Lady
O céu continuava cinzento, um luto que parecia se estender além de mim. Meus olhos pesavam, inchados pelo choro, mas minha mente estava decidida. Eu precisava ir ao funeral do meu pai.
Eu sabia que Luigi me impediria se pudesse, mas ele também sabia que não tinha o direito.
Sem opções do que vestir, eu deixei meu orgulho de lado e fui pedir a ajuda de Amélia. A encontrei pensativa na cozinha, como se sua mente estivesse barulhenta demais para se concentrar no presente.
— Amélia, posso falar com você? — Não foi minha intenção assustá-la, mas ela pulou de uma forma surreal, levando a mão ao coração respirando em seguida. — Me perdoe, não foi minha intenção assustar a senhora.
Peguei um copo com água, coloquei um pouco de açúcar e lhe entreguei. Para retomar os sentidos, ela sentou-se à mesa e bebeu um pouco da água
— Me desculpe, não quis assustá-la. Eu só queria saber se a senhora poderia me ajudar com um pequeno favor? — Fui direto ao ponto e ela me olhou espantada.
— Não sei se estou em uma posição que possa ajudá-la.
— Por favor, Amélia. Eu precisava de uma roupa para ir até o funeral do meu pai e...
Antes que eu terminasse minha frase, fui interrompida por uma mão tocando em minha cintura. Olhei para trás, já sabendo quem estava ali. Porém, desta vez fui surpreendida e não repreendida.
— Pode ir, Amélia. Vá descansar um pouco, pode tirar o dia de folga hoje. — Seu tom de voz me desperta uma sensação estranha, que eu não sei decifrar, mas também não quero que passe.
— Eu só estava tentando ser amigável. — Lhe dei as costas e fui surpreendida com sua mão tocando em minha cintura, numa tentativa falha de me ter em suas mãos.
O aperto de Luigi na minha cintura não foi bruto, mas firme o suficiente para que eu não desviasse dele. O olhar dele pesava sobre mim de uma maneira que eu não conseguia entender. Não era pena, nem arrogância, mas algo diferente, algo que eu não estava acostumada a ver nos olhos de ninguém.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, ele soltou minha cintura e estendeu um cabide com um vestido azul-marinho. O tecido era sofisticado, mas discreto, de mangas longas e um caimento elegante.
— Para você — disse ele, simplesmente.
Olhei para o vestido e depois para ele, sem saber como reagir. Meu orgulho queria recusar, mas eu precisava dele. Precisava ir ao funeral do meu pai com dignidade.
— Obrigada, Luigi — sussurrei, segurando o vestido com delicadeza.
— Vista-se. Nós saímos em meia hora.
Ele saiu do cômodo sem dizer mais nada, me deixando sozinha para me trocar. Como pensei, Amélia tomou um rumo rapidamente...
Assim que terminei, desci as escadas com o vestido ajustado ao meu corpo. Luigi me esperava na porta, impecável em um terno escuro, o cabelo bem alinhado e a postura rígida. Quando me viu, seu olhar se demorou em mim por um instante, antes de desviar rapidamente.
— Vamos.
O caminho até o funeral foi silencioso, mas não desconfortável. Eu precisava daquele momento para reunir forças. Quando chegamos, o ambiente era carregado. Mafiosos de diferentes famílias estavam ali, alguns que eu conhecia de nome, outros apenas pelas histórias que meu pai me contava. Todos sabiam quem eu era.
Assim que entramos, senti os olhares sobre mim. Sussurros se espalharam pelo salão, e logo vieram as primeiras aproximações. Alguns homens tentaram puxar conversa, oferecendo condolências que pareciam mais jogos de interesse do que respeito real. A ingenuidade deles me assustam, como podem pensar que eu serei uma vítima nesse mundo que eu fui ensinada perfeitamente? Babacas.
— Se precisar de qualquer coisa, Lady, minha família sempre terá espaço para você — um deles murmurou, segurando minha mão e beijando meus dedos. — Será um prazer tê-la por perto, senhorita.
Senti Luigi se aproximar antes mesmo de vê-lo. O calor da sua presença veio como uma barreira entre mim e os outros. Sua mão firme deslizou para minha cintura, puxando-me para perto dele com uma posse silenciosa. Não hesitei, nem mesmo disse nada sobre, mas que foi estranho foi.
— A Lady já está bem assistida — ele disse, sua voz baixa e carregada de um tom que não permitia discussões. — Pode ficar tranquilo, ela terá o conforto que precisar.
O homem recuou com um sorriso de canto, mas o brilho nos olhos dizia que aquela conversa não terminava ali. Outros continuaram me observando, avaliando, como se eu fosse uma peça valiosa em um tabuleiro de xadrez.
Eu não pertencia àquele mundo, mas ele sempre pertenceu a mim.
O funeral estava repleto de figuras poderosas do submundo. Homens que respeitavam meu pai e outros que apenas fingiam lamentar sua morte. Entre os rostos conhecidos, um em particular me fez prender a respiração.
Otto.
Ele estava parado do outro lado do salão, vestindo um terno preto impecável, o cabelo escuro bem penteado, um sorriso calculado nos lábios. Seu olhar encontrou o meu antes de se deslocar lentamente para Luigi.
A tensão entre os dois foi imediata. Luigi endireitou os ombros, sua mão se fechando levemente ao meu redor. Otto, por outro lado, não demonstrou nenhuma pressa. Ele pegou uma taça de vinho do garçom que passava e caminhou tranquilamente até nós.
— Uma grande perda — Otto murmurou, seus olhos pousando sobre mim com um interesse que me fez engolir em seco. — Seu pai era um homem notável, Lady. Imagino que sentirá muita falta dele.
Antes que eu pudesse responder, Luigi deu um passo à frente, colocando-se sutilmente entre mim e Otto.
— Você não pertence a este funeral, Otto — a voz de Luigi saiu baixa, mas carregada de ameaça. — Confesso que estou surpreso por você não está todo perfurado ainda.
Otto sorriu, inclinando a cabeça de lado como se estivesse avaliando a situação.
— Ah, Luigi, sempre tão protetor. Mas diga-me… agora que o pai dela se foi, quem irá protegê-la de verdade? Até porque... você é um homem de negócios e não tem tempo nem mesmo para você.
Meu corpo enrijeceu, mas antes que pudesse reagir, Luigi já havia avançado. Sua mão agarrou o colarinho do terno de Otto, puxando-o para perto. Tomando a atenção dos olhares alheios para ele..
— Se eu fosse você, tomaria muito cuidado com o que diz, caso contrário, não terá a mesma sorte na qual entrou por aqui.
— Qual seu problema, Lulu? Está irritado porque eu fodi o seu brinquedo e ela preferiu o novo dono? — Só podem estar falando de Paola, mas a mesma também não tem nada haver com essa conversa.
O silêncio se espalhou ao redor. Algumas pessoas começaram a nos observar, esperando para ver como aquilo terminaria.
Otto, no entanto, parecia se divertir. Ele ergueu as mãos em um gesto de rendição e deu um passo para trás assim que Luigi o soltou.
— Não há necessidade de violência em um dia tão triste — disse, ajeitando o paletó. — Eu só queria oferecer meus pêsames à Lady. E dizer que estou aqui, caso ela precise.
Seus olhos voltaram para mim, e o sorriso em seus lábios me causou arrepios.
— Estarei por perto, caso precise de alguma coisa.
Ele se afastou lentamente, mas o ar continuou carregado mesmo depois que ele sumiu de vista.
Quando tudo terminou, Luigi me guiou para fora sem dizer nada. O silêncio entre nós foi quebrado apenas quando ele abriu a porta do carro para mim.
— Você está pálida — ele comentou, enquanto dirigia.
— Estou cansada — admiti, apoiando a cabeça no vidro.
— Vou te levar para beber algo.
Virei o rosto para ele, surpresa.
— O quê?
— Você precisa de algo para aliviar essa tensão — ele disse, sem tirar os olhos da estrada. — E, para ser sincero, seu rosto triste está me deixando irritado.
Uma risada fraca escapou dos meus lábios antes que eu pudesse controlar.
— Ah, então eu devo beber para melhorar o seu humor?
Ele lançou um olhar rápido para mim, um sorriso quase imperceptível brincando nos cantos dos lábios.
— Exatamente.
Eu não sabia o que pensar sobre Luigi, mas uma coisa era certa: ele era um mistério que eu ainda não conseguia decifrar. E, naquele momento, talvez um drink não fosse uma má ideia.
Luigi
Por respeito à Mattia e a Lady eu não acabei com a vida desse desgraçado. Mas ele está em meu território e não vai ser fácil para ele sair sair daqui ileso.
Lady permanecia inerte ao mundo ao seu redor. A vi chorando através do espelho, com os raios de sol clareando seu rosto com pouco brilho.
— É sério que estamos indo beber? — Sua voz chorosa quebrou o silêncio, enquanto ela enxugava às lágrimas.
— Claro! Seu pai merece uma última despedida digna de um homem digno. E depois eu tenho uma promessa com você.
— Posso perguntar se Paola tem haver com sua briga com Otto?
— Não, ela não faz parte de nada que seja importante em minha vida. O problema com Otto vem de anos, mas acredito que desta semana acertamos todas as nossas pendências.
— Por quê?
— Porque eu não te devo satisfações, ainda não.