Marc costumava dizer que todos queriam ser como ela. O seu jeito simples de resolver as coisas, a maneira formosa do seu andar, a forma diferente de seu olhar, único. Até mesmo quando mentia, ela parecia falar a verdade. Persuasiva, era simplesmente perfeita para me convencer a satisfazer todos os seus desejos. Enquanto estivemos juntos, o nosso amor parecia indestrutível. Quando estávamos a sós, Maryl tornava tudo mais especial. A nossa história foi como uma breve canção: Especial, onde apreciamos cada segundo, aproveitamos cada verso. Porém, o fim -inevitável e ininterruptível- chegou para nós, assim como acontece em qualquer música. Elas são assim: começam, lhe encantam, e, minutos depois, acabam.
Desde o último dia em que nos falamos, eu a vejo em todos os lugares. Lembro-me de nossa primeira conversa, em um bar antigo no centro da cidade, um pouco longe da casa de Maryl. Mas, naquele dia, ela estava lá. Marc e eu costumávamos a ir ao Sky depois do trabalho, ou até mesmo nos finais de semanas, ignorando as tarefas da faculdade. Foi em uma sexta-feira, o céu parecia estar em festa com grandes estrelas brilhantes, e, cara, ela tinha que estar lá. Ela vestia um suéter azul e uma saia preta. Seus cabelos estavam soltos, como sempre. Estava com sua melhor amiga, e, pediu uma cerveja cara assim que chegou. Sem hesitar, fui até ela para lhe dar as boas-vindas ao que eu e Marc considerávamos de o nosso bar.
-O que moças tão inteligentes fazem em um lugar como esse? -perguntei, Maryl pareceu surpresa.
-Meninas inteligentes não podem tomar um porre? -Claire retrucou, com um sorriso largo.
-Problema nenhum. -disse, retribuindo o sorriso. -Acontece que eu realmente não imaginava encontrar vocês aqui.
-Acho que você faz aula de fotografia comigo, certo? -Maryl perguntou, tentando se lembrar de mim.
-É. Nas terças.
-Isso. -ela sorriu, satisfeita.
-Não quer sentar com a gente? -Claire apontou para as outras duas cadeiras vazias.
-É, claro. Claro que sim. -Sorri, nervoso por estar diante de Maryl.
Depois de chamar Marc para a mesa, nós conversamos por um longo tempo. Entre um pedido de bebida e outro, encarava Maryl, observando a sua beleza surreal. Tudo nela era especial: a forma como os seus lábios se moviam, o seu jeito de gesticular as mãos quando contava uma história engraçada, a sua risada. Mas, para a minha infelicidade, ela não parecia estar interessada em mim. Ela não trocou muitos olhares, e, quando me olhava, eram por apenas frações de segundos. Marc também fez sua parte, fazendo as garotas alegres, com suas grandes e repetitivas piadas. Uma hora depois, fizemos um brinde à saída de um professor da faculdade que era odiado por todos nós. Mais tarde, nós levantamos um pouco e dançamos. Nós estávamos bêbados, e um homem de meia-idade cantava algumas músicas agitadas no bar. Em certo momento, iniciou-se uma música incrível. Maryl me puxou para si, uma dança que eu jamais poderia recusar. Ela chegou, na ponta dos pés, em meus ouvidos, e , em um sussurro enigmático, disse: Claire está interessada em você. Naquele momento, pensei em todos os xingamentos existentes possíveis. Logo depois, sorri.
-Eu estou interessado em outra garota. -eu disse, fazendo Maryl semicerrar os olhos.
-Poxa. -ela lamentou. -E quem é a sortuda?
-Uma garota da faculdade. Somos da mesma turma de fotografia. -disse, encarando-a nos olhos, sorrindo.
Depois de uma reação engraçada e confusa, Maryl escolheu o silêncio. Encarou-me, e, em seguida, bebeu um pouco de sua garrafa, voltando a dançar no ritmo da música.
Na terça-feira seguinte, trocamos olhares curiosos ao chegarmos para aula. Ela sempre se sentava na terceira cadeira da sexta fileira, descansando a sua cabeça na parede azul da faculdade. Maryl pegava a sua mochila, abria, pegava um pequeno caderno, e começava a fazer rabiscos aleatórios até o momento em que a aula começasse. Neste dia, cheguei com apenas cinco minutos de antecedência, e, claro, Maryl já estava lá. Eu a subordinei a uma conversa rápida sobre os seus desenhos secretos.
-Você tem talento. -falei, fazendo-a esconder o seu caderno rapidamente.
-Não ouvi você chegar. -ela disse, ajeitando os seus cabelos, guardando os seus lápis.
-Desculpe, eu não queria te assustar.
-Não, tudo bem. -Maryl consertou sua posição na cadeira. -Só estava... Você sabe.
-Esperando o tempo passar. -disse, sorrindo.
-É. Eu sempre chego um pouco mais cedo. Fico desenhando por diversão.
-Posso ver o que você estava fazendo agora? Parecia incrível. -disse, sentando-me na cadeira ao lado dela.
-Ninguém vê os meus desenhos. São íntimos. Claire já viu alguns, mas...
-Por favor. Prometo manter em segredo. -disse, levantando a sobrancelha direita.
Ela olhou para o teto durante alguns segundos, provavelmente pensando se eu era honrado o suficiente para ver um desenho seu.
-Tudo bem. Mas, só esse. Não venha me pedir por mais depois.
-Mostre-me. -disse, e então ela sorriu.
Maryl me entregou o caderno aberto em uma folha onde havia um desenho esplendoroso: Uma garota, de costas, vestia um casaco branco e um cachecol cinza. Seus cabelos voavam, e, à frente dela (considerando a sua posição em relação a nós) asas brancas com desenhos psicodélicos desenhados em azul dentro delas. Era realmente incrível.
-Eu tinha razão, Maryl. Você é incrível. -falei, satisfeito.
-Seu tempo acabou. -ela puxou o caderno de minhas mãos.
-Posso anotar seu número? -perguntei, e muitos alunos junto ao professor adentraram na sala.
Na sexta seguinte, Maryl e eu marcamos de ir a uma festa da faculdade. Marc também foi, mas, por ironia, acompanhado de Claire. Vendo a atitude de Maryl apresentar a sua amiga ao meu amigo, tudo ficou bem mais claro: ela realmente estava interessada em mim, ou pelo menos estava disposta a tentar alguma coisa.
Chegamos ao local por volta das oito, as meninas foram conversar com suas amigas da faculdade enquanto Marc e eu bebíamos um pouco. Tiveram jogos diversos, música e pessoas atacando (no bom sentido) umas as outras em todos os cômodos da casa. Maryl ainda era iniciante nessa carreira do álcool, e, naquela noite, ela bebeu muito mais do que deveria. Por um acidente bobo, ela torceu a sua perna direita quando caiu de mau jeito. Eu a peguei em meus braços e coloquei-a no banco de trás do carro, e então dirigi até o hospital mais próximo. Marc sentou-se no banco do carona, Claire foi atrás, com a cabeça de Maryl em suas pernas.
Depois de duas semanas com a perna direita engessada, Maryl ficou bem. Até então, nada havia acontecido entre nós. Acho que esse pequeno acidente favoreceu a nossa história, porque foram nesses dias que nós conversamos mais, nos tornamos mais íntimos, e, claro, flertávamos de uma maneira mais clara. Pelo menos duas vezes na semana eu arrumava todas as tarefas perdidas dadas em aula para Maryl, e é óbvio que eu gostei muito disso. Quando ela tornou a andar normalmente, nós finalmente marcamos um encontro formal. Eu a levei em um restaurante de comida tailandesa -o seu tipo de culinária preferido- depois de assistirmos a um filme de ficção científica -o seu gênero preferido para filmes- no cinema.
-O filme já está acabando, Maryl. -eu disse, depois de quase duas horas de filme.
-Sim, sim. -ela disse, com olhos os vidrados na tela. -Está chegando a hora em que ela morre.
-Já viu esse filme? -perguntei.
-Não. -Maryl respondeu com seus olhos ainda fixados no filme. -Eu li o livro.
-Então você não está perdendo nada. -eu disse, e a puxei. Os nossos lábios se encontraram, e então o nosso primeiro beijo finalmente aconteceu. De repente, ouviu-se um grito vindo do filme. Maryl largou-me imediatamente, voltando a observar a grande tela do cinema.
-d***a, Harry! Ela morreu e eu perdi. -ela disse, rindo.
-Depois você assiste na internet. -falei, e então reatamos o nosso beijo.
Aquele encontro foi, definitivamente e tecnicamente perfeito. Depois do jantar, nós caminhamos um pouco pelas ruas vazias durante a noite próximo onde Maryl morava. Naquele dia, eu a conheci melhor. Eu soube de seus maiores sonhos, objetivos, os erros do passado, sua origem. Ela me contou algo que jamais irei esquecer. Uma coisa que está marcada em meu peito até hoje.
-Às vezes eu choro antes de dormir, Harry. Eu simplesmente fico pensando no tempo que estou perdendo. A vida é tão curta, sabe? E nós estamos aqui, não conhecemos quase nada do mundo e... Não sei o que será de mim daqui alguns anos. -ela disse, dando um longo suspiro.
-Planeja viajar o mundo? -perguntei, animado por uma grande viagem ao lado de Maryl.
-Desde criança. É por isso que eu costumo desenhar aquelas asas.
-O chão é pouco demais para você. -disse, e ela riu.
-É. Eu preciso voar, sabe? -Maryl disse, de uma forma encantadora, seus olhos brilhavam. -Preciso ir além, Harry.
-Espero conseguir lhe acompanhar por sua grande jornada. Acho que tenho medo de altura.
-Eu costumo olhar para o céu sempre que estou com medo. Quando olho para cima, sinto-me segura. Crio coragem para fazer qualquer coisa. Para voar.
-Diga, Maryl. Você quer chegar ao outro lado do céu?
-Como assim, outro lado do céu? -ela perguntou.
-Descobrir coisas grandiosas. Ultrapassar os limites, Maryl. Para uma garota como você, nem mesmo o céu é o limite.
-Tem razão, Harry. O céu é apenas o começo.
Naquele dia, eu tive certeza de que ela era o que eu queria. Maryl era o começo e o fim dos meus dias, era o ponto final de cada frase, o espaço que faltava em minhas horas vagas e monótonas. Após cinco meses juntos, nós dois fizemos uma pequena ida à Flórida. Aquela era uma viagem de pequeno porte, nós sabíamos disso, mas, prometemos um ao outro que seria apenas o começo para o nosso futuro. Foi uma longa viagem de carro que durou alguns dias, um trajeto de aproximadamente mil e quinhentas milhas. Nós paramos por uma noite em Virgínia, depois em Carolina do Norte, e depois uma outra na Geórgia. E então, finalmente, chegamos à Flórida. Planejamos em visitar Miami em outra semana, porque, antes, Maryl estava decidida do que faríamos: voar de Asa Delta. Depois de uma rápida pesquisa, achamos um lugar chamado The Florida Ridge Sports Air. Um lugar incrível: cheio de esportes e atividades somente para quem tem coragem, como Maryl tinha. Quando estávamos no topo, entre umas rochas e árvores de uma beleza incrível, com as roupas e acessórios apropriados para o voo, ela sorriu. Os seus olhos arregalados demonstravam toda a sua empolgação e felicidade a realizar um sonho dentre vários outros. Em último beijo, disse a Maryl pela primeira vez que eu a amava. E então, nós finalmente voamos. Maryl foi acompanhada de um instrutor simpático, Ian. Já o meu, posso dizer com toda a sinceridade que não lembro o seu nome, mas ele também era uma boa pessoa.
A paisagem era indescritível. Ela estava longe de mim, mas eu podia sentir, através dos ventos, a alegria que Maryl estava sentindo. Finalmente, pude sentir os seus anseios, suas realizações, seus sonhos, suas inseguranças, e, acima de tudo, a sua coragem. Esta, que ela conseguia da forma em que aprendi com ela: olhando para o céu. E, naquele momento, no ar, senti-me conectado, verdadeiramente, a ela. Ali, o nosso amor havia sido confirmado. Eu amava Maryl, e quem era ela. E eu nunca seria tão incrível se não a tivesse em minha vida.
Hoje, não posso dizer que ainda me sinto dessa maneira. Mesmo tendo pouco tempo ao seu lado, aproveitei cada segundo enquanto o seu amor me pertencia. Maryl Wright morreu naquele dia, em um acidente trágico durante a aterrissagem do voo de Asa Delta. O meu coração foi rasgado em milhares de pedaços de papel, e as migalhas jogadas ao chão foram levadas pelo vento. Mesmo dez anos depois, ainda sonho, todas as noites, com a nossa incrível viagem à Flórida. Penso em todos os dias, semanas e meses em que estive com ela. Penso em cada vestido que usou, as variadas cores que o seu cabelo pintou, em cada prato em que ela preparou para nós dois. Eu a vejo no bar em que nós nos falamos pela primeira vez, no banco de trás do meu carro, mesmo não sendo o mesmo da noite em que a socorri do acidente que nos deixou mais próximo. Eu continuo a ver, na beira de minha cama, quando eu acordava ao seu lado. Ouço sua voz em seus sonhos, dando-me ânimo para continuar a viver.
Maryl Wright foi o grande amor da minha vida, um anjo, que me deixou fazendo o que mais desejava: voar.