Capítulo 02 - Ódio.

1144 Palavras
Damian Salazar 22/02| Valencia, ES — E você aceitou? — Julian perguntou, como se não acreditasse no que acabara de ouvir. Assenti pela segunda vez, cada vez mais impaciente. Esse assunto já tinha me estressado o suficiente, e os idiøtas dos meus amigos só conseguiam piorar a situação. — Você se esqueceu do quanto as famílias de vocês se odeiam? — Gael falou, indo até o barzinho do meu escritório e se servindo. — E eu tô pouco me fødendo pra isso. O contrato exige apenas um ano de casamento. — respondi, respirando fundo enquanto massageava as têmporas. — E o que você ganha com isso? — Julian questionou, curioso. Soltei o ar devagar e entreguei a cópia da minha parte do testamento. Os dois se aproximaram, ansiosos para ler. — Você realmente acredita que isso é verdade? — Gael levantou os olhos, desconfiado. — Tipo, como saber se ele tinha mesmo alguma informação sobre a sua família biológica? — Eu não tenho certeza. Mas com tudo o que já descobri até agora, não posso arriscar perder essa chance. Passei mais de quinze anos da minha vida tentando encontrar qualquer pista sobre eles. Um ano casado com uma insuportável não vai me matar. Eles riram e me devolveram o papel. — Boa sorte, então. — Gael debochou, dando um gole no uísque. — E cuidado pra não se apaixonar. — Julian piscou pra mim, tirando sarro. — Nunca! — respondi sem hesitar. Os dois riram. — E então… vamos falar sobre a demolição da Casa Blasco Ibáñez? — Julian mudou de assunto, agora mais sério. Limpei a garganta, assenti e ajeitei a postura. Liguei o projetor na parede do escritório. — A ideia é transformar o local em um hotel cinco estrelas, com vista para o mar e área de lazer no rooftop. — expliquei, mostrando o esboço do projeto. Gael e Julian, além de amigos, eram também meus parceiros de trabalho. Gael é amigo de infância, se formou em engenharia civil e hoje atua na empresa da minha família. Julian, eu conheci na faculdade — cursamos arquitetura juntos — e desde então trabalhamos lado a lado. — Os proprietários querem algo moderno, sem perder muito da essência da cidade — comentou Julian, após analisar alguns papéis. — E vocês não acham que a futura esposa do Damian vai criar problema? — Gael questionou, cruzando os braços. Revirei os olhos, já de saco cheio do assunto. — A família dela não tem mais poder. No máximo, ela vai encher o meu saco por alguns dias — comentei, despreocupado. Eles assentiram e voltamos a discutir o projeto. A manhã passou rápido, e por volta das 13h, os dois foram embora para almoçar. Resolvi ligar para o advogado do testamento para saber o que tinha sido resolvido com os Aguilar. No segundo toque, ele atendeu. — Alô? — Dr. Santanori, aqui é Damian Salazar. Estou ligando para saber como foi com os Aguilar — fui direto ao ponto. — Bem... ela não aceitou a proposta, mas dei um prazo de uma semana para me dar a resposta final. Sinceramente, não acredito que vá mudar de ideia — respondeu ele, com aquele tom neutro de advogado experiente. Senti o sangue ferver. A raiva subiu como um incêndio por dentro. — Certo. Vou tentar resolver isso. Retorno depois — falei seco, antes de desligar. Bati com força na mesa, o punho cerrando com tanta força que senti latejar. — Desgraçäda... Eu odiava depender de alguém. Detestava ainda mais quando esse alguém pertencia àquela família. E, pra piorar de vez, saber que eu teria que me humilhar pra conseguir o que queria... aquilo me corroía. Mas se fosse esse o preço para descobrir quem são meus pais biológicos, então eu pagaria. Levantei da cadeira como se um motor tivesse ligado dentro de mim. Estava decidido. Ia atrás dela. E ofereceria o que fosse necessário para que aquela maldita aceitasse essa pørra de contrato. Saí do escritório direto para o estacionamento, entrei no carro e arranquei dali como se o asfalto fosse meu. Enquanto girava o volante com raiva, apertei o botão no painel e liguei para minha secretária. — Preciso que descubra onde Cloe Aguilar está. Agora. — ordenei assim que ela atendeu. — Sim, senhor. Te retorno em minutos. — disse, eficiente como sempre, antes que a ligação fosse encerrada. Respirei fundo, tentando não me deixar levar pela raiva. Se chegasse até ela no estado em que estava, só pioraria tudo. Perderia qualquer chance de convencê-la. Minutos depois, a localização apareceu no painel do carro. Penelope havia enviado junto com uma mensagem curta: "Ela está restaurando um quadro neste local." Coloquei a rota no GPS. Estava a cinco minutos de distância. Pisei mais fundo no acelerador e, em dois, parei em frente a um prédio antigo de fachada envelhecida, mas imponente. Saí do carro sem pensar duas vezes e segui até a entrada. Um homem conversava com um grupo de pessoas no hall. Quando me viu, se aproximou com expressão curiosa. — Posso ajudá-lo? — Preciso ver Cloe Aguilar — falei direto, sem rodeios. Ele franziu a testa, hesitante. — Ela está restaurando uma obra no momento... não sei se vai querer ser interrompida. — Eu não dou a mínima pro que ela quer. — Minha voz saiu baixa, firme e carregada de raiva. — Me diga onde ela está. O homem pareceu engolir em seco antes de responder: — Segundo andar. Última porta do corredor. — Ótimo. — Passei por ele sem olhar para trás. Subi as escadas como se algo dentro de mim estivesse prestes a explodir. Meu corpo se movia no automático, os passos duros ecoando pelo corredor estreito até que parei diante da última porta. Não bati. Não hesitei. Apenas girei a maçaneta e entrei. Ela estava ali. Sentada em um banco de madeira, com as costas levemente curvadas, limpando um pincel com movimentos lentos e cuidadosos. Usava um macacão jeans justo que marcava bem a cintura, preso por um cinto branco largo. Por baixo, uma blusa de lã branca, de mangas longas e volumosas, que deixava o conjunto com um ar inocente, quase bucólico — mas nada ali nela era realmente dócil. Os cabelos loiros estavam presos num r**o de cavalo alto, com alguns fios rebeldes caindo ao redor do rosto corado pela concentração. Ela ergueu os olhos assim que ouviu a porta abrir. O primeiro olhar foi de susto. O segundo, de puro desprezo. E eu sustentei. Porque, no fundo, aquilo nós tínhamos em comum: o desprezo mútuo. Uma antipatia visceral que não precisava de palavras. Estava nos olhares, nos gestos contidos, na tensão que ocupava cada centímetro do ar quando dividíamos o mesmo ambiente. O pincel parou em sua mão. Os olhos dela se fixaram nos meus como se eu fosse uma ofensa viva. Mas eu não recuei. — Precisamos conversar!
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR