⟶ Terça - 21 de Janeiro de 2020
Ainda pequena, Shivani se mudou para o Estados Unidos com seus pais, mas sempre viajava nas férias para seu país natal e, graças aos seus avós e tios, ela tinha grande acesso à sua cultura e a amava de paixão. Achava linda todas as formas culturais, toda cor e todo amor e fé que seu povo tinha e por isso nunca escondeu e sempre se orgulhou de onde veio.
Quando passou para o ensino médio e conheceu o grupo de Joalin, Shivani fez amizade com Sofya, por se identificar com a colega e também por Sofya ouvi-la falar horas e horas sobre sua cultura e viagens, completamente atenciosa e sempre a incentivando contar mais.
Já Sofya, assim que bateu os olhos em Shivani, se encantou com a Indiana, mas se limitou em apenas amizade, pois, ao pesquisar sobre a Índia, teve conhecimento que a homossexualidade até pouco tempo era considerada crime. Ela não sabia o que Shivani pensava sobre, por isso, ao perceber que estava apaixonada por sua melhor amiga, se limitou à apenas brincadeiras que às vezes passavam despercebidas e as vezes faziam Shivani rir.
Agora ficava cada dia mais difícil esconder o que sentia, as brincadeiras já não eram suficientes, a forma como outras pessoas olhavam para Shivani, incomodava Sofya de maneira quase perceptível para seus amigos. A mesma se perguntava se Shivani realmente não notava suas investidas, se não via seus olhares, se notava o quão feliz ela sempre ficava ao seu lado. Talvez ela só não quisesse por conta de sua cultura ou realmente a loira era muito pouco para ela.
Sofya tentava criar algum tipo de sentimento r**m sobre Shivani para tentar afastar o que sentia, tentava deixar de gostar dela por algum motivo, ou buscava algum defeito para se “desencantar”, mas falhava miseravelmente sempre que ela sorria, como naquela manhã onde Shivani vinha sorrindo e pulando em sua direção de maneira tão leve que seus pés saiam brevemente do chão, o sorriso da loira fora involuntário, a voz aveludada carregada pelo sotaque forte falando um simples "Bom dia Sô" fazia seu coração acelerar e enquanto era abraçada pela indiana, Sofya aspirava de forma sorrateira o seu cheiro.
Mas todo o ânimo e coragem se esvaiam quando a indiana se afastava com Savannah e Any para as aulas do dia. Essa atitude era sempre notada por sua irmã. Aquilo não passou despercebido por Sina, não daquela vez.
– Estou a quase a um ano vendo esse seu sorriso sumir quando a Shiv se afasta, porque não chama ela pra sair de uma vez? — Sina chama sua atenção enquanto as duas caminham para seus armários.
– Ela não parece querer isso e tem toda a questão da cultura. —Sofya explica.
– Sô. — Sina para abruptamente na frente da irmã e coloca as mãos nos seus ombros fazendo a garota lhe encarar — Crie coragem e a chame para sair, o máximo que ela irá fazer é te dar um fora e se ela fizer isso quem estará perdendo é ela. Você é uma Loukamaa Deinert, honre seu sobrenome. — Sina falava de maneira séria.
–Nós iremos estudar na biblioteca depois do almoço, talvez eu faça isso, ou você acha melhor outro lugar? — A pequena Deinert pergunta insegura.
– Você a está chamando para sair, não é um pedido de namoro então não precisa de flores ou uma trilha sonora, apenas pergunte e se ela disser não, faça cara de paisagem e venha chorar no colo da sua irmã, garanto que te dou um sorvete. — Sina sorria agora enquanto ambas retomavam o caminho.
Perto da hora do almoço Sofya mandou uma mensagem para Shivani confirmando o encontro de ambas na biblioteca e tendo uma resposta positiva da mesma.
. . .
A loira balançava a perna nervosamente embaixo da mesa enquanto ela e Shivani tentava responder a lista de questões que o professor havia passado. Sofya e Shivani não eram do mesmo ano, enquanto Sofya ainda estava no primeiro, Shivani já estava no segundo ano, mas sempre que podiam estudavam juntas, para que Sofya aperfeiçoasse seus conhecimentos.
–Sô, pela quinta vez qual o problema? —Shivani perguntava impaciente.
– Nada, só estou nervosa com essa quantidade de questões. — Sofya responde sem encarar a morena ao seu lado.
Shivani afasta o livro e o caderno e gira a cadeira de maneira que fique de frente para Sofya, ela coloca as mãos sobre a perna da amiga tentando fazer o movimento parar.
– Somos amigas a bastante tempo e eu sei quando tem algo errado, então por favor me diga. — Shivani diz enquanto encara a loira a deixando ainda mais nervosa. Sofya encara a mão de Shivani em suas pernas e respira fundo.
– Prometa que se a resposta for negativa você não irá se afastar? — Sofya pede.
– Prometo. — Shivani diz depois de um suspiro.
– Eu gostaria de saber se você quer sair comigo? Tipo um encontro. Podemos ir ao cinema ou algo assim, se você estiver confortável é claro, não quero trazer nenhum desconforto. — Sofya falava tudo em um fôlego só e para quando Shivani retira as mãos de sua perna.
Shivani encarava Sofya de forma atônita, por um único segundo ela sorrio, mas em seguida ficou seria novamente.
– Eu sinto muito, mas eu não posso Sofya. — Shivani recolhe seus materiais e se retira rapidamente sem dizer mais nada, deixando a amiga triste para trás.
Quando realmente entende o que aconteceu, Sofya manda uma mensagem para Sina encontra-la na biblioteca.
Sina chegou o mais rápido que pôde junto à Joalin e Sofya não se importou, afinal, era a sua prima, então a mais nova abraçou a irmã mais velha.
- Ela disse não. – Diz em um fio de voz.
Joalin e Sina tiraram Sofya da biblioteca e a levaram para tomar sorvete, as duas estavam em um estacionamento vazio, Sina e Sofya sentadas no capô do carro de Sina e Joalin sentada no teto de seu carro.
- Por que ela disse não? Será que eu não sou suficiente para ela?
- Você fez errado. – Diz Joalin.
- Ah, eu deveria chegar já beijando ela e fazendo sexo? – Joalin rola os olhos.
- Eu sei que isso também foi errado, ok? – Declara.
- Mas a Joalin está certa. – Sina entra em defesa da prima. – Você devia ter marcado algo como apenas amigas e ir evoluindo, foi o que aconteceu comigo e a Heyoon.
- Eu lembro. – Diz Joalin. – Ela te chamou para ir ao cinema ver um filme que nenhum de nós estava afim e quando percebemos, vocês duas estavam saindo sozinhas.
- Sô... – Sina se volta para a irmã. – Só dê um tempo à Shiv, ok? Pode ser confuso para ela.
- Sim, veja eu e a Sabina, também começamos errado, mas agora estamos nos encaminhando.
- Ela foi até ao jogo, vocês estão namorando ou ao do tipo? – Joalin sorri de lado, mas em seguida sua expressão se torna triste.
– Não... – Suspira. – Acho que nós duas estamos na merda, as duas rejeitadas pela crush.
- Nada melhor do que sorvete para curar um coração partido. – Diz Sina levantando o seu sorvete e as outras duas fazem o mesmo.
. . .
- SHIVANI. – Bua chamou a atenção da Indiana, as duas estavam estudando na casa da tailandesa, mas Shivani não prestou atenção em sequer uma palavra do que a menor disse. Bua já estava no segundo ano por ter pulado uma série quando mais nova.
- Desculpa, eu não estava prestando atenção. – Diz ela negando e voltando a olhar seu caderno.
- O que aconteceu? – Pergunta Bua. – Algum problema? – Shivani suspirou.
- Mais ou menos. – Bua era de confiança, e por ter os melhores conselhos, Shivani decidiu contar para ela o que houve e decidiu lhe contar o que aconteceu. – Sofya me chamou para um encontro, mas eu disse não. – Suspirou. – Ela é minha melhor amiga, e eu não sabia que ela se sentia assim por mim.
- Você se sente assim por ela? – Shivani negou.
- Não, nunca a vi como mais que uma amiga. – Declara. – Isso é r**m para a nossa amizade, não sei se meus pais aceitariam isso, e no meu país qualquer prática homossexual era considerada crime. – Diz de uma vez, tomando fôlego para continuar. – E acho que essa prática é m*l vista aos olhos de Brama.
- Quem? – Bua pergunta com o cenho franzido.
- Brama, o primeiro Deus da trindade do hinduísmo, os outros são Vishnu e Shiva. – Ela explica. – Ele criou um universo.
- E por que você acha que seria m*l visto aos olhos de Brama? – Pergunta Bua.
- Por que... – Shivani não soube responder. – Eu não sei.
- Bom, quando nos mudamos para o Estados Unidos, eu pensei que iríamos deixar para trás a nossa história e nossa religião, mas isso não aconteceu, seguimos praticando nossa fé e nossa religião sem nenhum problema e isso não interferiu em minha vida. – Explica ela. – Pelo que me disse você está mais preocupada com o que dirão, do que com o que sente.
- Eu não sinto nada pela Sofya, além de amizade. – Ela diz sem segurança em sua fala.
- Então por que não aceitou ao convite? – Ela indaga. – Mesmo que ela tenha convidado para um encontro, seriam duas amigas saindo, se divertindo e se conhecendo melhor, quem sabe você até descobre sentir algo a mais por ela e resolve se dar uma chance? – Shivani suspirou. – Não há nada de errado. – Shivani assentiu e após o conselho de Bua pôde voltar a estudar, espantando aqueles pensamentos e os guardando para mais tarde.
. . .
Na mansão Loukamaa. Os irmãos estavam na sala de TV como sempre passavam o resto da tarde, vendo um filme. Josh sentado ao chão e Joalin deitada no sofá de cabeça para baixo.
- Você achou a Sabina estranha depois do jogo? – Pergunta ela. Josh fez indiferença.
- Acho que Pon falou algo com ela. – Diz o irmão. – Ela estava estranha depois que ele falou algo, mas eu não consegui ouvir e eles não me disseram por que seu jogo começou logo depois.
- Então eu irei matar o Pon e a Bua vai ficar viúva.
- E ela se casou? – Pergunta Josh confuso.
- Não, mas eles são tailandês. – Josh a encara de cenho franzido.
- E o que isso tem haver? – Ela não respondeu, então Pon não havia comentado nada com ele e provavelmente com ninguém, o que era um bom motivo para não mata-lo. Josh ainda a encarava sem entender, mas ao invés de responde-lo, ela desviou o assunto.
- Acho que vou pedir a Sabina em namoro. – Agora Josh encarou Joalin surpreso. – O que você acha?
- Acho que seu sangue desceu para cabeça. – Diz Josh. – Ela não vai aceitar.
- E por que não?
- Patroa e empregada?! – Ele dia como se fosse óbvio.
- Ela não é minha empregada. Nem o Nando é.
- Dá no mesmo, o fato é que vocês duas são de mundos diferentes, e ela vai dizer não. – Joalin se levanta e encara a TV. Estavam assistindo um filme de terror sobrenatural.
- Ela se sacrifica para salvar a irmã, mas há um remédio que é tipo um antídoto que vai acordar ela e as duas irão sobreviver, mas no final recebem uma mensagem onde diz que o aplicativo foi reiniciado. – Diz Joalin se levantando.
- JOALIN! – Ele reclama e a garota sai da sala de TV rindo. Ela vai para a cozinha lanchar e então sua mãe chega e a cumprimenta com um beijo na testa.
- Mamãe... – Joalin a chama. – Sabe que sou lésbica, certo? – Johanna riu.
- Joalin, sei disso desde que vi você colocando suas barbies para se beijar. – Ela se aproxima da filha.
- O que aconteceu? – Joalin respira fundo tomando coragem.
- Quando o papai chega em casa? Preciso contar algo para vocês. – Johanna franziu a testa, quando Joalin falava isso, algo grave tinha acontecido.