Pareidolia - parte 2

4378 Palavras
— Clary? — adentrei, lentamente, segurando para que a porta não rangesse de forma brutal. — Ela não está aqui. — virou-se, jogando o vestido sobre a cama e descendo dos saltos rapidamente. — Ei, ei. Você estava linda. Realmente linda, Clary. Deveria colocar o vestido. Fica bem em você. — j**k, eu não tô doente. Isso é por diversão. — Mike, você não tá doente. Você só não está sendo sincero com a gente. E com você mesmo. — j**k, precisamos partir... — Não fuja do assunto. Você mudou. Carl e eu notamos. Cada vez mais, vemos mais a Clary do que o Mike. E eu não estou falando apenas das roupas, os sapatos e o cabelo. Michael calou-se. Admitiu que nos últimos meses teve consultas com um psicólogo e foi diagnosticado como um transexual, quando a identidade de gênero é diferente do nascimento. Tudo isso, nas minhas costas e de Carl. Que a sua cabeça estava dividida entre duas pessoas, dois pensamentos. E que Clary estava assumindo o controle. — Eu procurei negar durante todos esses anos. As pessoas aceitam gays, mas, transexuais? Um homem vestido de mulher parece muito absurdo para todos. Eu, vestido como garoto, posso fingir ser um cara normal. — Não tem nada de errado com você. — Para eles, sim. — p***a, Mike. Você não deveria ter escondido tudo isso de nós. O que você é, afinal? Eu juro, achei que éramos melhores amigos. Que soubéssemos tudo um dos outros. Mas não. Por que você tinha um passado, uma vida dupla. E nós, Mike. Carl e eu. Nós não merecíamos tudo isso. Poderíamos ajudar você. Cuidar de você quando precisasse. Porque é isso que as drogas dos melhores amigos fazem. Eles cuidam. Dizer coisas ruins a uma pessoa com câncer parece absurdo, mas foi necessário. Michael nunca fora, totalmente, entregue a nossa amizade. Não nos confiava os seus segredos mais ínfimos, e eu não conseguia admitir isso facilmente. De qualquer jeito, desci até a sala e o deixei no quarto, Carlson e eu colocamos as malas e outras coisas para a mala do carro. Aguardamos por ele, dentro do carro, na calçada do apartamento. Alguns minutos depois, ele desceu. Ela desceu. Segurando uma pequena bolsa de viagem, Clary estava com um vestido azul, os mesmos cabelos e saltos baixos. Estava incrível, mas abalado. Carl estava irada com o Mike, mas não com Clary. Mike escondera o jogo. Porém, quando a vi caminhando em direção ao carro, falei para ela que deixaríamos todas essas questões e segredos para trás. A viagem seria a última coisa que o nosso melhor amigo, e não poderíamos perder tempo com brigas. Deveríamos abraça-lo. Mesmo que ele estivesse escondido em algum lugar, dentro de Clary. — Todos prontos para a maior aventura de nossas vidas? — ela entrou nos bancos de trás do carro, pondo a cabeça para frente, ficando entre a carona e o motorista — Carlson e eu. A primeira parada era em Warren, onde Mike e Carl estudaram juntos. A Sra. Daves morava duas milhas depois da antiga escola. Por ser a que mais costumava ver a mãe, Carlson não estava muito ansiosa. Chegamos lá durante a tarde, o sol estava fraco. Permanecemos dentro do carro por alguns minutos até que Carl decidisse finalmente entrar. — Se você está assim, imagine quando chegarmos à Georgia. Ficaremos dias no carro durante horas. — Clary disse, atônita. — Só estava relembrando de algumas coisas. Faz muito tempo que não venho aqui. Ano passado, quando nos vimos, meus pais ainda estavam casados. Agora minha mãe está com um policial, como vocês sabem. — E onde o seu pai está? — Clary perguntou. — México. Viajando. Nós definitivamente não vamos ao México. — É. Isso sim seria a maior aventura de nossas vidas. — falei, sorrindo. Decidimos entrar. Bati na porta na antiga casa de Carl quatro vezes. Ela permaneceu atrás de mim, escondida. A senhora Daves abriu a porta, com o rosto assustado e um pano de prato nas mãos. — Olá? — perguntou, desconfiada. — É a senhora Daves? — perguntei. — Sim, sou eu. — ela olhou para Clary, fixamente, confusa. Deveria estar processando a ideia. "É um homem?". — Temos uma encomenda. — Clary informou, sorridente. — Desculpe, eu não pedi nada. — falou, pondo a mão na fechadura da porta ameaçando fecha-la. — Oi. — Carlson apareceu, saindo do seu esconderijo. — Mãe. A senhora Daves começou a chorar imediatamente. O abraço do reencontro após um ano durou cerca de cinco minutos. Ela acariciou, demasiadamente, os cabelos da filha. Michael e eu observamos a cena, felizes, sorridentes. Aguardávamos também o nosso momento. Ficamos em Warren até um pouco depois do anoitecer. Daves nos apresentou o seu novo marido, além de fazer um jantar especial. Depois, Carl e a mãe foram para o quarto e conversaram durante um tempo. Clary e eu permanecemos na sala, na companhia do policial Raymond. O homem, quando Mike não estava atento, olhava para ele com certo desprezo. Eu percebi, mas escolhi não dizer nada. A intenção de nossa viagem era resolver os problemas antigos, e não criar novos. De volta para o futuro 2 foi a distração daquela noite. Logo depois do filme, mãe e filha saíram do quarto, com os rostos vermelhos e olhos inchados. Era hora de partir. Ainda na Pensilvânia, paramos em Harrisburg para passarmos a noite. Days Inn Hotel. Tudo para apenas uma noite, partiríamos ao amanhecer. O lugar era ao estilo Bates, como no clássico. Móveis velhos, poucos quartos lado a lado. Pegamos um quarto com três camas de solteiro. Carlson me contou um pouco sobre o que sua mãe e ela conversaram. A senhora Daves e ela haviam brigado há um ano, pois Carl tentou lhe apresentar sua ex-namorada. Carlson achou que, depois de tantos anos falando com a mãe normalmente, vez ou outra, sua mãe teria finalmente aceitado a filha como ela é. Estávamos todos enganados. Daves fez um escândalo, o que resultou num longo afastamento. Mas, dessa vez, no reencontro e na conversa após o jantar, a mãe de Carl apareceu de coração aberto. Ela aceitou a condição. Não era uma escolha da filha, mas ela deveria escolher ama-la incondicionalmente desde o momento em que resolveu ser mãe. Meus amigos finalmente se deitaram para dormir, mas eu ainda não tinha sono. Minha cabeça estava elétrica, pensando a todo o momento em meus pais. O Jackson com dezoito anos me voltava a mente, todas as besteiras que disse e todas as porradas que troquei com o meu pai. Mesmo não sendo um hábito meu, peguei um cigarro e o isqueiro na bolsa de Carl e saí para varanda, fumar por alguns minutos. Em frente ao quarto ao meu lado, uma mulher. Seu corpo estava apoiado em sua perna direita, e o seu braço esquerdo estava apoiado ao direito. Neste, segurava um cigarro. Ela fumava enquanto eu tentava acender o meu cigarro com o isqueiro vermelho de Carl. Pele de oliva, cabelos castanhos, um corpo interessante, uma calça jeans clara e uma blusa preta com o símbolo do RHCP. Traguei, respirei fundo e cuspi a fumaça lentamente, como Michael costuma dizer. A temperatura estava agradável. Observei os carros passarem, a estrada ficava há uns cem metros da varanda do hotel. A iluminação daquele espaço era antiga, lâmpadas brancas forte até demais. Olhei mais uma vez para a minha vizinha de quarto. — Boa noite. — falei, ainda olhando para frente, e traguei novamente. — Nem tão boa. — ela disse, e tossiu de forma assustadora durante uns quinze segundos. A observei mais uma vez, atentamente, e ela parecia acabada. Seus olhos tinham olheiras tão fundas quanto piscinas olímpicas. — Tudo bem? — perguntei, dando passos discretos em sua direção. — Sim. Eu só não costumo fumar muito. — engoliu em seco, com os olhos fechados, respiração ofegante. Jogou o cigarro longe, para frente. — j**k. Jackson Parker. — disse, quando finalmente estava ao seu lado. Troquei o cigarro de mãos e estendi a mão direita para ela. — Spencer. — ela a segurou. Nos encaramos por alguns segundos, com olhares penetrantes, porém sem muitas expressões. Apenas sentindo um ao outro. A energia que cada um emanava. — O que faz em Harrisburg? — perguntei, quando nos soltamos. Também joguei o meu cigarro para longe em seguida. — Uma pequena parada. Estou indo para o Alabama. Aquele é o meu carro. — ela apontou para um Ford preto que estava relativamente perto de nós. — Vou para Geórgia. Antes, uma pequena parada em Carolina do Norte. — É para isso que esse hotel ridículo serve. Para passagem. — ela balançou a cabeça, sorrindo. — Também costumo ser assim para as pessoas. — Jura? — ela riu. — É. Sempre é assim. Sempre foi assim. — Poderíamos passar por aqui, juntos. — ela sorriu, sugerindo algo. E eu acatei. — Então. O que podemos fazer em Harrisburg? — Não conheço muito esse lugar. — ela resmungou, enquanto pegava o maço em seu bolso da calça, pegando para si mais um cigarro. — Quer descobrir? — peguei a chave do carro do bolso e a segurei no ar, sorrindo para ela. — Vamos no meu. — ela tirou sua chave do bolso esquerdo. — Você dirige. — ela jogou a chave para mim, e caminhou até o Ford. Entramos em seu carro enquanto ela pesquisava em seu celular o bar mais próximo do Days Inn. No caminho, comecei a contar um pouco mais sobre mim. E ela também. Spencer ligou o rádio do carro. Parecia um tanto desiquilibrada, sim. E isso me atraia. — Ah, não. Que d***a. — ela resmungou quando sintonizou em uma rádio que tocava Endless. — Não gosta dessa? Eu gosto. — comentei, rindo. A estrada estava vazia. — Me lembra do meu ex-marido. Eu não te contei o que estou indo fazer no Alabama? — Na verdade, não. — Estou indo encontrar o desgraçado. Para que ele assine os papéis do divórcio. Ele se recusa a fazer essa viagem que estou fazendo, então, tenho que ir até o filho da p**a. — Que m***a. — ri, da maneira engraçada que ela disse aquilo. — Então, estamos na mesma. Sozinhos. — E você? O que está indo fazer na Geórgia? Morrer de calor ou o quê? — Não exatamente. Meu amigo. Ele quer visitar os pais. — Não está sozinho no quarto? — Meus amigos estão comigo. Carl e Mike. Mike não, Clary. — Como assim? — É que... Bem, eu disse Mike, mas você verá duas mulheres amanhã. — Eu vou? — perguntou, com a sobrancelha levantada. — Espero que sim. Você é interessante demais para ser um lance de uma noite só. — falei, e ela não respondeu. Sorriu, e logo após abriu a janela ao seu lado e passou a observar a estrada e o vento que balançava os seus cabelos de maneira brusca. Enquanto seus olhares estavam direcionados para fora, eu a observei. Não havia muito com o quê se preocupar pela estrada vazia, então, eu pude me dar ao luxo de olhar para ela durante longos segundos, vez ou outra. A sua pele era brilhante. Os seus cabelos finos, para trás das orelhas, também refletiam a luz da lua. Seu nariz fino me fazia lembrar minha mãe. Bochechas rosadas, e, os seus olhos. Uma mistura de noites de choro, drogas e insônia. Spencer me atraia em todos os sentidos. Olhei para os seus s***s rapidamente, e notei que ela não usava sutiã naquele momento. Não demorou muito para que chegássemos ao bar. Sentamos nos bancos da bancada velha. As paredes eram verdes e o chão cinza. Estava deserto, exceto por dois homens sentados ao fundo, em uma das mesas. Aparentavam ter mais de trinta e cinco. O dono do bar voltava da cozinha quando nos viu ali, ficando surpreso por ter clientes. Dois clientes. Lavou as mãos na pia a nossa frente e nos atendeu, animado. Aparentava ter cinquenta anos, cabelos totalmente grisalhos e uma barriga de alcoólatra. — Boa noite. — falou sorrindo. — O que vão querer? — Uma cerveja preta, por favor. — Spencer pediu. — E o senhor? — o homem me perguntou. — Não vou beber. Estou dirigindo. — disse, rindo. — Fala sério, j**k. Traz uma cerveja pra ele também. — disse, e o homem rapidamente correu para buscar as cervejas. — Se morrermos, a culpa será sua. — Não vamos morrer. Só não bebe muito. — Eu fico bêbado rápido. — Se vamos morrer, acho que não podemos enrolar muito. Preciso t*****r pelo menos pela última vez. — Acho que estou começando a gostar dessa ideia de morrer. — Também. — ela bocejou, e suas veias pareceram saltar de seu pescoço. — Me diga, Spencer. — disse, quando o velho voltou com as duas garrafas escuras e dois copos de vidro. — O que faz da vida? Eu tenho um bar. — Sério? Que original. — ela riu, abrindo a sua garrafa e despejou o líquido no copo. — É. Meus amigos e eu. Em Nova York. — Parece mais interessante que a minha vida. Eu era escritora, mas desisti da minha carreira fracassada. Virei corretora de imóveis. Um fracasso ao quadrado. — ela comentou, virando os 250 ml do copo de uma vez em sua garganta. Abriu a boca, com os olhos fechados. — Escritora? Que interessante. — disse, surpreso. — Publicou quantos? E, corretores não são fracassados. Eles são elegantes e... Bem. — Pareço elegante? — apontou para o próprio rosto, revirando os olhos. — Nada que uma roupa social não resolva. — Publiquei um. Apenas um. Como disse, fracassada. — Adoraria ler, um dia. — Boa sorte. — falou, preenchendo mais uma vez o seu copo com cerveja. — Espere, preciso pesquisar sobre isso. — sorri, pegando o meu celular no bolso da frente da calça. — Qual é o título? — d***a. Eu não deveria ter te contado isso. — falou bebericando mais do copo. — Vamos lá, Spencer. — falei, animado para procurar pelo livro. O Google já estava aberto. — "Truque de mulher". — ela disse com cara de nojo, fazendo as aspas com os dedos. S. Jones. Spencer Jones. Aquilo me fez lembrar Piper, o que me fez rir por alguns segundos. Consequentemente, lembrei-me de nossa última discussão, a última transa. "Eu sei o que você tá fazendo. Eu li aquele livro, "Truque de Mulher". Daquela S. Jones.". — Eu avisei que era ridículo. — Jones disse, rindo junto a mim. — Acredite, isso é bem mais engraçado do que deveria ser. — Como assim, j**k? — Minha ex-namorada leu o seu livro. E ela fez um dos seus "truques" descritos no livro. Mas ela não sabia que eu também tinha lido. — Você leu essa porcaria? Meu Deus, j**k. p***a, j**k. Vai se f***r. — ela começou a rir, sem acreditar. — Eu também não acredito que li isso. — falei, e nós começamos a rir feito loucos. — Qual foi o truque que a i****a usou? — ela ria, desta vez bebendo a cerveja diretamente da garrafa. — Quando o s**o estiver muito r**m, gema o mais alto possível. — disse, com uma voz de locutor, engraçado. — Alguma coisa ridícula assim. Spencer e eu rimos durante toda a noite. Ela contou que era famosa em um blog adolescente quando tinha dezoito anos. Uma editora a convidou para escrever um livro, mas a coisa saiu do controle de Jones. Spencer perdeu o controle do seu próprio livro, e, no final, mais da metade da obra não havia sido escrito por ela. Assumiu que apenas aceitou pelo dinheiro, que não era pouco. Logo depois, tomou desgosto pelo blog e pelo livro e abandonou sua carreira e o seu próprio site. E decidiu trabalhar, no fim de tudo, como uma pessoa normal. — Mas, você ainda escreve, não? — É. Pretendo voltar. Na verdade, vou lançar algo em breve. — Por favor, não me diga que é Truque de Mulher 2. — Não. Meu Deus, não mesmo. — ela gargalhou, e, quando percebemos, nossas pernas estavam entrelaçadas, frente a frente. Saltei do meu banco e fiquei de pé, bem próximo a ela. Nossas mãos se encontraram no balcão, ao lado da cerveja. Spencer olhou de soslaio para nossas mãos. Pus minhas mãos em sua cintura, do lado esquerdo. O seu sorriso me deu o aval para que eu prosseguisse. E os nossos lábios se encontraram, com aquele bafo de álcool e aquele ambiente nada romântico. Seus braços repousaram sobre os meus ombros, enquanto minhas mãos deslizavam sobre suas pernas. O seu beijo, macio e impactante, não me fazia desejar parar. Ela me fez a desejar ainda mais. — Espera. — disse, lembrando-me do que Carl me falara. "Olá, meu nome é Jackson Parker e eu gosto das duas coisas." Nada poderia dar errado. Não mais uma vez. — O quê? — ela perguntou, assustada. Seus lábios gritavam em um vermelho escuro. — Eu... Eu sou bi. Bissexual. Isso é um problema? — disse, nossos rostos estavam bem próximos. Olhava em seus olhos. — Sou uma drogada e escrevi um livro fodido de m***a. Não te perguntei se isso era um problema. — ela disse, e sorrimos. Continuamos a beber por mais de duas horas. Conversando. Rindo. Contamos nossas melhores histórias, os momentos mais marcantes. Spencer me contou mais sobre sua carreira de blogueira famosa adolescente e o seu casamento fracassado. "Ele queria filhos, eu não. Ficamos juntos por quatro anos, mas, agora ele desistiu mesmo. Vai ter filhos com outra v***a qualquer". E ficamos completamente bêbados. Já era madrugada, e resolvemos ir embora, mas sem condições para dirigir. Eu disse que tinha, porém Spencer se recusou. "Eu não aceito morrer ainda casada com aquele desgraçado, j**k". Chamei um táxi pelo celular. Ficamos em frente ao bar, esperando, por alguns minutos. Spencer estava com pena de deixar seu carro ali, abandonado, mas não tinha jeito. Teria de voltar na manhã seguinte para buscar sua caminhonete preta. — Chegou. — disse, fazendo sinal com as mãos quando o táxi andava vagarosamente pela estrada. — Você vai me trazer amanhã aqui, não vai? — sussurrou em meu ouvido, suas mãos entrelaçavam o meu pescoço. — Claro. Não se preocupe, ele ficará bem. — Você é ótimo, Jackson Parker. — ela riu, e me empurrou em direção ao táxi quando ele parou próximo a nós. Entramos no táxi. As suas mãos escalavam sobre minhas costas, por de baixo de minha camisa. Me arranhava com suas unhas. Quando chegamos ao hotel, comecei a beijar Jones descontroladamente já na varanda. Estava sem camisa no momento em que abrimos a porta. E nos jogamos na cama do hotel. As mãos dela continuaram a subir em minhas costas, arranhando-me por completo, enquanto eu beijava cada parte de seu corpo. Minhas mãos atravessaram sua blusa preta e deslizaram por sua barriga, até chegar aos seus p****s. E os meus lábios os encontraram, passeando minuciosamente por cada milímetro. Spencer gemeu alto demais, escandalosamente, o que me fez rir. Era uma piada. — Desculpe, não resisti. — ela disse, quando parou de gemer e gargalhar ao mesmo tempo. — Você me paga, Spencer Jones. — disse, enquanto ainda ríamos. Foi realmente incrível. Naquela noite, nós decolamos. Não me lembro de como dormimos, mas, acordei com Spencer virada de costas para mim, nua, com dois travesseiros para si, e eu, sem nenhum. Olhei para minha calça jogada no chão, e algo brilhava em seu bolso; espreguicei-me e peguei o meu celular, com algumas vinte chamadas perdidas de Mike e Carlson. — Estou no quarto ao lado. — Hã? — Eu conheci a mulher que está hospedada ao nosso lado. Spencer. Nós saímos e eu quando voltamos, acabei dormindo aqui. — Você traiu a Piper de novo? — Nós terminamos, Mike. — E quando você e Piper terminaram de vez? Acho que perdi esse episódio de Friends. — Ela descobriu que eu traí ela com um cara. E deu no que deu. — Ela não te traiu antes? — Sim. Foi mais pelo meu segredo. A briga. — Mas, ontem ela estava lá em casa, não? Dormiu no seu quarto. — Sim. Mas brigamos enquanto fazíamos s**o pela última vez. Ela estava fazendo um dos truques do livro que eu te falei. E, por acaso, a Spencer é a autora do livro. — Então você transou com aquela tal de S. Jones? — Michael riu. Desliguei assim que Spencer acordou. Suas primeiras palavras foram "j**k, eu preciso buscar o meu carro". Combinamos que arrumaríamos nossas malas e depois buscaríamos a caminhonete no bar da noite anterior. Após as malas prontas, assim como todos nós, Jones saiu de seu quarto quando colocávamos as malas dentro da mala. Foi meio surpreendente. Ainda tinha cara de drogada, mas menos arrasada pelas drogas. O cabelo estava preso em um r**o de cavalo, e tinha um cigarro entre o dedo indicador e o médio. Vestia um casaco roxo de lã bem fino e uma calça skinny preta. Os tênis Nike meio masculinos cobriam os seus pés. Pensei em como tudo aquilo era uma d***a. Mais uma despedida, mais uma pessoa, uma passagem. O fato de não conseguir algo duradouro me frustrava. E lá estava eu, largando mais um possível amor para trás. Querendo ou não, isso sempre acontecia. Ou estava destinado a acontecer. Entramos no carro e a apresentei aos meus amigos. Do banco de trás, Clary e Spencer conversaram muito. Carl me perguntava detalhes sobre minha noite com a ex-blogueira. Olhava para estrada, desejando que nunca chegássemos ao tal bar. Não queria vê-la partir. Não tão cedo. Parecia cedo demais até pra mim, que já estava acostumado com aquele tipo de situação. — Cadê a p***a do carro? — Spencer disse quando parei em frente ao bar. — Não está na parte de trás? — perguntei, tentando me recordar se tínhamos o deixado na parte da frente. — Ele estava aqui, j**k. Em frente aquela placa na janela. "Aberto 24 horas". — Porra... — Seu carro não tem seguro? — Carl perguntou. — Tem, tem. Mas, está no nome do Cullen. Ai, d***a. — Quem é Cullen? — Meu ex-marido. — Vamos até o bar. Talvez o velho tenha visto alguma coisa. Segundo o dono do bar, os dois caras do fundo que estavam no bar ontem à noite quando chegamos haviam roubado a caminhonete. E Spencer acabou revelando que foi assediada quando foi ao banheiro, por um dos dois, mas recusou-se. Isso não era motivo o suficiente, mas, para um vagabundo, qualquer olhar estranho é o bastante. E então, o meu coração teve uma ideia quando vi Spencer chorar por seu carro roubado, em frente a um bar fodido em Harrisburg. — Você pode ir com a gente até a Geórgia. De lá, você segue o seu rumo para o Alabama. Aluga um carro, compra uma passagem, sei lá. É perto. Meus amigos me olharam de forma pervertida, como se quisessem dizer "nós sabemos o que você está fazendo". E todos sabiam, inclusive Jones. Ela pensou durante um tempo e acabou por me abraçar. O sim que eu tanto esperava. E, sem agradecer aos bandidos desgraçados que levaram a caminhonete da Spencer, sorri ao lembrar-me de seus rostos. Aqueles dois filhos da p**a prolongaram por alguns dias o meu serviço de reparo temporário com Spencer Jones. Depois da noite quente, adrenalina, s**o e drogas, a tensão voltou a tomar conta dos meus braços, pernas e coração. Os meus pais eram o próximo destino. A viagem foi tranquila e mais animada do que antes. Cantamos juntos as músicas escolhidas por Carl, rimos e Spencer contou mais um pouco sobre si, assim como todo o resto. O único problema da viagem foi o esquecimento de Michael, seu celular ficara no Days Inn, em Harrisburg. Após pouco mais de oito horas, com duas paradas pelo caminho (uma em um Burger King e outro em um shopping pequeno de Virginia para comprarmos um novo celular para Mike), chegamos à Carolina do Norte. — Então, teremos mais uma cerimônia pré-reencontro? Dentro do carro. — Cala a boca, Clary. — Carlson disse, prestando atenção em mim. Estava parado, com as mãos firmes no volante, olhando para casa dos meus pais. Lembranças passavam como raios flutuantes através de um espelho convexo quebrado. De repente, eu tinha dezesseis anos mais uma vez, na casa de David Dyer. Nós éramos quase namorados naquela época. Uma festa. Vinte e três de agosto de 2001. Eu o beijava, em seu quarto, a música que nascia da sala estourava em nossos ouvidos mesmo com a porta fechada. — Eu acho que te amo, j**k. — David me pegou de surpresa, quando já estávamos sem camisa. Eu esperei um pouco, sorri e o beijei novamente, por alguns minutos, intensamente. — Tenho certeza que te amo. — falei, pegando a mim mesmo de surpresa, para falar a verdade. — Prometa não me deixar, senhor Parker. Ou eu serei obrigado a te ameaçar de alguma forma. — E o que vai fazer, senhor Dyer? — e o beijei, pela última vez. A porta se abriu, bruscamente, nos deixando assustados. Meu pai. Corpo armado para o ataque, seus olhos transmitiam ódio. David e eu estávamos de mãos dadas. E, quando ele chegou até a mim, nos separamos. Para sempre. Meu pai puxou os meus cabelos com força com uma mão, a outra, segurava o meu pescoço. Eu não ouvia nada. Lembro-me da última imagem que tive David, quando saía do quarto, chorando. Todos da casa, dos corredores e da sala pararam para observar a minha desgraça, perplexas. Até a varanda, todos puseram os seus olhos em mim. Meu próprio pai, dando-me pontapés naquele gramado molhado do jardim dos Dyer's. Socos. Ajoelhou-se em mim, e descontou toda a sua raiva. E disse as piores coisas deste mundo. Pensei que era o fim. Que tudo estava acabado. O sangue que escorria do meu nariz, descendo pelos meus lábios e chegando até o queixo decretavam o meu passaporte para o inferno. Meus olhos se fecharam. — j**k? — Carlson me chamou, interrompendo minha viagem no tempo desastrosa.
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