Grace e Colin - parte 2

2361 Palavras
Eu havia imaginado o embarque como uma grande confusão, onde três mil pessoas desesperadas lutavam para quem entraria primeiro à bordo. Enganei-me. Como deve-se fazer um check-in dias antes do embarque, tudo foi muito mais do que apenas tranquilo. Reservamos um quarto conjunto, com duas suítes e uma sacada. Não era luxuoso, mas moderno de certa forma. Quando entramos, também recebemos o nosso cartão de identificação, que é praticamente tudo o que você precisa dentro do navio. -A primeira apresentação é somente em dois dias. O pessoal do teatro marcou um jantar para essa noite. As mesas estão reservadas, e vocês duas estão convidadas. -Colin disse, abraçado a mim. -Sinto muito. Já temos planos para nossa noite. -Susan disse, animada ao lado de Sam. -Eu não tenho escolha, pelo visto. -dei de ombros, olhando para Colin. -Você pode ficar segurando vela para elas ou acompanhar o seu namorado em um maravilhoso jantar. A escolha é sua. -ele levantou os braços, sorrindo. Como o grupo era uma das atrações do navio, tinham certos privilégios. E um deles era poder reservar três mesas, o que é uma raridade dentro de um cruzeiro, visto que na maioria das vezes, as pessoas dividem mesas com desconhecidos. -Pessoal, esta é Grace. Minha namorada. -Colin apresentou-me a todos do grupo. Aproximadamente quinze pessoas, entre os seus vinte e quarenta anos de idade. -A famosa Grace! -um deles falou. Aparentava ter trinta anos, cabelos e olhos claros: o bilionário da peça. -Você tem cara de atriz, sabia? -uma mulher do grupo falou, simpática. Era n***a, com um black impossível de não sentir inveja. -Que isso! -ri junto a eles, tímida. -Sou apenas uma moça simples. Não nasci para bilhar nos palcos. -Ninguém nasce, senhorita. -o bilionário falou, olhando-me intensamente. -Todos precisamos ser moldados. E é claro, ter a oportunidade necessária. -Belas palavras, Tony. Deveria trocar de profissão. Um poeta, quem sabe. -Colin brincou com o amigo. O jantar corria bem até os olhares furtivos de Antony começarem a me incomodar. Os assuntos falados eram todos sobres a peça, as futuras apresentações, o livro Maldição e Liberdade e o diretor da peça, Mark W. Tony não falou muito, assim como eu. Ele insistia, com intervalos pequenos, em olhares constantes que duravam mais de um minuto. Fixamente, ele não desistiu de mim. Eu pudia sentir os seus pensamentos, e até mesmo enxergar os sonhos perversos em uma noite de amor comigo. Apenas pelo olhar. -O bilionário, Tony. Ele faz o bilionário da peça, certo? Ele não parou de me olhar durante todo o jantar. Eu não deveria contar isso... -Filho da p**a. Ele flertou com você? -Bem, eu não sei direito. Colin, por favor. Eu não quero que você brigue com ele por minha culpa. -Ele disse alguma coisa? Grace, ele disse? -Não disse nada. Fique tranquilo, não foi nada. -Não se preocupe. Não vou fazer nada. -Colin afirmou, tentando tranquilizar-me. -Que tal aproveitarmos que o casal não está aqui no quarto e... -ele parou, começando a me beijar. Aproveitamos nossa primeira noite de viagem. Colocamos música, bebemos, rimos e nos entregamos um ao outro. No dia seguinte, depois de perder o horário do café incluso no pacote, tivemos que pagar por um à parte no restaurante reservado do navio. A noite, uma grande festa à fantasia. O segundo dia seria o último apenas em alto-mar. A partir do terceiro, faríamos paradas ao logo dos outros dias restantes, por cinco países diferentes. Estávamos todos excitados e ao mesmo tempo nervosos. Como a festa já estava pré-programada na agenda da viagem, levamos fantasias em nossas malas. -Eu esqueci de trazer fantasia. Acho que vou pegar alguma das roupas de Grace. Irei fantasiada de super brega. -Samantha disse, enquanto nos arrumávamos para a festa em nossos quartos. Todos rimos. -Só eu posso falar m*l das roupas dela. -Sue deu um leve empurrão na namorada, rindo. -Desculpe, senhorita advogada. -ela riu, tombando para o lado. -Acho que você se deu m*l, Sam. Susan repaginou o meu guarda-roupa semana passada, justamente por causa da viagem. -Isso é sério? -Sam intrigou-se, feliz. -Meu Deus, por isso eu não tive a oportunidade de falar m*l de sua roupa ontem. -As pessoas consideram as minhas roupas s*******o, mas eu também sei vestir alguém conforme a moda. Tipo, o normal, sabe? -O seu normal está simplesmente fantástico. Bem melhor que as antigas roupas do século quinze de Grace. -Samantha disse, fazendo-nos rir novamente. A festa começou cedo. Por volta das oito, adentramos no salão, já com nossas bebidas em mãos. Nós dançamos feito loucas. A diversidade de fantasias era vasta, mas nada era tão original quanto o zorro de Colin. Estava simplesmente impecável. -Vou pegar mais bebida. Fique aqui. -ele disse, levantando o seu enorme chapéu preto, depois de um tempo. -Estou começando a sentir fome. -Sue resmungou enquanto Colin saiu. -Depois nós vamos comer alguma coisa. -respondi, continuando no compasso da música. Vinte minutos depois, Susan voltou a reclamar de sua repentina fome. Colin ainda não havia voltado. Samantha carregou a namorada em direção ao restaurante, quando finalmente notei que estava só naquele imenso navio. Depois de alguns minutos à espera de Colin, decidir ir até quarto trocar o meu vestido, por conta do tecido incômodo. Passei pela grande multidão, entre todas as luzes negras e portas de vidro. Desci a primeira escada à direita, passando por um estreito corredor até finalmente estar na ala do meu quarto. Um pouco antes, havia um homem no chão, fantasiado todo de preto. A máscara era de pânico. -Ei, tudo bem? -perguntei, parando para analisar o homem, cautelosa. -O que está fazendo jogado aí no chão? Ele permaneceu parado, e aquilo me fez suar frio. Agachei-me, chegando mais próximo de seu rosto. Olhei para todos os lados, mas o corredor continuava vazio. Com cuidado, puxei a máscara branca para cima, pouco a pouco. Quando finalmente a retirei por completo, revelou-se um rosto com graves feridas, sangue em volta do nariz e dos lábios. Porém, em um rápido susto, Tony abriu os olhos e saltou em minha direção, gritando. Meu coração acelerou, enquanto o bilionário ria de minha grande fragilidade. -Seu i****a, eu realmente estava preocupada! -resmunguei, levantando-me, tentando recuperar minha dignidade. -Desculpe, quando percebi que era você, não pude resistir. -Esse sangue falso é incrivelmente enganador. -falei, observando o seu rosto. -Assim como a maquiagem. -Não é falso, é realmente o meu sangue. Estou machucado de verdade, Grace. -Ai meu Deus. Quem lhe fez isso? Levei Tony para o quarto, limpei o seu rosto e as feridas. Ele contou-me como aconteceu e quem fizera aquilo. Não fiquei muito surpresa. -Colin disse que eu fiquei olhando para você durante todo o jantar. Nós estávamos conversando, discutindo, na verdade. Eu lhe disse que não havia feito por m*l, mas não adiantou. Nós brigamos, e ele venceu. -Por isso ele desapareceu. Deve estar ferido, e não quer que eu o veja dessa forma. -Está bem melhor que eu, acredite. -Pensei que fossem amigos. -falei, sutil. -Ainda seríamos, se você permanecesse com a boca fechada. -Tony encarou-me, sério. -Mas você realmente ficou me olhando o jantar inteiro. Eu só comentei com Colin, não achei que chegaria a tal ponto. -Quer saber? Que se f**a você e o Colin. -ele esbravejou, levantando-se da cama de Susan e Sam. -Vá você, i****a. -respondi em mesma altura. -Qual é o seu problema? -Você é uma v***a. Sei disso pela forma que retribuiu o meu olhar. Não se finja de inocente, Grace. -O quê? Você que me encarou a noite toda, seu filho da p**a. Vai se f***r! -gritei, raivosa. -Sua desgraçada. -Antony partiu para cima de mim, suas mãos entrelaçaram-se em meu pescoço. Quando pensei que iria morrer por enforcamento, Tony arrastou-me em direção a sacada, batendo minha cabeça com força sobre a porta de vidro que separava o quarto, da varanda. Meus olhos começavam a se fechar, lentamente, quando o vidro da porta quebrou-se. Antony jogou-me com força para fora do quarto. Choquei-me contra a barra de ferro da sacada, quando finalmente caí pela última vez. Meus olhos fecharam-se gradativamente. Minha última visão foi a do maldito bilionário andando em meu quarto, fechando a porta com cautela. Logo após, tudo ficou em uma imensa escuridão. -Foi um acidente, ninguém sabe como aconteceu. Ela foi encontrada no quarto. Para ser mais precisa, na sacada. Sua cabeça sangrava. O vidro da porta estava em completo estilhaço. -Não temos mais segurança em lugar nenhum! -mamãe resmungou, irada. -Infelizmente não. A sorte é que estávamos bem próximos daqui quando o acidente aconteceu. O navio não tem suporte médico suficiente para casos graves. -Pelo menos ela poderá ficar aqui em Portugal, comigo. Onde está o namoradinho dela? -Colin esteve aqui de manhã, mas veio sozinho. A senhora quer falar com ele? -Não, não. -mamãe balançou a cabeça em negativo. -Pode ir, quero ficar a sós com minha filha. -Obrigado, querida. -papai disse, despedindo-se de Susan. Ela o retribuiu com um sorriso. -Essa lésbica v*******a e sínica. -minha mãe difamou Sue após sua saída. -Ela não merece o seu obrigado. -Ela ajudou a nossa filha, Caithleen. Deixe de ser estúpida. -Vou chamar a namorada dela aqui, tudo bem? Vou lhe mostrar quem é estúpida. -Não temos nada com a vida pessoal da moça. Só devemos ser gratos por estar com Grace todos estes anos em que estivemos longe. -Cale a boca, Oliver! -mamãe gritou. -Deixe-me sozinha com Grace. Eu estava em um limbo, entra a vida e a morte. Observava toda a cena de pé, em um canto do quarto de hospital. Eu estava desacordada, na cama, como em um sono profundo. Mamãe estava sentada à beira da cama, acariciando meus cabelos negros. -Você devia deixar de ter esse coração tão amargo, mãe. Temo pela sua pobre alma, quando morrer. Eu só queria que você aceitasse como eu sou, Colin, e principalmente Susan. Ela é uma das pessoas mais importantes da minha vida, e você deveria enxergar isso. Eu te amo, mãe. Apesar de tudo, amo. Falei enquanto caminhava até a cama. Mamãe olhou subitamente para trás, em minha direção. Assustada, parei. Ela levantou-se da cama rapidamente, vindo em minha direção. -Mãe? Você pode me ver? -disse, em um fio de voz. -Mãe? Porém ela passou direto por mim. Abriu a janela, com o semblante preocupado. Praguejou em voz baixa coisas como "d***a, começou a chover" e algumas porções de palavrões até deixar o quarto. Ela não podia me ver. Eu era invisível. Corri para fora da cidade, tentando localizar-me em relação ao porto de Lisboa. Estava em um hospital de Almada, apenas dez quilômetros de distância do navio, de Colin. Peguei um ônibus furtivamente e segui em direção à Trafaria. Como morei até minha adolescência em Portugal, conhecia o mapa do país o suficiente. Ao chegar, levei um tempo até encontrar o navio certo, mas finalmente conseguir entrar. Corri, desesperada, fuçando em cada corredor daquele gigante cruzeiro. Quando cheguei em meu antigo quarto, olhei pelo pequena brecha da fechadura: Antony gritava. -Não era a minha intenção. Eu só perdi a cabeça, p***a! -ele lamentou. -Seu desgraçado. -Colin respondeu, lágrimas corriam sobre o seu rosto. -Você quase matou a mulher que eu amo. -Você não a ama, Colin. -Antony asseverou, sem sorrir. Aproximou-se mais dele, com os punhos fechados. -Está com amnesia? -Grace foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida. -Colin afirmou, limpando suas lágrimas. Foi quando Antony puxou Colin para si, e o beijou. Col tentou resistir, mas não teve sucesso. Cedeu, com os braços entrelaçados ao do bilionário. -Você não precisa fingir que ama alguém para manter as aparências, Col. Seus pais irão entender, e também nós podemos... -Não, não. Não, Tony, não! -Colin gritou, puxando os próprios cabelos. -Isso não deveria ter acontecido, seu i****a! -Eu errei. Mas eu fiz aquilo por ciúmes. Você não pode fazer isso. Não pode. -Não! -Colin começou a gritar, com as mãos trêmulas. Desabou no chão, sentando de m*l jeito. Soluçava. -Ei, por favor. Pare de chorar, por favor. -Antony também chorava, andando de um lado para o outro. -Nós podemos fugir, para bem longe. Grace irá acordar e nem se lembrará de você. Vamos, Colin! -Você fodeu tudo, Tony. Tudo. -ele levantou-se lentamente. Sua mão direita permanecia próxima a cintura. -Nós podemos resolver isso. Ela não morreu. Precisamos fugir antes que descubram o que eu fiz. -Não, Tony. Nós não podemos. Acabou. -em sua última palavra, com a mão direita, Colin retirou uma pequena faca de sua cintura, e a introduziu no pescoço de Antony. Um golpe sujo, fatal. Eu estava congelada em uma cama de hospital, mas o mundo ainda girava. Eu ainda podia caminhar, com os meus pés no chão, mesmo sabendo que isso poderia causar-me dor. E causou. Não havia como fugir de tal situação -ela era tão real, e, ao mesmo tempo, surreal- e eu a encarei, e corri, estando poucos passos para chegar em meu grande amor. Lembrei-me de cada noite em que contava as estrelas à espera de Colin, pelo seu retorno. O meu desejo era sempre que ele ficasse, e eu permanecia deitada, acordada, esperando que ele sempre voltasse. Eu realmente nunca contei todas as minhas noites em claro, mas certamente durariam uma eternidade. E este era o tamanho do meu amor por Colin.  Eu o vi ser preso, logo após a terrível cena de assassinato. Desde que ele se foi, eu pudia sentir que estava ficando sem tempo. Apesar de todos os segredos que descobri, também pude certificar-me de que ele realmente me amou. Mas, quando não pude ver mais os seus olhos, senti que o meu tempo havia acabado. Foram as minhas últimas noites, longas noites. E elas seriam eternamente inesquecíveis.  Dias depois, eu abri os meus olhos, com as lembranças de Colin ardendo diante deles. Mamãe chorava, assim como Susan o fazia, abraçado a ela. Em meio a dificuldade, ela pode reconhecer que Sue tinha um bom coração, e que nada além disso importava. Ela reconheceu os seus erros. A minha grave situação fez sua cabeça girar de cabeça para baixo, e assim, mamãe abriu-se para o novo. Quando notaram que eu havia acordado, elas sorriram.
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