Lady
Tentei abrir os olhos, mas sentia desconforto com a dor que estava sentindo. Passei a mão em volta da calma e senti que os lençóis eram seda, e os meus lençóis não eram de seda por escolhas da minha mãe. Abrir os olhos e vi que ali não era o meu quarto, lembranças da noite anterior vieram, olhei para o meu pé que estava com uma faixa em volta. Ao lado da cama havia um copo com água, um comprimido e um bilhete escrito: coloque isso na boca e beba água.
As janelas estavam embaçadas, as cortinas balançando por causa do vento e havia uma janela entreaberta, levantei devagar e fui até a mesma fechá-la, então tive o desprazer de ver Luigi segurando o guarda-chuva para uma mulher entrar no carro e em seguida, ele entrou e estava no volante. Voltei a realidade quando a senhora abriu a porta e perguntou:
— Bom dia, Srta. Fleur, o senhor Laurent pediu para que a Srta. descesse para o café da manhã. — A senhora parecia gostar de conversar comigo, pois sempre sorria para mim antes de sair.
— Obrigada, Amélia, já estou descendo. — Fechei a janela e suspirei aliviada por não ser ele naquele carro, não sei porque, mas senti um incômodo com aquilo.
A dor ainda habitava em mim, as memórias eram mais dolorosas com o passar do tempo, embora não tivesse se passado tanto tempo assim, mas a ideia de que nunca mais iria estar com ele, receber seu carinho ou abraço me deixava ainda mais frágil.
Após o banho, fui à procura de uma roupa e me deparei com uma caixa em cima da mesa de computador, semi-aberta. Dentro da caixa tinha minhas jóias, algumas fotos do álbum da família e o meu diário pessoal, que ainda estava com cadeado. Agradeci mentalmente por ter essas pequenas coisas tão simbólicas aqui comigo. Por fim, estava pronta para descer, só me faltava coragem…
— Bom dia! — Disse ao ficar de pé em frente a mesa.
— Bom dia. Como se sente? — Tentei pensar em uma única resposta, mas antes que isso acontecesse, ele estava com as mãos em minhas costas e estava com a cadeira já fora da mesa. Antes que eu sentasse, ele fez questão de sussurrar em meu ouvido, mesmo estando apenas nós dois ali: — Eu vou cuidar de você!
Estava faminta, ignorei os olhares de Amélia voltados a mim, com certeza me julgando pela tamanha falta de educação. Mas isso não demorou muito, Luigi pediu para que a mesma saísse e nos deixasse a sós, confesso que fiquei aliviada, pois a vergonha era menos vergonhosa quando menos pessoas viam.
— Então, acho que agora podemos conversar como pessoas civilizadas. — Limpei a boca de forma delicada, tentando parecer o mais compreensível possível. — Primeiramente quero dizer que não tocarei em você sem que você queira, mas terá que fazer alguns sacrifícios para ter o meu corpo.
— E o que eu ganharei com isso? Minha liberdade? Me deixará ir embora? Até parece que eu quero usar seu corpo, faça-me o favor! — Esbocei a pouca felicidade que ainda habitava dentro de mim, como se aquilo fosse fazê-lo mudar de ideia. Além de que, eu não tinha interesse nenhum naquele corpo perfeito.
— Para onde vai quando for embora? Porque se não conseguir derrubar Suelen, ela irá fazer isso com você e as consequências não serão nada boas. — Sua tranquilidade na voz me assustava, parecia uma batalha de vida ou morte.
— Eu não faço a menor ideia, mas vou tentar sobreviver de todas as formas possíveis. Acredite! — Eu não faço a menor ideia do que eu vou fazer agora que meu pai não está mais aqui, ele era tudo na minha vida.
— Até parece que eu vou te deixar ir! — Ele sorriu sarcástico e logo voltou a ficar sério quando seu celular tocou e ele olhou quem era. — Com licença!
Luigi
“Paola…” — Disse baixinho, só para que ela ouvisse meu tom de frustração.
“Eu quero terminar tudo que tivemos um um dia, Luigi. Eu não vou suportar te ver minando essa garota de ninguém sabe de que inferno veio.”
“Ela é herdeira da Cosa Nostra, sabe disso! E eu não tenho nada com a garota, ela nem me atraí. Só estou a mantendo aqui até que ela encontre uma forma de sobreviver sozinha, não tenho menor interesse nela. Ela não tem nada que me agrade, diferente de você.” — Não estava mentindo, mas nunca jurei que seria dela ou assumir algum compromisso com ela. Além disso, Lady é o tipo de mulher que atraí olhares até mesmo de outras mulheres. Sua beleza natural é fascinante.
— Bom saber… acho que não estou morta para me vista sozinha por aí. — A voz de Lady ecoou na minha sala, fazendo-me ficar surpreso e nervoso com sua presença, que não deveria estar ali. — Não precisa desligar, dê atenção a sua Paola e deixe ela abusar do seu corpo. — Como se quem não quisesse nada, ela começou a subir as escadas devagar e rindo da situação.
“Pode me encontrar agora?” — Lady me observava das escadas, com uma cara nada boa.
“Não. Tenho que arrumar minhas malas, vou embora amanhã cedo e preciso encontrar algumas amigas ainda hoje.”
Ela desligou e eu vi que chegou mesmo ao fim, mas sei onde ela está hospedada e não vou ficar aqui de braços cruzados.
— Ei… — Chamei ela, que não tinha subido as escadas ainda e virou-se rápido, deduzindo o que eu estava pensando. — Tá afim de almoçar fora hoje?
— Não, leva a Paola. Ela com certeza vai adorar.
— Ela não está disponível, por isso estou te chamando. — Não era minha intenção sair por baixo, ela que se sentisse ofendido ou algo do tipo.
— Então vai se ferrar. — Ela me olhou por uma última vez e foi para o seu quarto.
A droga do tédio estava me pegando de jeito e eu preciso retornar logo para minha outra casa. Preciso resolver meus negócios o quanto antes, mas antes preciso encontrar o maldito do Otto ou eu não me chamo Luigi Laurent.