- Está pronta?
Sentada na relva ao lado dele, com os pequenos ombros tensos e o lábio inferior preso entre os dentes, Bella revirou as mãos no colo várias vezes antes de responder, com a voz falhando de nervosismo.
- Sim...
- Está tudo bem. – ele tentou consolá-la, tomando gentilmente uma das mãos dela e apertando-a com delicadeza – O Dr. Donovan é um dos melhores terapeutas do país e equipe de terapeutas do instituto dele é reconhecida no mundo inteiro. Seus pais estão em ótimas mãos, principalmente o seu pai. Talvez ele até já tenha avançado bastante...
- Mas ele estava tão resistente no mês passado... – Bella engoliu em seco, contendo o choro – E se ele tiver desistido por completo da terapia? E se ele simplesmente nunca parar de me procurar? O médico parecia tão preocupado com ele da última vez, e se... – o soluço aterrorizado que escapou de sua garganta a interrompeu, fazendo-a abraçar a si mesma para conter o tremor que a percorreu da cabeça aos pés.
- Não, não pense assim. – antes que pudesse sequer se dar conta do que estava fazendo, Edward a trouxe para mais perto, abraçando-a com força contra seu peito, desesperado por oferecer-lhe algum conforto – O tempo de luto é algo imprevisível, mas eventualmente ele passa. Seus pais tem muitos amigos e família para ajuda-los a passar por isso. Não há porque pensar no pior. – ele acariciou gentilmente o longo cabelo castanho dela, odiando como a tristeza nublava seu lindo rosto.
Antes, ele pensava que os dias demoravam cada vez mais para passar. Agora, com Bella, parecia que eles voavam, transformando dias em semanas e semanas em meses, enquanto eles permaneciam caminhando juntos e persistindo na nova dieta. Surpreendentemente, o momento em que ele pensara que ela o deixaria ainda não havia chegado. Na verdade – o que era mais surpreendente ainda – a cada momento que passavam juntos, ele se sentia mais próximo de Bella. Sentia até mesmo que conhecia melhor sua personalidade, seus humores e até mesmo seus pensamentos – mesmo que de uma maneira limitada que provavelmente nunca iria deixar de frustrá-lo. Conforme aqueles seis meses haviam se passado, Bella havia parado de se aborrecer com suas perguntas e passara a se abrir verdadeiramente. Ao invés de respostas vagas, ela passara a compartilhar detalhadamente com ele suas opiniões e angústias, experiências e arrependimentos. Muito mais até do que ele especulara, ela era uma pessoa atenta e reservada. A maneira como sua mente funcionava era simplesmente fascinante, mas para conhecer seus mistérios, era necessário que ela se sentisse segura e confiante o suficiente para revela-los por si mesma.
E não havia nada que ele se orgulhava mais do que ser alvo da confiança de Bella.
De uma maneira estranha, ele até mesmo sentia que conhecia seus pais, mesmo sem jamais tê-los visto verdadeiramente. Os relatos emotivos de Bella a ajudavam a lidar com a perda da vida humana e a manter as lembranças vívidas em sua mente, como ela queria. Para Edward, eram momentos incrivelmente especiais, simplesmente porque ele podia conhece-la melhor. E, aparentemente, ela se sentia do mesmo jeito sobre ele.
Por mais que houvessem diversos detalhes obscuros sobre seu passado que ele provavelmente nunca se abriria com Bella sobre, ainda assim ele descobriu que era extremamente fácil conversar com ela sobre tudo, inclusive sobre si mesmo. Geralmente, um leitor de mentes inevitavelmente escutava mais do que falava. Mas, na presença de Bella, havia uma naturalidade tão grande em ser ambos, falante e ouvinte, que ele muitas vezes se pegava expondo demais quando se deixava levar por alguma conversa dos dois. Contudo, ao invés de um sentimento de constrangimento vindo de estar tão exposto, ele só conseguia se sentir ainda mais conectado a ela. Da mesma maneira que ele a conhecia, ela também o conhecia. E havia uma cumplicidade tão prazerosa naquilo que ele nem sequer conseguia descrever.
Por isso, ele compartilhava com ela suas preocupações para com seus pais, especialmente seu pai, o xerife da pequena cidade de Forks. Já no fim daquela primeira semana, quando ele m*l havia deixado para trás oficialmente seus dias como vigilante, ele havia corrido até a cidade mais próxima e iniciado as movimentações que lhe permitiriam ter tanto dinheiro quanto fosse necessário para ajudar os pais de Bella. E um novo tipo de remorso havia se instalado dentro dele quando descobrira que alguém havia cuidado para que a fortuna dos Mansen continuasse legalmente disponível para ele, inclusive tendo crescimentos significativos.
E ele não tinha dúvidas de que haviam sido Carlisle e Esme.
Talvez por isso ele conseguisse compreender a angústia de Bella tão bem. De maneiras diferentes, ambos não podiam retornar para seus amados pais. Por mais que os olhos de ambos estivessem gradualmente se tornando mais claros, Edward duvidava que um dia se sentiria limpo o suficiente para voltar para eles. Durante aqueles seis meses perfeitos com Bella, algumas vezes ele debatera consigo mesmo se deveria fazer aquilo... Seus pais certamente amariam Bella e poderiam ensinar-lhe muito sobre autocontrole... Talvez até mesmo, no futuro, ela poderia unir-se a eles em meio à sociedade, vivendo uma vida "humana" novamente...
Porém, sequer pensar em olhá-los nos olhos novamente, após 70 anos longe... Seu interior se contorcia de pura vergonha. Era tão terrivelmente egoísta que ele quisesse retornar para eles após décadas de matança, após tirar centenas das vidas humanas que seu pai tanto prezava e queria proteger... Como ele poderia aparecer diante deles, querendo ser acolhido novamente? Ser parte daquela família novamente? Certamente os novos "filhos" de Carlisle, os vampiros sobre os quais Bella havia lhe contado o pouco que sabia ao longo dos meses, não gostariam de sua intromissão. E, de fato, há muito tempo ele deixara escapar o momento em que poderia voltar a ser o filho de Esme e Carlisle.
Muito tempo atrás, ele escolhera um caminho sombrio e sem volta. E agora, por mais que a saudade lhe doesse, ele não voltaria para seus pais como se aquela decisão terrível não tivesse seu preço a cobrar.
Por isso, ele ansiava por ajudar Bella e seus pais mais do que tudo. Diferente dele, que perdera sua família por puro egoísmo, ela tinha uma vida da qual fora injustamente arrancada e ele m*l podia imaginar a agonia pela qual os pais dela estavam passando: afinal, o que ele faria se ela desaparecesse por completo, sem deixar vestígios ou sequer um único sinal se estava viva ou morta?
Não era preciso pensar muito para saber que não haveria força no mundo que poderia pará-lo, até ele encontra-la.
Infelizmente, para os humanos, não sobrava nada além de ter esperanças e confiar nas investigações de autoridades que certamente não encontrariam nada. Enquanto vivessem, Charlie e Renée nunca mais teriam quaisquer notícias de sua única filha. Jamais veriam seu sorriso ou ouviriam sua voz novamente. Eles a amavam e jamais poderiam estar com ela mais uma vez, nem sequer para se despedir.
No lugar deles, ele sequer iria querer continuar existindo.
E ele sabia que era isso o que Bella realmente temia.
Segundo as informações que o terapeuta havia lhes fornecido ao longo dos meses, Renée fora aquela que tivera uma reação mais intensa ao desaparecimento de Bella: dias de choro e gritos de desespero fizeram parte de sua rotina por longos dois meses, mesmo quando os psiquiatras a procuraram com a desculpa de estar realizando um atendimento gratuito, fornecido por um milionário anônimo, para famílias de pessoas desaparecidas. Ou melhor, a desculpa que ele arranjara, já que todos os profissionais da psicologia que contratara acreditavam piamente nisso. A depressão de Renée ainda estava longe de terminar, especialmente porque, com o passar de cada novo dia sem qualquer pista do paradeiro de Bella, suas esperanças iam morrendo e deixando-a com nada mais do que a saudade desoladora que sentia da filha. Ainda assim, ela fora também a menos resistente aos tratamentos. Seu marido, Phill, o padrasto de Bella, havia dito aos psiquiatras que se certificava de que ela tomasse de maneira regrada os remédios controlados e, ainda que extremamente aos poucos, ela estava começando a se abrir para a possibilidade de que talvez Bella jamais fosse encontrada e o que faria com sua vida depois disso. Era um assunto horrível sem dúvida, mas pelo menos ela não resistia aos tratamentos e sessões de terapia. Pelo contrário, elas os abraçara por completo, tentando desesperadamente fugir do vazio em seu peito.
Muito diferente de Charlie.
Sem abrir espaços para discussões, o pai de Bella não desistira das buscas. Mesmo quando a equipe policial envolvida no caso foi drasticamente reduzida e todos os seus amigos se uniram para intervir na situação e pedir que ele parasse com sua busca quase obsessiva, Charlie se mantivera firme procurando pistas sobre o paradeiro da filha. Sua determinação, contudo, tinha alcançado um nível preocupante, quando ele começara a usar sua autoridade como xerife para interferir nas investigações sobre o desaparecimento da filha e encabeçar procedimentos que jamais poderia, especialmente como pai da possível vítima. O afastamento de seu cargo por conta desses acontecimentos, contudo, não o fizeram parar. Pelo contrário, o fizeram dedicar todos os momentos de seu dia a tentar encontrar Bella, no que, obviamente, ele não estava sendo bem sucedido. Foi apenas a dois dias atrás, quando alguém chamado Billy Black o encontrara inconsciente no chão de sua cozinha, após ter passado m*l por conta da anemia que desenvolvera após meses sem se alimentar direito, que todos os seus amigos se uniram novamente, dessa vez para obriga-lo a finalmente ir a uma sessão com o psiquiatra, entre outros tratamentos médicos.
Obviamente, Charlie não fora um paciente fácil. Mostrando-se resistente ao conversar sobre seus pensamentos e sentimentos na terapia, além de se recusar a tomar os remédios antidepressivos, o Sr. Swan não era o foco da maior preocupação de Bella à toa. Não apenas ela, mas absolutamente todos que conviviam com ele, temiam por seu futuro. Que ele acabasse se matando de exaustão enquanto procurava pela filha ou que acabasse cometendo alguma loucura quando finalmente se desse conta de que não poderia fazer nada para tê-la de volta.
Duas opções macabras que ele sabia que nunca abandonavam a mente de Bella, mesmo quando os dois estavam compartilhando momentos maravilhosos naqueles últimos meses. E ele não tinha qualquer dúvida de que ela correria para casa e se exporia, se aquilo garantisse que seus pais não sofreriam mais. Na verdade, se ela também continuasse sofrendo daquela maneira excruciante, ele provavelmente a ajudaria.
Por isso, enquanto discava o número do terapeuta, ele silenciosamente desejou que aquele cenário tivesse mudado. Que os pais de Bella estivessem bem e que a tristeza e a preocupação profunda que sempre havia no rosto da mulher que ele amava pudesse desaparecer.
Enquanto os sons da chamada começavam a povoar o ar, Edward abraçou Bella ainda mais apertado, não se preocupando em colocar a chamada no viva-voz, já que ela certamente estava escutando perfeitamente, tensa a cada novo som de espera do telefone.
- Olá, Sr. Masen. – a voz cordial do Dr. Donovan finalmente o atendeu – Como está?
- Muito bem, Dr. Donovan, obrigado. – Edward falou suavemente, dando um sorriso tranquilo para Bella antes de continuar. – Estou ligando para fazer saber um pouco sobre o relatório dessa semana, se não se importa.
- Mas é claro. – o homem exclamou, parecendo muito satisfeito. Desde que Edward havia incessantemente pesquisado sobre bons profissionais para dar apoio aos pais de Bella e escolhido o instituto renomado daquele homem para fazer uma polpuda doação que pudesse ser revertida em um projeto de apoio à famílias com membros desaparecidos, ele nunca vira um homem mais agradável e solícito do que o Dr. Donovan. Ele sabia que o psiquiatra certamente faria tudo o que ele pedisse, até mesmo escolher intencionalmente os pais de Bella para serem atendidos. Todavia, ele tomara todos os cuidados necessários para que ninguém pudesse desconfiar de suas intenções, usando seu dinheiro para realizar pequenas influências que permitiram que Renée e Charlie recebessem ajuda e, ao mesmo tempo, ele e Bella sempre pudessem ter notícias de seu estado.
Obviamente, para manter as aparências, ele se mantinha em seu papel de assistente pessoal do milionário anônimo e filantropo, que queria sempre saber como estavam todas as pessoas que recebiam tratamento. E, por mais que eles sempre tivessem que esperar para saber sobre os pais de Bella, como naquele momento, enquanto o Dr. Donovan falava de diversos desconhecidos cuja maioria estava avançando e melhorando lentamente, a situação era mais segura daquela maneira. Finalmente, quando Bella parecia pronta para explodir de tensão, o Dr. Donovan, após o som inconfundível de uma página sendo virada, começou a falar.
- Renée Dwyer e Charlie Swan, os pais da garota de 17 anos, Isabella Swan, que desapareceu há seis meses, estão avançando aos poucos. A Sra. Dwyer aceitou a proposta do marido de começar a frequentar um grupo de apoio e isso tem lhe feito surpreendentemente bem. – o sorriso do psiquiatra era perceptível em sua voz – Falar sobre seus sentimentos é, como já lhe falei antes, algo que realmente a ajuda muito e agora parece que seu estado de espírito tem melhorado, na medida do possível. Em sua última consulta, foi perceptível como ela parecia um pouco mais leve, apesar de a preocupação com a filha continuar presente, obviamente.
- Isso é muito bom. – Edward elogiou, acariciando a bochecha de Bella, profundamente feliz ao ver o sorriso radiante que surgiu em seu rosto – E o Sr. Swan? Também está melhor? – ele finalmente fez a pergunta fatídica, mesmo odiando como o sorriso de Bella rapidamente sumiu, sendo substituído por uma expressão temerosa.
- As notícias são boas, também na medida do possível. – as palavras do psiquiatra tiveram um efeito tão intenso sobre Bella que ela pareceu perder as forças, mesmo que aquilo fosse impossível, e se deixou cair ainda mais no abraço de Edward, ficando com o rosto apoiado na curva de seu pescoço enquanto os dois ainda escutavam atentamente – Em sua última sessão... Bem, nada foi realmente comprovado, mas... Ele parecia ter bebido. – o Dr. Donovan suspirou – Algo bastante atípico, até onde sabemos. Eu obviamente tentei manda-lo para casa, mas ele parecia determinado a falar sobre algumas coisas, então acabei escutando-o. Obviamente, o conteúdo completo da conversa está em sigilo médico. – Edward percebeu que o homem estava com medo de que aquele tipo de recusa pudesse irritá-lo – Mas posso assegurar que ele parece ter dado um bom passo à frente: disse que, como policial, entende que a filha possa talvez nunca retornar e finalmente se abriu sobre seus temores em relação à isso. Mesmo que ele ainda tenha um longo caminho pela frente, essa a******a foi de extrema importância para mim e minha equipe. Agora sabemos em quais pontos trabalhar e, como sempre, temos os amigos dele para nos apoiarem no tratamento e na terapia. Devo dizer que notei que o Sr. Swan parece estar recuperando um pouco do peso que perdeu nos últimos meses e sei perfeitamente que foi por influência deles. Além disso, pela primeira vez, ele não desligou ou nos xingou quando insistimos em marcar a próxima consulta. – o Dr. Donovan parecia sinceramente contente – Ele simplesmente concordou. Estamos realmente satisfeitos com essa mudança. É um primeiro passo importantíssimo para que ele realmente comece a tentar mudar sua condição.
- Não sabe o quanto isso vai deixar meu chefe feliz. – Edward sorriu para Bella, que parecia prestes a explodir de felicidade em seu colo – Infelizmente, em breve terei uma reunião. Se importa se eu ligar em outro momento para saber o resto dos relatórios?
- Obviamente não, Sr. Masen. Ligue quando quiser. Até logo. – o Dr. Donovan se despediu, alegre, antes de desligar.
Profundamente satisfeito pelo que acabara de ouvir, Edward observou atentamente a linda mulher sentada em seu colo, totalmente aconchegada nele, vendo como seu rosto parecia ainda mais bonito com aquele sorriso enorme que ela ostentava, enquanto seus pequenos ombros tremiam devido a um choro sem lágrimas, sem dúvida de alegria.
- Ah, Charlie... – ela fungou, ainda com aquele sorriso gigante e trêmulo – Que bom que ele finalmente está deixando que cuidem dele. Eu fico tão aliviada... Nem sei porque estou chorando. – ela riu, envergonhada.
- Porque seu pai está melhorando. – Edward a incentivou – E, aos poucos, ele e sua mãe vão ficar cada vez melhores. É um ótimo motivo para chorar de alegria. – ele beijou suavemente o topo da cabeça dela, contagiado por sua alegria, sentindo-a como se fosse a dele próprio, o que, de várias maneiras, era a mais absoluta verdade; vê-la feliz já era suficiente para deixa-lo em êxtase – E tenho certeza de que, na próxima ligação, você vai ter ainda mais motivos para ficar feliz.
Bella soluçou e fungou várias vezes, ainda perdida em seu choro sem lágrimas, antes de erguer a cabeça para olhá-lo com tanta intensidade que ele quase se sentiu perder as forças por um segundo também.
- Você realmente acha que eles vão ficar bem?
- É claro que eu acho, Bella. – ele afirmou, convicto, enquanto acariciava seu cabelo – Depois de tudo que você me contou, sei que ambos são pessoas fortes e que te amavam muito. Eles apenas precisam de tempo para se curar da dor da perda e reaprender a viver suas vidas. – ele tentou ser sincero e ao mesmo tempo gentil, esperando que aquilo pudesse oferecer-lhe algo acalento. – E, talvez até mesmo... – ele ponderou um pouco, perguntando-se se realmente deveria falar com ela sobre aquela ideia que surgira em sua mente nos últimos meses, conforme o autocontrole dela parecia evoluir mais e mais; ao mesmo tempo que queria fazer com que aquele lindo sorriso permanecesse em seu rosto, Edward também temia dar-lhe falsas esperanças.
- O quê? – ela perguntou, os grandes olhos vermelhos arregalados de interesse.
- Bem... Eu estive pensando... – ele começou, escolhendo bem as palavras – Você realmente tem um autocontrole muito atípico para uma recém-nascida, Bella, e isso é absolutamente extraordinário. Como tudo em você, aliás. – ele não resistiu a fazer-lhe um elogio disfarçado de provocação, como sempre adorando aquela doce expressão acanhada em seu rosto, que o fazia pensar que ela estaria profundamente corada com suas palavras, se ainda fosse humana – Eu gostaria de, em breve, começar a levar você para perto da cidade, para que possamos começar a treinar seu controle em torno dos humanos. – ao ver o rosto pasmo e ao mesmo tempo apavorado dela, ele se apressou em explicar – Não colocaremos ninguém em perigo, não se preocupe. Eu escolheria locais afastados que tivessem apenas um cheiro mais suave de sangue humano e cuidaria de você, caso fosse demais...
Bella mordeu o lábio, parecendo temerosa enquanto seus olhos se desviaram rapidamente para o braço dele, olhando-o com tanta intensidade que quase parecia poder ver a cicatriz da mordida através das camadas de tecido. Gentilmente, como se estivesse pegando uma bolha de sabão, ela trouxe o braço dele para o próprio colo e acariciou o local da antiga ferida, o rosto contorcido de arrependimento.
- Eu sinto tanto... – ela suspirou, como sempre fazia quando se lembrava daquele incidente – Eu não quero arriscar te machucar de novo.
- Você nunca vai se convencer de que isso não foi nada, não é? – ele sorriu, internamente se deliciando profundamente com o prazer de seus toques carinhosos – E eu jamais exporia você a uma situação tão extrema quanto aquela. – ele a assegurou, envolvendo seu queixo entre os dedos para poder fazê-la encontrar seu olhar - Se realmente fizermos isso, será de uma maneira completamente segura e livre de riscos.
- Então eu poderia passar a ir à cidade com você? – o tom timidamente contente e esperançoso dela o fez sorrir, encantado.
Ir à cidade pegar o que eles dois necessitavam era sempre um momento um pouco doloroso para ele, já que envolvia se separar dela. E, sempre que ele partia, tinha a impressão de que Bella talvez se sentisse tão triste e solitária quanto ele... Aquecia seu coração que ela quisesse também, aparentemente, passar aqueles momentos com ele. Quase como se ela sentisse a dor da separação também...
Era em momentos como aquele em que ele sentia crescer dentro de si algumas esperanças um pouco... Problemáticas. Porque, por mais que ele estivesse conseguindo cada vez mais unir as peças do fascinante quebra-cabeças que era Bella, era sempre ele que parecia estar desnudando a alma diante dela, muitas vezes lhe dizendo mais do que até ele sabia sobre si mesmo: por várias vezes, ele verbalizara de maneira intensa demais o quanto desfrutava estar na presença dela, o quanto adorava seu sorriso, como ansiava por ouvir sua voz enquanto ela lhe contava mais detalhes sobre sua vida humana... Felizmente, mesmo com todos aqueles deslizes, ele conseguira se controlar o suficiente para manter sua paixão avassaladora sob controle e não assustar Bella com toda aquela intensidade. Muitas vezes, ele próprio se surpreendia com a profundidade do amor que sentia. Bella, todavia, provavelmente não se sentiria nada mais do que sufocada.
Ou pelo menos era o que ele costumava ter certeza. Naqueles últimos meses, porém, sempre haviam pequenas coisas que o intrigavam, fazendo-o ficar em dúvida se estava encarando a situação da maneira correta ou se sua mente estava apenas lhe pregando peças. Porque, às vezes, ele pensava ter pego Bella olhando-o de maneira um pouco mais intensa do que uma simples afeição entre amigos... Ou achava tê-la visto morder o lábio, perdida em pensamentos enquanto o observava, quando achava que ele não estava olhando... Seria possível que aquilo poderia ser...
Desejo?
Paixão?
Adoração?
Era quase ridículo pensar em palavras como aquelas, mas ainda assim, algumas vezes sua mente se deixavam levar por fantasias tão maravilhosas quanto surreais... Às vezes era tão fácil, especialmente quando ela o olhava daquele jeito, achar que ele poderia se declarar para ela naquele momento e ela o aceitaria como seu parceiro para o resto da eternidade... Que eles tinham sido feitos um para o outro... E que jamais se separariam.
Mas então a realidade crua o atingia e ele se forçava a voltar a si, como naquele momento. Ele estava tentando mudar, se redimir – ainda que redenção fosse algo bastante inalcançável – e certamente isso não envolvia começar a assediar a mulher mais extraordinária de todas e que precisava, mais do que tudo, de um amigo que fosse seu porto seguro, não um homem sedento de amor pressionando-a para que ela o retribuísse.
Momentos como aquele deviam enche-lo apenas de alegria por ela estar sorrindo.
Nada mais.