelado, inseguro de porque ela havia feito aquilo, até que ele a ouviu... Mas não sua voz.
Sua mente.
O prazer de escutá-la o percorreu como uma corrente elétrica, como sempre acontecia quando ela lhe permitia entrar em sua mente e conhecer seus pensamentos... Naquele momento, porém, o que ela lhe mostrou o fez ficar petrificado, completamente perdido nas imagens desbotadas que se desenrolavam, embasadas por serem fruto da visão de falhos olhos humanos, mas ainda assim bem preservadas por conta do medo intenso que as acompanhava.
Ela estava lhe mostrando sua última lembrança humana. O momento crucial que a tornara uma vampira.
Quando eles tinham se conhecido.
Tempos atrás, quando ela lhe mostrara aquela memória pela primeira vez, ambos estavam focados em outros detalhes: ela queria lhe mostrar o que sentia enquanto estava ao lado dele e Edward estava envolto no ódio pelo monstro que a ferira e logo depois pelo encanto de saber que seu amor era recíproco. Naquele momento, contudo, Bella se demorou em cada pequena minúcia que ainda conseguia se recordar daquela cena.
Pulando inadvertidamente por todo o pânico e dor que o vampiro a infringira, ela lhe mostrou, com uma lentidão proposital, o momento em que a criatura de sádicos olhos escarlate que estivera mordendo-a foi lançada para longe dela, sem que ela sequer se desse conta disso até que seu corpo sem forças bateu contra o concreto frio da rua e ela percebeu que as facas gélidas que estiveram cortando seu pescoço já não estavam mais lá. Desorientada, ela correu os olhos apavorados – que naquele momento pareciam ser a única parte dela que ainda funcionava – pela rua sombria e avistou os movimentos indefiníveis de dois borrões escondidos na escuridão próxima a ela, cercados apenas por estranhos e aflitivos sons metálicos, como se um carro estivesse sendo destroçado.
De repente, depois do que pareceu uma eternidade em que ela tentou, sem sucesso, mover seu corpo inerte para longe dali, temendo que o homem de olhos vermelhos pudesse retornar, um anjo apareceu diante dela.
Como naquela primeira vez em que ele escutara sua mente, era quase risível o quão diferente da realidade ele era aos olhos dela. Lá, em sua mente, coberto por um filtro de atração e encantamento, ele era um ser deslumbrante: a pele translúcida quase prateada a luz da lua, o sobretudo preto que cobria o corpo alto mesclando-o perfeitamente com as sombras da noite, os olhos negros de sede e a expressão perfeitamente angulosa distorcida com pura preocupação por ela.
Normalmente, ele estaria divido entre o lisonjeio e a vergonha diante da maneira como Bella o via como perfeito, – sim, perfeito, já que sua mente não parecia concordar que bonito ou lindo fossem adjetivos suficientemente adequados para descrevê-lo – mas seus pensamentos foram completamente arrebatados pelo que ela estava lhe mostrando: agora, ao invés do vampiro estranho e assustador que ele pensava que tinha sido naquela noite, ela lhe mostrou novamente que o confundira com um anjo. Era a única explicação que ela conseguira formular para o porquê um homem tão deslumbrante estava repentinamente não apenas salvando-a daquele ser grotesco, mas também tomando-a gentilmente nos braços e levando-a para o que, por alguns curtos segundos, ela teorizou talvez ser o paraíso, até que o fogo em suas veias começou a consumi-la.
E foi quando ela, mesmo durante sua convalescência em meio à pior dor de todas, teve certeza de que ele era um anjo – seu anjo da guarda. Pois ele permaneceu ao seu lado, mesmo quando a dor se tornou tão forte que ela sequer conseguia abrir os olhos, tentando consolá-la, se compadecendo de seu sofrimento e algumas vezes até mesmo chorando sem lágrimas, com soluços graves e contidos, lamentando não tê-la salvo à tempo.
Ao som de seus próprios lamentos, ele estremeceu pela maneira como eles soavam terrivelmente sofridos aos ouvidos de Bella: o som de um homem que estava sentindo sua dor como se fosse a dele próprio. E, conforme ela despertou para aquela nova vida e o viu pela primeira vez, mais memórias focadas nele, absolutamente nítidas e minuciosas, foram inundando-o: sua própria expressão destroçada quando ele lhe contou que nunca mais poderia ver seus pais; seu profundo arrependimento quando lhe contou que não conseguira impedir que o veneno de Laurent a transformasse; a maneira como ele parecia um homem despedaçado quando lhe revelara que bebia sangue humano... Mesmo que ele soubesse perfeitamente como a dor do arrependimento se sentia internamente, era quase novo para Edward observar como ela se materializava em seu rosto e na postura de seu corpo, fazendo-o parecer quase como se estivesse sendo torturado.
Mas não era apenas aquilo que Bella queria lhe mostrar e ele entendeu o porquê – sim, ele conhecia seu sofrimento muito bem e não era vê-lo através dos olhos de Bella que mudaria algo dentro dele.
Contudo, ele não estava esperando pelo que ela lhe mostraria a seguir.
Porque, de repente, após lhe mostrar como ela compreendia que seu remorso era verdadeiro e profundo, Bella o enviou de volta para aquele primeiro dia, quando ele era apenas um desconhecido explicando-lhe gentilmente sobre sua nova realidade. Depois, como ele sempre se esforçava para tranquiliza-la e colocar um sorriso em seu rosto quando ela estava triste. Como ele fora gentil e atencioso ao cuidar da saúde mental de seus pais e dando-lhe esperanças de vê-los novamente, mesmo que não da maneira como ela gostaria. Viu como ela genuinamente acreditava que ele se importava com as vidas humanas, já que se preocupava em poupar os inocentes e se retorcer de arrependimento por ter ceifado até mesmo a vida de seres humanos cruéis. Observou como Bella ficava encantada ao perceber como a face dele se iluminava de amor, saudades e adoração quando ele falava sobre Carlisle e Esme. Como o coração dela se enchia de profunda alegria e amor quando percebia que ele era capaz de qualquer coisa para mantê-la segura e feliz ao lado dele.