Grace e Colin - parte 1

1873 Palavras
     DESDE O INÍCIO, Colin não fazia parte dos meus planos. Era para ser casual, como um cometa que vaga velozmente próximo a Terra, vez ou outra. O meu mundo girava, e eu permanecia parada no tempo, ainda por culpa de meus sentimentos intrincados por Ethan. Susan, felizmente, percebeu minha horripilante situação no Inverno de 2006. Eu continuava com os pés no chão, mesmo sabendo que poderia doer. Meu namoro com E. Gavin durou três anos e oito meses. Aquele fora o meu segundo relacionamento, tendo apenas seis meses a mais que o anterior. Era um sábado nebuloso, estava entre muitos casacos e cobertas quentes, quando Sue me ligou. Ela, na maioria das vezes, vencia, por seu gigante poder de persuasão e convencimento, que sempre foram os seus pontos mais fortes. -Aquele s****o do Gavin deve estar em um hiate com sete mulheres, e você sofrendo por amor em casa com uns sete casacos e uma xícara de chocolate quente. -Ela aludiu, baixo. -Como sabe do chocolate quente? -indaguei, surpresa. -Hiate? Mas está congelando! -Acho melhor você largar essa xícara na mesa de centro à sua frente, e retirar todos esses casacos. -ela sussurrou, entre algumas risadas. -Você tem uma bola de cristal? -sorri, bebericando um pouco do chocolate. -Se com "bola de cristal" você quer dizer a janela da sua sala... -afirmou, quando olhei para janela e lá estava ela, rindo. Por quase duas horas, Sue tentou convencer-me de sair com ela aquela noite. Nós encontraríamos com Samantha, sua namorada, e Colin, um amigo de Sam. Ela usava um vestido verde pop, brincos discretos e saltos altos azuis. Os seus lábios estavam roxos. -Você precisa ousar mais, Grace. Sempre o mesmo batom cor-de-nada, aquela calça hippie h******l e a sua blusa de manga caída escrito "peace". -Estou desempregada e acabei de terminar um relacionamento de quase quatro anos. Obrigado por elevar minha auto-estima. -arquejei, olhando para Susan através do espelho. -Hoje não é o melhor dia para vestir uma saia curta, nós vamos ao teatro.-Sue disse ao me ver pegar uma mini-saia roxa. -Teatro? Meu Deus, estou escolhendo roupas para uma boate ou coisa parecida. -Você se arruma para boate como se estivesse indo à igreja num domingo de manhã, então não faz muita diferença. -Obrigado pela delicadeza. -disse, rindo. -Você irá assistir uma peça interpretada por Colin, o sedutor. E depois nós quatro sairemos em par. Como casais. -Colin, o sedutor? -repeti, enojada. -Preciso vomitar. -simulei, brincando. -É o que as pessoas dizem. -ela deu de ombros, atrás de mim. -Isso significa que eu deva sair com uma saia curta e uma blusa que apareça metade da minha barriga? -disse, procurando por peças assim em meu guarda-roupa. -E colocar um sobretudo por cima, claro. E um cachecol. -Depois de lá, nós iremos para boate. Você tira o sobretudo e tudo ficará bem. -Susan levantou-se de minha cama, caminhando até mim, posicionando-se de frente para o espelho. -É uma pena que suas roupas sejam péssimas, Grac. -ela disse, e nós rimos juntas. Era a verdade. Nós encontramos Sam no Old Tape, o melhor teatro da antiga Galville. Colin ainda estava nos bastidores, preparando-se para a grande apresentação. O lugar começava a ficar lotado, mas antes de sentarmos, Samantha fez questão de apresentar-nos um ao outro. Ele era de pele morena e cabelos escuros; estava com a roupa do seu personagem: um homem sujo, com roupas maltrapilhas, cabelos bagunçados e pés descalços. -Desculpem a demora. -Colin desculpou-se ao chegar onde estávamos, bem próximo ao camarim. -Você sempre se atrasa. -Sam afimou. -Meu Deus, você está h******l! -Infelizmente, peguei o personagem mais fodido. -Acho que combina bem com você. -ela respondeu, com seu jeito de sempre. -Bem, Colin, esta é Grace, minha melhor amiga. Grace, este é Colin. -Susan manifestou-se, criando um clima melhor no ambiente. -É enorme prazer. Espero que goste da apresentação. -ele sorriu, pegando minha mão direita. Selou-a com um beijo delicado. -Fofo. -Sam ironizou, rindo. -Mas, nesse estado... Não dá para bancar o cavalheiro. -Mendigos não podem ser românticos? -Sue falou, rindo. -Podem. Desde que eles não sejam o Colin. -Você é um amor de pessoa, Samantha Bucker. -ele disse, e logo em seguida voltou para onde os outros atores se encontravam. A peça começou minutos depois de chegarmos em nossos assentos. Estávamos na ala D, bem próximo ao topo, entre as últimas cadeiras. As luzes se apagaram, as cortinas se abriram, e então, o espetáculo finalmente começou. Um homem de terno, com cabelos claros estava ao centro do palco na primeira cena. A apresentação era uma adaptação livre do livro Maldição e liberdade: a história de um morador de rua (vivido por Colin) quando conheceu um bilionário, casualmente, nos anos 30, em meio a Grande Depressão. Na última cena, depois de ser traído por Rick, o bilionário, Noel (Colin) o mata com três tiros certeiros nas costas, no momento em que ele e esposa do homem pobre tinham uma relação intensa. Foi um desfecho forte e emocionante, com interpretações impecáveis de todo o elenco. Colin brihou mais que todos, pelo menos ao meu ver. Eu ainda não sabia o que aquilo significava. -É muito gratificante estar naquele palco, de mãos dadas com os meus parceiros, observando a plateia de pé, aplaudindo. Acho que é a melhor sensação de toda minha vida. -A melhor? -questionou Sam, sempre descontraída. -Não devemos comparar certas coisas com outras, Sam. -ele respondeu, com os olhos semicerrados. -Admita, é a segunda melhor sensação. A outra é... -Vamos manter o cavalheirismo, por favor. -Susan disse, cortando a insanidade da namorada. -Agora Colin está devidamente arrumado. -Falando nisso. -ele disse, virando-se para mim. -Quer o meu paletó? Parece congelada. -Na verdade, eu agradeceria se fossemos para um lugar mais quente. Estou pouco agasalhada. -Seu sobretudo parece bem quente. E não está tão frio assim, está? -É que... -balbuciei algumas palavras, quando Susan começou a explicar a Sam (provavelmente) a minha situação por debaixo daquele sobretudo: uma micro saia e uma blusa que caberia em uma criança de dez anos. -Podemos ir para minha casa. -Colin sugeriu. -Estou sozinho. Podemos pedir comida japonesa. -Mas nós não íamos ao Rainy? -Sue perguntou, referindo-se à boate mais próxima do teatro. -Achei que estaria disposto, mas foi bem cansativo. A estreia foi realmente melhor que a pré. -Ótimo. Espero que tenha lareira na sua casa. -Samantha disse, após encarar-me com um sorriso travesso. A casa de Colin era espaçosa, com uma decoração anos 50, tetos chapiscado, paredes cinzas com detalhes em amarelo. A TV era grande, com 29 polegadas. As cortinas bordadas à mão pareciam custar caro. -Vou acender a lareira da sala. Fiquem à vontade e sirvam-se com o que tem na geladeira, caso não aguentem esperar a comida japonesa -certificou-nos, retirando o seu paletó. -Grace, fique à vontade. Se sentir calor, ponha seu sobretudo no cabideiro, próximo a porta. Não digo isso ao casal, pois já são de casa. -ele disse, referindo-se a Sam e Susan. -Não quer por o seu sobretudo no cabideiro, Grace? -Sam brincou, insinuando retirá-lo de mim. -Pensei que iríamos à boate. -resmunguei, encarando Sue. -Estamos só nós aqui. Se sentir calor, não há problema algum em você ficar apenas de roupas íntimas. -Não estou de roupas íntimas, Sam. -respondi, revirando os olhos. -Eu sei. Mas é divertido implicar com você, admito. -Samantha piscou para mim. Ficamos sentados no tapete, bem próximos a lareira, jogando cartas durante toda a noite. De um lado, Samantha e Susan, e do outro, o experiente Colin e eu. Não sabia nada sobre as cartas, e muito menos os seus significados. Ele me explicou, calmamente, como o jogo todo funcionava. Flertava também, ao mesmo tempo, obviamente. Colin segurava as minhas mãos, vez ou outra, quando verificava as cartas de meu baralho. Trocávamos olhares intensos. Eu encarava os seus lábios da mesma forma como um predador observa a sua presa totalmente indefesa. Ao passar do tempo, o calor começou a impregnar o meu corpo. Todos estavam apenas com camisetas, exceto por Colin, que estava com sua blusa social branca, desabotoada. Tomei coragem, deixando de lado todos os anos de vergonha e timidez. Retirei o sobretudo preto de meu corpo, pendurando-o no cabideiro ao lado da porta da sala. Naquele momento, foi a vez de Colin olhar-me com os olhos de predador, junto a um sorriso inesquecível. Estávamos oficialmente condenados. Apesar das dificuldades causadas pela rotina pesada da turnê de apresentações em diversos estados, Colin e eu mantemos um namoro estável após sete meses. Às vezes, eu m*l conseguia pegar no sono, pensando em como ele estaria, mesmo estando à milhares de milhas de distância. Havia casos em que nossa despedida durava mais do que um necessário, entre abraços apertados que duravam mais do que poucos minutos. -Não precisa ficar assim. Volto em uma semana. -ele disse, certa vez que nos despedíamos por conta de uma viagem do grupo teatral para o norte do país. -Eu sempre conto as horas para que você volte, todas as noites. Às vezes parecem uma eternidade. Nunca terminam. -Pois bem. -Colin disse, afastando-me de seus braços. -Eu iria lhe contar apenas quando voltasse, mas acho que isso irá ajudar em suas madrugadas aflitas. -Diga. -falei, ansiosa. -Meu Deus, Colin. Diga logo! -A companhia de teatro foi chamada para ser uma das atrações de uma viagem em um cruzeiro. Iremos apresentar Maldição e Liberdade em alto-mar. -ele afirmou, em alvoroço. -Isso é realmente incrível, amor. -disse, totalmente surpresa. -Eu quero que você vá comigo. Você pode? -ele sorriu, beijando-me lentamente. Liguei para os meus pais, avisando-os sobre minha viagem. Eles moravam em Almada, Portugal. Já eram idosos, e minha irmã mais velha, Kate, morava ao lado deles, para ajudá-los. Eu costumava passar as minhas férias na casa de meus pais, então resolvi aproveitar as minhas férias estendidas causadas pelo meu desemprego e passar pela cidade porguesa junto a Colin, durante a viagem. -O trajeto é por Portugal, Espanha, França... Posso visitar vocês quando pararmos em Lisboa. O que acha? Quero apresentar Colin para você e o papai. -Ainda não entendi o seu término com Ethan. Vocês iriam casar, filha. -Mãe, foi difícil superar, mas eu consegui. Espero que você vire essa página junto comigo. E nesta página está escrito Colin. -Sim, o ator. Sua irmã contou. -Qual o problema nisso, mãe? -perguntei, frustrada. -Ethan era um médico, Grace. Você trocou um médico por um atorzinho. E, para piorar, faz uma peça h******l, adaptada de um dos melhores livros que já li. Eu era jovem quando Maldição e Liberdade saiu. -Kate também já me informou sobre sua insatisfação em relação à Colin e a peça. -falei, já impaciente. -A sua irmã é uma fofoqueira descarada, não me deixar contar nada! -Estamos na mesma. É isso, mãe. Susan também irá comigo. -falei, finalmente recuperando o ânimo. -Aquela sua amiga lésbica? Não quero ela na minha casa. -mamãe rosnou, logo antes de desligar o telefone sem ao menos dizer adeus. Com o dinheiro recebido pelo meu seguro desemprego, comprei minha passagem para o cruzeiro onde o grupo Infinity de Colin faria uma série de apresentações durante os dez dias de navegação pelo oceano. Samantha e Susan também foram convidadas, e depois de algumas semanas, finalmente embarcamos.
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