A Audiência

1295 Palavras
Finalmente havia chegado o dia da tal audiência de guarda, e eu estava tão feliz e empolgada, tinha esperança de que sairíamos dali direto com papai. Enquanto May e eu terminávamos de nos arrumar para a audiência, mamãe entrou em nosso quarto, estava muito brava. - Escutem aqui o que eu vou falar. - Apontou o dedo indicador pra nós. - Se vocês falarem qualquer coisa que seja pro juiz, sobre o que eu faço ou deixo de fazer, ou sobre o quanto que vocês querem morar com o pai de vocês, eu vou cortar a língua das duas e vou jogar no mar pros tubarões comerem, entenderam? - Eu não quero ficar sem língua, já me acostumei com ela. - Choramingou May ao me abraçar. - Entenderam? - Eu prefiro ficar sem língua do que continuar morando com você. - Falei. - Eu quero ficar com o meu pai. - Escuta aqui. - Me pegou pelos cabelos. - Experimenta dizer algo pra você ver o que eu faço. - Pensou um pouco. - Ou melhor… Se vocês falarem algo que seja, eu vou jogar o paizinho de vocês no mar pra virar comida de tubarão. - May e eu começamos a chorar. - Vocês vão dizer que querem morar comigo, entenderam? - Ficamos em silêncio. - Vou perguntar de novo, entenderam? - May e eu acenamos a cabeça positivamente. A mulher saiu do nosso quarto, e fechou a porta com uma batida. Minha irmã e eu nos abraçamos e sentamos na cama. E agora? Não sabíamos o que fazer, a gente não queria ficar com a mamãe, ela nos odiava e a gente também odiava ela. (...) Fomos com mamãe até o fórum que seria a audiência, e logo vi papai, que estava acompanhado de seu advogado, e mamãe havia levado um tal de defensor público. Assim que nos viu, papai veio correndo em nossa direção, e mamãe saiu para conversar a sós com o tal defensor. - Oi, meu amores, como estão? - Se abaixou ficando da nossa altura. Silêncio. - O que houve? - Perguntou preocupado. - Aconteceu algo? - Não, papai. - Respondi. - Só estamos cansadas, brincamos bastante. - Ah, bom. - Nos deu um beijo no rosto. - Queridas, hoje o juiz vai ouvir vocês, digam tudo o que quiserem, tudo o que sentirem vontade, eu vou estar bem pertinho de vocês, viu? - Papai, eu… - Fiz menção em falar. Nisso notei a mamãe nos encarando, o que me deu muito medo. - Eu te amo. - O abracei. - Também amo vocês. - Soltei papai. Nisso, tia Cath chegou. Sorri ao vê-la. Rapidamente, ela veio em nossa direção. - Desculpa a demora, tive que deixar o London na casa de um coleguinha. Nervosos? - Eu estou demais. - Disse papai ao se levantar. - Vai dar tudo certo, dessa vez você vai conseguir. - Disse tia Cath. - Que Deus te ouça! - Já ouviu! - Sorriu. Ficamos aguardando mais alguns infinitos segundos, até que nos chamaram. Adentramos o local, e era tipo uma sala com muitas cadeiras, que ficavam na frente de algumas mesas e cadeiras, que eram divididas por repartições. Nos sentamos em nossos lugares, e logo o juiz começou a falar um monte de coisas, que eu não entendi. Em seguida, ele pediu para ouvir o papai. - Há 7 anos eu era um homem triste e solitário, tinha amigos, tinha família, uma esposa, mas me faltava algo, me sentia incompleto, como se eu tivesse um vazio no peito, e então, nasceu o meu primeiro grande amor, minha Chloe, pesando 3,5 e medindo 50 centímetros, era uma bonequinha tão linda e pequena, e junto com a paternidade veio muitos medos, ‘’será que eu daria conta? Será que seria um bom pai? Será que aprenderia a trocar uma fralda?’’, a Chloe não só me ensinou a ser pai, como me tornou um ser humano muito melhor, passei a ver a vida de outro jeito depois dela, com leveza, com simplicidade, com amor. E quando eu pensei que não poderia mais ser feliz, veio minha Maytê para somar, para me fazer muito mais feliz do que eu já era, e hoje aquele homem que se sentia tão vazio, hoje se sente completo. Essas meninas são tudo para mim, são a força que faz eu levantar cada manhã, são o sangue que pulsa em meu corpo, o motivo que me faz não desistir nunca, e por elas eu sigo lutando dia após dia, mês após mês e ano após ano, e eu jamais vou desistir delas, porque o meu amor por esses dois pingos de gente é o que me motiva a seguir na batalha, e eu só vou parar quando eu vencer, quando eu conseguir a guarda delas. Chorei tanto ao escutar papai falar da gente. Eu não queria ter que mentir, não queria ter que dizer que queria morar com mamãe, porque eu não queria, queria o meu pai, que nos ama de verdade, mas se eu falasse que preferia morar com meu pai, mamãe o machucaria, e eu não queria isso. A mamãe foi a próxima a falar. - Eu sou a mãe delas, foi daqui que elas saíram. - Colocou a mão na barriga. - Eu que pari, que amamentei elas, e eu quero ficar com as duas. - Você as ama? - O juiz perguntou. - Quê? Que tipo de pergunta é essa? É claro que sim! São minhas filhas, que tipo de mãe não ama suas filhas? Amo. Amo muito. Claro que amo. - Mentiu. Espero que o juiz não tenha acreditado nela. Depois de mamãe, foi a vez de tia Cath falar, ela disse que via o quanto papai nos amava e que esse amor era recíproco, e que por ser sua vizinha, acompanhava de perto o amor, cuidado, respeito e zelo que ele tinha com a gente, e que era um pai super amoroso e presente em nossas vidas. Ela não mentiu em nada. Apesar de Edu ter dito que poderia depor a favor de papai, ele não pôde depor, papai disse que não autorizaram pelo fato dos dois não terem nenhuma proximidade comprovada, então, ele não poderia servir como testemunha. E por último, o juiz chamou May e eu. Nos aproximamos dele vagarosamente, e sentamos em duas cadeiras que tinha próximo ao homem. - Me digam… Como é o pai de vocês? - Ele é o máximo, é o melhor pai do mundo. - Falei. - Ele conta história pra gente todas as noites antes de dormir, e ele nos cuida, e brinca com a gente. - E faz cada docinhos pra gente... - Disse May. - E ele nos dá um monte de presente, mas o nosso maior presente é ter ele. - Eu sorri, pois concordava. - E a mãe de vocês? May e eu nos olhamos em silêncio. - Ela é legal. - Falei. - E o que ela faz que vocês mais gostam? - Hã… Quando… Quando… Quando ela nos dá bala. - Isso é o que vocês mais gostam na mãe de vocês? - May acenou a cabeça positivamente. - E me digam, meninas, se vocês pudessem escolher com quem ficar, com quem vocês escolheriam? Com a mamãe ou o papai? Olhei para mamãe, que me olhava seriamente, parecia estar com raiva, e talvez estivesse, como sempre. Depois olhei para o papai, que nos sorria confiante. Eu não sabia o que fazer. Olhei para minha irmãzinha, e ela parecia tão perdida quanto eu. Pensei em sair correndo dali, mas se eu fizesse isso continuaria morando com a mamãe, e certamente, marcariam outra audiência, e eu fugiria até quando? Até completar meus 50 anos? Mas eu não queria mentir. d***a! O que faço?
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR