Pareidolia - parte 3

4778 Palavras
Saímos do carro. A cada passo, sentia as mãos de meu pai me socando, como naquela noite vergonhosa de agosto. Olhava para os lados, procurando os olhares de todos aqueles colegas de escola, observando-me. David. O último beijo. Estávamos lá, encarando a antiga porta, a mesma, branca e azul. Uma rua sem saída, meio arborizada, com um pequeno balanço no fim. Três da tarde. A antiga campainha havia sumido. Mike bateu na porta, seis vezes, por mim. Eu não me escondi. Não queria surpresas, e, muito menos, brincadeiras. Eu o encarei quando a porta se abriu. Meu pai. Aparentemente, não o mesmo. Ele sorriu, um pouco perdido, olhando para nós quatro. Semicerrou os olhos, curioso. Vestia uma blusa vermelha do New Orleans, seu time do coração desde sempre. — Desculpa. Conheço vocês? Eu não pude acreditar. Tão mesquinho e egoísta que não reconhecia o próprio filho. Ou fingia. Respirei fundo, Spencer pôs suas mãos sobre os meus ombros e sussurrou "calma", em meu ouvido esquerdo. — Conheço? — ele repetiu, com um ar inocente, completamente diferente do homem que eu conhecia como pai. Sua voz soava ridícula. — Querido. — mamãe finalmente caminhava em direção à porta, com um avental verde sujo de farinha. Limpava as mãos em um pano de prato. — Mãe? — Meu Deus. — ela apareceu ao lado de meu pai, boquiaberta. — Quem é ele? — papai sussurrou para ela, olhando de soslaio para mim. Meus amigos se acomodaram na sala-de-estar com meu pai. Enquanto me preparava uma xícara de café quente, mamãe me contou sobre o Alzheimer de papai com tristeza. Já estava em um estágio crítico, e em breve ele não se lembraria de nada. Completamente. — Ele deveria se lembrar de você. Das coisas antigas, ele ainda lembra. Mas, não sei. Você mudou muito. Ou a doença piorou mesmo. — j**k! — ele me gritou da sala, de sua poltrona marrom. — Junte-se a nós. Seus amigos estão falando muito bem de você. — Quem é aquela? Sem ser a Carl e a... Espera, aquele é o Michael? — Longa história. — disse, sorrindo. — É. E a outra é Spencer. Estamos... nos conhecendo. — Hm. — mamãe assentiu, admirada. — Então, você tomou o rumo certo? Deixou aquela história de ser... Você sabe. De lado? — Não estraga a p***a do meu dia. — virei-me, indo em direção a sala. — Não vai querer o café? — mamãe perguntou. — Dispenso. Sentei no braço do sofá para três lugares, ao lado de Spencer. Suas mãos deslizaram sobre minha coxa quando meu pai começou a me fazer perguntas assustadoras. Eu o perguntei coisas também. Sobre o seu filho, e se ele se lembrava dele. De mim. Uma série de perguntas, que brincavam com sua mente no passado. Ele começou a se lembrar aos poucos. Subitamente, gritou por minha mãe, desesperadamente. Ela correu, parando ao seu lado. — Nós temos um filho, não temos? — sua cara de surpresa me fez estremecer. De repente, passei a me lembrar dos momentos bons que tivemos. Antes daquilo acontecer. Quando percebi, estava chorando. E mamãe também. — É ele, querido. Jackson. O j**k, nosso menino. Papai voltou-se para mim, com os olhos brilhando, um sinal de que lágrimas estavam a caminho. A primeira bicicleta, a nossa primeira ida a um jogo de basquete juntos, os treinos de futebol, as lutas de boxe com os pés. Todos os momentos, voltaram. Um abraço. m*l conseguíamos falar. Ele não se lembrava de tudo, e muito menos das coisas ruins. Apenas de mim. Do seu filho. E que ele me amava. Nada mais importava naquele momento. Debrucei em seu ombro, chorando. Socos, pontapés, olhares. David. Um abraço. Lágrimas. Sangue. Tudo ia e voltava. — Eu te amo, pai. — Eu... Eu também. — disse, como uma criança. Uma voz doce e suave. Mesmo de forma triste, eu pude sentir o seu amor novamente, como nunca achei que fosse sentir. Não depois daquilo. Da briga, da minha saída e o nosso afastamento definitivo. Mas, aconteceu. Por um milagre. Mamãe e eu conversamos mais um pouco. Prometi voltar o mais rápido possível, para passarmos um tempo juntos. Papai poderia ir a qualquer momento, e eu não poderia perder a chance de ser amado por ele, no final de sua vida. Fechar um ciclo r**m, iniciar um novo. Infelizmente, tínhamos que ir. Partimos às oito. Papai me disse que ficaria com saudades. Quando saí dali, pensei que já poderia morrer. Estava tudo certo, afinal. Passamos pela cidade das Piscinas Vazias, Carolina do Sul. E paramos por lá, no Blue Hotel, três estrelas. Antes, varamos de carro beirando diversas praias do Estado. Diversas áreas vezes, prédios altos no centro e ar fresco vindo do interior. A cidade das Piscinas Vazias, segundo as recomendações do Google, era a mais agitada de todas. Havia uma estrada, na entrada da cidade, Com diversas piscinas de fibra formando uma enorme montanha azul. Dentro delas, podia-se ler "Bem vindos". Legal e tosco ao mesmo tempo, segundo Spencer. Na entrada do Hotel também havia uma piscina gigante de pé, sem água. — Qual o problema dessa cidade? — Mike perguntou, quando a recepcionista saiu de sua toca e resolveu nos atender. — Boa noite, pessoal. — Bom dia. São duas da manhã. — Carlson riu. — Vão querer um quarto? — Dois. — Spencer disse. Carlson e Mike riram. — Dois quartos. — a recepcionista com cara de maconheira disse. — Você tem? Pra compartilhar com a gente? — Carl a perguntou, indiscreta. — O quê? — ela perguntou, como se não tivesse entendido. — Onde ficam os quartos? — disse, quando a recepcionista me entregou as chaves. Ela vestia uma roupa masculina do exército americano. — No final do corredor. Só subir as escadas. — Okay. — Ei, estamos dando uma festa. É aqui em baixo. Se quiserem ir... A entrada é vinte. — Por pessoa? — Clary perguntou. Nossa estadia no quarto não durou muito. Depois de um debate entre sins e nãos, decidimos ir à festa subterrânea do hotel. Como esperávamos, o cheiro de maconha podia ser sentido da porta. Adentramos. Estava completamente escuro, com grande fumaça flutuando pelo ar, luzes de led coloridas e música dançante. Estava surpreendentemente cheio. E as luzes brilhavam. Dançamos, bebemos e vagamos pelo cubo subterrâneo. — Desafio. Quem pegar mais pessoas em trinta minutos, paga uma rodada de cerveja pra todos. — Spencer disse, logo quando entramos. — Vocês sabem que vão perder, né? — Mike disse. Desceu como Michael, e não como Clary. Não perguntamos o motivo. — Eu pego até homem só pra ganhar de todos vocês. — Carl riu, e logo depois o jogo começou. E vi que estava enganado sobre Spencer quando a vi beijar o primeiro cara que a puxou a poucos passos de mim. c***l. A música vibrava emoções e sentimentos, mas não deixei que me pegassem. Corri em direção ao paraíso, porque me lembrei que já tinha ido ao inferno e não queria voltar nem tão cedo. — Sou j**k. — gritei para ele. Um pouco mais alto que eu, mais forte e mais bonito. Seus cabelos chegavam em seus ombros, bem escuros. — David. — sorriu, e me puxou para si. Não tive tempo para pensar. Enquanto o beijava, lembrava-me de Dyer. Era como voltar ao passado. E isso era terrivelmente r**m. A música mudou, um ritmo mais acelerado e intenso. O quarto, a porta se abrindo, o passado. Meus cabelos sendo puxados. Flashes do passado atravessavam o meu coração, rasgando-o . Empurrei David. Corri até Spencer, que ainda beijava aquele mesmo cara. Bati três vezes em seu ombro esquerdo, interrompendo o momento. O empurrei também, e puxei Jones para mim. A sala escura, a música. Todos em nossa volta desapareceram. Beijávamo-nos conforme o ritmo mandava. Uma sensação incrível. A garota certa, a música certa, o momento certo. Lá estávamos nós, com nossas línguas entrelaçadas e corpos unificados. Dançávamos com nossas mãos, que passeavam em nossos corpos. Foi incrível. Perdemos o jogo, porém, ganhamos a noite. O último destino era a casa do Pastor Thompson. Agora, era a vez de Michael ficar neurótico. Terça de manhã, o sol da Califórnia era confortável. Deixamos as Piscinas Vazias e seguimos para Geórgia. Despedidas estavam próximas. Desta vez, três, quatro paradas. Mike parecia não querer chegar, e nem eu. Ele não queria ter de enfrentar o pai. E eu não queria me despedir de Jones. Porém, foi inevitável. Bem próximo ao Grande Aquário de Atlanta, uma concessionária de carros. O que Spencer precisava. Carlson esperou no carro junto a Mike, muito nervoso por estar próximo aos pais. Acompanhei-a para escolher um carro para o aluguel. Iria finalizar sua viagem até o Alabama. — Então, Parker. Gosta do Grande Aquário? — disse, quando estávamos sentados aguardando a liberação do Ford branco, 2009. — Nunca fui. Você já? — Sua mãe não te levou no Grande Aquário? Fala sério, toda criança gosta de ir lá. — Acho que você teve uma ideia de como é a minha família. Quer dizer, meu pai só estava daquele jeito por conta da. — Eu sei. Eu sei. — ela me interrompeu, um pouco sem jeito. — Deve ser incrível. — comentei, olhando pela janela da recepção da concessionária. A vista era a fachada do Grande Aquário, uma enorme praça e carros antigos fazendo travessias. — Não quer conhecer? — sugeriu, sorrindo, e tirou um cigarro do bolso. Saímos com o Ford dali para andar por alguns metros, até estacionarmos na calçada, logo atrás do meu carro. Spencer deixou o volante para chamar Carl e Mike para visitarmos o Grande Aquário. Nenhum dos meus amigos já havia visitado o local. Simplesmente incrível. Na entrada, barras de ferros bem altas sustentavam, lá no alto, o letreiro gigante escrito GEORGIA AQUARIUM. O pátio do local, bem arejado e perfumado, tinha criança por todo o lugar. Árvores médias nos cercavam por todo o lugar. Mais mágico que a própria Disney, segundo Spencer. A natureza é bem mais fantástica do que qualquer parque diversão de personagens que não existem — segundo ela. Um corredor, centenas de pessoas. O teto parecia nos engolir. Curvo e de um vidro bem grosso, aquele pequeno oceano parecia nos comprimir ali dentro. Os peixes, milhares deles, centenas de espécies, passavam de um lado para o outro. Em cima, em baixo, direita e esquerda. Todos apontavam os seus dedos para os seres aquáticos flutuantes, principalmente as crianças. Os pais tentavam tirar fotos dos seus pequenos com os peixes coloridos ao fundo. Spencer e eu nos espremíamos entre a multidão. Ver aquele azul ao me redor me fez sentir pequeno. Azul é o nosso planeta, e nós somos pequenos pontos nas áreas verdes, que são bem menores que o resto do planeta. Azul. Talvez, eu não precisasse mais de f********o para viajar em minha mente. Aquele lugar me fez flutuar completamente em minha imaginação fértil, como de uma criança. Psicodélico. Passei a confundir as cores e via rostos e formas estranhas nos peixes e em seus movimentos em bando. Pareidolia¹. — Jackson? Jackson? — Spencer me trouxe de volta para o mundo real, puxando-me pelo braço nos afastando da multidão. — Eu acho que esse lugar tem maconha. No ar. Eu estava tendo alucinações. — Cala a boca, Parker. — ela riu, assim como eu. — Obrigado por me trazer aqui. — Tem mais, seu drogado. Vem comigo. Fomos até o fim do corredor e dobramos a direita. Havia uma enorme parede, bem alta, como uma televisão gigante de 200 polegadas. Água, milhares de peixes atrás, cor. Mas, aquele ainda não era o lugar. "Nós entramos no meio da excursão, então vamos para o fim dela". "E Carlson? Mike?" "Estão curtindo também. Relaxa, Parker". O fim. A sala escura. Ninguém estava lá. Éramos apenas Spencer e eu. E os súditos de Poseidon, obviamente. Como o nome sugere, a única iluminação da sala vem dos círculos iluminados, de onde se podem ver todos os peixes. Janelas para um oceano. Paramos em frente ao primeiro. Uma raia gigante passava vagarosamente por nós. — Você ficaria incomodada? — questionei, minha voz ecoou pelo recinto. — Com o quê? — Ser observada. Todos os dias, por milhares de pessoas, todo ano. Sem privacidade. E você não ganha nada com isso. — Parece terrível. — ela respondeu em um sussurro. — É. — disse, e permanecemos em silêncio por alguns minutos. Caminhamos mais adiante, até chegarmos ao terceiro círculo. Águas-vivas. Muitas delas giravam em um círculo agoniante, como uma coreografia de ballet muito bem ensaiada pela mãe-natureza. — Eu menti sobre o seguro do carro. — Spencer quebrou o silêncio, subitamente. — Quê? — O seguro. Não está no nome do Cullen, o meu ex-marido. Eu apenas disse aquilo torcendo para que você me oferecesse uma vaga no seu carro. — Oh... — sorri, sem reação para tal felicidade. — Então, você... Cadê seu carro? — Já liguei para o seguro. Foi encontrado. Por enquanto, está nas mãos do seguro. Eu vou voltar pra casa de avião, provavelmente, daqui de Atlanta, então... Eu não sei. — Que d***a, Spencer. Não, eu... Eu gostei. Gostei mesmo. Não do roubo, mas. — Eu entendi. — ela sorriu, aproximando-se. — Isso significa que você queria estar perto de mim. Spencer, eu queria muito isso, mas. — Você é interessante demais para ser apenas o lance de uma noite, Parker. Não encontrei as palavras certas para dizer naquele momento. Eu estava na defensiva, ainda não acreditando que aquilo era realmente aquilo. Spencer havia se drogado ou o quê? Eu não sabia, mas a beijei, com todas as minhas forças. Nós giramos, rolamos, nos braços um do outro na escuridão daquele Grande Aquário. Porém, a despedida foi inevitável. Mas, não era um adeus, e sim, um até logo. — Você pode me ligar. Promete, okay? Qualquer coisa, eu vou até o Alabama. — Fica tranquilo, senhor super-homem. Eu sei me cuidar. — É isso que me deixa preocupado, Jones. — Vou ficar bem. Prometo. Spencer se despediu carinhosamente dos meus amigos, principalmente de Michael, que era o próximo a enfrentar o seu desafio na viagem. O último. Ela se foi, e nós também. A irmã de Mike, Natalia Thompson, sabia de nossa viagem à Geórgia. Com vinte e dois, a caçula já era casada e morava algumas quadras depois dos pais. Ele ligou para ela e disse que estávamos lá, na rua do pastor, em frente a sua casa. Ela estava trabalhando, e só chegaria uma hora depois. Mike não quis esperar por ela. Clary não estava lá, por algum motivo. Apenas ele. E tinha pressa. Tocou a campainha com firmeza, Carlson e eu nos espreitamos em suas costas. Uma empregada atendeu. Uma senhora, alta, com cabelos curtos e pele amassada. O uniforme era tradicional, vinho. — O senhor Thompson está? — Michael perguntou, aparentemente seguro. — Não, senhor. — a mulher respondeu, simpática. — A mulher dele? — Também não. Estão na igreja. — Mas, hoje é terça. — acabei falando contra minha vontade. — Os cultos são terças, quintas e domingos. — a mulher informou, com um sorriso grande demais no rosto. — O que desejam? — Onde fica a tal igreja? — Carlson perguntou. — Quarenta minutos daqui, eu acho. Querem o endereço? Acho que se vocês saírem agora, dá tempo de chegar para o culto. Eu, eu vou pegar a caneta e o papel, só um instante. — Senhora, nós... —Michael iria falar, mas não conseguiu. A mulher varou para dentro, à procura dos objetos. Com o endereço em mãos, voltamos para o carro. Mike ganhara mais tempo para pensar. Ligou para Natalia, avisando que iriamos para igreja e ela iria direto para lá após o seu expediente. Estávamos em silêncio quando Carlson o interrompeu perguntando para Michael porque Clary havia desaparecido desde as Piscinas Vazias. — Eu estava me preparando. Para estar... 100% Mike. Para hoje. Seria muito pior se eu viesse como Clary. — Mike, não tem essa de "seria muito pior". Você já escondeu a verdade por quase trinta anos. Acho melhor colocar tudo pra fora de uma vez. Isso, foi uma chance divina. Depois, você terá de explicar para eles onde está o Mike depois que o aceitarem e verem apenas a Clary andando por aí. — Eu não vou precisar explicar nada, Carl. Estou morrendo. Esqueceu? — Não, Mike. Eu só acho que você deveria contar a p***a da verdade. Toda a verdade. — Nem fodendo eu entro naquela igreja de peruca e salto alto. — Carl está certa. — manifestei-me. — Você não tem nada a perder, afinal. — Obrigado por me lembrar. — ele disse. — Mike... Só queremos ajudar. Nós não falamos sobre isso a viagem toda. Toda essa situação... Eu não sei. Eu não sei lidar. Não quero te perder. — Presta atenção na p***a do volante, eu não preciso morrer antes da hora. — Calma. Mike, faça isso por você mesmo. — Carlson pulou de seu banco para o de trás. — Nós não precisamos brigar. Somos uma família, seus imbecis. — Eu te amo, cara. — disse, olhando em seus olhos pelo retrovisor central do carro. — E nós amamos ainda mais a Clary. — Carlson o insultou, rindo. — Vocês são dois desgraçados. — Mike riu. — E aí está. — parei, quando paramos em frente a Igreja Batista da Geórgia. — É o meu fim. Carlson ajudou Mike a se trocar dentro do carro. Pegamos roupas, sapatos nas malas e maquiagem. Espiando da calçada, notei que o culto já estava em andamento. Clary faria sua entrada triunfal. Ela saiu do carro, com aquele vestido que vi Michael pondo sobre seu corpo, observando-se no espelho do quarto, em nosso apartamento, antes de partirmos para nossa missão. O vestido de vermelho, de apenas uma alça, longo e com detalhes brilhantes próximos ao peito. Um salto preto, e a sua mesma peruca de sempre. Adentramos pela porta principal, Clary estava no centro, Carlson e eu cruzávamos nossos braços aos dela. Lado a lado. O trio inquebrável, atemporal, infinito. Todos pararam para nos observar, inclusive o pastor. O senhor Thompson parou a seu sermão para nos olhar, fixamente, enquanto nos ajeitamos em um dos bancos da igreja. A fileira seis, de dez que existiam. O local não era muito grande, mas, apesar do dia da semana, estava cheio. Segundo após, o pastor tornou a falar com a igreja. Pediu para todos abrirem em Marcos 12:31. — Alguém trouxe bíblia? — Carlson sussurrou para nós, o que me fez rir. — Alguém irá nos oferecer uma. — Clary disse, com a voz trêmula. Todos começaram a folhear suas bíblias, para lá e para cá. Aguardamos, pacientemente, que alguém nos oferecesse. Sugeri que baixássemos algum aplicativo no celular ou simplesmente deixássemos para lá, mas, Clary estava confiante de que alguém iria oferecer, mas, ninguém o fez. A leitura do livro finalmente iria se iniciar quando o pastor nos avistou. Franziu a testa, tossiu levemente e prosseguiu com sua pregação, a leitura. No primeiro banco, de costa para nós, havia uma mulher de vestido preto. Clary nos contou que aquela era a sua mãe. Tinha cabelos castanhos nos ombros e pele morena. Comecei a ficar impaciente. A pregação estava em Marcos 12, o senhor Thompson fala sobre Jesus, e o "segundo maior mandamento": Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu estava impaciente. Carlson também. Se dependesse de Mike, sairíamos dali sem dizer nada, sem nunca revelar ao pastor quem éramos de verdade. Eu já estava planejando coisas em minha mente quando Carl resolveu agir bem antes. Em meio à pregação, ela se levantou do banco em prol de Clary. Novamente, todos se voltaram para nós. — Desculpe a interrupção, pastor. Mas, você acha que os cristãos praticam esse amor? Esse amor ao próximo que Jesus tanto falava? — Carlson disse com sua firmeza e voracidade. — Qual é o seu nome, querida? — o pastor disse, com a voz serena. — Carlson Davis. — Carlson, todos nós devemos praticar esse amor. E, se você se designa como cristão, sim, você tem de pratica-lo. Não há como se dizer cristão e não fazer isso. Jesus nos ensinou isso. — Então, se o senhor é um pastor, automaticamente, pratica esses ensinamentos. Estou certa? — ela o questionou, o que fez os olhos dos fiéis presentes arregalarem. — Mas, é claro. — ele respondeu, com os olhos semicerrados. — Aonde a você quer chegar, senhorita Daves? — E o senhor poderia demonstrar esse amor, tão falado aqui, por vocês, por Jesus... Pelo seu filho? — ela chegou á Grande Questão, finalmente. Clary apertou minhas pernas naquele instante, demonstrando seu medo e ansiedade. — Desculpa, eu... — Clary. — Carlson virou-se para nós, fazendo gestos com as mãos para que nos levantássemos. Clary tentou se firmar, sentada, mas e a puxei para cima. Todos estavam em silêncio. A mulher de preto, mãe de Mike, virou-se finalmente para nós. A tensão segurava o ar em suas costas. Clary m*l respirava. De cabeça baixa, Mike rezava alguma coisa na qual eu não entendia. Senti medo por ele. Tudo poderia acontecer. Para ele, algo bem r**m. Talvez até pior do que o seu câncer, ou qualquer outra doença. Pior que a morte. Não haveria outra chance, então, o senhor Thompson não podia nos decepcionar. Mike merecia o tal amor que ele tanto pregava para todos. Eu estava confiante de que ele poderia demonstrar aquilo pelo próprio filho. O pastor caminhou, lentamente, até nós. Boquiaberto. O único barulho vinha de fora da igreja, mas era baixo. O caminhar dos sapatos de couro do pai de Michael Thompson era a atração principal naquele instante. E então, num impulso, Clary largou o meu braço e foi até o centro da igreja, no corredor, e abraçou o pai. Chorava. O pastor estava paralisado, com os braços para alto enquanto Mike estava deitado sobre seu peito esquerdo. A sua cara era de nojo. Carlson olhou-me, indignada. Segundos depois, limpando as lágrimas, Clary largou o pai, ainda em transe. — Quem. Quem é você? — disse, com os olhos inchados. Parecia que estava prestes a desmaiar a qualquer momento. — Sou eu. — Mike disse, tirando sua peruca da cabeça, jogando-a no chão. — Seu filho. — Não. Não pode ser. — o pastor riu, enquanto lágrimas rolavam em suas bochechas. Desespero. — Não, você... Você. — Eu sei. Foi por isso que eu fugi. Você... Nunca aceitaria isso. — Eu não te conheço. — Pai, sou eu. Seu filho. — Michael choramingou, ajoelhando-se diante do pai. — Você não deveria estar aqui. — ele disse, suas mãos tremiam, parecia perdido. A mãe de Mike foi até eles. Eu estava chorando. Meu melhor amigo estava jogado no chão, simplesmente humilhado pelo seu próprio pai na frente de todos os presentes. Senti-me impotente. Fraco. Incompetente, falho. Eu ouvia o choro de Michael Thompson e estava ali, parado. Porém, a sua mãe o fez levantar do chão. Ela o abraçou. O silêncio que voltara, não durou muito. O pastor nos surpreendeu mais uma vez, separando sua mulher de seu filho com grande força. — Você não pode compactuar com essa vergonha, Elaine. Este não é o nosso filho. — Este é o meu menino, é o meu filho. — ela disse, abraçando o filho, chorando. — Não é. — ele os separou novamente. — Isso é uma desgraça para a nossa família, Elaine. Você é uma desgraça. — ele disse, agora, para o próprio filho. O punho direito de Michael encontrou a rosto do Sr. Thompson segundos depois. O pastor virou-se novamente, e o seu nariz sangrava. Estava furioso, mas não fez nada. Elaine entrou em colapso. O silêncio. Retornou, mas, se foi, com as gargalhadas do pastor da congregação. Irônico, ele voltou-se para todos, gritando. — Eu estava certo, não estava? Um filho como você só pode ser uma d***a. Você pode ser qualquer coisa, Clary. — ele disse, debochando do nome dito por Carlson. — Mas, você não deveria nem estar aqui. Você não é o meu filho. Deus não me deu isso. — ele riu, e pegou a peruca que estava no chão. — Eu tenho nojo de você. Voltamos. A irmã de Mike não chegou a tempo do escândalo, mas, acabou sabendo de tudo bem depois. Mesmo sem condições para fazer qualquer coisa, Mike correu para fora da igreja. Elaine permaneceu parada, tremendo, chorando. Carlson foi atrás de nosso amigo, enquanto eu, falei com a Sra. Thompson. Deixei meu celular, e disse que ela deveria ligar o mais rápido o possível. Nós partimos, sem dizer nada, por horas, dentro do carro. Mike passou a viagem deitado no banco de trás, encolhido. Carolina do Sul, Carolina do Norte, Virgínia, Pensilvânia, Nova York — nossa casa. Quando chegamos, mensagens na secretária eletrônica de nosso telefone fixo estavam a nossa espera. E, quando a mensagem acabou, o mundo virou de cabeça para baixo. Mike que tomou a iniciativa de ir até o telefone e apertar o pequeno botão redondo. "Senhor Thompson, eu peço-lhe desculpas. Nós tentamos ligar para o seu celular, o único contato que o senhor deixou para nós, em seus registros. Um funcionário de um Hotel de Harrisburg atendeu, dizendo que o senhor havia esquecido lá. Seu telefone fixo está sendo usado em último caso, como o senhor mesmo havia pedido. Tentamos ligar, diversas vezes, para o seu celular. Senhor Thompson, os seus exames estavam errados. Houve um erro, uma grande falha nossa. Trocamos alguns nomes. Falha no sistema. Senhor Thompson, o seu câncer não voltou. Você está saudável. Não há nada com você. Eu não sei se digo que sinto muito, ou... Eu não sei. Bem. Acho que lhe devo desculpas." A cada palavra dita, o mundo, que estava completamente destruído, voltava para o seu devido lugar. Gritamos, surtamos, dançamos loucamente no volume máximo e mandamos a vizinha se f***r. Afinal, nosso amigo, grande amigo, não iria morrer. f**a-se o mundo. Tudo. Gritamos. Ficamos completamente loucos. Resolvemos reabrir o bar no mesmo dia, naquela sexta que retornamos, mesmo cansados. Uma grande festa. Ligamos para todos que conhecíamos. Agitados, começamos a arrumar o bar para receber os convidados. A alegria foi tanta que quaisquer palavras que eu descreva aqui não seriam suficiente para tal, mas, um balde de água fria veio logo em seguida. Uma segunda mensagem. Jones. "Oi, j**k. Eu.. Eu estou gravando isso, pois não acho que teria coragem para falar pessoalmente, ou no telefone. Com você na linha, me escutando em tempo real, você sabe. Eu... Cullen e eu não nos separamos. Na viagem, nós acabamos nos entendendo, e... É, eu ainda estou casada. Eu sinto muito, j**k. Você pode me ligar se quiser. Se precisar. É isso, j**k. É isso. Boa noite." O barulho que indicava que a gravação havia terminado ecoou pela sala. Permaneci parado, pensando se aquilo estava realmente acontecendo ou era algum tipo de pegadinha f**a da Spencer, Carlson ou da vida. Mas, quando meus amigos me abraçaram, percebi que era real. Porém, diferente de mim, eles tinha um truque na manga. Michael assumiu o volante e nos levou até a casa de Piper, saiu do carro, conversou com ela durante uns cinco minutos e voltou. Voltou, com um livro em mãos. Terapia de Mulher. — Nós vamos queimar essa m***a, j**k. Nós vamos. — ele disse, jogando o livro em minhas pernas, sorrindo. Carlson, Michael e eu fomos até o terraço do edifício de nosso apartamento. Pisamos, chutamos e descontamos toda a raiva que sentíamos naquilo. Ao ver o fogo consumir aqueles papéis, percebi que aquele era realmente o fim. E eu estava queimando todas as mentiras, as palavras ditas e as atitudes de S. Jones de minha vida. Imaginei aquele livro como as minhas memorias com ela, sendo totalmente aniquiladas. Deveria esquecê-la. Foi temporário, como todas as outras pessoas de minha vida. Exceto por Michael e Carlson. Estes sim, os meus melhores amigos, estarão comigo para sempre. E, com toda essa jornada, nós entendemos que, às vezes, certas coisas acontecem para o nosso bem. E, no final, se você tem amigos que pode confiar, bem, você já tem tudo. Nada mais é necessário. Amigos, amigos verdadeiros são para sempre. Amores fracos são temporários, assim como a vida é. Mike e Carl são eternos. Para mim, eles são.   —  Bom, é. Carl e eu sempre estamos certos. —  Michael disse, logo após o término da mensagem de Spencer. —  Até o meu câncer foi temporário, mas, nós continuamos aqui. Sempre estaremos. Juntos. Amo vocês.
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