Entramos correndo em um mercado, e acabei batendo sem querer em um homem, que estava de costas pegando algo de alguma prateleira.
- Moço, nos ajude, tem um carro nos seguindo. - Falei.
O homem se virou pra gente, e eu me surpreendi ao vê-lo. Eu o conhecia. Custei um pouco para lembrar dele, mas logo me dei conta de que era o homem que uma vez foi lá em casa, e que eu achei que me machucaria, mas não me machucou e ainda ficou conversando comigo, me deixando mais calma.
- Como é o carro? - Perguntou.
- É prata e tem um velho na direção.
- Ok, esperem aqui.
Ele saiu correndo do mercado, indo para a rua. Ficamos na porta do supermercado. Vimos quando ele viu o carro que falamos e correu atrás do automóvel, que deu partida. Em seguida, ele voltou.
- Ele já foi. Vocês estão bem? - Perguntou.
- Aham. - Disse May ainda bastante assustada.
- Obrigada! - Falei. - Você lembra de mim?
- Lembro, sim. - Acariciou meu rosto de uma forma gentil, não tive medo, ele me passava confiança. - Estão sozinhas?
Acenamos a cabeça positivamente.
- Eu vou só pegar umas coisas e levo vocês pra casa, me esperam? - Acenamos a cabeça em sinal afirmativo. - Ótimo! Estão com fome?
- Muita, eu poderia comer um dinossauro e um dragão. - Falei, fazendo ele rir.
- Ok, vou pegar algo para vocês.
Ele colocou algumas coisas no carrinho de compras e foi até a padaria. Ficamos esperando-o. Em seguida, pagou as compras, e nos chamou. Fomos até o seu carro, que era bem grande e bonito. Com delicadeza, ele nos colocou nos bancos de trás e colocou os cintos em nós.
- Peguei isso pra vocês. - Ele disse.
Entregou um saco com risóles de frango e uma coca cola para cada uma de nós, e em seguida foi para o banco do motorista.
- Desculpa, fiz farelo. - Disse Maytê.
- Não tem problema, depois eu limpo. - Ele disse de forma amigável.
Eu falei que não morávamos mais na antiga casa e dei as coordenadas (dentro do que eu me lembrava) de como fazia para ele chegar em minha nova casa. Durante o caminho, o homem foi conversando com a gente, era bastante simpático, e parecia ser muito legal.
- Ah, que ótimo! Um bordel. - Ele disse ao parar na frente da nossa casa.
- O que é bordel? - Perguntei.
- Nada não, querida. - Ele disse. - Maytê, será que você pode ir na frente? Quero falar em particular com a sua irmã.
Quando ele falou isso, senti o meu coração bater mais forte, e pela primeira vez fiquei com um pouco de medo dele. E se ele resolvesse fazer o que ele não fez no outro dia? E se tivesse se arrependido de não ter me machucado?
May saiu do carro e entrou em casa, e meu coração batia forte de medo.
- Quer sentar aqui na frente pra gente conversar melhor? - Perguntou aumentando o meu medo.
Em silêncio, apenas neguei com a cabeça.
- Ok, tudo bem, não tem problema. - Sorriu. Acho que ele viu que eu fiquei assustada. - A sua mãe ainda chama caras para te machucar?
Acenei a cabeça de forma positiva, ainda com um pouco de medo.
- Por que ela faz isso?
- Porque é má e não gosta da gente.
- E a Maytê? Também passa por isso?
- Não, minha irmã nem sabe dessas coisas e prefiro assim, é muito pequena.
- Assim como você. - Ele disse. - Você sabe que isso é errado, né? - Concordei com a cabeça. - E teu pai?
- Ele é o melhor do mundo. - Passei para o banco da frente, eu não estava mais com medo, ele não queria me machucar. - Ele é incrível e nos ama muito. Também amo ele, pena que a tal justiça não deixa ele ficar com a gente.
- Ele sabe dessas coisas? - Perguntou.
- Não, eu nunca falei. Mamãe diz que se eu contar, ela vai fazer m*l pro papai e pra May, e eu não quero que ela machuque eles.
- Entendi. - Falou meio pensativo. - Sinto tanto por você, nenhuma criança merece passar por isso. Eu tenho filhos e se alguém fizesse isso pra eles, eu seria capaz de m***r a pessoa. Queria poder te ajudar, mas se a tua mãe souber que eu fiz algo, eu posso me ferrar, e eu não posso ir à polícia, já passei uns tempos por lá.
- Por quê? - Perguntei assustada.
- Eu machuquei um cara que queria assaltar a minha irmã. Aí eu fiquei um tempo preso, mas isso já faz tempo, mas fico com medo de me dar m*l se eu me envolver.
- Está tudo bem. - Falei, fazendo-o sorrir.
- Vai lá.
Fiz menção em sair do carro, mas ele me chamou, me virei e o homem disse:
- Ah Chloe, fica com isso. - Me entregou um cartão. - É meu número, qualquer coisa pode me ligar.
- Obrigada! - Guardei o cartão em minha mochila e fui pra casa.
Mamãe não estava em casa, havia saído. Maytê perguntou o que o moço queria comigo, e perguntou se eu já o conhecia, eu menti que ele era pai de uma colega e tinha me perguntando umas coisas sobre a escola e pediu para eu emprestar um caderno para a filha dele, que não estava indo à escola porque estava doente. Acho que eu estava ficando boa em mentir. Papai sempre dizia que era f**o mentir e que deveríamos sempre falar a verdade, mesmo que tivéssemos feito algo r**m, eu nunca gostei de mentiras, mas eu acabava mentindo porque tinha coisas que eu não podia falar a verdade, mesmo querendo.
Papai nos ligou mais tarde e nos deu uma ótima notícia, ele disse que havia conseguido uma casa pra gente, e o melhor que ela era mobiliada, pediu para avisarmos a mamãe e falou que no dia seguinte nos levaria para conhecê-la. Ficamos muito felizes com a novidade. Ah, como será que é a nossa casa nova?