Alguns dias haviam se passado. O dia das mães havia chegado, mas para mim era mais um dia qualquer como todos os outros. Não fui à apresentação da minha escola, não dei presente pra minha mãe, não fiz nem um desenho - que certamente ela rasgaria e colocaria no lixo - tampouco dei um abraço ou um ‘’feliz dia das mães, mamãe’’, acho que nem ela lembrava que essa data existia, e se ela não lembrava, por que eu teria que lembrar? Ela nem fazia questão de ser nossa mãe de verdade, eu estava louca era que chegasse o dia dos pais, ia fazer um desenho e um cartão bem bonito pro papai, e ia comprar um presente, só não sabia com qual dinheiro, será que a Cath poderia me ajudar com isso? Bom, em agosto eu vejo isso.
(...)
Era uma terça - feira por volta de 23h. Os últimos minutos haviam sido horríveis, eu estava muito machucada, mamãe tinha levado um homem mau para me machucar, e ele foi muito malvado comigo, acho que essa tinha sido a pior vez de todas, e eu estava cansada, não aguentava mais passar por tudo isso, papai dizia que ninguém pode brincar com as partes íntimas de ninguém e que esse tipo de carinho só pode existir entre adultos e que criança não pode dar ou receber carinho na parte íntima de ninguém, então, por que esses homens faziam isso comigo? Não era para essas coisas acontecerem, e eu não queria mais isso, então, após ser muito machucada, eu havia tomado uma decisão.
- Vou fugir. - Falei ao entrar no meu quarto.
- Quê? Pra onde? - May perguntou.
- Pra casa do papai, mas aqui eu não fico mais. - Falei aos prantos.
- E eu? Vai me deixar sozinha?
- Vem comigo.
- E a mamãe? Quando ela perceber que nós fugimos, vai ficar muito brava.
- Pelo menos até ela notar que a gente não está em casa, já estaremos na casa do papai, e ele vai nos proteger dela. Você vem comigo, né? Não pode ficar aqui sozinha com ela.
- Claro, vou com você.
- Beleza. Vamos esperar a mamãe ir dormir e depois a gente sai. - Falei.
Não demorou muito para mamãe ir dormir, e quando isso aconteceu, fomos até a porta de entrada, eu abri com muito cuidado para não fazermos barulho e então saimos de casa. Fomos correndo até a casa do papai, que era pertinho. Eu tinha a chave da porta de baixo, papai havia deixado comigo para caso a gente precisasse em alguma emergência, tipo essa. Entramos no prédio e fomos correndo até o apartamento do papai, tocamos diversas vezes a campainha, mas ele demorou para atender, certamente já estava dormindo.
- Chloe? May? - Se surpreendeu ao nos ver. - O que fazem aqui esse horário?
- Papai! - Comecei a chorar e o abracei. - Deixa a gente ficar aqui, por favor, não queremos voltar pra casa da nossa mãe, ela nos odeia, queremos ficar aqui com o senhor, que nos ama e nos cuida.
- Oh, meu amor. Calma… - Me pegou no colo, e se dirigiu para May. - Entra, filha.
May entrou, e papai fechou a porta, ainda comigo no colo. Sentou no sofá e me colocou no colo dele, quando aqueles amigos da mamãe faziam isso comigo, eu não gostava, e chorava muito, mas com papai eu não me importava, com ele era diferente, pois sempre que eu sentava no colo dele, a gente estava com roupas e ele nunca me assustou, ou me machucou. Já May sentou no sofá do nosso lado.
- Me conta, o que aconteceu? Ela bateu em vocês?
- Papai ela nos bate todos os dias, e as vezes não é nem com agressão física, muitas vezes nos bate com palavras, quando diz que somos inúteis, que fazemos tudo errado, que não prestamos pra nada, e que queria que a gente nunca tivesse nascido.
- Oh, meu amor… - Me abraçou. - Nada disso é verdade, vocês sabem, né? - May acenou positivamente com a cabeça. - Vocês são os meus maiores presentes, e são as crianças mais incríveis do mundo, não liguem para nada do que aquela louca desmiolada diz. Onde eu estava com a cabeça quando tive algo com ela?
- Boa pergunta! - Falei. - Também queria saber, vocês não combinam, você combina com alguém como a tia Cath. - Dei um sorriso travesso.
- É… Ela é incrível, e gosta muito de vocês, sabia?
- Também gostamos muito dela, papai. - Disse May. - Podemos ficar aqui, né?
- Oh, meu anjinho… - Acariciou o rosto da minha irmã. - Por hoje podem, porque já está tarde, mas amanhã…
- Não papai, não quero voltar. - Comecei a chorar. - Se você me devolver pra mamãe, eu fujo, fujo pra sempre, vou morar em um orfanato, em um albergue ou nas ruas, mas com a mamãe eu não fico.
- Chloe, filha, não fala isso... - Falou soando assustado. - Oh minha boneca, eu entrei com o pedido de guarda de vocês, em breve mandarão uma notificação para a mãe de vocês com a data da nova audiência, mas enquanto isso precisamos ter calma. Deixa eu ver vocês... - Nos analisou. - Estão suadas, parecem duas porquinhas, vão tomar banho pra dormir bem cheirosinhas.
May e eu corremos para o banheiro e tiramos as nossas roupas, e quando eu terminei de tirar a minha calcinha, papai entrou no banheiro.
- Filhas, esqueci de… Chloe, o que é isso? - Perguntou ao notar que a minha região íntima estava bem machucada.
- Você não bateu à porta, não pode entrar sem bater. - Falei.
- Você tem toda razão, me desculpa. - Se abaixou ficando da minha altura. - Filha, o que aconteceu aí?
- Nada papai, eu só… Hã… Me machuquei no trepa trepa da escola.
- De novo? - May perguntou. - Você tem que tomar mais cuidado, acho que não devia brincar mais nesse brinquedo.
- Isso já aconteceu antes? - Perguntou soando desconfiado.
- Já, uma vez, mas vou tomar mais cuidado na próxima. - Respondi.
- Ok, tomem banho, e depois que você colocar a sua roupa, a gente conversa. - Se levantou. - Ah, quase me esqueço… Fiz escondidinho de carne no jantar, sobrou um pouco, vão querer depois do banho?
May e eu acenamos a cabeça positivamente, e papai saiu do banheiro. Minha irmã e eu tomamos banho e eu rezei para papai esquecer essa história de conversar comigo depois.
Quando saimos do banheiro, nos arrumamos em nosso quarto e fomos até a sala, onde papai estava. Ele disse que recém havia esquentado a comida e pediu para que comêssemos. Comemos tudo, pois estávamos morrendo de fome, só na casa do papai que a gente comia comida de verdade.
Quando terminamos de jantar, papai disse:
- May, querida, vai pro seu quarto, quero conversar um pouquinho com a sua irmã.
May obedeceu rapidamente e o meu coração bateu mais forte, fiquei muito nervosa. Papai sentou no sofá e me colocou em seu colo.
- Filha, você sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe? - Acenei positivamente com a cabeça. - Então me diga, meu amor. - Esses machucados… tem algo a ver com o fato de você não querer voltar pra casa? Tua mãe fez isso? - Neguei com a cabeça. - E algum amigo da sua mãe?
- Não. - Falei em um tom de voz baixo.
- Filha… Eu só quero o teu bem, e se alguém, seja quem for, te fizer algum m*l você pode me contar. Sempre. Eu sempre vou estar aqui para o que você precisar, não precisa ter medo.
- Hã… Papai… Foi no… No brinquedo da escola.
- Ok, meu amor… - Me deu um beijo na cabeça. - Eu espero que seja isso mesmo, eu realmente espero, mas… Se um dia você quiser me falar o que for, eu estarei aqui, viu?
Acenei positivamente com a cabeça. Papai me abraçou e me deu um beijo no rosto, e depois fomos dormir. Ele ficou com a gente até pegarmos no sono. Ah, espero que papai tenha acreditado em mim, eu não gostava de mentir pra ele, papai sempre disse que mentir é errado e que sempre acreditaria na gente, não queria quebrar a confiança que ele tinha em mim, mas eu também não podia falar a verdade. Ah, desculpa, papai.