Celleney Peny
Curiosa eu coloco o meu ouvido colado a madeira grossa da porta.
E não escutei nada demais, apenas alguém o passando, algo como a agenda do dia dele.
Simplesmente não entendi o porquê ele me trancou aqui, por causa disso, mas me ocupei em fazer aquilo que não consegui fazer quando cá entrei, observar o quarto de um príncipe.
No caso, eu não estou mais no quarto e sim na casa de banho, que é bem diferente da minha.
A decoração é estupenda, é literalmente do tamanho do meu quarto, da minha casa, é enorme.
Afinal, eu era a única neta morando com o meu avô, obviamente eu peguei para mim o maior da mansão.
Mas isso é outro nível.
- Espera, essa banheira é de ouro? - eu questiono retoricamente vendo com os meus próprios olhos a mesma aqui.
Eu observo tudo aqui, e eu sei que estou a morar aqui por caridade, mas...
Ele abre a porta, e eu o encaro.
- Tudo bem? - ele me questiona entrando.
- Porque você tem uma banheira de ouro e eu não? - eu o questiono e ele sorri de lado e a minha barriga arrefece.
Que sorriso!
- Talvez porque eu seja um príncipe. - ele diz irónico e eu reviro os meus olhos.
- Isso é injusto. - eu falo.
- Se tiver algum problema com a sua, eu não me importo em dividir. - sua voz penetrou os meus ouvidos de maneira nada decente, e os meus olhos se arregalaram na direção dele.
Henrik?
Se recomponha, Neyney.
- Não me parece que eu possa dividir o banheiro com você, já que me trancou aqui, para o seu assistente puder dar a sua agenda. - eu falo tentando ignorar a queimação no meu rosto ainda o encarando.
- Sanchler. - ele diz, e eu dou de ombros.
Que seja.
- Não é suposto que esteja nos meus aposentos, ou de homem algum, sozinha. - ele fala se aproximando e a minha respiração automaticamente tranca. - Principalmente vestida desse jeito, senhorita Celleney. - eu estou molhada.
O que ele falou?
Nada demais.
Mas a forma que ele falou e desceu o olhar em mim, referindo-se a minha roupa, está me fazendo perder o réu primário.
- Foi você quem me trouxe para cá. - eu falo dando de ombros. - E a vestimenta é o vestido de noite que a Karen tirou para mim. - eu falo passando por ele, adentrando no seu quarto novamente.
- Humn, então a... Karen. - ele diz, me observando. - Conseguiu achar uma vestimenta que não fosse de avó para você. - ele diz sarcástico e eu sorrio.
Celleney Peny, por favor.
- Desculpa por incomodar você. - eu falo. - Eu não devo estar aqui e suponho que a sua noite não tenha sido nada trabalhosa, mas você está tão exausto quanto eu, então eu vou me retirar. - eu falo para ele, caminhando até a porta e dando uma batida, para eles abrirem.
É melhor eu sair daqui, porque já não estou me reconhecendo.
- Apenas não se atrase para o pequeno-almoço. - ele fala e eu só assinto antes de sair dos seus aposentos.
Céus...
Atordoada eu retraço o caminho que fiz até chegar aqui, de volta para o quarto, e assim que entrei me atirei na cama.
Desorientada.
Mas não tive muito tempo para pensar no que aconteceu porque automaticamente as minhas pálpebras fecharam.
Senhor Peny?
- VÔ! - eu acordo pulando, para denotar que era só um sonho, dele me mandando acordar literalmente.
Mas parecia tão real.
- Que merda... - eu balbucio indignada e passando a mão pelo meu rosto procurando não chorar novamente por causa da peça que a minha mente me pregou.
Parecia tão real.
Eu olho para o chão, e vejo o monte de ferramentas todas espalhadas pelo chão.
- Celleney! - eu exclamo comigo mesma pulando da cama.
Eles não batem a porta, se vissem tudo isso aqui espalhado, eu estaria mais do que ferrada.
Abro a sacola e desmazeladamente coloco as ferramentas dentro dela, com o meu coração num pique de aceleração maior que a competição da Fórmula um.
- Você me mandou acordar para isso, senhor Peny? - eu questiono tentando associar o sonho, enquanto enfio tudo no baú, quando simplesmente ouvi o barulho da porta sendo aberta, e eu fecho o baú me levantando do chão.
- Oh, já despertou, senhorita. - a Karen diz surpresa ao me ver aqui em pé.
Parada, do nada.
- É... - eu falo pisando na pinça que não vi estar aqui no chão antes, mordendo o meu lábio inferior em seguida, procurando conter a dor.
- Desejo que tenha tido um descanso agradável. - ela diz e eu sorrio para ela. - Permita-me abrir as cortinas para deixar entrar a luz da manhã? - ela questiona e eu assinto.
- Fique a vontade. - eu falo e ela direciona-se às janelas e eu aproveito para pegar a pinça e meter ela no baú, me sentando na cama logo em seguida, ofegante.
- Eu vou preparar o seu banho. - ela diz e eu limito-me em assentir.
Isso foi estranho.
- Você me acordou, você também podia me dizer o que fazer para sair daqui né, vô? - eu falo comigo mesma.
- Falou comigo, senhorita? - a Karen diz aparecendo na porta.
- Não, estou apenas pensando alto. - eu falo e ela assente voltando a entrar no banheiro.
Esse sonho não pode ter sido apenas coincidência, não?
Certo?
- Meu Deus, eu estou ficando louca! - eu exclamo, me deitando na cama novamente.
Estava a apanhar sono novamente quando a Karen adentrou no quarto.
- O seu banho está pronto, senhorita! - ela diz e eu suspiro.
Eu ia dormindo, outra vez.
- Tudo bem, obrigada. - eu falo, me espreguiçando, me sentando na cama novamente.
- Eu perdi uma noite de sono, para nada. - eu falo comigo mesma enquanto ela vai para o closet e eu caminho para a casa de banho.
Retiro o relógio do meu pulso, e deixo no banco e entro na banheira, assim durmo um bocado.
Eu estou com o meu corpo pesado, dolorido e exausto.
Tomei o meu banho, lentamente como se fosse melhorar a minha exaustão.
Fiz a minha higiene o**l, e desmanchei as minhas tranças, e eu nunca tive um day after tão bom.
Os meus cachos estão tão definidos ainda, e tão lindos que disfarçou o meu rosto de noite m*l dormida e fui me submeter ao aperto de sempre.
- Devemos ir agora. - a Karen fala, enquanto eu coloco o relógio no pulso.
- Tudo bem. - eu a respondo saindo com ela do closet para o quarto e saímos logo em seguida.
- O que tem hoje? - eu questiono-a olhando pela janela dos corredores o lado de fora.
- O príncipe irá para o castelo, possui uma reunião com o conselho e amanhã teremos o início dos jogos da temporada. - ela fala e eu encaro-a curiosa.
- E o que é isso? - eu a questiono.
- Com o baile de debutantes, a temporada se inicia, jogos da temporada, referem-se a eventos sociais da alta sociedade, nos quais jovens debutantes são apresentadas à sociedade em busca de casamentos vantajosos, eles são os bailes e também eventos organizados pelos comités sócias e famílias proeminentes em áreas de lazer. - ela explica. - É uma ótima oportunidade para as nobres. - ela comenta sorrindo e eu limito-me em assentir.
Tudo aqui é diferente, extremamente diferente.
Minha cabeça está doendo.
- Quer dizer que durante esse todo tempo que é tal temporada, as mulheres aqui só se ocupam em tentar agradar algum homem para casar? - eu questiono-a e ela assente, como se fosse uma questão tola.
E isso me enfurece.
- Sim senhorita, todas as moças são preparadas para esse momento, se elas não conseguem um esposo, a sua reputação, a reputação de suas famílias ficam manchadas. - isso é radical.
- Simplesmente por não se casar? - eu questiono-a e ela assente.
- Sim senhorita, os casamentos aqui vão muito além do amor, e da paixão, eles formam alianças de extrema importância e assegura as nobres, e aos povos em questão. - ela fala seria, parecendo meio ofendida com as minhas questões.
- Me desculpe, eu não quero que entenda a minha curiosidade m*l. - eu falo. - Eu só acho errado subjugarem a razão de viver de uma moça simplesmente numa coisa tão vã que nem o casamento. - eu explico-me.
- Talvez seja vã para a senhorita, vã para as pessoas de sua terra, mas não é para nós. - ela explica. - Aqui ou a uma nobre adquire um título de poder que a assegure na sociedade, ou terá a sua reputação e a reputação da sua família completamente destruída, e consequentemente, povos sofrem, guerras surgem, isso pode ser vão para a senhorita, mas com quem uma nobre do nosso povo se casa, é uma aliança benéfica para nós ou uma promessa de destruição, é assim que as coisas funcionam aqui e no resto do mundo. - ela diz e eu senti que ela fez simplesmente um desabafo.
- Certo. - eu a respondo. - Eu percebi como as coisas funcionam aqui, Karen. - eu falo para ela, e o rubor no seu rosto se acumula nas suas bochechas.
- Não precisa ficar nervosa, eu acho que acabamos de ter um choque cultural agora. - eu falo na intenção de aliviar o clima e ela sorri olhando para baixo.
- Perdoe-me. - ela diz e eu sorrio.
- Está tudo bem. - eu falo para ela, e continuamos andando.
Está tudo bem...
Eu é que preciso meter na minha cabeça que estou séculos atrás do meu tempo, e obviamente eles não pensam como eu.
Eles ainda não sofreram todas as revoluções que o mundo sofreu, para pensar ou para o mundo agir de forma diferente dessa, completamente atordoante para mim.
Eu é que preciso entender isso.
Eu.