Cloe Aguilar
22/02| Valência, ES
— Ficou maluco?! Como entra assim num lugar? — exclamei, sentindo a raiva subir como um incêndio no peito.
Ele estava parado próximo à porta, com aquele ar presunçoso de sempre. Como se o mundo fosse um palco onde ele era o protagonista e o resto... figurante. E isso me irritava num nível quase homicida.
— Precisamos conversar. — repetiu.
— Eu não tenho nada pra conversar com você. — rebati, desviando o olhar e voltando a focar nos meus pincéis.
Ouvi sua respiração pesada, mas ignorei. Ou, pelo menos, tentei. O maldito começou a se aproximar.
— Cloe, eu não tenho o dia todo — disse, num tom mais firme.
Revirei os olhos, respirei fundo, lutando contra o impulso de encher ele de palavrões. Quando ergui o rosto, ele já estava perto.
Perto demais.
Seu perfume amadeirado me atingiu como uma porrada. Forte, invasivo, opressor. Me levantei de uma vez, ficando cara a cara com ele. A diferença de altura era gritante, mas minha postura era firme. Não iria recuar nem um milímetro.
— O que você quer? Também não tenho o dia todo — disparei, olhando direto nos olhos dele, verdes com um tom quase cinzento. Olhos frios. Olhos que já me tiraram a paz antes.
— Por que você recusou o contrato do seu tio? — mandou na lata.
Típico.
Me afastei, indo até minha mesa e pegando os materiais que usaria no quadro, tentando manter a calma.
— Porque nem em pesadelo eu casaria com você — falei, seca, sem rodeios.
Ele riu. Aquele riso debochado que me dava vontade de quebrar alguma coisa.
— Engraçado... esse é o sonho de metade das mulheres da Espanha.
Virei para ele com a sobrancelha arqueada e uma expressão de puro nojo.
— Coitadas. Ou estão completamente loucas, ou os homens desse país evaporaram.
O sorriso morreu nos lábios dele. Veio até mim outra vez.
— Eu sei que sua família está... em baixa. E duvido que seu tio tenha deixado qualquer coisa pra você sem motivo. Não acredito que vai ser burra a ponto de recusar por orgulho.
A palavra "burra" fez algo em mim estalar.
Virei de uma vez, me aproximando com o dedo em riste.
— Quem você pensa que é pra me chamar assim, seu i****a?! — gritei, forçando-o a recuar. — Seu babaca egocêntrico. Eu jamais me casaria com você, nem por todo o dinheiro do mundo! Só essa personalidade nojenta sua já é suficiente pra me dar asco!
Cuspi as palavras como veneno. Ele me encarou com olhos sombrios e um sorriso carregado de desdém.
— Minha personalidade? Pelo menos a minha família não está na miséria por falta de maturidade e birra ideológica. — Ele cuspiu cada palavra como se quisesse me atingir no fundo da alma. — Você não se casaria comigo? Ótimo. Se eu tivesse opção, jamais perderia meu tempo vindo aqui falar com você. Você e sua família são irrelevantes. E merecem tudo o que estão vivendo.
Estalo.
A palma da minha mão ardeu antes mesmo de eu registrar que havia batido nele. Meu corpo tremia, e eu segurava as lágrimas com tudo o que tinha. Ele não veria minha dor. Nunca.
— Saia daqui. — minha voz saiu baixa, rouca, furiosa.
Ele ficou ali, estático, olhos arregalados, como se não acreditasse no que tinha acabado de acontecer. O lado do rosto estava vermelho. Mas o que mais queimava ali era o olhar dele — cheio de fúria contida.
— Sai! — gritei.
Ele não respondeu. Apenas se virou e saiu com passos pesados, batendo a porta com força.
E só então, quando os passos dele desapareceram no corredor, eu desabei. Deixei as lágrimas rolarem, sentindo o peso c***l de cada palavra que ele jogou sobre mim.
Meu corpo tremia de maneira ridícula. As lágrimas escorriam sem controle, e por mais que eu tentasse, respirar fundo não estava funcionando. Cada palavra dele ecoava na minha cabeça como uma sentença.
A porta se abriu de novo. Me virei num susto, mas era Javier.
— O que aconteceu? — ele perguntou, vindo até mim com pressa e me puxando para um abraço.
— Ele... ele me disse coisas horríveis — sussurrei, tentando conter mais um choro.
— Eu juro que não achei que ele fosse te machucar. Por mais arrogante que seja, não imaginei que te faria chorar. Me perdoa, Cloe... — disse, apertando meu ombro.
Limpei o rosto com as costas da mão, respirando fundo mais uma vez.
— Tá tudo bem. Você não tem culpa de nada. Ele é que é um completo i****a.
Javier sorriu fraco e se afastou.
— Deixa esse quadro pra amanhã. Vai pra casa, descansa. Amanhã você volta com a cabeça mais leve.
Normalmente, eu recusaria. Mas minhas mãos ainda tremiam. E mãos trêmulas não restauram obras de arte. Suspirei, exausta, e apenas concordei com a cabeça.
Nos despedimos e eu deixei o casarão em silêncio. Caminhei até meu carro, entrei e dirigi em direção à casa. A estrada passava diante dos meus olhos, mas minha cabeça estava longe.
“Não acredito que vai ser burra a ponto de recusar por orgulho.”
As palavras dele voltavam como uma faca girando no estômago.
Ontem à noite, depois que o advogado foi embora, nos reunimos — eu, meus pais e minha irmã mais nova — pra conversar sobre isso. Já havíamos dado uma resposta negativa, mas ele pediu pra pensarmos melhor. Tínhamos uma semana.
— Eu não vou entregar minha filha pra uma selva de leões esfomeados — meu pai disse, fervendo de raiva.
— Mas... e se for a nossa única chance de sair dessa falência, papai? — Lia perguntou, apertando minha mão.
Mesmo com apenas 17 anos, Lia tinha uma maturidade que deixava qualquer adulto envergonhado.
— Talvez a Lia tenha razão — concordei, ainda que a ideia de me casar com Damian me deixasse enjoada.
Meu pai se sentou de frente pra gente, pegando nossas mãos com firmeza.
— Nós somos os Aguilar, entenderam? E nós vamos sair dessa, sem precisar rastejar ou nos humilhar por causa daquela família.
Naquele momento, decidimos deixar a fortuna de lado e proteger o que realmente importava: a nossa história. A nossa dignidade.
Mas agora... a dúvida me perseguia como uma sombra.
E se a gente tivesse errado?
E se aquilo fosse, de fato, nossa última chance de reerguer?
E se nada melhorar?
Respirei fundo, frustrada, e dei um leve soco no volante. Aquele sentimento me corroía desde a noite passada.
Saí dos pensamentos quando estacionei em frente de casa. Vi o carteiro se afastando e um envelope sendo deixado na caixa. Desci rápido e fui até lá.
Era uma carta pra Lia. O logo da UDIT — Universidade de Design, Inovação e Tecnologia — estampado na frente. A resposta tão esperada do curso de moda dos sonhos dela.
Meu coração acelerou. Entrei correndo em casa.
— Lia?! Chegou! — anunciei, ofegante e empolgada.
Ela estava na cozinha com nossa mãe, preparando o jantar. Assim que ouviu, correu até mim, pegando o envelope com mãos trêmulas.
Rasgou com cuidado, leu. Seus olhos se arregalaram. Um sorriso imenso surgiu.
— Eu passei!
E isso significava que Lia se mudaria para Madrid. Na mesma hora, o testamento me veio à cabeça — meu tio-avô tinha uma propriedade na cidade. Aquilo podia resolver dois problemas de uma vez: ela teria onde morar e ainda evitaríamos mais gastos.
Talvez essa herança possa nos ajudar ainda mais…