Seis Macarons - parte 1

2668 Palavras
DE FATO, A VIDA É REALMENTE UMA d***a. E, todos nós, ou a grande maioria, acaba por cair em um vício incontrolável pela grande procura da felicidade a cada segundo de nossa insignificante existência. Apesar de tanto sofrimento e decepção, os seres humanos continuam a lutar por sua sobrevivência, por mais irrelevante que seja. Nós não somos o centro do universo ou os mais importantes dele. É aterrorizante, mas incrível ao mesmo tempo. Há aqueles que ainda dizem que não têm medo da morte, porém talvez isso seja um grande erro. O medo é o que nos mantêm em alerta. Admito, estou inclusa no enorme grupo de viciados em viver. Não tive uma vida grande e notável até hoje. Por vinte e sete anos, morei apenas com minha mãe. Há quase dois anos, finalmente me casei com Bud Alfred, o homem que namorei por quatro anos, e fiquei grávida logo em seguida. Ainda é difícil morar longe de minha mãe, mas, nós tentamos anular essa distância com duas visitas durante o ano e chamadas por telefone. Minha vida virou, definitivamente, de cabeça para baixo; ser mãe não é tarefa fácil. Esposa, muito menos. -Quem vai? -Bud sussurrou em meu ouvido, às 3 da madrugada. Charles chorava. -Se você fosse, ficaria agradecida. -falei, ainda com os olhos fechados. -Você precisa escovar os dentes. -ele disse, m*l-humorado. -E você precisa pegar o seu filho. -retruquei, sorrindo. Dei dois tapas leves em suas costas. Continuei deitada, com as mãos nos ouvidos, tentando dormir ao som das gritarias de Charlie. Bud voltou para o quarto com nosso filho nos braços, irritado. Estava de pé, ao lado do guarda-roupa, próximo a porta. -Ali, por favor, dê um jeito nisso. Preciso dormir mais uma hora, pelo menos. -Mas você disse que iria. -resmunguei, ainda sem abrir os olhos. -E eu fui. Agora você resolve, Ali. Eu não tenho p****s. -Deixei uma mamadeira pronta. Está na bancada da cozinha. -Não, levante e amamente o seu filho -ele disse, rude. Abri os meus olhos, estranhando. -Por que tanta ignorância? Por Deus, Bud. Três passos e você chega na cozinha. -Eu não vou. -ele gritou, irritado. As luzes do quarto foram acesas por ele. Charlie parou de chorar, de repente. -O seu grito cessou o dele. -falei sorrindo, levantei-me da cama. -Pegue o seu filho. -Bud resmungou, quando Charles pulou para o meu colo. -Meu filho? Eu não fiz sozinha. -revirei os olhos, enxugando as lágrimas dele. -Tem razão. Você tem toda razão, Alison Fields. -ele disse de forma séria, voltando para a cama. -Qual é o seu problema? -insultei-o, dando de ombros. Charlie, com suas pequenas mãos, procurava os meus s***s. Apaguei as luzes do quarto e fui para sala. Sentei em um dos sofás e comecei a amamentar. Era difícil, mas gratificante ao mesmo tempo. Ser mãe é algo inexplicável. Ser casada é algo inexplicavelmente estressante. -Precisamos conversar. -Bud apareceu diante de nós, repentinamente. -Você vai trabalhar daqui a pouco. Não precisamos brigar agora. -Não esquenta, essa será a última briga. -Bud, por favor... Charlie está quase dormindo. -Apenas escute, tudo bem? Não me interrompa antes que eu termine. -Okay. -disse, triste. Charles fechara os olhos. -Então, eu planejava contar isso desde... Bem, desde que eu te conheci. -ele acalmou-se, sentando-se no outro sofá. -E, foi um erro, claro. Mas, Ali... Eu... -Fala de uma vez. -eu o encorajei, mesmo nervosa. -Eu sou infértil. Eu ia dizer isso a você quando estávamos namorando, mas fiquei com medo. Você poderia me largar, e eu estava muito apaixonado. E depois quando você me contou que estava grávida, não tive coragem. Eu estava feliz, achei tivesse acontecido um milagre. Que eu consegui, finalmente, ser pai. Mas, não aconteceu. Eu adiei isso, e acabei refazendo os exames recentemente. Sou infértil. Você me traiu, Alison. Charlie é de algum filho da p**a que te comeu às escondidas. E eu estou sustentando o filho dele. A vida é uma d***a. Eu não posso simplesmente dizer que tudo está bem, que, automaticamente, o caos retorna por conta própria. Não soube o que dizer. Depois de alguns minutos em silêncio, comecei a chorar. Meu corpo tremia. Eu pensava em como Bud era um filho da p**a e como eu me odiava. Não podia falar dele, afinal. Nós erramos. Acho que somos todos miseráveis. -Como assim você casa comigo sem dizer que não pode ter filhos? -falei, em um fio de voz. -Como você transou com outro cara qualquer e não me disse? Faz parte do relacionamento, Ali. Nós contamos com quem transamos. -sarcástico, ele se levantou do sofá. -Sei que estou errada, mas você não deveria. Não deveria, Bud. -desabei, deixando Charlie deitado no sofá. Levantei-me, indo atrás de Bud, que caminhava até o quarto. -Você sabia que esse era um sonho meu. Como você podia me ouvir dizer que queria ser mãe e não falar nada? -adentrei em nosso quarto, áspera. -Então você não me amava, certo? Casou comigo ou com o meu pênis? Acho que eu sou um pênis ambulante. Você casou com o meu pênis, Alison. Casou para ter o poder de fazer como mágica que sua barriga crescesse um filhotinho. -ele gritou, dando ênfase a última palavra. Segurou em meus ombros, chacoalhando-me levemente. -Não, não. Bud, não foi isso. Eu te amo. -chorava, desesperada, sem ser capaz de olhar em seus olhos. -Peço desculpas. Eu não deveria ter feito isso. Nada disso, inclusive ter me casado com você. Espero que você e o seu filho fiquem bem. Eu vou embora. -Bud, você é o pai. Bud, por favor. -supliquei, quando ele finalmente largou-me. -Eu não sou, Ali. -ele virou-se, abrindo as portas do armário. Retirava todas as suas roupas e pertences pessoais e os jogava na cama. A mala estava no chão, já semi-aberta. -Nós podemos esquecer os nossos erros. Eu lhe perdoo, e você também me perdoa. -Ali, acabou. Acabou. Você por ficar aqui até ter um lugar para ficar. Só espero que não demore muito. -ele disse, e pude notar que também chorava. Olhei para a porta do quarto, Charlie estava lá. Bud não se despediu de Charles, que chorou pela ida do pai, mesmo sem entender. Não houve abraços, nem nada parecido. Foi doloroso, de longe, um dos piores momentos de minha vida. Quando acordei, liguei rapidamente para o Kingsway Hall. Ainda estava em choque, mas tudo acalmou-se quando ouvi uma velha voz amiga. -Amy? Sou eu, Ali. -Ali, quanto tempo! O que aconteceu? Você abandonou todas nós, suas velhas amigas do Kingsway. -Me desculpe, eu ainda não me acostumei com minha nova rotina. Ser mãe é mais difícil do que eu pensava. -E como está o pequeno? Já deve estar enorme. -Está ótimo. Lindo, Amy. -A sua voz está estranha. Está tudo bem? -Amy perguntou, desconfiada. -Eu posso explicar depois. Agora, eu preciso de um favor seu. Urgente. -Okay, mas você não irá escapar. Você parece ter chorado a noite inteira. -Pesquise por algum Edward que tenha se hospedado aí no hotel em 05 de setembro de 2000. Foi o dia que eu deixei o meu emprego no Kings. Preciso do endereço dele, e de algum telefone. -Eu lembro. Bem, tudo bem. Mas, acho que me lembro desse homem. Por que quer os dados dele? -Depois, Amy. Por favor, é muito urgente. Após alguns minutos, recebi o endereço de Edward e mais dois números de telefone celular. Despedi-me rapidamente de Amy, respirando fundo para digitar cada um daqueles números. Não estava preparada para aquilo. E não queria, mas, deveria. A voz forte e jovem de Ed contagiou-me no mesmo segundo, mais uma vez. Demorei alguns segundos para responder. -Oi. É, sou eu. -Eu quem? É um trote? -Não, Ed. Não. -Sua voz não me é tão estranha, sabia? -Désolé. Suis-je, se souvenir de moi? -c*****o. -ele gritou, pausadamente. -Alison, é você. Eu não entendi o que você falou, mas sei que é você. -Perguntei se você lembra de mim. -disse, entre risadas. -Mas, é claro. Como esquecer de uma pessoa que me passou a perna brilhantemente? Eu sou praticamente seu fã. -Desculpe por isso. Quer dizer, você merecia. -É, eu merecia mesmo. Estou surpreso. Por que me ligou? Aquela sua saída de mestre foi simplesmente perfeita. Agora que você voltou atrás, eu voltei a ser o rei da enganação. Ou traição, que seja. -Ed, eu liguei por um assunto muito sério. Nós precisamos nos ver. -Quê? Nunca. Você é casada agora. Não que isso seja um obstáculo, mas... -E eu tenho um filho. -E você tem um filho. Eu tenho dois filhos. É, nós não podemos nos ver mais. -Você não tem dois, Edward. Tem três. -Que p***a é essa, Alison? -ele disse, de forma tão engraçada que não pude deixar de rir. -Isso é sério, Ed. Ele tem pouco mais de um ano. -c*****o. c*****o. Alison, como? Por que não é do seu marido? -Eu queria conversar isso pessoalmente, na verdade. -disse, aflita. -Se eu pudesse voar, juro que iria agora mesmo. Naquele ano, Edward morava no Canadá. Quando nos conhecemos, eu morava em Londres, na casa de minha mãe, bem próximo ao Kingsway. Depois de me casar com Bud, mudei-me para LA, terra natal dele. Foi uma mudança bastante grandiosa, assim como a viagem que Ed faria para encontrar o nosso filho. Dois meses depois, ele finalmente chegou à sua viagem de negócios. O nosso reencontro foi estranhamente emocionante. Percebi que sentia saudades de seu sorriso. E dele. -Il est un plaisir de le voir. -ele falou ao chegar, com seu péssimo francês, fazendo-me rir. -É um grande prazer revê-lo também, Ed. -Não corta o clima, poxa. Eu treinei essa frase a viagem toda para provar que aprendi francês. -Ainda é péssimo. -Eu sei. Bem, onde está meu filho? -Dormindo. Já viu que horas são? -Onze e quinze. Para os meu gêmeos, isso é cedo. São muito elétricos. -Você tem gêmeos? Que incrível, Ed. -disse, surpresa. -Pois é. O plano era ter um. Mas, você sabe, agora são 3. A vida tem dessas. -Eu sei, ela é uma d***a. Vamos entrar? -disse, quando finalmente saímos do elevador no 16º andar. O apartamento era exatamente de frente para a saída do elevador. Quando pus uma das chaves na fechadura, Ed interrompeu-me. -Ei, nós já vamos entrar no seu apartamento. Você ainda não me deu um abraço. -Ed, não dificulta as coisas. Eu já estou fazendo demais deixando você ficar aqui. Eu entendo, você precisa economizar e... -Não preciso. Só disse isso porque não queria ficar no hotel. Queria ficar mais próximo de você. E do Charlie. -Por que mentiu? Não podemos continuar assim, mentindo. Nós temos um filho agora, Ed. Estaremos ligados para sempre. Espero que você colabore. -Você quer que eu vá para um hotel? Eu vou, agora mesmo. -ele perguntou, com uma expressão adorável. Suas mãos pousaram sobre sua mala. -i****a. -resmunguei, finalmente abrindo a porta. Em silêncio, Edward e eu fomos ao quarto de Charlie. Ele dormia feito um anjo, com seus pequenos braços sobre a barriga. Suas pernas estavam semiabertas em um triângulo. Ficamos ali, parados, admirando-o. Depois de alguns minutos, acabamos trocando olhares intensos. Eu o abracei, e ele acariciou os meus cabelos. Sua respiração estava ofegante, o seu coração batia forte, e o silêncio permitiu que eu escutasse cada uma das batidas. -Ele é lindo, Ali. Nosso filho. É o nosso filho. -ele sussurrou em meu ouvido, emocionado. No manhã seguinte, Charlie e eu despertamos antes de Ed. Ele dormiu no sofá, obviamente. Preparei o café, pus a mesa, e tempo depois, ele acordou. Seus olhos brilharam. Ele sorriu, olhou-me de soslaio, e caminhou em direção à Charles, que estava sentado sobre à beira da mesa, com os pés balançando no ar. Um vício seu. -Tomei cuidado. Não vai querer cair daí, pode ter certeza. -ele disse, parecendo calcular previamente cada palavra dita. -Filho, desce da mesa. Obedeça ao tio Ed. -Tio? -ele intrigou-se, com a voz mais fina. -Não, desculpa. É que... -Tudo bem. -ele interrompeu. -Vai ser confuso agora para o Charlie, mas ele irá se acostumar. -Sim, claro. -falei, em um tom melancólico. -Sente-se conosco. -Sente, Charlie. -Ed falou, fazendo gestos com as mãos. -Você quer pegá-lo? -perguntei, enquanto pegava algumas torradas. -Não, não. Não quero forçar nada. Quero que seja natural, entende? -Sim, claro. Charlie, sente-se, por favor. -eu supliquei, enquanto ele nos encarava friamente. Na hora do almoço, pedi ao meu vizinho que olhasse o Charlie para que Ed e eu pudéssemos conversar sobre tudo mais reservadamente. Ele era o meu único verdadeiro amigo em Los Angeles. Já sabia de toda a situação, então, sem pensar duas vezes, disse sim ao meu pedido. Eu sempre pude contar com ele. Edward e eu fomos a um restaurante bem próximo. -Bud é infértil. Ele nunca me contou, pois achou que eu o largaria por isso. -E você largaria? -Quando fiquei grávida, ele disse que tentou dizer, mas estava tão feliz em pensar em ser pai que... Ele ignorou isso. Achou que fosse um milagre, eu não sei. Bud sempre foi meio religioso. -Entendo. E por que ele só resolveu contar agora? -Ele refez os exames, depois de quase dois anos depois. É estranho. Acho que nossas brigas aumentaram muito nos últimos meses, então... Isso ajudou um pouco, acredito. -Bem, nesse caso, é um empate. Ninguém é pior do que ninguém, nesse caso. -Sim. Quando ele disse isso, eu pensei em você. Só poderia ser você. É você. -Tem certeza? -Edward sorriu, maleficamente. -Acho que vou precisar de um exame de DNA. -Sério? -perguntei, ofendida. -Não, relaxa. Je crois en toi. -Obrigado. É, você realmente andou estudando um pouco mais que antes. -sorri, aliviada. -Então. Como ficou sua música sobre a nossa breve história de amor? -ele perguntou, pondo suas mãos sobre as minhas diante da mesa. -Não foi uma das melhores que eu já fiz. Mas, ficou aceitável. -Acho que você precisa dar uma nova chance para essa música. Por que nossa história ainda não acabou. -sorriu, apertando minhas mãos carinhosamente. Edward me deixava fragilizada, aos poucos, cada vez mais. Depois do almoço, eu o pedi que se hospedasse em qualquer hotel próximo dali. Mais tarde, ele buscaria sua mala comigo. Quando cheguei em casa, Niall e Charlie estavam brincando com alguns carrinhos no chão da sala. -Eu o mandei para um hotel. Não sei se é o Charlie, ou o reencontro, ou esse meu momento de fragilidade. É muito coisa para digerir. Ele está mexendo comigo, e isso não deveria acontecer. -Você fez o certo. Com ele no seu sofá seria mais difícil resistir. -Niall brincou, levantando-se do tapete. -Ele faz algumas coisas que são diferentes, sabe? Ele é estranhamente romântico e nada romântico ao mesmo tempo. Entende? -Não, não mesmo. -Eu sei, mas... Que d***a. Depois do Charlie, meu coração ficou mais mole. Eu parti o coração do Ed, sabe? Eu era assim. -São consequências da maternidade. Seu coração cresceu. -Meus planos não eram esses. -A questão é... Ele é casado, certo? Sabemos que ele é um canalha, e que trai a esposa com várias, sem pensar duas vezes. Como confiar num cara desse? Sem condições, Ali. Sem condições. -Não queria que o Charlie crescesse longe do pai. Eu... -Alison, o que aconteceu com você? Ele é casado, tem dois filhos, e você uma mãe solteira. É isso, entendeu? Não estamos em um conto de fadas. -Nossa. Desde quando você virou tão frio e realista? -Eu não sou. Mas, quando um amigo se perde, o outro ajuda. E quando eu estiver no seu lugar, você que terá que ser fria e realista. É o que os amigos fazem. Meu celular vibrou, naquele momento, com uma mensagem de Edward. Lembrei-me, subitamente, dos seus antigos bilhetes no Kingsway Hall. Como esquecer do inesquecível "Poderia me recomendar um excelente restaurante para que eu possa levá-la a um jantar essa noite?"? Hey, Ali. Já que eu preciso buscar minha mala, que tal uma saída noturna? Eu, você e o nosso filho. Saudades, Ed.
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