Elize - parte 2

3515 Palavras
Era o segundo mês das férias de verão. Conversas por telefone com Elize Cotter tornaram-se diárias, quase sempre às nove da noite, como um ritual religioso. Mas era sempre bom, diga-se de passagem. Na última semana de julho, Betsy finalmente retornou de Connecticut, onde trabalhava em um restaurante japonês e cursava a faculdade. Nos encontramos no meu horário de almoço no Smith's. Ela estava com um lenço da bandeira do Japão em seus cabelos verdes, uma blusa laranja com mil sushis desenhados e um jeans surrado. — Mas que saudades do meu garoto p********o. — nos abraçamos ao estilo Dakishimeru. — Mas que saudades da Betsy do Maine. Ela sumiu? Foi trocada por uma cosplay japonesa. — Ainda sou eu, retardado. A melhor amiga que você tem e terá. — Precisamos conversar. Acho que conheci uma substituta a sua altura. — comentei, e então contei tudo sobre Elize Cotter. Pode parecer estranho ou não, mas, no domingo seguinte, Betsy, Elize, Troian e eu fomos ao cinema (a família de Elize ainda não confiava de a garota sair somente comigo). De começo, eu achei estranho. Foi na sexta, quando nós dois conversávamos ao telefone sobre Star Wars, uma das coisas que gostávamos em comum. Eu nunca havia feito amizades com pessoa igual à Elize, deficientes visuais. É um tabu, para a maioria das pessoas até mesmo para falar sobre isso. Chamar alguém de cego. Comentar sobre isso, ou qualquer coisa parecida. É um assunto delicado, no começo, eu não sabia muito bem como lidar. Mas foi Elize quem me ajudou a superar essas barreiras desconfortáveis quando me perguntou que tipos de filmes eu costumava ver. Ela disse que não costumava ver muitos filmes de drama, pois estes às vezes trabalham muito com o visual. Não precisa ser dito para ser compreendido. — Esse tipo de filme eu costumo assistir com a minha irmã, a minha solteirona de 30 anos favorita. Ela descreve as cenas, quando elas não têm muitos diálogos, sabe? Para que eu possa entender o que está acontecendo. — E será que ainda tem vaga para um auxiliar de filmes para Elize Cotter? — É claro. Temos muitos filmes. Considere-se quase contratado. — Quase? Quando eu começo? — Antes, um teste. Tipo um estágio. Cinco sessões de cinema com dramas psicológicos. — Esse tipo de filme vai ser difícil de descrever. — Esse é o ponto, querido Anselmo. Esse é o ponto. Em um típico verão do Maine, o domingo fazia 16 graus. Caso você não saiba, o Maine é um tipo de lugar bem tranquilo, onde a maioria da população é idosa e extremamente educada, (você deve estar se perguntando onde estava à educação daquela mulher maluca que arrumou uma confusão comigo lá no Smith's, mas eu também não sei onde a minha foi parar naquele dia) e esporadicamente humilde. As pessoas não são tão frias quanto o clima do Maine, mas são tão quentes quanto o verão daqui. Escolhemos assistir Fargo, um drama de humor n***o dos anos 90. Elize definiu aquele filme como nível 2 de interpretação (onde o máximo é 5). — Eles estão em um bar, conversando. — Isso é irrelevante. A conversa é mais importante. — Nem tanto. — Tem algum ator gostoso nesse filme? — Hã... — Alguém novo? — Não. — Então não estou perdendo nada. Quer pipoca? — Esse filme é muito r**m, Elize. — Fecha os olhos. Você vai ver como eu me sinto em vantagem em alguns momentos da vida. — ela sorriu, me desconcertando por completo. Após algumas semanas de amizade, passei a perceber, nas entrelinhas, o que Cotter estava me ensinando. Acima de tudo, viver. Viver da maneira certa, positiva, onde nós rimos de nós mesmos. Rimos da nossa desgraça, dos nossos defesos, malfeitos, erros e imperfeições. Vivia uma vida totalmente diferente de Elize. Ainda na escola, o meu objetivo central era impressionar as pessoas, faze-las enxergar em como eu era bom. Como eu podia fazer isso ou aquilo, como eu podia ter as coisas. O dinheiro. Eu sempre tive orgulho em dizer que era filho do Smith, dono da rede Smith's de cafeteria/livraria, mas m*l trocava uma dúzia de palavras com o meu pai em casa. Nossas conversas se resumiam em Bom dia/Boa tarde/Boa noite/Preciso de dinheiro. Dinheiro, que eu tanto usufruí durante toda minha vida, mas nunca havia contribuído em nada para que ele viesse, nem mesmo um obrigado por tudo. Lembrei-me da primeira vez em que vesti o uniforme do Smith's, na primeira semana do verão. Senti nojo, cheguei a entrar em uma crise psicótica onde eu arrastava a blusa pelo chão do quarto, e depois a tacava para todo o lado e a mordia com raiva, feito um animal insano. Cuspi, diversas vezes, no bordado da camisa onde o nome de minha família se encontra. Eu avisei que você poderia me odiar. Vamos pular, eu não gosto muito de falar sobre como eu era. Ainda não chegamos onde quero chegar, então, avançaremos. Mais dias se passaram, e agosto finalmente começou. Betsy começou a trabalhar como voluntária na Congregação a duas quadras da cafeteria. Esqueci de dizer, mas Bet e Elize se deram muito bem. É claro, Betsy me fez milhares de perguntas sobre como ela havia ficado cega e coisas do tipo, mas eu não tinha as respostas. E, foi quando percebi que nós nunca tínhamos conversado sobre o antes, o agora era muito mais importante para ambos. Por minha parte, era obvio: eu não queria falar sobre o Andrew que quebrava carros, pichava muros e assaltava diretores de escola (aquela história dos vinte mil dólares, explico depois). — Eu não sei bem como falar sobre isso. Mas, depois de todas essas semanas eu percebi que você gosta que fale as coisas abertamente, sem enrolação. — Eu detesto, de verdade. Inclusive, o que você está fazendo agora é uma. — Uma o quê? — Enrolação. — Ah. Sim, verdade. Desculpa. — Então, você quer saber como eu fiquei cega, não é? — Hã... — Okay, eu só vou contar uma vez. Na verdade, aqui não é um lugar apropriado para isso. — nós estávamos na praça de alimentação do segundo shopping mais próximo da minha casa (uma rua atrás do Smith's) (a essa altura, a mãe de Elize já confiava que saíssemos sozinhos). — Talvez eu chore um pouco. — eu a ouvi falar como nunca. Sua voz parecia melancólica e traumatizada. Definitivamente, não era a Elize que eu conhecia. — Tudo bem, não precisa falar sobre isso aqui. É burrice. — Eu conheço um lugar. Podemos ter privacidade e eu posso chorar sem vergonha. — Elize, eu... Não precisa. Olha, esquece isso. Vamos roubar alguma coisa na loja de doces. — Não. — cortou-me friamente. — Não seja como os outros. Eu não sou especial, Andrew. Não precisa me tratar como se eu fosse um ET ou um bebê recém-nascido. Eu só não enxergo. Mas eu respiro, eu ouço, eu caminho, eu penso, eu sinto, eu sofro como qualquer outra pessoa. Eu até defeco, acredita? Como todos vocês — ela disse, e umas lágrimas já escapavam dos seus enormes óculos escuros redondos. — Eu sinto muito. — Não sinta. Sente pelo o quê? Que m***a, Andrew. Você não fez nada. Eu não quero que sinta pena. Quero que seja meu amigo — ela enxugava as lágrimas em meio ao shopping, pessoas passavam a todo tempo com bandejas cheias de comida. — — Nós somos amigos. — Você é como todos os outros. — Eli, você tá surtando. — Isso, briga comigo, cara! — ela voltou a sorrir. — Nós somos iguais. Eu não estou em vantagem por ser deficiente. — Claro que não está. — Você nunca fez uma piada comigo. Quando eu faço uma piada sobre a minha visão, você não fala nada. — Eu nunca sei como reagir. — Você ri. É isso o que as pessoas fazem quando ouvem uma piada, não? Ela me contou tudo naquela tarde. Nós caminhamos até o estacionamento do shopping, onde sentamos em uma área ociosa próxima a vagas não preenchidas. Cotter foi uma criança que já nasceu com uma tendência ao desgaste ocular. A previsão dos médicos foi objetiva: Elize perderia a visão por completo quando estivesse bem próxima aos dez anos de idade. Contou-me como foi a sensação de parar de enxergar aos poucos. Na verdade, ela nunca viu as coisas nitidamente. Ela nunca usou óculos, pois não resolveria. O olho esquerdo quase sempre foi inútil, disse ela. Enxergava apenas alguns vultos, formas e o azul do céu era como cinza. O direito, com o passar dos anos, perdeu o vigor, as cores, os formatos. Em seu aniversário de sete anos, quando já tinha muita dificuldade em enxergar até mesmo caminhar sozinha, ganhou sua primeira bengala no topo do Empire State Building, em NY, onde comemorou mais um ano de vida. E, desde então, todas as suas bengalas tornaram-se Empires. "É um nome bem melhor do que bengala, não acha?". O seu pai morreu um ano depois, mas ela não entrou em detalhes sobre como isso aconteceu. — Lembro-me como se fosse ontem. Eu tinha nove anos quando vi o rosto de minha mãe pela última vez. O meu olho esquerdo já tinha morrido, e o direito estava no CTI. Mas, como você sabe, estava em coma, não morto. A cada segundo que se passava, eu podia sentir que... — ela fez uma pequena pausa para respirar, aproveitando para enxugar o novo frete de lágrimas. — Que eu ficaria cega. Não enxergaria mais o mundo. Eu deitei, e recebi um beijo na testa de minha mãe, e quando ela ameaçou se afastar, eu a segurei com as minhas mãos. Segurei o seu rosto diante dos meus olhos durante minutos, e apenas insisti para que ela permanecesse parada. Eu queria gravar a imagem de seu rosto, dos seus olhos. Para que eu nunca mais esquecesse. E eu sabia que ela aquela era a última vez, pois eu vi muito pouco. Na manhã seguinte... Tudo estava escuro. Completamente escuro, Andrew. Nunca mais vi desde então. Nossas mãos se encontraram, feito um laço. Meus lábios acariciaram as a parte de cima de sua mão, em um beijo singelo. Estava chorando, sim. Estaria mentindo se dissesse que não. Sua cabeça repousou sobre o meu ombro, e permanecemos alguns minutos em silêncio. Eu não estava com pena, mas sim, dando o espaço que ela precisava. Era uma ferida, uma ferida que ainda não havia cicatrizado por completo e eu a fiz reabri-la por um momento. — Elize? — Andrew? — Também quero contar sobre o meu passado. Acho que isso vai nos aproximar. Mas, eu sinto tanta vergonha. De quem eu era. Antes de você chegar, eu... — Sente vergonha por estar me vendo. Se você fechar os olhos, vai ser mais fácil. Acredite. Permaneci parado. Nervoso, mesmo fechando os olhos, eu os abria segundos depois, procurando por alguém que pudesse estar me vigiando por ali. Era o velho Andrew dentro de mim, lutando contra o novo. Borboleta x Lagarta. Eu não precisava mais pensar daquela maneira, viver andando na linha de pensamento do resto do mundo, onde cada movimento meu era pré-calculado para que eu soubesse o que os outros achariam de tal atitude. Mas, Elize, mais uma vez, deu o primeiro passo. Essa foi a primeira vez que vi os seus olhos, não lentes de vidro. Ela retirou os seus óculos delicadamente e os pendurou em sua blusa. Pegou uma de minhas mãos e a pôs sobre os seus olhos, e assim o fez com os meus. Estávamos no escuro, e então pude sentir, de maneira real, como era a vida de Cotter. Eu não compreendia como ela convivia com tal coisa, e se eu seria tão forte se estivesse em seu lugar. — Somos eu e você. Esqueça o resto do mundo. Esqueça todos. — ela disse, e eu finalmente consegui coragem para lhe dizer tudo. Algumas semanas se passaram e agosto voou. O trabalho continuou, assim como as ligações. Estávamos mais próximos do que nunca, e algo em mim começava a se transformar. Andrew Anselmo Smith já não era aquele garoto mimado rico, que reclamava de qualquer coisa ou fazia coisas vergonhosas, como as proezas que realizei na escola. Okay, como eu disse, odeio falar sobre como eu era um i****a. Viajando para a terceira semana de agosto, sábado. A esse altura, meus pais já sabiam sobre Elize, sobre nossa amizade. Acho que perceberam, gradativamente, os meus estágios de mudanças, como observar em slow motion, durante meses, a transformação da lagarta para borboleta. Aprovavam e estimulavam a nossa amizade, e foi dessa forma que milagrosamente eu fui liberado do trabalho no penúltimo sábado de agosto para sair com Elize. Bem, eles nem sabiam o porquê, e isso foi bom. Fomos a um estúdio de tatuagem nada estiloso do Maine. Parecia mais uma casa de desenhos para idosos, assim como todas as outras coisas que você pode fazer no Maine. — Eu posso dizer que nem sabia que tinha uma tatuagem. Alguém fez uma tatuagem em mim enquanto eu estava dormindo. — Ou você pode dizer que Troian fez. — Ou eu posso colocar a culpa em você. — É sério, eu não vou ter coragem se você não fizer, Eli. — Não tem como eu esconder isso pra sempre, Andrew. Sabe aquela parada de me tratar igual aos seus outros amigos? Então, tem algumas exceções. Às vezes você tem que lembrar que eu não enxergo. — Por favor, Eli. — Eu realmente não acho uma boa ideia. Sério, eu sou maluca, você sabe disso. Se eu estou dizendo não, é que realmente eu posso me f***r com isso. Ela permaneceu lá, sentada, no banco de camurça do estúdio enquanto eu fazia minha primeira tattoo. Os óculos de Elize desenhados entre o meu bíceps magro e o meu tríceps anoréxico. Eu já não malhava desde o último ano do ensino médio. — Achei que fosse doer mais. — disse, quando finalmente terminou. — E então? — E então o quê? — O que você fez? Você ainda não disse. — Eu disse que contaria se você também se tatuasse. — Não posso, And. Sabe disso. — Sem tattoo, sem respostas. Você disse que queria ser tratada normalmente. Pois é, eu sou um b****a normalmente. — Eu acho que prefiro voltar a ter uns privilégios como deficiente. — ela disse, e nós rimos juntos. A primeira semana de setembro foi fria. O verão já começava a se despedir, e as temperaturas já abaixavam lentamente. Enquanto trabalhava, Elize passou a ficar na cafeteria durante boa parte do dia, eu a emprestava o meu casaco e servia muitas xícaras bem quentes de café. Vez ou outra, quando o movimento amenizava, eu sentava ao seu lado e a observe a ler o braile com seus dedos finos. Na maioria das vezes, ela fingia não perceber a minha presença para poder me pegar de surpresa minutos depois. A realidade é que os cegos têm os sentidos muito mais apurados, visto que Eli já sabia quando eu estava chegando mesmo a metros de distância. Ela me reconhecia pelo cheiro, ou até mesmo por sentir minha sombra. A estante 2 da livraria era onde ficavam os livros em braile, então Elize sempre permanecia ali. A sua irmã, Troian, também passava lá para observar as coisas, vigiar como estávamos nos comportando. E, na segunda semana de setembro, recebi um ultimato da Cotter mais velha que me pegou de surpresa. Ela me ligou e marcou um encontro rápido na terça à noite, após o meu expediente. — Eu não sei o quê exatamente está acontecendo entre você e Elize. — Somos grandes amigos. — E você viaja para NY em duas semanas. Eli e eu conversamos ontem e... — Olha, nós realmente ainda nem falamos sobre isso. — Pois fale. O verão tá acabando, Andrew. Espero que faça a coisa certa. Não quero ver Elize sofrendo. Não me decepcione. Tínhamos uma conexão, apesar de nunca termos concretizado tudo isso, todo esse nosso envolvimento. Nos ajudamos de forma extraordinária sem precisar que algo mais acontecesse. Eu senti, sim, vontade de beijar Elize Cotter milhares de vezes, mas não o fiz. O antigo Andrew faria isso sem hesitar, mas, a todo tempo, eu lembrava que o relógio do sol girava, e o nosso tempo se esgotaria hora ou outra. O meu amor por Eli era muito maior que qualquer romance de verão. Tornou-se algo bem maior que isso, e, era grato a ela. Por tudo. Eu já estava prestes a retornar a faculdade, e, resolver o impasse de um jeito óbvio não pareceu o certo. Era a hora de resolver tudo aquilo. Eu não sabia o que diria, mas precisava dizer algo. Aquele impasse não poderia mais permanecer aberto. Não mais. E então, chegamos à parte em que eu realmente queria chegar. Após ligar para Elize, para falar que nós deveríamos conversar sobre o nosso impasse, passei a observar, com outros olhos, a tatuagem que eu havia feito dos óculos de Elize em meu braço. Comecei a entender que, mesmo que eu dissesse que a tatuagem eram os seus óculos escuros, aquilo não significaria absolutamente nada. Tudo bem, ela acreditaria que o desenho estaria ali, entre o meu bíceps e o meu tríceps, mas... Seria aquilo? Apenas isso? Cotter me fez enxergar a vida de um modo diferente, porém eu não poderia fazer o mesmo. Eu não era nenhum Jesus para curá-la, então, o que eu poderia fazer pela surpreendente Elize? O sentimento. Queria algo que tocasse o seu coração. Algo que realmente a fizesse se lembrar de mim sempre que lembrasse, alguma coisa que verdadeiramente fosse importante. Eu resolvi escrever uma música para ela. Uma tão bela que a fizesse lembrar que a sua falta de visão me fez enxergar melhor o mundo, e tudo que nele há. O único problema é que eu não fazia ideia de como fazer isso, escrever uma canção. Automaticamente, liguei para a minha salva-vidas, Betsy. — Você sabe que não é compositor, né? Tu m*l escrevia as redações da escola, Andrew. — É por isso que eu estou pedindo ajuda. — Não sei se você sabe, mas eu sou fotógrafa e não sei absolutamente nada de música. — Como eu começo, Betsy? — Sei lá. Você queria escrever sobre o quê? — Eu... Eu queria escrever uma música para Eli. Uma tão bonita, doce, como ela. — Ponha isso no papel, então. — Como assim? — Esqueceu como se escreve também? Vai, põe no papel. "Eu queria escrever uma música para você. Uma tão. — Bonita quanto você é doce". — completei, sorrindo. Comecei a rabiscar no meu caderno frases que combinassem, ou quaisquer coisas que me lembrassem de Eli, ou que a fizesse lembrar-se de mim, num futuro próximo. Eu quero te emprestar o meu casaco Um que seja tão macio quanto a sua bochecha Então, quando o mundo estiver frio, Você terá um esconderijo para ir Tudo que eu quero eu recebo de você Retribuir é tudo o que eu quero Eu quero escrever uma música para você. Cheguei à casa da família Cotter de surpresa, num domingo frio, típico do Maine. Era a última semana de verão, o relógio corria rápido e o fim não poderia mais ser adiado. Abri a porta do quarto de Elize, que estava deitada em sua cama, com seus headphones vermelhos e sua coberta azul. Ela não pareceu notar minha presença, a música em seus ouvidos parecia estar nas alturas. Quando virei-me para fechar a porta, ela disse o meu nome de forma doce e suave. Como nunca. — Elize? — Andrew? — Eu fiz uma coisa pra você. — Eu sei, a tatuagem. — Não. Não é só isso. Elize sentou-se em sua cama, retirou os fones e me deu espaço para que eu me achegasse a ela. Tirei o pequeno papel rabiscado do meu bolso e o abri. À capela, mesmo não muito afinado, eu comecei a cantar para ela o que eu havia escrito. Eu quero escrever uma música para você Uma que faça você se lembrar de mim Então, quando eu estiver fora Você poderá escutar minha voz e cantar junto Com a voz trêmula, expus todos os sentimentos puros guardados  por ela naquele momento. Também contei sobre a tatuagem dos seus óculos escuros, e ela ficou radiante. Não foi bem uma despedida, muito menos, um adeus. Mas, um até breve. Eu nunca achei que pudesse escrever alguma coisa assim, mas, quando se é verdadeiro e há amor, qualquer coisa pode ser feita, de verdade. Mesmo sem ter a visão, Elize me fez enxergar o que nunca havia visto antes. A vida. A vida como ela é. E o que realmente importa? Bem, não, não é aquilo que você tem ou terá. Suas conquistas, riquezas, o carro do ano ou o seu diploma da faculdade. Tudo e nada se resumem a isso, afinal. O que é, verdadeiramente, a vida? Bem... Você precisa viver para descobrir.
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