Lady
O silêncio da casa era absoluto, e foi então que o momento me permitiu sentir. Como se todo choque tivesse passado, a verdade estava ali, nua e crua estampada na minha cara que eu estava sozinha mais uma vez.
Encolhida na cama, abraçando meus joelhos eu chorei toda mágoa que me afligia. Toda dor que eu estava sentindo chegou e eu não pude me conter. Meu pai agora está morto, minha mãe é uma assassina traidora e eu... eu fiquei sozinha mais uma vez...
Acordei com o sol no meu rosto e Luigi sentado na poltrona ao lado da cama, me olhando como se eu fosse um bebê que acabará de nascer.
— Bom dia, bela adormecida. — Ele não estava tão formal como na noite anterior. Seu jeito simples era também diferente...
— Bom dia! — Não tinha nada de bom, não sei nem por onde irei começar a minha vida novamente. — Luigi, eu quero me desculpar por ontem. Estava nervosa e com tudo que acabou acontecendo, eu me deixei levar pela arrogância e ignorância e eu não sou assim.
O luto estava em mim e a vontade de chorar também.
— Relaxa, está tudo bem. Não é fácil perder alguém que a gente ama, mas você vai superar. — A firmeza em suas palavras parecia relatar alguma experiência pessoal sua, não questionei, apenas ouvir. — Agora levanta, toma um banho e desce. Além de precisar comer, você também precisa entender como as coisas irão funcionar daqui pra frente, principalmente para você.
Herança! A maldita Herança que me persegue é também a mesma que eu queria poder fugir e nunca tomar posse.
— Eu não quero nada daquilo, Luigi. Quero ir embora para qualquer lugar e recomeçar minha vida. — Não era mentira, eu só não quero assumir nada que um dia foi o motivo pela morte do meu querido pai.
— Então você prefere que a Suelen assuma tudo e faça o extermínio que ela planeja há anos? Mattia não deixaria isso assim, você sabe disso. Seu pais honrava seus deveres, achei que fosse semelhante a ele nisso.
Com as últimas palavras ele foi embora, deixando tudo que havia dito pairando no ar. Sim, eu queria fugir, mas também não posso deixar Suelen acabar com tudo que meu pai ergueu, com esforço e determinação.
Após Luigi sair, não demorou muito para que Amélia surgisse no quarto, segurando uma bandeja com o café da manhã posto.
— Bom dia, Srta. Fleur, como a senhorita está se sentindo? — Simpática! Amélia é bastante simpática, mas não gosto disso, parece que preciso de uma babá.
— Obrigada, Amélia, mas eu já estava descendo.
— Não se preocupe, fiz questão de subir para ver como você está.
— Estou péssima, me sinto vazia e sem saída. — Confessei, sentindo o peso de tudo em meus ombros. — O que eu vou fazer da minha vida agora? Eu não sei fazer nada.
Quero me formar em química e estou no caminho para isso, mas com tudo que acabou de acontecer, não sei se terei como manter tudo em ordem. Além de estudar, não sei fazer nada. Não sei cozinha, não ligar uma máquina de lavar roupas, não sei fazer nada... me sinto uma i****a jogada ao mundo e agora, presa em uma casa que eu me sinto uma estranha.
— Eu também já me senti assim e posso garantir a senhorita que essa sensação irá passar. Agora se quiser seguir em frente, tem que estar bem alimentada.
— Obrigada, Amélia.
Não posso deixar Suelen me amedrontar por toda minha vida. Não havia nada que eu pudesse usar, então após o banho eu vesti a mesma roupa e desci para fazer tomar o café da manhã na mesa.
— Você não tomou banho, Lady? — O tom de sua voz soava debochado. Luigi tem esse porém.
— Bom dia, e sim eu tomei banho, mas não tenho nada aqui. — Sentei de frente para ele e me servir com chá. — Seria muito pedir para pegar minhas coisas na casa da Suelen?
Ele não respondeu de imediato, apenas observou meus movimentos e pareceu pensar no que eu perguntei.
— Eu não vou demorar. Além do mais, vai mesmo me manter presa aqui? Mesmo eu dizendo que não quero nada do que era do meu pai?
— Você não vai pisar naquela casa nunca mais, muito menos sozinha. — O tom de voz me fez arrepiar. Ele fala calmo, mas com uma autoridade que faz até minha alma temer. — Eu vou resolver algumas coisas pela manhã, mas a tarde nós vamos às compras.
— Por que eu não posso ir agora? Também tenho dinheiro e eu não preciso de segurança. — Chega ser patético a forma como estou sendo tratada. Perdi meu pai e ainda estou absorvendo tudo que está acontecendo e ele está agindo naturalmente, forçando-me a agir também como ele. — Eu não tenho lata onde ir. Eu não vou sair por aí igual louca, ainda tenho consciência dos perigos que me rodeiam.
Luigi
Paola estava me causando sérios problemas, tanto pessoais quanto em meus negócios. Precisarei dar um basta nela antes que seja tarde demais.
Amélia estava tentando lidar com Lady da melhor forma, mas as coisas estavam querendo sair do controle e isso é desagradável até para mim.
Paola me aguardava em meu apartamento, onde nos encontrávamos quando queríamos fugir do mundo um pouco, pena que isso não acontece há bastante tempo. Seu olhar fixo ao meu, dão a ela confiança e a deixa ainda mais perversa do que ela é.
— Pensei que seu bichinho de estimação viria junto também. — Seu tom de sarcasmo lhe caia bem, mas não estou no melhor dia para lidar com isso.
— Ela só viria se fosse algo que nos convém. Você sabe porque estamos aqui, foi você mesmo quem disse que não queria ser o brinquedos de ninguém e eu nunca a tratei como um objeto.
— Você tá de s*******m comigo, Luigi? É sério que me fez vir até aqui porque queria me dar uma lição de moral, moral essa que nem você tem?
— Você tem muita sorte por eu ser um homem que não bate, nem mata mulheres... — Sim, isso mesmo. Paola e Otto estão juntos e eu fui o último a saber. Claro que ela não sabe dos meus "negócios" com ele, mas ele é um protegido do Capo Italiano, aquele maldito filho da p**a.
— Eu... você mesmo disse que o que a gente tinha não era nada sério e acabou acontecendo, mas eu iria te contar o quanto antes.
— Você disse algo sobre mim ao seu amante? — O medo em seus olhos a deixava vulnerável, entregando toda a merda que ela estava prestes a negar. — Você disse algo sobre a Lady?
— Eu vou dizer o que não sei, mas disse que ela estava morando com você e que ela é a herdeira da... — Isso era informação sigilosa e ela sabia disso.
Me afastei o suficiente para não perder o controle. Paola está sem saída, mas nem por isso, ela se dar por vencida. Seu ego me irrita e ela já se safou de muitas coisas, por ser mulher e por eu comer ela quando bem queria, mas nem por isso ela se tornou especial para mim. Ela é só como mais uma em minha cama, jamais como alguém importante em minha vida.
— Otto é um canalha e você sempre soube que ele quer me ver na pior. Eu pensei que você fosse uma p**a, mas você é bem mais que isso. Agradeça que hoje estou com bom humor.
— Por qual motivo? Passou a noite comendo a herdeira? — Antes que ela pudesse se afastar, meu reflexo foi mais rápido, acertando em cheio minha mão na parede. — Você tem muita sorte por eu não ser um filho da p**a com você, assim como todos os outros foram com você. Sabe onde ele está agora?
— No funeral do Mattia. — Sua voz chorosa me deixa nervosos e descontrolado.
O funeral era hoje e eu esqueci que Lady merece uma última despedida do seu pai. Uma pena que a conversa com Paola tenha que chegar ao fim, mais dois minutos e eu acabaria com a sua vida.
— Amanhã, quando eu voltar aqui, quero que você tenha tirado todas as suas coisas desta casa e tenha sumido, até que eu te chame novamente para uma última conversa. Estamos de acordo?
— Sim!
— Agora saia e, se seu amante ficar sabendo que eu estou indo ao seu encontro, eu saberei quem o avisou e você sabe que não gosto de gentilezas. — Ela me olhou uma última vez e assentiu.