Luana
Eu estava sentada no chão do quarto, dobrando as roupinhas do Lucas.
Ele dormia tranquilo na cama, daquele jeitinho sereno que só ele tem, e eu olhava pra ele de tempos em tempos, sorrindo sozinha.
O quarto tava uma bagunça desde cedo — fraldas, paninhos, brinquedos espalhados pelo chão — mas eu já tava acostumada. Ser mãe era isso: caos e amor misturados o tempo todo. E por mais cansada que eu ficasse, bastava ver aquele menino respirando pesado pra valer tudo.
— Mamãe te ama, sabia? — murmurei baixinho, mesmo sabendo que ele não ia ouvir.
A porta se abriu de repente e a Camila entrou falando alto:
Camila: Pagode hoje, hein!
Luana: Quero sair hoje não, Cami.
Camila: Hoje vai ter pagode lá embaixo… e a gente vai, óbvio.
Revirei os olhos, rindo de leve.
Luana: Camila, eu nem posso ficar inventando moda agora. Olha isso aqui.
Apontei pro Lucas dormindo.
Ela se aproximou, olhou pra ele e fez carinho de leve na bochechinha dele.
Camila: Amiga, ele tá dormindo, e até de noite já descansou. Leva ele! A gente não vai ficar horas. Para de desculpa.
Ela me olhou com aquela cara sapeca.
— Você tá precisando se divertir um pouco.
Suspirei. No fundo, ela tinha razão. Eu andava me enterrando demais… e eu era festeira antigamente. Antes de ter o Lucas.
Luana: Não sei não…
Voltei a dobrar um macacãozinho azul.
Camila bateu palmas, decidida:
Camila: Eu sei! Você vai. Já até separei um short com um cropped apertadinho que vai ficar perfeito em você. Bora viver um pouco, mulher! E por lá vende um monte de coisa pra lanchar, tu compra pro Luquinhas.
Ela saiu do quarto gritando, e eu sorri de canto.
— Camila: Nem adianta reclamar!
Fiquei olhando pro espelho, tentando me convencer. No fundo, eu tava até animada pra sentir de novo aquela vibe boa de um pagode. Talvez até esquecer meus problemas.
Mas junto com a animação veio um frio na barriga… porque eu já sabia quem ia estar lá também.
O dono do morro.
Só de lembrar o jeito que ele me olhou ontem… me dava raiva. Marrento, arrogante, cara de dono da p***a toda. Achando que todo mundo tem que abaixar a cabeça pra ele.
Comigo não.
(...)
Lucas tava assistindo desenho no meu celular. Eu já tinha arrumado ele.
Tomei banho, arrumei o cabelo, passei óleo nas pontas. Vesti calcinha, sutiã, um short jeans preto e um cropped branco justo. Coloquei meu cinto, minha papete, fiz uma maquiagem básica e finalizei com um batom vermelho mais escuro.
Passei hidratante, perfume e coloquei minhas pulseiras, colar e anel.
Olhei no espelho mais uma vez antes de pegar a bolsa e sair do quarto.
Desci as escadas e a Camila já tava pronta, com um vestido preto justo.
Camila: Eu disse que tu ia ficar linda.
Luana: Para, né. Você também tá bonita.
E fomos para o pagode.
(...)
A música já dava pra ouvir do alto da ladeira. O som batia no peito: batucada, risadas, copos tilintando. O morro inteiro parecia ter descido pra curtir.
Eu e a Camila fomos juntas. Ela animada, cumprimentando todo mundo. Eu mais na minha, com o coração acelerado — não pelo pagode, mas pelo que eu já sabia que ia acontecer.
Lucas ia caminhando segurando minha mão, mochila nas costas.
Camila: Vamos, Luana! Para de andar devagar!
Ela me puxou pra roda.
O lugar tava cheio, iluminado com luzes improvisadas. Um grupo tocava no canto da quadra. Mesas lotadas, gente bebendo e cantando junto. Respirei fundo e tentei entrar no clima.
Aceitei o copo que a Camila me deu. O gole gelado me ajudou a relaxar. Até esqueci, por um instante, de quem eu estava “não” querendo encontrar.
Mas foi só levantar o olhar.
Lá estava ele.
Encostado num canto, cercado pelos amigos e com uma garota abraçada. Camisa preta, bermuda jeans, corrente brilhando no pescoço, aquele olhar gelado varrendo o lugar como se fosse dele — e a glock atravessada na cintura.
E quando os olhos dele encontraram os meus…
Que ódio.
Ele ergueu a sobrancelha e abriu um meio sorriso debochado.
Revirei os olhos e virei a cara na hora, tomando outro gole pra disfarçar.
Quem ele pensa que é?
Lucas sentou no meu colo comendo salgadinho que a Camila comprou pra ele.
Camila: Amiga… ele tá te olhando.
Luana: Deixa ele. Ele acha que manda aqui.
Camila: Não acha, amiga. Ele manda.
Luana: Pois comigo ele não manda nada.
De vez em quando eu sentia o olhar dele queimando de longe. Eu fazia questão de não dar moral.
Até que, na terceira ou quarta música, fui pegar outra bebida — e dei de cara com ele no meio do caminho. A Camila ficou com o Lucas.
Ele só me encarou, de cima a baixo, sorrindo torto.
Luana: Vai ficar no caminho ou vai sair?
soltei, seca.
Ele riu baixo.
KN: Tu é cheia de marra mesmo, hein?
Cruzei os braços.
Luana: E tu é cheio de se achar. Vai sair ou não?
Ele ergueu as mãos, dando espaço — mas sem tirar os olhos de mim.
KN: Faz o que tu quiser, mina.
Passei sem olhar pra trás, com o coração acelerado de raiva.
Aquele cara era insuportável.
De longe, ouvi ele rir de novo. A vontade era tacar a cerveja na cara dele — mas me segurei.
Ele não ia ter o que tava acostumado: mulher abaixando a cabeça.
Eu não era assim.
Eu não sou todo mundo.
E ele ia aprender isso — nem que fosse na marra.
Voltei pra mesa bufando. A Camila ria.
Luana: Qual é a graça?
Camila: A graça é tu, mulher! Essa tua marra aí. Ele fica te olhando como se nunca tivesse visto uma dessas por aqui.
Luana: Que se dane ele.
Antes que ela respondesse, várias vozes animadas surgiram atrás.
Camila: Olha quem chegou!
Ela largou o copo e correu pra abraçar quatro meninas.
Nayara: Chegamos pra salvar a noite!
Camila: Lu, essas são Nayara, Larissa, Tainá e Luma.
Sorri de leve.
Elas todas simpáticas, já entrando no papo.