Luana
Passamos horas conversando, rindo e fofocando. As meninas eram daquele tipo que iluminava o ambiente. E foi aí que percebi o Lucas já coçando os olhinhos, dando sinais de sono.
Nayara era falante e debochada, Larissa toda fofinha mas com a língua mais afiada dali, Luma séria e sempre elegante, e Tainá… bom, Tainá era a mais escandalosa, já chegou se jogando na pista como se fosse dona do pagode.
Tainá: E aí, bora?
Ela chamou, já requebrando ao som do pandeiro.
Luana: O Lucas já tá querendo dormir.
Larissa: Vai dançar, mulher! Deixa ele comigo aqui. Ele dorme rapidinho.
Não resisti. Me deixei levar pela batucada, pelas risadas das meninas e pela energia boa do pagode. Tentei, de verdade, esquecer aquele olhar gelado que eu sentia do outro lado da quadra.
Mas era impossível.
Toda vez que eu levantava a cabeça… lá estava ele. Encostado, braços cruzados, me encarando com aquele sorrisinho maldito.
E eu, de propósito, dançava mais ainda. Sorria, levantava o copo, jogava o cabelo. Só pra mostrar que eu não tava nem aí. Que ele não me intimidava.
E, sinceramente?
Pela cara dele, minha estratégia tava funcionando. Cada novo olhar parecia mais irritado que o anterior.
De vez em quando, eu ouvia as meninas cochichando:
— O KN é muito gato, mas é todo marrento.
— Tu viu como ele só olha pra Luana? Tá de olho nela.
Eu fingia que não escutava. Não queria dar moral.
Mas por dentro… meu coração batia rápido.
Mais de raiva que de qualquer outra coisa.
Era só o começo dessa implicância toda. E eu não ia dar trégua pra ele tão cedo.
Voltei pra perto da Camila tentando disfarçar o fogo no peito. Ela me olhou com um sorrisinho m*****o.
Luana: Nem começa, Camila.
Camila: Tá bom, tá bom… — ela riu. — Mas que ele ficou te olhando, ficou.
Fiz careta, pegando meu copo.
Luana: Problema dele.
Fingindo que não ligava — mesmo com aquele fogo queimando mais forte a cada vez que ele me encarava.
Ele tava ali, parado, como se o mundo inteiro tivesse sumido e só sobrasse eu.
E eu não ia dar esse gostinho.
Dancei, ri com as meninas, olhei Lucas dormindo no colo da Larissa. Tudo estava em paz…
Até que a roda de pagode abriu no meio da quadra. O pessoal começou a improvisar um samba, e todo mundo se juntou pra dançar.
Camila me puxou, e eu fui. Me soltei, rodando com ela.
E então alguém esbarrou forte no meu ombro.
Virei já pronta pra xingar — e dei de cara com ele.
Luana: Não olha por onde anda, não?
falei firme, encarando.
Ele ergueu uma sobrancelha, devagar.
KN: Quem não olha é tu.
E ainda ficou parado ali, perto demais, me encarando como se não tivesse mais ninguém naquele pagode além da gente.
Luana: Vai arrumar outra pra encher o saco.
rebati, dando um passo pra trás.
Ele riu de lado, provocador.
KN: Tu se acha demais, hein. Só não esquece quem manda aqui… e com quem tu tá falando.
Luana: Manda aqui, mas não manda em mim.
O sorriso dele cresceu, torto, irritante. Ele ficou me encarando por alguns segundos, até um dos caras dele chamar.
Só aí ele se afastou, deixando aquele clima pesado no ar.
Voltei bufando pra perto da Camila. Ela riu.
Camila: Tu ainda vai matar ele do coração, amiga.
Luana: Não fala isso nem de brincadeira.
Mas por dentro… eu sabia que isso não ia parar ali.
Era só o começo.
(...)
O pagode já tinha terminado quando a Camila finalmente me arrastou pra casa.
Lucas dormia pesado no meu colo, cabecinha caída no meu ombro, mãozinha segurando a alça da bolsa.
Larissa dirigia devagar, rindo com a Camila.
Eu só embalava o Lucas, quieta, perdida nos meus pensamentos.
Cada vez que eu fechava os olhos, via ele na minha cabeça.
O jeito que me olhou.
A postura de dono da p***a toda.
A provocação.
A risadinha torta que me irritava de um jeito que eu não sabia explicar.
Ou melhor… eu queria acreditar que era só irritação.
Camila: Ei, Luana… tá me ouvindo?
Luana: Hã? Oi. Tava pensando.
Ela e Larissa trocaram olhares, quase rindo.
Camila: Sei… pensando.
Larissa: A gente sabe bem em quem, viu?
Luana: Aff…
Revirei os olhos, mas elas só riram mais.
Quando cheguei em casa, subi com Lucas no colo. Deitei ele na cama devagar. Tirei a roupinha, cobri, passei a mão no cabelinho dele.
Luana: Dorme bem, meu amor. A mamãe tá aqui.
Fiquei alguns segundos ali, só olhando ele dormir.
Era meu mundo inteiro.
E eu ia proteger esse mundo com tudo que eu tinha.
Fui tomar um banho quente, tentando lavar também a confusão dentro de mim. Mas não adiantou.
Por mais que eu tentasse… ele voltava.
O olhar.
O sorriso torto.
A voz provocadora.
Me vesti com uma camiseta larga e um short confortável. Deitei na cama, ouvindo a respiração do Lucas, e aquelas palavras dele ecoaram na minha mente:
"Tu é cheia de marra mermo, hein."
"Faz o que tu quiser."
Fechei os olhos, apertando o travesseiro.
Não.
Não era nada.
Ele era só um i****a que gostava de me irritar.
Só raiva.
Só isso.
Pelo menos era o que eu queria acreditar.
Mas, lá no fundo — bem no fundo — uma vozinha dizia que não era só raiva.
E era isso que me deixava mais nervosa ainda.