- Quem foi o intrometido que chamou a polícia? - Mamãe perguntou.
- Senhora, respeito, por favor! Cadê a criança?
Mamãe estava de costas para mim, então sem ela me ver, sai de onde eu estava escondida e o seu policial me viu, deu um sorriso simpático ao me ver.
- Oi, tudo bem? - Acenei a cabeça positivamente. - Não precisa ter medo, eu só quero conversar com você. Podemos conversar um pouquinho?
- O que você quer com a minha filha? - Mamãe perguntou de forma ríspida.
- Eu quero conversar com a menina, senhora. - O policial disse seriamente. - Pode nos dar licença?
Mamãe ficou alguns segundos em silêncio, parecendo pensativa, em seguida, me encarou seriamente, um olhar que me dava medo, e então saiu, me deixando sozinha com o policial.
- Vem cá… Não precisa ficar assustada. Senta aqui pra gente conversar.
Eu sentei no sofá e o policial sentou ao meu lado, sem me causar medo, na verdade, me passava uma certa tranquilidade, ele foi super legal e bonzinho comigo.
- Como você se chama?
- Chloe.
- Que lindo nome! - Sorri. - Sabe Chloe, algumas pessoas andaram dizendo que ouviram choros e gritos de criança. Era você?
Em silêncio, apenas acenei positivamente com a cabeça. Nisso, avistei mamãe, que nos observava. Como o policial estava de costas para ela, acabou não a vendo.
- E o que houve? Porque você chorava e gritava? - Ele perguntou calmamente.
Com medo, olhei para a mamãe, que fez sinal de silêncio, depois fez sinal de cortar o pescoço se eu falasse algo. Eu queria contar toda a verdade, mas estava com muito medo, mamãe estava ouvindo tudo, e se eu falasse a verdade, ela ficaria furiosa e poderia me bater muito mais, e eu estava cansada de ser o saco de pancada de mamãe, eu só queria que ela me amasse, e que não me machucasse e nem permitisse que ninguém me machucasse, mas acho que pedir isso era pedir muito.
- Hã… Eu… Eu me machuquei. Fiz arte, a mamãe estava tomando banho e eu fui pegar um brinquedo que estava em cima do meu roupeiro, coloquei uma cadeira para pegá-lo, mas acabei caindo e me machuquei, mas a mamãe já colocou remedinho e não está mais doendo. - Menti, desejando que aquilo fosse verdade.
- É mesmo? - Perguntou desconfiado. Acenei a cabeça positivamente. - Chloe, você sabe qual é o número da polícia?
- 190. Meu pai me ensinou.
- Muito bem! Vejo que você é muito inteligente. - Eu sorri. - Se precisar de qualquer coisa, pode ligar pra polícia e eu venho correndo te ajudar.
- Está bem, mas aqui está tudo certo. - Falei.
- Que bom! Fico feliz em saber. Bom, se aqui está tudo bem, eu já vou indo, mas se precisar, já sabe…
Sorriu e se retirou. Assim que ele foi embora, mamãe veio até mim, estava com um sorriso no rosto, quase não a via sorrir.
- Muito bem! Gostei de ver, é assim que se faz. Foi inteligente em não falar a verdade, e como você me deixou muito feliz, eu vou te dar algo. O que você gostaria?
- Que aqueles caras maus não me machuquem nunca mais. - Falei.
- Nunca mais é tempo demais, mas até amanhã eu acho que dá pra ser. E ainda, pra você ver como não é difícil me fazer feliz, eu vou comprar uma barra de chocolate pra você. Que tal?
- Pra May também?
- Ok, pra ela também. Viu, se você ficar quietinha e não falar nada, ninguém sai machucado e eu ainda posso te recompensar por isso.
Mamãe foi ao mercado e realmente comprou chocolate pra gente, e assim que minha irmã chegou, nós duas comemos nossas barras, que estavam deliciosas, definitivamente, chocolate era o meu doce preferido. Mas apesar disso, fiquei triste por não ter falado toda a verdade para o policial, eu queria ter dito, mas fiquei com tanto medo, mamãe me assustava muito, e eu não gostava disso.
(...)
No dia seguinte, eu fui para a escola e a aula seguiu normalmente. Os meus colegas chatos já haviam parado de implicar comigo por causa do xixi na roupa, pois a professora disse que não queria mais um piu sobre esse assunto, e quem falasse novamente nisso, iria ganhar bilhete na agenda e os pais seriam chamados para uma conversa, as piadinhas pararam na hora.
Na saída do colégio, notei que um carro estava nos seguindo e alguém dizia ‘’hey’’, eu nem quis olhar para ver de quem se tratava, fiquei com medo e disse para May para acelerarmos o passo e assim fizemos, porém, de repente, escutamos:
- Chloe! Maytê!
Se sabiam os nossos nomes não podia ser nenhum desconhecido. Paramos de caminhar e resolvemos ver quem era. Sorri ao vê-lo.
- Edu! - Falei ao vê-lo.
Edu era o meu amigo bonzinho, que não me machucou quando foi lá em casa e que me ajudou no outro dia no mercado, bom a mim e a May, eu gostava dele, achava ele super legal e bonzinho.
- Oi princesas. Como vocês estão?
- Bem! - Respondemos.
- Hey, estão com fome?
- Muita! - Respondi.
- Querem ir almoçar comigo?
May e eu vibramos de alegria e aceitamos imediatamente. Minha irmã até chegou a perguntar o que mamãe acharia de chegarmos mais tarde do colégio, mas eu tinha certeza que ela nem notaria isso, e nem sentiria a nossa falta, talvez até tivesse saído sei lá pra onde, como ela costumava fazer, e ela nem se importa com a gente, por que deveríamos nos preocupar com o que ela vai pensar ou deixar de pensar?
May e eu entramos no carro do Edu e ele nos ajudou a colocar o cinto. Depois fomos até um restaurante, era buffet livre. Ele nos serviu com um pouco de cada coisa, como havíamos pedido, acho que a única coisa que eu não quis foi brócolis, que eu não gosto nadinha, já May, a única coisa que ela não quis foi beterraba.
Nós três nos sentamos à mesa, e minha irmã e eu mandamos ver na comida, comemos tudinho.
- Nossa, estou impressionado! - Disse Edu. - Nunca vi crianças comerem tão bem assim, vocês comem melhor que muitos adultos, sabia?
- É isso que acontece quando m*l se come comida de verdade. - Falei.
- Como assim?
- Papai é o melhor cozinheiro do mundo, ele faz tudo que é tipo de comida, mas a nossa mãe… Ela só manda a gente comer bolacha e salgadinho.
- Oh, pequenas… Se quiserem mais é só pedir.
- Tem sobremesa? - May perguntou.
- Tem sim. O que querem?
- Tudo! - Respondemos em uníssono.
Ele riu e nos serviu um pouco de cada sobremesa, tinha torta de bolacha, pudim, torta de limão… E tudo estava uma delícia. Após almoçarmos, Edu nos levou pra casa.
- Chloe, como estão as coisas? - Perguntou ao estacionar na nossa rua.
- Na mesma. - Respondi tristemente.
- Você ainda tem meu cartão? - Acenei positivamente com a cabeça. - Ótimo! Qualquer coisa, já sabe, pode me ligar, a qualquer hora do dia ou da noite, não importa, meu celular sempre estará ligado pra você, combinado?
- Combinado! - Sorri e o abracei.
May e eu fomos pra nossa casa, e como eu imaginava, mamãe nem havia notado a nossa ausência. Fomos direto para o nosso quarto e nos deitamos para abaixar a comida, pois as nossas barriguinhas estavam muito felizes.