Celleney Peny.
Os guardas abrem as portas gigantes do escritório dele, e eu limito-me em entrar.
Ele estava em pé, pegando a sua taça, quando as portas foram fechadas atrás de mim.
- Você me chamou. - eu falo e ele finalmente levanta os olhos dele na minha direção, e eu tentei ler a sua expressão facial, mas ele aparenta estar...
Normal.
- E você veio. - ele me responde de maneira sarcástica levando a taça até a sua boca, e foi automático me lembrar do Virgil.
Todo esse sarcasmo deve ser de família.
- Sente-se. - ele diz e eu suspiro fundo, e faço o que ele disse.
- Vinho? - ele oferece-me, e por mais vontade que eu tenha de acabar uma garrafa de álcool agora, se ele for me mandar embora, é bom que eu esteja cem por cento sóbria.
- Não, obrigada. - eu o respondo e ele assente se sentando no seu lugar, com os seus olhos ainda em mim.
- Eu não sabia que gostava e sabia tanto sobre de cavalos. - ele comenta e eu encaro-o atentamente.
Ele está falando de maneira tão casual, que eu não tenho certeza do que ele está a tentar fazer.
- Você nunca me perguntou, Henrik. - eu o respondo e ele sorri, mas não um sorriso feliz.
- E o príncipe Leopoldo, questionou? - ele questiona e eu observo-o atentamente, procurando entender se essa foi alguma insinuação.
- Por quê? - eu questiono-o.
- Por favor, não responda a minha questão com outra. - ele diz e eu suspiro fundo, e eu coloco o meu cabelo detrás da orelha.
Eu o lavei quando chegamos e já secou uns setenta por cento.
Grande coisa, não tem secador...
Obviamente.
- Basicamente, ele questionou sim. - eu o respondo. - Está chateado por isso? - eu lhe questiono.
- Eu não estou chateado. - ele diz e eu abano ligeiramente a minha cabeça para ele, desentendida com o que ele está fazendo. - Mas eu gostaria de ter sabido disso, antes de qualquer um. - ele diz e eu sorrio franzindo o meu cenho.
- Eu não sabia que queria saber sobre o que eu gosto ou não, Henrik, me desculpe. - eu o respondo ironicamente. - Você também nunca me contou nada. - eu insinuo, e ele sorri.
- Eu não precisei. - ele diz. - Você soube que animal eu gosto, sem que eu contasse para você. - ele diz e eu dou de ombros.
- Não foi difícil, você tem detalhado literalmente um cavalo no seu relógio de bolso. - eu lhe digo. - E esculturas também. - eu falo observando o resto da sala e ele sorri.
- Você é observadora. - ele pontua e eu dou de ombros, relaxando os meus músculos que tensionaram quando o chanceler me chamou.
Acho que estamos tendo uma conversa casual apenas.
O engraçado é que ele me deixa nervosa e confortável com ele ao mesmo tempo, é louco.
- É um dom nato. - eu lhe respondo e eu suspiro. - Eu comecei com o hipismo quando tinha cinco anos. - eu lhe conto e ele escuta tomando mais do vinho na sua taça, com os seus olhos esmeralda em mim.
- E na nossa fazenda... - eu falo tentando ignorar memórias e pensamentos que vieram com tudo na minha cabeça. - Na fazenda da minha família, tem um estábulo maior que o da nossa casa, então eu tenho muito contacto com eles, e eu acabei sabendo mais sobre eles. - eu conto-o.
- Com que então a sua família possui uma fazenda? - ele questiona curioso.
- Mais de uma, na verdade, mas as outras são bem mais centrados no que é suposto ser uma fazenda, como produção de gado e alimentos, é gerido pelos meus primos. - eu lhe conto e ele assente e eu vejo um vestígio de confusão no seu rosto que desapareceu com a mesma rapidez que apareceu.
- Pode dizer-me qual é o nome dos seus pais? - ele questiona-me e eu suspiro o encarando.
- Quem disse que eu me sinto confortável com você, a ponto de dar a você todas as minhas informações, Henrik? - eu o questiono ironicamente e ele sorri de forma sarcástica tomando mais do vinho.
- Provavelmente a minha camisa e os meus lençóis que ficaram encharcados com as suas lágrimas, essa madrugada, senhorita Mille. - ele responde jogando na minha cara e o meu rosto queima.
Que jogada baixa.
- Quanto exagero, vossa alteza real. - eu o respondo e ele continua me observando.
Por que o meu coração está acelerando tanto assim?
Por Deus!
- Os nomes dos meus pais são Victoria Louise e Nathaniel James Mille. - eu lhe conto e ele assente, me observando atentamente ainda.
- E você morava com o seu avô? - ele me questiona e eu assinto.
- Sim. - eu afirmo. - Os meus pais são muito ocupados, então morar com o meu avô, foi uma ótima decisão para mim, para o meu avô e para eles. - muito melhor.
Ele assente positivamente.
- E você tinha mencionado que o seu avô era relojoeiro? - ele questiona e como eu explico para ele, que não só ele era, mas basicamente possui o maior império relojoeiro no mundo, na época?
Na minha época?
Não explico, porque não tem como eu falar disso com ele sem simplesmente falar mais do que devo.
- Basicamente. - eu o respondo, afinal, não é mentira.
- Henrik, está me interrogando? - eu o questiono querendo escapar dessas questões que eu estou sentindo que vão fazer com que eu acabe falando besteira.
- Eu só estou tentando saber mais sobre você, antes que qualquer um o faça. - ele diz e eu franzo o cenho, encarando-o.
- E porquê isso te incomodaria tanto? - eu lhe questiono.
- Provavelmente pelo facto de estar sob os meus cuidados e no meu palácio, e outra pessoa saber mais sobre você do que eu, que preciso de informações para ajudar você e não obtenho nenhuma, Celleney. - ele me responde e eu não entendo o porquê ele está assim.
- Ora, lamento imenso se tudo o que você me questionou foi de onde eu vim, e eu respondi o que sei, e que o Leopoldo questionou sobre mim, e acabou obtendo a resposta que ele quis saber, Henrik. - eu falo me levantando.
- Eu não ordenei que se levantasse. - ele diz.
- Você bem disse, eu estou sob os seus cuidados, eu não sou a sua serva, Henrik. - eu pontuo com o mesmo nível de chateação.
Acho que temos isso em comum também.
Ele é o primeiro filho de uma família e eu sou a primeira e única, eu consigo bater de frente com a personalidade dele, nós temos elas parecidas.
O meu olhar está cativado no dele, e por mais doce que achei que ele fosse ao momento em que ele me ajudou a entrar na sua carruagem.
Eu estranhamente estou gostando de saber que o único doce por aqui é o Charles.
- Se não estiver satisfeito com as minhas respostas, eu acho que poderá continuar me interrogando após o jantar. - eu falo para ele querendo acabar com essa tensão. - A sua família deve estar aguardando. - eu concluo, querendo sair daqui, antes que o motivo das dores de cabeça do Saul se manifestem aqui, quando não devem.
Porque eu tenho certeza que essa tensão insana, não é unilateral.
E não me parece que ele seja tão diferente de mim.
- Eu concordo. - ele responde exatamente como eu achei e eu assenti.
- Ótimo. - eu falo num fio de voz procurando ignorar o calor que está consumindo o meu corpo, já me direcionando para a porta.
Neyney, por céus e terras...