Celleney Peny.
Eles não se dirigiram a mim, apenas voltaram a entrar no palácio, conversando um com uns outros.
Eu não sou da família, o que mais eles falariam comigo?
Eu não estou com a minha família, não estou em casa, não estou com ninguém…
Estou aqui, sozinha.
Na minha solidão, e aqui.
- Senhorita Celleney. - eu ouço a Karen dizer aparecendo do meu lado, enquanto caminho atrás deles.
Na frente da família real, de mil oitocentos e quarenta e cinco.
Não basta eu estar longe da minha família, eu também estou no início do mundo e ninguém me convence do contrário.
Nem se eu vivesse cem anos, eu estaria perto do ano que eu pertenço.
E essa nem sequer é uma opção.
- Esteve deslumbrante essa noite. - ela elogia e eu sorrio em agradecimento para ela.
- Muito obrigada, Karen. - eu agradeço-lhe. - Você vai me ajudar a tirar esse vestido de mim, não? - eu a questiono com vontade de tirar esse vestido de mim aqui mesmo.
- Claro, senhorita. - ela diz disfarçando o riso.
Continuamos caminhando atrás deles, eu não sei se devo ir diretamente para o quarto, mas a esse ponto, não necessariamente estou me importando.
Eu sigo-os por um corredor do qual eu ainda não havia entrado, e vejo as enormes portas na frente sendo abertas revelando uma sala esplendorosa.
- Uau! - não consegui conter a admiração dentro de mim.
- Que lugar é esse? - eu questiono curiosa, vendo peças e decorações que com certeza, devem ser motivos de visita por lá, ou visitas de exposição.
- Nunca vou uma sala do trono antes? - a Lyra que estava mais próxima questiona, e eu suspiro fundo.
- Se eu perguntei. - eu respondo-lhe e vejo a mesma me ignorar, e eu reviro os olhos deixando-a estar.
Sala do trono, legal.
- Bem, eu vou me retirar, tenham uma boa noite. - com certeza não era suposto eu estar aqui e eu não quero estar aqui, e sim no quarto.
- O que achou do baile, Celleney? - a duquesa questiona, do nada antes de eu botar o meu pé para fora daqui e os pares de olhos coloridos vêm até mim.
- Bom, eu suponho. - eu respondo-a e ela assente, me observando de cima a baixo.
- Supõe? - ela questiona, e eu suspiro a encarando.
- Suponho, eu nunca estive nesse tipo de baile, eu não sei se esse foi bom ou não, porque não tenho com que comparar, duquesa. - eu falo e ela resolve ignorar.
- Chamou bastante atenção. - ela comenta e eu sorrio.
- Isso normalmente acontece. - eu respondo sorrindo, o Charles, e a Cora sorriem, o Virgil sorri da sua forma sarcástica, e a Lyra revira os olhos, quando o Henrik continuou me observando.
Não é nenhuma mentira.
- Isso quer dizer que obteve o que queria participando no baile? - ela questiona e eu sorrio a encarando.
- Não me diga que se esqueceu que mais cedo esteve no meu quarto praticamente me forçando para participar desse baile? - eu questiono-a e ela me observa.
- Com certeza. - a Lyra fala ironicamente e eu sorrio para ela.
- Sim, eu não estou desesperada por marido nenhum, e jamais me submeteria ao sacrifício de usar essa tonelada de roupas para atrair um, como você. - eu falo e a ironia estampada no rosto dela some gradualmente.
- Eu tenho certeza que não precisa mais de mim aqui e agora, eu vou me retirar. - eu falo voltando o meu olhar para a duquesa, que não falou nada, apenas ergueu em concordância as sobrancelhas por instantes.
Eu levo o meu olhar para o Henrik, que está com uma taça na sua mão.
- Boa noite! - eu desejo para eles.
- Boa noite! - eles me respondem menos a duquesa e a Lyra, que eu não faço questão e saio dali.
Caminhamos até ao meu quarto, e eu vejo a Karen inquieta.
- O que se passa? - eu questiono-a, vendo que ela quer falar alguma coisa enquanto entramos no quarto.
- Eh… realmente não pretende encontrar um marido, senhorita? - ela questiona, me seguindo para o cómodo onde fazemos a troca de roupas, não tenho certeza se devo chamá-lo de closet.
- Claro que não, você acha que alguém como eu e ainda da minha idade quer um sofrimento desses? - eu questiono-a, começando a desfazer-me desse aperto absurdo.
- Bem, a senhorita está na idade perfeita para se casar. - ela comenta, me recordando que aqui eles casam com dezoito ainda e acham a idade perfeita.
- Deixa eu contar-lhe uma coisa, Karen. - eu falo, me olhando no espelho enquanto ela desaperta o vestido e ela assente. - De onde eu venho, eu possuo muitos anos pela frente antes de me casar com alguém. - eu lhe digo, evitando falar muito.
- E o que faria durante esses anos, sem nenhum título para assegurá-la na sociedade. - eu sou o próprio título.
- Eu não preciso de título algum, nem que ninguém me assegure. - a única pessoa que fazia isso me deixou. - Não necessariamente você precisa se casar para ser alguém na sociedade, Karen. - eu falo, e vejo a face dela se tornar pensativa.
- Ufa! - eu exclamo, sentindo os meus órgãos regressarem aos seus lugares assim que o aperto do corpete é desfeito.
- Com certeza a senhorita não é daqui. - ela afirma, e eu sorrio.
Com certeza não sou.
A última parte pesada dessa vestimenta sai do meu corpo e eu me vejo como um ser humano liberto novamente.
- Obrigada. - eu a agradeço. - Pode ir descansar. - eu falo para ela.
- Não gostaria que eu a ajudasse com o seu banho? - ela questiona.
- Não é necessário, obrigada. - eu falo para ela, que assente.
- Tenha uma boa noite, senhorita. - ela deseja e eu assinto.
- Boa noite! - eu despeço-a e vou à casa de banho enquanto ela sai.
- Eu estou exausta, mas eu não durmo hoje até fazer você funcionar. - eu falo para essa geringonça, a deixando pousada aqui.
Paro na frente do espelho e faço duas tranças de cada lado do meu cabelo, e início um banho rápido.
Visto o vestido de noite que estava aqui separado e fui diretamente abrir o baú, e retirei a sacola me sentando no chão com ela.
Espalho as coisas no chão, tentando olhar melhor essas ferramentas, que não são próprias para o que eu preciso fazer, vendo quais serão as mais fáceis para tornar todo esse problema menos complicado.
- Eu preciso que você volte a fazer o que fez e me coloque onde me tirou. - eu falo para essa geringonça, girando a coroa dela, com esperança de que alguma coisa aconteça sem que eu precise abrir ele.
Mas obviamente que uma coisa que eu já fiz um milhão de vezes desde que cá cheguei, não ia funcionar justo agora.
- Certo, assim você não quer funcionar. - eu falo, pegando uma ferramenta para abrir o fundo de exposição do relógio, para iniciar a minha luta com todas essas peças.
- Apenas colabore. - eu falo, iniciando a minha batalha.
Com o máximo de cuidado possível, eu faço tudo, pois eu não posso arriscar perder a mínima peça que seja, nem sequer amolgar alguma coisa, não tenho como arranjar, ou como mandar procurarem material que precisa de escavações e laboratórios para me trazerem e que ainda me custará bilhões por aqui.
Olha a herdeira dos relógios, está sem peças e nem ferramentas para arranjar um que é pouco comum, que ironia.
Onde você estava com a cabeça senhor Peny?!
Eu não sei quanto tempo se passou, e eu fiz tudo o que achei que devia fazer.
Eu simplesmente estou sem instruções, sem rascunho, e sem entender exatamente como o meu avô fez tudo isso, eu estou apenas eu, a minha cabeça, e o que sei.
Eu ajeitei tudo que devia ter ajeitado e podia ser mexido por essas peças e então fechei novamente o relógio, com a esperança enorme que aconteça o mesmo que aconteceu na oficina.
- Que horas são? - eu me questiono com as minhas pálpebras pesadas, me sentando no chão e levantando a minha cabeça para o relógio na parede.
- Que m***a… - eu falo com toda a raiva da minha sonolência vindo a tona. - Maldita hora que eu estraguei esse relógio. - eu falo, me levantando, e colocando o relógio no pulso.
- Onde deve ser o quarto da Cora? - eu questiono-me, saindo do meu, porque eu me recuso a pregar os olhos antes de colocar o horário e aguardar para que tudo isso não passe de uma lembrança absurda, ainda hoje.
Por favor, funcione.