Pareidolia - parte 1

4114 Palavras
Pessoas normais, principalmente nos dias atuais, usam as drogas lícitas e ilícitas (isso irá depender de onde você vive) para esquecer os seus problemas, ou para simplesmente viajar sem sair do lugar. Enxergar um novo mundo, uma camada especial da Terra que somos incapazes de ver apenas com os nossos olhos mortais. Outros assistem a filmes. E há aqueles que leem também. Certamente, um bom livro pode nos fazer viver outra realidade, mesmo estando apenas deitado em uma humilde cama de um quarto escuro. E também existem pessoas como eu. Não sei se é comum, mas costumo f********o para visitar esses outros mundos. E por prazer, é claro. Mas, para mim, não é apenas fechar os olhos e gemer drástica e ridiculamente. É um apocalipse: as luzes se apagam e eu corro fora do lugar. Voo. Sinto minhas pernas tocarem as nuvens e os meus braços cumprimentam os deuses do Olimpo. É uma aventura insana e surreal. E romântica, quase nunca. Como Mike diz, tudo na minha vida é temporário. Só ele e Carlson são eternos. A exceção. O resto do mundo, passageiro. Isso é realmente desanimador, mas profundamente verdadeiro. A maior prova disso é Piper, a minha ex, quase esposa. Quando fizemos um ano e seis meses de namoro, eu a pedi em casamento. Ou melhor, ficamos noivos. Errei f**o. Carl cansava em me dizer que eu deveria esperar, que os supostos dezoito meses de namoro já eram um grande avanço para minha vida insignificante. "Para quem era apenas um substituto para o mundo, você já está em vantagem. Não estrague tudo, j**k. Você vai se f***r, é sério". Estava certa. Pouco depois de nos tornarmos noivos, Piper e eu brigamos. Quase caímos na p*****a, na verdade. A diferença é que eu não reagi, só fiquei parado enquanto ela chorava me dando alguns tapas nas costas, raivosa. Eu até suportei por um tempo, mas decidi me levantar e resolver toda a questão. Nos beijamos. Segundos depois, estávamos em meu carro, com os vidros trancados, sem roupa. Nem me pergunte por que saímos de um quarto para f***r em um banco de carro desconfortável. Depois, Piper assumiu o volante. "Vou te levar a um lugar especial. Vamos recomeçar. Eu quero recomeçar." Eu assenti e apaguei por alguns minutos do banco do carona. — Chegamos, j**k. Acorda! — ela disse, dando tapinhas em minha cabeça, sorrindo. Abri os olhos e encontrei os dela. — Nós cruzamos o país ou o quê? Parece que eu dormi por umas dez horas, Pip. — Você dormiu por vinte minutos. Anda, vamos. — c*****o. Eu jurava que tinha dormido por mais de dez horas. Era o bar. O meu bar. O nosso bar, Good Night. Tinha uma frente que imitava madeira, uma logo tosca e colorida que piscava a todo o tempo. Azul, preto e rosa. Lembrava mais a entrada de uma boate. Uma boate gay. — Ainda não inventaram a máquina do tempo, Piper. Você sabe, voltar aqui... — Podemos recomeçar. Temos esse poder. A máquina do tempo está dentro das nossas mentes. Apenas imagine, j**k. Divirta-se. — ela sorriu, estávamos sentados em um dos bancos redondos vermelhos acolchoados. — Vodka. Por favor. — Duas. — ela disse para o barman. — Você também pediu Vodka quando nos conhecemos? — sorri, irônico. — Você é tão i****a. — ela sacudiu a cabeça. — Brincadeira, eu me lembro de tudo perfeitamente, Pip. Divirta-se, esqueceu? — Eu acho que sei lidar com isso. — falou, mudando de assunto radicalmente. — Deveria ter lhe contado desde o início. Achei que se desinteressaria por mim. Desculpe. Os meus últimos minutos de s**o com Piper Andrews foram marcantes. No pior sentido possível, infelizmente. Após a noite insana transando no carro e a ida ao Good Night, fomos para o meu apartamento. O carro de Piper ficou em frente ao bar, voltamos de táxi. Lembro-me de chegarmos completamente sem controle e nos jogarmos na cama do jeito que estávamos. Quando acordamos, por volta das três da tarde, conversamos um pouco mais sobre nossas questões pendentes e transamos. Os últimos minutos de s**o entre nós. Estava eu deitado, meus braços estavam pairados no ar, Piper sobre os meus quadris, balançando, para frente e para trás, para cima e para baixo. Completamente nus. Meus olhos ainda não haviam se fechado por completo, afinal, ainda não tínhamos chegado ao ápice. Ou nem perto dele. Não decolamos, como ela costumava dizer. Piper gemia incessantemente de um jeito que eu nunca havia escutado, eonxtremamente bizarro. — Eu sei o que você está fazendo. — falei, um tanto alto, pois os seus gemidos estavam exageradamente altos. Piper alcançava um sol sustenido. — Cala a boca. — ela disse, com a voz ainda no mesmo tom. Sorri por um minuto. Seus s***s balançavam feito ioiô. — Eu sei o que você tá fazendo. Eu li aquele livro, "Truque de Mulher". Daquela S. Jones. Ela continuou se movimentando. Ia para cima e para baixo e para frente e para trás. Suas mãos pousadas sobre o meu peito, seus cabelos tão longos que alcançam os meus olhos. — Capítulo três. Quando o s**o estiver muito r**m, gema o mais alto e forte o possível. Isso fará com que o jogo acabe mais rápido. — p***a, j**k. — ela revirou os olhos, parando os movimentos e cessando os gemidos, irada. — Vi no seu i********:. A foto do livro que você postou. Eu só não achei que você seguia livros de autoajuda. — E eu não queria dizer que, desde que descobri tudo, não consigo imaginar eu e você transando. Imagino você... Com um cara qualquer. — ela se levantou dos meus quadris, pulou da cama para o chão e puxou a sua camiseta de cima do criado-mudo. — Piper. O jogo ainda não acabou. E, você disse que saberia lidar com isso ontem, no Good Night. Recomeçar, lembra? — olhei para ela, e em seguida, para uma coisa reta no meio de minhas pernas. Como o Empire State Building. — Termine sozinho. — ela vestia o seu jeans de modo apressado. — Nós não precisamos mais conversar sobre isso. Foi burrice. — Se você não queria voltar, então por que saímos ontem? p***a, por que deixou tudo aquilo acontecer, Piper? Ontem foi uma d***a de uma noite especial, d***a! — Eu achava que conseguiria lidar. — ela fechou o zíper da calça enquanto procurava por seus sapatos pelo chão do quarto. — Estava errada. — Nós poderíamos ter evitado tudo isso. — É. Poderíamos. — ela disse, e finalmente calçou as rasteirinhas pretas. — E então? — falei, e nos encaramos por alguns segundos. A minha ereção ainda estava lá, intacta. Piper olhou para ele rapidamente, com certo desgosto. — Abaixa essa p***a, j**k. — falou, pondo as mãos sobre a maçaneta do quarto. Olhava alguma notificação em seu celular. — Vai me deixar aqui, desse jeito? — falei, rindo para ela. Estava incrivelmente m*l, mas sou desse jeito. Faço piada das minhas piores tragédias. — Você não precisa de mim pra isso. Por que não chama o Richard? — ela sorriu, irônica, e fechou a porta atrás de si com bastante força pouco depois. A batida da porta fez o quarto estremecer. Permaneci ali, parado, pensando em como Carl e Mike sempre têm razão. Tudo é temporário. Estamos aqui, vivendo, passageiramente. Tudo passa. As coisas ruins, e as boas. Levantei-me e tomei um rápido banho antes de arrumar o quarto ao estilo Jackson. Disfarçando a bagunça, sempre. Pego o primeiro shorts que encontro na segunda gaveta do armário e desço pelas escadas do apartamento. Carlson está sentada a mesa, comendo pizza e refrigerante no café da manhã. Um café da manhã às cinco da tarde. — Que menina saudável. — comento, sorrindo para ela. Sento-me à sua frente e ela está com uma cara assustada enquanto pego um pedaço da sua pizza de calabresa. — Temos um problema. — Sim. Estamos comendo pizza há uma semana em todas as refeições e em alguns meses estaremos com 100 kg e sem sair de casa. — Não é isso. Ah, Piper saiu daqui revoltada. Brigaram? — Terminamos. — Normal. — Terminamos mesmo. Ela não conseguiu lidar. Diz ela que tentou, nós saímos ontem, fomos ao bar que nos conhecemos pela primeira vez. Queríamos recomeçar, mas não rolou. — Eu disse que você deveria avisar desde o começo. As pessoas não entendem. — Eu sei. Tudo o que ela consegue imaginar é eu na cama com um cara. — Ela deve imaginar você dando pra um cara enorme. — Carl riu, enquanto bebia um pouco de refrigerante. — É. Ela disse mais ou menos isso. — ri com ela. — A partir de hoje, quando você conhecer uma garota, eu vou te obrigar a contar de primeira. "Olá, meu nome é Jackson Parker e eu gosto das duas coisas." — Acho que os homens ligam menos pra isso, não? — Claro. Você deveria desistir das mulheres, j**k. — Infelizmente, o lado que pesa mais não é o deles. Mas, qual era o problema? — Não é exatamente um problema. É o Mike. Ele... Ele não foi trabalhar hoje. — Como assim? Aonde ele foi? — Precisamos descer. Vamos trocar de roupa. Quero que veja. Carlson fez mistério. Fomos aos nossos quartos e trocamos de roupa rapidamente. Ela vestiu uma calça preta, uma blusa azul escrito "Drugs", em branco. Seu cabelo preto bate em seus ombros, olhos orientais castanhos e pele branca. E uma franja oriental, além disso. E uma pulseira oriental em seu pulso. Provavelmente, a sua calcinha tinha a bandeira da Coréia ou Japão. Nosso apartamento ficava ao lado do nosso bar. Literalmente, nosso. Quando decidimos morar juntos, Carl e Mike tinham apenas dezessete anos. Eu tinha quase vinte e um, um emprego três estrelas razoável e uma moto. Morava de aluguel em um flat com três cômodos em Salamanca, Nova York. Carlson e Michael estudaram no ensino médio juntos, enquanto eu fazia um estágio temporário na escola deles, por seis meses, em Warren, Pennsylvania. Eu acabei virando uma espécie de tutor, ajudando-os com Álgebra e outras matérias que ambos detestavam. Também os ajudei com a escolha da faculdade — que ambos não conseguiram terminar. Entre uma conversa e outra, lhes disse que morava sozinho, e como era a vida de um solteiro solitário. E então, imediatamente, os dois viram em mim, uma esperança de poder viver. Viver de verdade. Livres. — Nós poderíamos morar com você. Arrumamos qualquer trabalho para ajudar nas contas. Carl pode virar entregadora de pizza ou dançarina de boate. — Vai você ficar rebolando a b***a na frente de homem por dinheiro. — Carl disse para Mike, rindo. — Eu não sei. Vocês vão destruir a vida de vocês comigo, sério. — A minha vida já está destruída, j**k. Não tem como ficar pior, acredite. Eu estou prestes a me m***r. E se eu não fizer isso logo, o meu pai vai. — E minha mãe também. — Carl comentou. — Ok. Darei uma chance a vocês. De começo, vamos ficar onde eu estou. É pequeno pra c*****o, não esperem o apartamento dos sonhos. Arrumem um emprego e nós sairemos de lá. Falo com vocês mais tarde. Michael, um infortunado. Homossexual, filho do pastor de uma Igreja Batista. Sabia que jamais seria aceito. Carl não é filha de pastor, mas também é gay. Pais homofóbicos, e isso já é o bastante. A diferença é que Carlson acabou contando-lhes a verdade, e daí pra frente tudo piorou. Brigas e até coisas piores aconteceram. Hematomas costumavam surgir, semana após semana, em seu corpo. Ela nunca queria falar sobre as marcas, mas nós insistíamos para que pudéssemos confortá-la. O seu pai chegou a arremessar um o abajur de seu quarto nas costas da própria filha. Por ódio e desgosto. Eu não poderia, sabendo dos fatos, não fazer nada. E os ajudei. Após a formatura, os dois deixaram apenas uma carta de despedida para os pais. E tudo começou a partir daí. Um trio aparentemente indestrutível. Verdadeiro, que se compreendia em todos os sentidos, de todas as maneiras possíveis. Os dois conseguiram empregos dois meses depois de suas estadias sob minhas costas em meu miniapartamento alugado. Mike chegou a pegar um trabalho temporário como ajudante de pintor. Carl até tentou ser babá, mas não aguentou nem até a segunda semana trabalho. "Crianças são bem legais distante de mim." Bebíamos sempre em nosso apartamento. Ouvíamos músicas num volume tão alto que a vizinha idosa ao lado sempre reclamava quando tinha oportunidade. A maconha veio logo depois. Carl curtia mais que Mike e eu, já que não conseguíamos entrar na onda tão rapidamente quanto ela. E continuamos trabalhando. Logo depois dos empregos que não duraram, conseguiram coisas fixas. Durou bastante tempo, tanto quanto o meu. Conforme o tempo passava, percebíamos que precisávamos de algo nosso. Alguma coisa tão nossa como o nosso segundo apartamento, que era maior que o primeiro, em Salamandra. Decidimos que precisávamos trabalhar para nós, e não para os outros. Com a nossa união, o bar Three surgiu. O nosso próprio negócio. Nossa amizade foi sacramentada no dia da inauguração, quase seis anos depois da formatura de Mike e Carl no ensino médio. — Ali está. — Carl disse, quando finalmente adentramos ao Three. — E o Mike? Onde está? — falei, avistando cada canto de nosso bar. Não estava cheio, o movimento antes do anoitecer não costumava ser dos melhores. Após as sete, lotação total. — É. Ele não está aqui. — Disse que estava. — rebati, estranhando o mistério. Passei a reparar os detalhes da decoração do bar. Era uma espécie de bar moderno, porém com mesas em madeira, um clássico. O teto era branco e tinha detalhes em amarelo mostarda. O piso era de porcelanato antigo. Ao fundo, um quadro enorme, uma pintura da grande Manhattan. A iluminação era vagamente amarelada. Percebi, enfim, que as paredes do bar estavam gastas e mereciam uma nova mão de tinta. — Ali, j**k. Está saindo da cozinha agora mesmo. Não era Michael. Estatura mediana/baixa, cabelos claros e longos, um batom rosa, discreto. Vestido preto e argolas enormes em suas orelhas. Clary não demorou em nos encontrar. Permaneceu parada, nervosa. Mordeu os lábios rapidamente antes de acenar, com um sorriso tímido no canto da boca. — O que aconteceu? — perguntei, quando Carlson e eu fomos atrás dela, na cozinha. — Como assim? — fez-se desentendida, pegando uma lata de cerveja na geladeira. — Mike. Mike, o que a Clary está fazendo aqui? — Carl, mais direta, perguntou. — Não sei quem é esse Mike. — ela sorriu, abrindo a lata com os dedos. — Michael... — disse, Carl e eu trocamos olhares preocupados. — Servidos? — Clary nos ofereceu um pouco da cerveja. — Não estamos aqui pra te julgar. p***a, Mike. Somos sempre tão verdadeiros uns com os outros? O que está acontecendo? Naquele momento, Clary já não estava mais presente. Michael retirou a sua peruca lentamente, deixando a lata de cerveja de lado. Sua expressão era de morte. Nos últimos meses, Mike começou a criar um personagem para si próprio. Clary Wayland. Quando saíamos para uma boate próxima ao centro, pelo menos uma vez todo mês, ele se vestia como ela. Uma personagem. Sempre um vestido elegante, a peruca, os saltos. Ele dizia que era apenas por diversão, e Mike sempre foi um cara louco. Sempre fez coisas, constantemente, que nenhum de nós têm coragem de fazer. Mas, Clary tomou uma proporção bem maior do que deveria. Ou que achávamos que tomaria. Um tempo depois, víamos menos o Michael em nossas noites, e ela quem assumiu o papel principal. E, naquele dia, ele estava lá, em nosso bar. Clary estava trabalhando em seu lugar. Onde ele havia parado? Não sabíamos até aquele momento. Os seus olhos se encheram como um oceano, fazendo-o desabar no chão da cozinha de nosso bar. Começou a retirar o batom com as mãos, os brincos, arremessou os seus saltos para longe, raivoso. Chorava demasiadamente. — Mike? Mike, o que está acontecendo? Mike! — agachei-me, sentando ao seu lado no chão frio ao lado da geladeira. — Você... Você não quer mais ser o Michael? Quer ser Clary. É isso? — Carlson sentou de pernas cruzadas de frente para nós dois. — Voltou. — foi o que disse, em um surto de coragem. — Quem? Quem voltou? — perguntei, preocupado. — Não é isso. — ele respondeu, olhando em meus olhos. Passava as mãos sobre suas bochechas e um pouco abaixo dos olhos, para limpar o rosto das lágrimas. Suspirou. — O que aconteceu, Mike? — Carl disse baixinho. Seus lábios tremiam, bagunçava o próprio cabelo com as mãos, nervosa. — O câncer voltou. — sussurrou melancólico, olhando para o teto, as mãos sobre sua boca. Tudo ficou branco. A cozinha, que já era composta por pisos brancos, tornou-se invisível. Não sabíamos. Ao saber de tudo, Carlson se exaltou, por pura tristeza. Disse que Michael fizera o nosso pacto de amizade com os seus dedos cruzados atrás das costas. Ele nunca havia nos dito. Foi quando parei para pensar que nenhum de nós sabia sobre as nossas malditas infâncias. Nunca havíamos falado sobre isso. Não detalhadamente. — Eu tive câncer quando criança. — disse ele, quando já tínhamos voltado ao nosso apartamento. Estávamos sentados em nosso sofá, Michael ainda tentava recuperar suas forças. — Nunca contei a vocês. Fiquei curado totalmente quando tinha treze. As chances de retorno eram mínimas, os médicos disseram que eu descobri o câncer muito cedo e eu tinha conseguido me livrar, mais facilmente, dele. Por completo. — Não se esconde um câncer vencido de seus melhores amigos. — Carl diz. Olho para ela, sério, que desvia o olhar para o chão. — Achei que fariam perguntas. E que ficariam preocupados comigo o tempo todo, assim como os meus pais faziam. Me tratavam como um bebê até os meus dezoito. Quando decidi sair de casa, pensei que tudo deveria ser novo. O passado teria de ficar para trás. — Quando você descobriu isso? — questionei. — Duas semanas. Eu fui fazer alguns testes. Faço todo ano. E recebi a notícia. Eu realmente não sabia... Não sabia como dizer a vocês. — E qual é a situação? — Carl perguntou o que queríamos saber. Ele não disse nada. Começou a balançar a cabeça em negativo, com os olhos fechados e as lágrimas rolaram. Suas mãos rapidamente cobriram o seu rosto enquanto ele continuava a rejeitar tudo aquilo em um enorme "não" corporal. Nos abraçamos, ali sentados. Carl e eu repousamos nossas cabeças sobre os seus ombros enquanto Michael soluçava como uma criança. E nós também. O ambiente, diferente da cozinha do bar, não tornou-se branco, e sim, preto. Tudo ficou escuro demais, m*l conseguíamos enxergar uns aos outros. A dor, que sabia do coração de Mike, espalhou-se pela sala. E em nós. Eu tomei a sua dor. Pude sentir, da maneira pior possível. Nós nunca esperamos isso. Não de quem mais amamos. Vemos situações como estas em livros, filmes e na televisão. Na vida real é ainda pior, acredite. Ouvi-lo chorar fez meu coração congelar. Éramos um coro. Um coro de lágrimas. Ele nos contou também sobre sua história. Sua vida não foi fácil desde o dia de seu nascimento. Os seus pais não eram cristãos desde sempre. Na gravidez de Mike, sua mãe, Samira Thompson, ainda era viciada em cigarros. Foi uma gravidez complicada. Michael nasceu bem antes da hora certa, além de ter desenvolvido uma série de doenças respiratórias, que sucedeu ao câncer. Ele foi acompanhado desde o seu nascimento, pois os médicos já sabiam sobre o vício da Sra. Thompson. E foi por isso que Mike descobriu o câncer bem cedo, com seis anos. Foi uma longa jornada. Quimioterapia, remédios e todas essas coisas que já conhecemos. E o tumor foi vencido, com probabilidade de retorno em menos de 5%. Aos doze, Michael livrou-se do câncer e do hospital, mas não de seus pais. Depois da cura, o que o Sr. Thompson chamou de milagre, a família se tornou cristã. Tempo depois, pastor. Conhecido e respeitado por todos, e que respeitava a todos, segundo ele. Menos o próprio filho. Após quase uma hora sem palavras, gestos ou qualquer tipo de comunicação, saímos daquela posição fatal. Mike resolveu se levantar, tomar um banho e trocou suas roupas. O seu vestido. Começamos a assistir um filme escolhido por ele. Sentados. Abraçados. Sem dizer nada. Ninguém sabia o que dizer. Mas Michael interrompeu os setenta minutos de silêncio entre nós. — Preciso visitar meus pais. — soltou, Carl encarou-me, assustada. Não respondemos. Continuei a olhar para a televisão. Comecei a pensar em quanto tempo fazia que não visitava os meus pais. Lembrei-me de minha saída de casa. A briga final. Coisas sendo jogadas para todos os lados, xingamentos trocados, choro. Minhas malas sendo feitas, o último adeus. —Estão surdos ou o quê? — disse Mike, nos chamando atenção mais uma vez. — E onde eles estão? — Geórgia. — E quando vamos? — perguntei. — Quem disse que vocês vão? — ele brincou, rindo. — Você não tem escolha, Mike. — Carl riu. — Tenho mais uma coisa para contar a vocês. — admitiu ele. — Pronto. Lá vem mais. — Acho que já chega de surpresas por hoje, não? — falei, sorrindo. — Os meus pais não sabem. Não sabem sobre mim. Minha sexualidade. — Como não? Quando nós saímos de casa, deixamos cartas para eles. Fizemos as cartas juntos, Mike. Eu li sua carta. Dizia tudo. Tudo. — Carl aludiu. — A carta que você leu não foi a que eu entreguei. Não tive coragem. Rasguei, escrevi outra. Não queria sair de casa sabendo que meus pais me odiariam para sempre a partir daquele dia. — ele disse, nos deixando boquiabertos. m*l havíamos digerido a história da volta do câncer em seu cérebro. — E agora você quer ir até lá e contar tudo. Com quase trinta anos. — disse, como um robô. — Basicamente isso. Se eles resolverem me m***r, não tem problema. Já estou morrendo. — ele sorriu de lado, admitindo que aquilo não fora engraçado. — c*****o, Mike. c*****o. — Carl xingou, com a cabeça baixa. — Já sei o que iremos fazer. — disse, quando pensamentos vieram a minha mente. Arrumamos as malas para partimos na manhã seguinte. Debatemos no jantar sobre deixar ou não o Three em funcionamento. Apesar de Lindsay nos cobrir diversas vezes e ser uma pessoa respeitável e confiante, nós resolvemos não deixar o bar aberto apenas nas mãos dela. Iríamos viajar por muitos dias, e não tínhamos previsão certa para volta. Destinos: a casa dos Thompson, dos Davis, pais de Carl, minha mãe. Traçamos uma rota de carro em um GPS, para que pudéssemos chegar mais rapidamente, um atrás do outro. Começaríamos com Carlson, os meus pais e depois os Thompson. Pennsylvania, Carolina do Norte, Geórgia. — Os seus pais poderiam ter continuado na Pennsylvania. Nossa viagem daria menos trabalho. — falei na manhã de domingo, quando já estávamos quase prontos para partir. — Liguei para minha irmã semana passada. Eles construíram uma igreja na Geórgia e resolveram se mudar para lá. Deixou a da Pennsylvania nas mãos de outro cara, não sei bem. — Bem, eu já não falo com minha mãe por telefone tem uns meses. Vamos rezar para que ela ainda esteja naquela casa h******l com o meu pai. — Não é melhor ligar? — sugeri. — Vamos fazer surpresa, j**k. Todos nós. — Mike disse. Michael subiu até o quarto alegando que precisava buscar mais alguma coisa. Carl e eu começamos a debater sobre tudo o que estava acontecendo, e sobre Clary, a segunda parte de Mike. Desconfiávamos que ele não havia se vestido daquela maneira um dia antes apenas por tristeza. Foi algo gradativo. Com o passar do tempo, víamos mais dela do que dele, mesmo quando não estava com as roupas de mulher. O modo de falar. De caminhar. Até mesmo de sentar. Havia algo mais que ele ainda escondia de nós. Alguma coisa muito pessoal, que Carl sugeriu que eu somente perguntasse. Subi as escadas e olhei pelo espaço da porta entreaberta. Mike segurava um vestido vermelho sobre o seu corpo, por cima de suas roupas. Admirava-se no espelho, com sua peruca. O salto estava em seus pés. Ele sorria. Sorriu de maneira tão natural que me fez esquecer de que aquele era um cara com os dias contados para a morte. Mas sorria, e ainda parecia mais feliz do que eu. .
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