Celleney Peny.
Eu estava preparada para dizer que esse baile é mais aborrecido que as festas de gala que eu obrigatoriamente tinha de participar.
Os que não eram obrigatórios, obviamente eu não participava.
Mas não posso, porque o tanto de entretenimento que eu estou a ter, só ficando num canto, me esquivando de homens extremamente lindos e outros parecidos com o Shrek fisicamente, porque o Shrek é legal, é surreal.
As moças conseguem ser mais venenosas que as moças mais artilheiras que eu já encontrei, o que me surpreende é que elas aparentam ser inocentes fisicamente, comportadas, mas possuem dotes de atrizes, e são tão calculistas como um psicopata.
Além da que desmaiou na frente do Henrik, até agora que anoiteceu, e estão todos socializando no enorme e bem decorado jardim do palácio, desmaiaram mais umas três.
Um truque, visível, e fácil de ser descoberto porque as restantes moças ficam a sussurrar comentando sobre essa técnica inusitada para chamar atenção do bendito ser vivo que elas têm pretensão de chamar atenção e ter como pretendente ou isso.
Mas discretamente, pois elas têm de ser elegantes.
Toda uma coisa, que está me entretendo mais que novelas e filmes com os plots mais loucos existentes.
A Cora, encontrou as suas amigas, e eu fiquei aqui sozinha, num canto distante, sentindo o olhar da duquesa me controlando a distância.
Não posso entrar ainda, mas ao menos eu estou tomando vinho, olhando as estrelas que estão preenchendo o céu de forma exuberante, escutando uma orquestra tocar ao vivo, melodias surreais e escutando o drama gerado pelas moças aqui.
O Henrik está agora com quem eu presumo que sejam seus amigos pelo quão ele está interagindo e sorrindo na conversa, no outro canto do jardim.
Ele teve mais algumas interações com a Helena, mais do que ele teve com qualquer outra moça aqui, então presumo que ela seja o seu alvo.
Ela tem um estilo que com certeza, é aprovado pela Christine, tem o perfil perfeito para ser princesa de um reino como esse, ela e ele ficam bonitos ao lado um do outro, ela é linda.
Com certeza ela seria o alvo dele.
Mesmo eu sabendo que será só por isso que ele se casaria com ela.
Ele visivelmente não quer casar, ele é a personificação de m*l caminho, eu consigo identificar isso a quilómetros de distância.
Um super poder de única filha, e única neta que consegue dar mais dores de cabeça ao avô que todos os outros netos jamais deram mesmo sendo rapazes.
Mas isso não é da minha conta.
O Virgil está no mesmo grupo onde o Henrik está, antes estava flertando com uma moça, tal como o Charles que não sei onde está agora.
A Lyra está conversando com o Leopoldo e pelos seus olhos cintilando demonstra que a raiva dela sumiu.
Ficou nervosa sem motivo algum.
Enfim, eu desisti de ficar parada ali, estou exausta, então peguei a minha taça e fui caminhando para longe dali, se eu não posso ir para o quarto agora, eu posso ao menos tentar recordar-me do que estavam naqueles benditos papéis do meu avô, num local mais sossegado.
Assim o fiz e surpreendentemente, achei um balouço aqui, e sentei-me.
Estou exausta.
- Ufa… - eu balbucio sentindo os meus músculos relaxarem assim que me sento.
Levo o meu olhar até ao relógio no meu pulso, observando ele reluzir por conta da luz dos corpos celestes no céu.
- O baile não está do seu agrado, senhorita Celleney? - eu ouço a voz do Charles atrás de mim, e me viro sorrindo para ele que vem na minha direção.
- Eu preferia estar no quarto agora, mas o olhar da sua tia não me permite sequer ir para perto da porta. - eu o respondo, vendo ele com o seu charuto e eu me contento em tomar mais um gole do meu vinho o observando se sentar no balouço ao lado.
- Está com saudades do seu avô? - ele me questiona olhando para o relógio no meu pulso, e o meu coração até acelera.
- Eu estou. - afirmo, com todas as lembranças dele voltando a minha mente.
Eu suspiro fundo, porque não vou e não quero mais chorar por causa desse senhor que me abandonou sem aviso prévio.
Como se ele tivesse culpa…
Mas na minha cabeça, no meu coração inconformado ele tem.
Ele prometeu que nunca me abandonaria, e mesmo assim ele fez.
- Eu não entendo o porquê o mundo tem que ser assim. - eu comento com o meu peito apertando, sentindo lágrimas inundarem os meus olhos.
- Perder alguém tão próximo, é realmente complicado. - ele comenta e eu tomo mais do meu vinho, para evitar que eu chore. - A única coisa que nos resta fazer quando isso acontece é simplesmente parar de questionar o que jamais obteremos resposta, só assim a dor será minimizada. - ele diz e eu observo-o atentamente.
É mesmo…
Eles perderam os pais, o quão doloroso deve ser?
- Eu sinto muito. - eu falo e ele sorri, me observando.
Ele tem um sorriso tão bonito e dócil.
- Nós fomos criados preparados para isso. - ele explica, tomando mais um trago do seu charuto. - Não é necessariamente algo que nós queiramos que aconteça, mas crescemos nos preparando para esse dia. - ele diz e isso é triste.
Quer dizer, não é que ninguém saiba, que um dia todo o mundo vai morrer, mas isso não torna as coisas menos difíceis ou mais perceptíveis.
- Por conta de quem vocês são? - eu questiono, querendo que ele fale mais.
- Também. - ele diz, e eu o encaro curiosa. - Reinos como o nosso estão envolvidos em guerras, e ameaças constantes, mortes acontecem o tempo todo. - ele explica e por um instante eu tinha me esquecido que estou em mil oitocentos e quarenta e cinco.
- Eu sou o segundo na linha de sucessão, portanto eu fui preparado e criado para saber o necessário caso alguma coisa aconteça com o Henrik. - eu falo e isso é c***l.
- Isso é c***l. - eu falo e ele sorri.
- Porém, é assim que as coisas devem suceder. - ele afirma.
Você se prepara a vida inteira para tomar o lugar do seu irmão, caso alguma coisa aconteça com ele, é demais.
Eu o observo atónita, as coisas aqui são literalmente diferentes e simultaneamente similares ao que acontece na minha época.
- É… - eu balbucio. - Eu não tive o preparo de vocês. - eu falo para ele, e tomo mais do vinho.
E a minha mente não estava preparada para tomar o choque que tomou naquele maldito dia.
Eu sinto ele me observar curioso, mas não me questiona nada.
- Sempre que precisar conversar, pode falar comigo, eu ficarei feliz em ouvi-lá. - ele diz e eu sorrio pela empatia e carinho dele, vendo ele se levantar.
- Obrigada, você também. - eu falo. - Para onde está indo? - eu o questiono curioso.
- Não é apropriado que esteja aqui sozinha comigo. - ele diz e eu sinceramente não entendo essas regras, mas tudo bem.
- Tudo bem. - eu me limito em respondê-lo, ele oferece-me um sorriso e sai, em direção ao baile.
Afff…
Eu fiquei aqui puxando a minha memória para as coisas que eu me recordava, durante um bom tempo.
Com certeza eu não ousarei desmontar todo, ele.
Porque foi um sacrifício inclusive para o senhor Peny, fazer ele até onde ele deixou essa geringonça.
Eu não sei porque ele não está a funcionar, talvez eu tenha batido com ele, de alguma forma quando subitamente apareci naquela floresta, mas eu farei de onde eu peguei ele.
Não me posso aventurar a perder uma peça desse relógio sequer.