cap 04 eu não vou facilitar

970 Palavras
KN O sol já tava queimando quando eu cheguei na boca. Ainda carregava no corpo o cheiro doce daquela casa, mas na mente só vinha a cara marrenta daquela mina. Encostei no canto da laje, cigarro na mão, e fiquei olhando o movimento. Os moleques já me esperavam, cada um com um papo furado diferente pra me contar. Tralha: Aí, chefe… o Neguinho já falou contigo? — perguntou, rindo com malícia. — Aquela mina que ele comentou… disseram que é uma gata. Soltei a fumaça devagar, dando um meio sorriso, mas sem muita paciência. KN: Já. Falou. Respondi seco. Os caras se aproximaram mais, em roda, como sempre. Assunto de homem aqui sempre termina do mesmo jeito: mulher. Neguinho: Chefe, é verdade que ela ficou te encarando? — perguntou curioso, ajeitando o boné na cabeça. Dei uma tragada longa antes de responder. KN: Ficou. Nariz empinado, pose de quem se acha a última bolacha do pacote. Marrenta… e bonita, não vou mentir. A mina é bonita demais. Mas eu não me importei, não. W7: Não se importou? — W7 arqueou a sobrancelha, debochado. — Então por que tu tá falando nela até agora? A rodinha caiu na risada. Encarei o W7 firme, só pra cortar o clima. KN: Eu não quero essa mina aqui no meu morro. É só isso que vocês precisam saber. Falei grosso. Já tem gente demais querendo dar show por aqui. Não preciso de mais uma com nariz empinado pra me encher o saco. Os moleques se olharam, alguns seguraram o riso, mas ninguém falou nada… até que o Paiva abriu a boca. Paiva: Tá, mas por quê? Fala pra nós aí… por que tu ficou mexido com essa mina, hein? Respirei fundo, joguei o cigarro no chão e esmaguei a ponta com a biqueira da Kenner. Olhei pro Paiva por alguns segundos antes de responder: KN: Eu tenho olhos só pra Andressa. Mais ninguém. Neguinho: Aquela abusada… — murmurou, já rindo. Minha voz saiu firme, como sempre. E eu acreditava nisso. Ou pelo menos… queria acreditar. Porque, lá no fundo, bem no fundo, a cena dela me encarando não saía da minha cabeça. Aquele olhar desafiador. Como se não tivesse medo de mim nem do meu nome. Mas eu não ia deixar isso aparecer pros mano. Quem manda aqui sou eu. Quem controla o jogo… sou eu. A conversa seguiu, a gente resolveu o movimento do dia, e quando a tarde caiu eu decidi ir pra casa. Despedi dos caras, dei as ordens e subi as vielas do morro. Quando abri o portão de casa, a primeira coisa que vi foi a Vanessa largada no sofá, mexendo no celular. Minha irmã parecia nem notar minha presença. KN: Fala, cu de sapo. — falei sorrindo, passando a mão na cabeça dela. Ela resmungou alguma coisa, sem tirar os olhos da tela. Mais ao fundo, ouvi barulho de panela. Dona Marlene estava na cozinha, de avental, cuidando de tudo. Aquela mulher era praticamente família. Anos cuidando da casa, da comida, da roupa… sempre discreta, sempre no lugar dela. Eu considerava como mãe. Tomei um banho, troquei de roupa e sentei à mesa da cozinha enquanto ela servia o jantar. Mesmo com a cabeça cheia, agradeci baixinho quando ela colocou o prato na minha frente. KN: Obrigado, minha velha. Marlene: Imagina, meu menino. Tu anda sumido demais, viu? Não esquece que precisa comer direito. Sorri de canto, mas não respondi. Comi calado, enquanto a Vanessa ria sozinha na sala, provavelmente vendo algum vídeo i****a. E no meio daquele silêncio, com cheiro de arroz quentinho e feijão no ar… ela voltou na minha mente. A marrenta. O olhar desafiador. Fechei a mão na mesa, os dedos apertando com força. Eu não queria ela aqui. Mas sabia que esquecer aquela mina não ia ser tão fácil quanto eu desejava. (...) Terminei o prato em silêncio, agradeci e fui pra sala. Me joguei na poltrona e fiquei observando a Vanessa rindo. Ela me olhou de canto, desconfiada. Vanessa: Que foi, cabeçudo? Tá com cara feia por quê? — perguntou, largando o celular no colo. KN: Nada não — respondi seco, pegando o controle da TV só pra fingir que não tava pensando besteira. Vanessa: Sei… — ela riu debochada. — Tá com cara de quem tá pensando besteira sim. Deve ser a Andressa, né? Franzi a testa na hora, deixando claro que o assunto Andressa não cabia naquela conversa. KN: Vai cuidar da tua vida, Vanessa. Ela riu, acostumada com meu jeito. Subi pro quarto e me joguei na cama, ainda vestido. Fechei os olhos, tentando descansar… mas a cara da marrenta voltava toda hora. Ela me olhou daquele jeito, como quem queria me desafiar. E eu odiei isso. KN: Não quero essa mina aqui… — murmurei pra mim mesmo, quase numa promessa. Mas eu me conhecia. Quanto mais alguém me peitava, mais eu fazia questão de mostrar quem mandava. Peguei o celular e mandei mensagem pro Neguinho. WhatsApp Você: Se essa mina pisar aqui de novo, já deixa avisado: não quero gracinha nem showzinho. Ela não vai me tirar do sério, não. Neguinho: Iiiih, chefe… eu tava falando com a Cami sobre tu não ter gostado da amiga dela no morro, né. Ela disse que a amiga vai passar uns dias aqui no Vidigal. Você: Que merda. Larguei o celular na cama e virei pro lado. Mas mesmo assim, lá no fundo, eu já sabia: Ela tinha mexido comigo. E o que eu mais odiava era admitir isso — mesmo que só pra mim. Porque eu tava curioso. Curioso pra ver até onde essa provocação ia dar. E eu não ia recuar. E tinha certeza que ela também não ia… eu acho. Por isso mesmo, essa história tava só começando. E eu não ia facilitar pra ela nem um pouco.
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