Capítulo 07

2395 Palavras
Elisa on: Aquela situação estava esquisita ou eu ainda não estava completamente sóbria, eu queria provar para o Rato e para mim que nada entre a gente havia mudado, mas eu nem conseguia encarar ele sem me lembrar que ele praticamente me viu nua, ou melhor, que ele chupou meu peito e a minha boca. Respirei fundo olhando para o homem na minha frente que voltou a comer o seu pão tranquilamente e tentei não rir quando ele chupou o canudinho do achocolatado em caixinha como se fosse uma criança degustando do seu doce preferido. — E Maria? - Perguntei assim que me lembrei que ontem eu tinha vindo com ela, a mesma deve estar me xingando até hoje por ter sumido do nada e deixado ela sozinha. — Levei ela pra casa hoje de manhã - Respondeu pegando seu celular do bolso e mexendo no mesmo, sem prestar muita atenção em mim. — Por que não me acordou? Eu nem dei tchau. - Falei desapontada e ele olhou para mim com uma careta. — Você é má influência. — Disse me fazendo colocar uma expressão de ofendida e a mão sob o peito — Em um segundo você quase fudeu com 2 meses que seu pai gastou tentando fazer essa aliança. Revirei os olhos como se estivesse com tédio demais para continuar aquela conversa e ele balançou a cabeça negativamente enquanto sorria como se dissesse: Quem cala consente. — Para alguém que vive se bicando com o patrão, você tá dando um ótimo p*u mandado. - Provoquei com um sorriso sapeca no rosto e mordo o meu pão olhando para ele, que deu risada e ficou de pé se inclinando para depositar um beijo na minha testa. — Primeiro eu ganho moral com o pai, depois eu conquisto a filha. - Ele deu um sorriso safado e deu uma piscadela pra mim, mas saiu correndo e rindo antes que o chute que eu depositei em sua direção o atingisse. Eu continuei rindo da sua palhaçada e fiquei pensando em tudo o que aconteceu de ontem pra hoje, se alguém me dissesse que se eu levantasse daquela cama para cumprir o marcado com a Maria, e hoje eu iria acordar tendo que fingir ser a patroa do Rato, eu pouco ligava, afinal ele é o meu melhor amigo e nada no mundo me faria pensar ao contrário disso… Até ele me beijar. Eu já beijei antes, diversas vezes e nunca com a mesma pessoa. Eu já senti coisas que eu nem sabia que um beijo poderia proporcionar a alguém, mas tudo isso nunca chegará nem perto do que eu senti enquanto estava nos braços do Rato e isso me deixava com medo, por que algo que eu sempre fiz questão de proteger com todas as minhas forças e que dei tudo de mim, foi sem dúvida a minha amizade com ele. Eu não poderia perder ela por nada. Se bem que a nossa amizade não parecia estar tão em apuros assim, mas o fato de agora não saber mais se suas piadas de duplo sentido são sérias ou não, me faz sentir um frio na barriga inexplicável. O dia passou rápido, eu passei quase a tarde toda no sofá assistindo algo na pequena televisão que o Rato tinha na sala, o que me fez olhar todo a sala minúscula, eu sei que ele não morava realmente aqui, mas até a casa dele no morro era mais arrumada que essa e olha que ele tem 21 anos, é hétero e mora sozinho. Quando já estava perto de anoitecer eu me levantei e comecei a fazer uma "faxina" na casa, com isso eu quero dizer que mudei completamente toda a arrumação sem graça que ele tinha feito e depois que terminei, tomei um banho vestindo outra roupa dele, já que o bonitão tinha estragado a minha e eu não tinha nenhuma outra aqui, fiz um coque no cabelo e fui para a cozinha fazer a janta. Sei que era estranho, mas eu estava me imaginando com a mulher de um homem que passa o dia todo na rua fazendo seus corres e chegava morrendo de fome para jantar, o que me fez dar um sorriso sem graça pelos meus próprios pensamentos, mas o meu sorriso foi se desfazendo quando o meu celular vibrou no bolso graças a uma mensagem do Gabriel. Gabriel: Oi, cheguei da faculdade agora, posso te ver? Meu peito se apertou quando terminei de ler aquela mensagem, eu sei que a gente não tínhamos nada sério e estávamos nos conhecendo, mas eu sentia que o Gabriel estava gostando de mim de verdade e por mais que eu não tivesse tido a menor intenção de ficar com alguém ontem, aconteceu. Respirei fundo e olhei ao redor, analisando mais uma vez a situação que eu estava me metendo e pensando em uma desculpa, porque era óbvio que eu não pediria pra ele vim aqui. Já ouvir sem querer meu pai falando diversas vezes o quanto iria ser bom para o morro uma aliança com o B-boy, por que em uma invasão já era mais um fogo amigo para contar. E o fato dele ter mandado justo o meu melhor amigo para negociar me faz ficar ainda mais preocupada, porque meu pai e os vapores do meu morro era suave, mas nem todo traficante era tão bonzinho e pelo visto, B-boy não se encaixava no quesito amigável. Se ele descobrisse que era tudo uma mentira, a minha cabeça e a do Castiel poderiam rolar morro abaixo e meu pai, que não é tão paciente assim, começaria uma guerra entre os morros sem pensar duas vezes. Ely: Tô me sentindo m*l, podemos marcar outro dia? – Comecei a roer as unhas de nervoso quando ele visualizou a mensagem e começou a digitar, eu me sentia como uma mulher que estava dando um par de chifres de presente para o seu namorado. Gabriel: Quer que eu leve algum remédio? – Fiz uma careta e bati os pés no chão de tão i****a que eu estava me sentindo por menti para ele, mas alguém que veio do asfalto jamais entenderia de assuntos de favela. Ely: Não precisa, já compraram! - Essa parte não era tão mentirosa assim, porque sempre que eu estava doente ou com dor, Rato aparecia na minha janela com duas sacolas, uma cheia de remédio e outra cheia de chocolate. Gabriel: O Rato? - Ele mandou a resposta depois de alguns minutos digitando e eu franzi a testa enquanto encarava o celular. Ely: Não, ele está trabalhando. - Mentir olhando para o celular e ouvir o barulho de passos na sala, Rato deve ter chegado. Gabriel: Não sabia que traficar virou trabalho. - Eu encarei a mensagem incrédula por um tempo e por um motivo eu me senti como se ele tivesse ofendendo a mim e não ao meu melhor amigo. Gabriel: Peguei pesado, Desculpa! Não fiz por m*l. Respirei fundo e digitei um "De boa" antes de guardar o celular no bolso e ir atrás do Rato, que estava sentado no sofá assistindo um filme de ação enquanto comia uma pizza, olhei para o mesmo que ria e chamava o cara de cuzão porque errou o tiro e sorrir. Eu cresci sabendo que o mundo onde nasci era julgado pelas pessoas lá fora, que a maioria dos envolvidos era chamado de lunáticos e, de fato, a maioria era. Mas o morro onde eu tive a sorte de nascer era uma exceção dessa regra, os "bandidos" tinham um pouco de senso ou simplesmente seguiam as ordens de meu pai com prontidão e essas regras mais pareciam os mandamentos. Dentro do morro, a criança não era envolvida em nada que comprometesse a sua infância, nada de drogas, armas ou sequer falavam desses assuntos - não na frente dos vapores e muito menos de meu pai. Nenhuma mulher era assediada a ponto de se sentir desconfortável e muito menos era forçada a f********o com alguém, e se batesse em alguma? Vocês não queiram nem saber o fim que essa pessoa teria. Ninguém lá dentro era assaltado, nada de pancadaria ou gatilhos sendo puxados sem a ordem do chefão. Os vapores fazem vaquinha para pagar os matérias escolares daqueles que não tinham condições, tinha arrecadação de alimentos para a família que precisavam e todos os anos tinha uma grande festa do dia das crianças, com palhaços e distribuição de brinquedos. Então eu me negava a aceitar que alguém falasse m*l do meu morro, do meu povo, da minha família e do Castiel. Que a muitos anos se tornou muito mais para mim do que o mero filho da minha madrinha. O homem que havia tomado meus pensamentos olhou para mim, estendeu a fatia de pizza que estava em sua mão com um sorriso e eu assenti com a cabeça indo até ele. — Pensei que estava dormindo. - Diz estendendo o braço para apoiar o mesmo no sofá e eu me sento ao seu lado, deitando no seu ombro. — Tá cedo ainda - Disse segurando seu punho e trazendo a fatia que estava na sua mão para a minha boca e dando uma grande mordida, rindo quando o mesmo começou a resmungar. — Sabe quem acabou de terminar o namoro?! - Olhei para ele quase de imediato com a cara de quem queria saber da fofoca e ele riu. - Victor e a namorada. — Novidade. - Falei decepcionada e ele riu. - Aquela guria é mais corna que você. — Me respeita - Ele deu um tapinha na minha testa me fazendo rir, o Rato já tinha namorado "sério" com umas duas meninas e as duas deram corno nele, mas eu tenho pra mim que ele nunca gostou de verdade de nenhuma, por que ele sempre me pareceu muito "to nem ai" pra qualquer coisa que vinha delas. - Pelo menos eu já namorei. — Ai! - Coloquei a mão no peito como se tivesse sentindo dor e ele dá risada - Mas foi porque eu não quis, tá? — Não tenho dúvida disso. - Ele diz fazendo uma careta como se não tivesse acreditado em nada do que ele mesmo falou e eu lhe dei um tapa na barriga. — Quer sair no soco mermão? - Perguntei fingindo estar irritada e o moreno negou com a cabeça rindo. - Bom mesmo. — Mas desembucha, que carinha é essa? - Ele pergunta olhando para mim com uma cara de: Sem adianta mentir, eu já te vi nua quando éramos pequenos. — Não tive um bom papo com o Gabriel - Desabafei fazendo o mesmo respirar fundo e abraçar meus ombros. — Eu tenho que bater nele? - Perguntou me fazendo rir e negar com a cabeça - Liga esse Zé ruela não, você tem a mim. Apoiei a minha cabeça no seu ombro e dei um sorriso sem mostrar os dentes quando ele me abraçou ainda mais forte, fazendo com que todo o desconforto que eu estava sentindo pela conversa meia boca com o Gabriel saísse. — Eu amo você, Cas. - Disse enquanto colocava a mão volta da sua cintura como se o abraçasse e ele dá um beijo na minha testa. — Eu também te amo - Respondeu fazendo meu coração bater acelerado e suspira - E por mais que eu te ache a coisa mais linda com a minha roupa, vou arranjar algumas pra você amanhã. — Novas? - Perguntei em um tom interesseiro fazendo ele rir e com os olhos semiaberto. — Não tá com tanta moral assim. - Diz fazendo com que meu brilho desaparecesse e eu olhei para ele incrédula. — É desse jeito que você trata a sua mulher? - Brinquei em um tom provocativo e levantei a cabeça, me arrependendo quando nossos rostos ficaram próximos o suficiente para que eu pudesse sentir a sua respiração, enquanto seus arredondados olhos castanhos escuros pareciam ainda mais profundos do que eu me lembrava — Se quiser eu te mostro como trato a minha mulher. - A malícia na sua voz era nítida, o que fez meu coração bater mais forte e a sensação de calor invadir o meu corpo, minha respiração pesou quando mordeu os lábios e desceu seu olhar para a minha boca e como se pedisse permissão para me beijar ele se aproximou do meu rosto aos poucos e quando eu fechei os olhos esperando sentir o gosto dos seus lábios outra vez. Tomei um susto quando o palhaço do meu melhor amigo me carregou em seu colo e levantou do sofá. — O que você tá fazendo? - Pergunta enquanto o i****a se divertia da situação. — Levando a minha mulher pra cama - Eu sentir a minha respiração parar com a possibilidade dele está insinuando que aquilo acontecesse. — Eu não sou tão fácil assim. - Argumentei fazendo o mesmo me olhar com um sorriso malicioso, enquanto passava pela porta do quarto. — Uma pena, por que eu queria te mostrar o que eu posso fazer com a língua. - Olhou nos meus olhos, enquanto me colocava sentada na cama, virada de frente para ele e com um braço a cada lado do meu corpo, deixando seu rosto bem próximo do meu - Mas eu preciso esperar você querer. Eu engoli em seco, enquanto encarava seu olhar fixo no meu e outra vez, ele desceu o seu olhar para a minha boca, colocou a mão na minha coxa que estava nua graças ao short que tinha se encolhido, e subiu a mesma devagar com firmeza e apertando um pouco. Sentir a minha pele queimar de tanta excitação que o toque dele me causava e quando o mesmo foi subindo ainda mais, parando quase no meio das minhas pernas eu achei que iria entrar em combustão, com a umidade que ficou no tecido da minha calcinha. — Boa noite - Ele deu um sorriso ladinho e tirou a sua mão, fazendo com que a minha pele sentisse falta do seu toque. - Meu amor. - Beijou o canto da minha boca e saiu do quarto me deixando completamente perplexa pelo que tinha acontecido, me fazendo cair na real que a imagem de um quase irmão que eu ainda me forçava a enxergar, havia desaparecido. E que eu estava começando a ficar completamente atraída por ele...
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