O Atropelamento

1177 Palavras
- Por que a mamãe sempre chama só você? - May perguntou. - Pra onde ela te leva? E por que você estava chorando e gritando? - Ai, chega de tantas perguntas! - Falei. - Então, responde! - Não quero! - Eu não gosto quando escuto você chorando e gritando. A mamãe te bateu de novo? Ela te machucou? - Dá para dizer que sim. - Respondi. - Ela não cansa nunca? - Acho que não. Todo meu corpo doía e eu não aguentava mais tudo isso, acho que não tinha uma parte do meu corpo que não doesse. Quase não consegui dormir nessa noite de tanta dor, chorei e chorei muito, quando consegui pregar o olho, o dia já estava amanhecendo. (...) Mesmo machucadas, May e eu fomos para o colégio, porém, apesar do calor que fazia, tivemos que ir de calça e camisa de manga longa, para que ninguém visse nossos machucados. Mike chegou a me perguntar se eu não estava com calor, mas eu menti que andei bastante gripada e a minha mãe havia mandado eu ir com roupa mais quentinha para não piorar, ainda bem que ele acreditou. Quase não consegui brincar de tanta dor. Na saída do colégio, vimos Edu do outro lado da rua, onde ele havia estacionado o seu carro. O homem veio correndo até a gente. - Oi, princesas. Como vocês estão? May e eu nos olhamos em silêncio. - O que houve? - Perguntou soando preocupado. - A mamãe ficou brava porque fugimos e nos bateu. - Disse Maytê. - Filha da… - Nos olhou rapidamente. - Que infeliz! Chloe… E como está aquele outro assunto? - Igual. - Falei cabisbaixa. - Obrigada, mas não adiantou. - Não acredito! Ok, farei aquilo que eu já devia ter feito há muito tempo. À noite nos falamos. Edu deu um beijo no rosto de May e fez o mesmo em mim. Ele atravessou a rua, em direção ao seu carro e de repente… - EDU! - Gritamos May e eu em uníssono. Olhamos para os lados e então atravessamos a rua correndo e fomos até o Edu, que estava caído no chão. O carro que o atropelou nem parou para prestar socorros. Havia algumas pessoas ao redor e uma moça se pôs a ligar para a polícia. - Edu… - Falei aos prantos. - Não morre, Edu. - Disse May chorando. - Meninas… Eu… Espero que… fiquem bem. Vai dar… tudo… E então ele parou de falar e ficou imóvel. - EDU! EDU! - Maytê e eu gritamos aos prantos. Eu falava com ele, mas ele não me respondia. Ficamos no local até a ambulância chegar, o que demorou um pouco para acontecer, e quando isso ocorreu, os médicos o examinaram, e então constataram: o meu amigo estava morto. Por quê? Não é justo! Por que todo mundo que eu gosto sempre tem que morrer? Ele queria me ajudar, e agora não poderia. E o Edu tinha dois filhos, que agora ficarão sem papai. Por que isso? Era para tudo ser diferente. Quando chegamos em casa, avistamos a mamãe sentada em sua poltrona, fumando seu cigarro. - Por que essas caras? - Perguntou a mulher. - Tristinhas, por que o amigo de vocês morreu? May e eu nos olhamos em silêncio e depois olhamos para ela. - Como você sabe? - Perguntei. - Intuição feminina. - Você que o atropelou? - May perguntou. - Eu não! Mas eu tenho amigos, e é só eu dar um telefonema e consigo o que quero. Acharam o quê? Que ele ia vir me ameaçar e ficaria por isso mesmo? - May e eu permanecemos mudas. - Ah, vocês acharam mesmo que ele iria ajudar vocês? Ah, tadinhas… Eu não consegui crer nisso. Mamãe havia mandado alguém atropelar o meu amigo. Por quê? Na verdade, acho que sei o porquê, porque ela ficou com medo que ele a denunciasse, acho que esse pesadelo nunca terá fim. (...) Na sexta - feira, papai nos buscou em casa e assim que o vimos, corremos e o abraçamos. No caminho até sua casa, May disse: - Papai, nosso amigo virou estrelinha. - É? Que amigo, filha? - O Edu, papai. - Falei. - Aquele que encontramos no restaurante, lembra? - Lembro, sim. Mas o que houve com ele? - Morreu atropelado. - Respondi. - Nossa! Que horror! Sinto muito. Assim que entramos na casa do papai, ele nos deu uma ótima notícia, havia convidado a tia Cath e o London para jantarem conosco e depois veríamos um filme ou jogaríamos algum jogo. May e eu havíamos adorado a notícia. - Então, já pro banho, vão se arrumar pra esperar os dois. May subiu no sofá e agarrou no pescoço do papai. - Papai, podemos tomar banho de banheira? - Perguntou. - Deixa eu pensar… - Pensou um pouco. - Podem, sim. Agora vão lá… Papai deu um selinho na May, como às vezes ele fazia na gente, e logo ele virou de costas, May subiu em suas costas e papai a levou de cavalinho até o banheiro. Também fui até o banheiro e May e eu tomamos banho de banheira enquanto brincávamos com as espumas. Papai havia comprado alguns bichinhos de borracha novos pra gente e ficou brincando conosco enquanto tomávamos banho, porém, ele ficou do lado de fora da banheira, raramente tomava banho com a gente, e quando tomava era de chuveiro e ele sempre usava sunga, não tomava banho sem roupa com a gente, antes eu achava que ele tinha vergonha, mas ele dizia que era por respeito, que não achava certo um homem (mesmo sendo o pai) ficar sem roupa na frente de uma criança, ah, se papai soubesse… Quando saimos do banho, May e eu nos arrumamos e papai foi tomar banho. Depois que ele se aprontou, ele fez um lindo penteado na gente, até que papai levava jeito com isso. Mais tarde, a campainha tocou. Eram eles. May e eu fomos correndo abrir a porta. - Meu Deus! Como vocês estão lindas! - Disse tia Cath. - Obrigada! - Falamos em uníssono. Papai nem havia se mexido para recebê-los, olhamos para ele, que estava imóvel, e então, lentamente ele se aproximou da mulher. - Você está… deslumbrante, é a mulher mais linda que eu já vi. - Ele disse. - Obrigada! - Falou timidamente. May e eu fomos brincar com London enquanto papai terminava de preparar o jantar com a ajuda da tia Cath. Quando o jantar ficou pronto, os dois nos chamaram. Nos sentamos à mesa, e logo papai e tia Cath trocaram olhares e então se levantaram. May, London e eu ficamos sem entender o que estava havendo. - A Cath e eu queremos contar algo para vocês. - Disse papai. - É… Nós dois… Hã… Bom… A gente… Papai pegou na mão de tia Cath, os dois sorriram, e então, papai disse: - Nós estamos namorando. Quase não acreditei no que ouvi, o meu coração bateu forte de tanta felicidade, finalmente os dois estavam namorando como eu tanto sonhei.
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