Alguns dias haviam se passado. Mamãe não havia me batido mais até o momento, mas eu sabia que isso não duraria pra sempre.
Era uma quinta - feira de manhã quando tocaram a campainha. Eu sempre ficava com medo cada vez que tocavam a campainha ou que alguém batia à porta, pois achava que podia ser algum amigo de mamãe. Fiquei no meu quarto morrendo de medo que ela me chamasse, mas isso não aconteceu, e após eu aguardar um pouco, resolvi ir até a sala, porém, fiquei escondida para ver quem era. Se tratava de um homem alto e não era amigo da mamãe, não, o que me causou um imenso alívio. Ele entregou um papel para minha mãe, que se pôs a ler em silêncio. O que será que era aquilo?
- O que é isso? - Perguntei sem conter a minha ansiedade.
- Sério isso? - Mamãe perguntou para o homem. - Uma intimação? E se a gente não comparecer nessa audiência?
- Se eu fosse a senhora não faria isso, pois senão terá que se entender com a polícia.
- Ok. Tenha um bom dia. - Bateu a porta na cara do moço, essa não tem educação mesmo.
- O que é isso?
Mamãe deu uma bufada e logo falou:
- Eu não acredito que o pai de vocês entrou com um novo pedido de guarda, será que ele não vai desistir nunca?
Guarda? Não acredito! E mais uma vez, papai cumpriu a palavra dele, ele prometeu que tentaria conseguir a nossa guarda e havia cumprido, ele não me decepciona nunca. Ai, dessa vez precisava dar certo. Eu falaria pro juiz tudo o que a mamãe faz com a gente, falaria até dos homens maus, mamãe não teria como saber e até ela descobrir, a gente já estaria com o nosso pai e ela presa. Essa seria a nossa chance de irmos morar com o papai, e eu faria o que fosse preciso pra gente sair dessa tal audiência com o nosso pai.
Corri para o meu quarto e contei para May o que eu havia descoberto, minha irmã ficou tão contente quanto eu. Ela subiu na cama, começou a pular e falou:
- Nós vamos morar com o papai. Nós vamos morar com o papai.
- E vamos ser muito felizes. - Falei.
Peguei ela no colo e caímos deitadas na cama enquanto dávamos risadas, ai, estávamos tão felizes, m*l podíamos esperar para chegar o dia da audiência. Quando será?
May foi correndo até a mamãe e eu a segui.
- Mãe, é verdade que o papai quer nossa guarda?
- É. - Falou sem nos olhar. - Ah, mas se ele pensa que vai ficar com vocês, está muito enganado, eu vou dar um jeito dele não conseguir ficar com vocês, ah, se vou…
May e eu nos olhamos em silêncio. Do que será que mamãe estava falando? Tomara que ela não faça nada para o papai.
- Quando vai ser essa audiência? - Perguntei.
- Na próxima semana.
Ai, estava pertinho, faltava pouco pra gente ir morar com o papai, será que já dava pra gente fazer as malas?
(...)
No dia seguinte, já era dia de ir pra casa do papai, estava louca para agradecer a ele por não desistir de ficar com a gente.
Pela manhã fomos à escola, e quando voltamos pra casa, já nos arrumamos para irmos à casa do nosso pai.
Quando a campainha tocou, fomos correndo atender a porta. Porém, mamãe chegou antes e abriu a porta. Corremos e abraçamos ele, que nos encheu de beijos.
- Como estão as meninas mais lindas desse mundo?
- Bem! - Disse Maytê.
- Estávamos com saudade. - Falei.
- Eu também, minhas princesas.
- Posso saber que m***a é essa? - Mamãe perguntou ao mostrar o papel para papai. - De novo, Carter? Não cansa? Em quatro anos de separação, essa já é a 6° vez, d***a! Quando você vai desistir?
- Nunca! Eu só vou parar de tentar a guarda delas, quando eu conseguir.
- Vai sonhando… - Disse mamãe aos risos. - Você nunca vai conseguir ficar com elas.
- Isso é o que veremos. - Logo se dirigiu pra gente. - Pegaram tudo?
- Aham! - Respondemos May e eu.
Fomos para o carro do papai, ele colocou o cinto na gente, sentou no banco do motorista e então começou a dirigir até a sua casa. Assim que entramos em sua casa, May e eu nos sentamos no sofá.
- Papai, a gente vai nessa audiência? - Perguntei.
- Vão sim, meus amores.
- E por que a gente não foi antes? - May perguntou.
- Porque antes vocês eram muito pequenas, agora que já estão maiorzinhas, o juiz autorizou que vocês fossem falar com ele.
- E vamos falar tudo, vamos dizer que queremos morar com o senhor, e que não queremos ficar com nossa mãe. - Falei. - Né May?
- É, sim.
- Isso, meu amores, falem tudo o que vocês sentirem vontade.
- Ai, eu m*l posso esperar! - Disse May.
Papai fez um almoço delicioso pra gente, depois ficamos em seu apartamento brincando. Tia Cath e London não estavam em casa, infelizmente, pois eu estava louca para vê-los.
Papai, May e eu ficamos montando quebra-cabeça, e um pouco depois papai resolveu colocar música, May e eu adorávamos, as vezes brincávamos que éramos cantoras super famosas, fingíamos que a escova de cabelo era o microfone, e ficávamos cantando e dançando como se estivéssemos em um show, e a plateia era o papai (que aplaudia e gritava pra gente) e nossos brinquedos. Mas acho que estávamos tão cansadas, que dessa vez preferimos ficar montando quebra cabeça mesmo, enquanto escutávamos as músicas, que ia desde Balão Mágico e Trem da Alegria até a versão mais recente de Chiquititas, papai só colocava música infantil pra gente, ele dizia que criança tem que ouvir música de criança, e a gente não achava r**m, pois adorávamos.
E lá pela quarta música começou uma que eu conhecia bem, mas fazia muito tempo que eu não escutava, e começava com ‘’é o toque do sim, é o toque do não, você sabe, criança, onde podem pôr a mão?’’ Nisso parei de montar, e uma dorzinha invadiu o meu coração ao lembrar da noite passada, que mamãe levou um amigo dela, após ficar com raiva por papai querer ficar com a gente.
E de repente tocou uma parte da música que dizia ‘’o toque do sim é um toque legal, você fica feliz e se sente especial, já o toque do não é um toque do m*l, traz vergonha e dor, uma culpa sem igual, então fica esperto, que tudo vai ficar legal’’ e nisso eu comecei a chorar e a gritar.
- Tira! Tira! Tira essa música. - Cobri os meus ouvidos com as duas mãos. - Eu não quero ouvir! Eu não quero ouvir! Eu não estou ouvindo. Lá, lá, lá, lá. lá…
Papai e May pararam de montar o quebra - cabeça e ficaram me olhando assustados.