cap 05 não vai me dominar

758 Palavras
KN Acordei cedo no dia seguinte, antes mesmo do despertador tocar. Já era costume. Banho frio, roupa preta básica, corrente no pescoço, kenner no pé. Antes de sair do quarto, dei uma última olhada no espelho: olhar duro, semblante fechado. Do jeito que tem que ser pra ninguém ousar duvidar de mim. Dona Marlene já tava acordada preparando o café. Vanessa ainda dormia no sofá, enrolada num cobertor, cabelo todo bagunçado. Dei um leve chute no pé dela, só pra provocar. KN: Levanta, preguiçosa. Tu não vai pro teu curso, não? Ela só resmungou e virou pro outro lado. Peguei o copo de café puro que dona Marlene serviu, agradeci num tom baixo e saí. Lá fora, o morro já começava a ganhar vida. Molecada na esquina, criançada correndo atrás de pipa, o som batendo pesado vindo da birosca. Eu observava tudo em silêncio, como sempre. Encontrei o W7 e o Paiva no bar do Zeca, como combinado. Já estavam lá, jogando dominó e rindo alto. Quando me viram chegando, a zoeira começou na hora. Paiva: Salve, irmão! Aí… fala pra nós: sonhou com a marrenta? W7: Ih, certeza! Num para de pensar nela não, hein! Parei em frente à mesa, sério. KN: Já falei pra vocês pararem com essa palhaçada. Tá ficando chato. Paiva: Relaxa… — ele ergueu as mãos, mas manteve a malícia no olhar. — Só acho estranho tu nunca se importar com nada, mas com essa aí tu tá até irritado. Sinal de que mexeu contigo, né não? Cerrei a mandíbula. KN: Já falei: só tenho olhos pra Andressa. Mais ninguém. Essa história aí já morreu. Entendeu? W7: Entendemos… — murmurou, sorrindo torto. — Mas tua cara diz outra coisa. Puxei a ficha da mão dele e joguei a partida, só pra mudar de assunto. Mas por dentro… eu sabia que ele tava certo. Aquela mina mexeu comigo de um jeito que eu não gostava. E talvez fosse justamente por isso que eu tava implicando tanto. Eu não aceito ninguém me desafiar. Eu não aceito ninguém me tirar do controle. E eu já sabia: se ela cruzasse meu caminho de novo, ia ser só pra eu mostrar quem manda nesse jogo. Por enquanto, eu fingia que não era nada. Por enquanto. Depois de ganhar a partida — como sempre — levantei da mesa e dei as ordens: KN: Bora organizar a entrega de hoje. Sem vacilo. Eles levantaram na hora. Comigo ninguém enrola. Disciplina é lei. Desci pra boca pra conferir tudo de perto. Cumprimentei os vapores, revisei o estoque, acertei as contas com o DJ, conferi o que precisava pra semana seguinte. Nada passa sem eu ver. Nada fica no improviso. É por isso que o morro é meu. Mas enquanto eu andava pela laje olhando o movimento lá embaixo, a maldita imagem da marrenta voltou na minha mente. O jeito que ela me encarou. O queixo levemente erguido. Como se dissesse: “E daí que você é o dono daqui?” Aquilo corroía. Eu odiava gente folgada. Mas nela… parecia diferente. Sacudi a cabeça, expulsando o pensamento. Peguei o celular. Uma mensagem da Andressa. Andressa: Vem pra minha casa hoje? Fiquei olhando a tela por alguns segundos. Andressa era bonita, mas às vezes me cansava. Falava demais quando precisava calar e calava quando eu queria ouvir. Respondi seco: Você: Mais tarde. Tô no trampo. Guardei o celular e subi mais um beco, resolvendo problemas de fronteira, conversando com os mais antigos. Mas por dentro, eu tava inquieto. Aquela mina tinha espaço na minha cabeça. Espaço que não devia ter. E isso me irritava mais do que tudo. (...) À noite, quando cheguei em casa, encontrei Vanessa no mesmo sofá de sempre, com um balde de pipoca no colo. KN: Tá virando móvel da sala, é? Vanessa: Ué, tu só vive na rua. Alguém tem que dar vida pra essa casa. Dei um tapa leve na cabeça dela e subi pro meu quarto. Dona Marlene já tinha deixado o jantar pronto. Só agradeci de longe. Tranquei a porta e me joguei na cama. Outra mensagem da Andressa: queria saber que horas eu ia passar lá. Suspirei fundo. Você: Chego mais tarde. Fiquei olhando pro teto, tentando me forçar a pensar no que realmente importava: dinheiro, carga, polícia, inimigo, Andressa… Mas a única coisa que aparecia na minha mente era ela. A marrenta. Com aquele olhar desafiador. Fechei os punhos, irritado comigo mesmo. Eu não ia deixar isso me dominar. Não ia cair nessa provocação. Pelo menos…era isso que eu dizia pra mim mesmo.
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