Capítulo 04 - Com uma condição.

1259 Palavras
Cloe Aguilar 25/02| Valencia, ES O dia amanheceu absurdamente nublado, como se o próprio céu compartilhasse do meu humor. E pra piorar, eu não tinha nenhum trabalho agendado. Estava oficialmente desocupada — só que a minha mente não sabia o que era descanso. Passei o dia anterior inteiro remoendo o maldito testamento e considerando, com um misto de nojo e desespero, a possibilidade de aceitar aquela proposta. Dividir um ano da minha vida com o Damian... era essa a parte que me fazia querer arrancar os cabelos. Porque, se fosse só assinar um papel, tudo bem. Mas dividir tempo, espaço e ar com aquele cretinö? Isso era torturå. Foi por isso que, na noite anterior, marquei de encontrar o advogado do meu tio-avô. Precisava entender melhor os detalhes jurídicos daquela bomba chamada "casamento por contrato". Especialmente por causa de Lia. Minha irmã havia sido aceita na universidade. As aulas começavam em setembro. Pode parecer distante, mas pra quem vive contando moeda, sete meses passam voando. E embora ela tenha conseguido isenção da mensalidade, ainda precisaríamos garantir moradia, alimentação, transporte, materiais da faculdade... e sinceramente? Com o salário da minha mãe, mais o que eu e meu pai conseguimos juntar por mês, não dá. Nem perto disso. E nós sabíamos. Todos nós. Principalmente Lia. Acho que foi por isso que ela ainda não respondeu à universidade, mesmo com a carta de aceitação em mãos. Ela sabe que talvez a gente não consiga bancar. Pensar na possibilidade de minha irmã abrir mão de um sonho por causa de um orgulho b***a da nossa família me corroía por dentro. E foi com esse peso que fui até a cafeteria onde combinei de encontrar o advogado. Estacionei em frente, entrei e logo o vi sentado, com aquele jeito formal e calculado. Me aproximei. — Buenos días! — cumprimentei, sentando de frente pra ele. — Bom dia, senhorita Aguilar. Fico feliz que tenha decidido reconsiderar a proposta — disse, dando um gole em seu café. — Na verdade, ainda estou decidindo — fui direta. Ele apenas assentiu. — Preciso tirar umas dúvidas. — Pergunte à vontade. Respirei fundo. — Quero saber exatamente o que recebo ao me casar com Damian. Tudo só viria depois de um ano? Ou algo já se torna meu no ato? Ernesto puxou uma pasta, folheou alguns papéis e respondeu: — Bem... tecnicamente, tudo se torna seu assim que se casarem. Mas, existem cláusulas: algumas propriedades e contas só podem ser movimentadas após um ano de casamento. Suspirei, frustrada. Mas ele continuou: — No entanto... há algo que podemos contornar. — Ele inclinou-se, despertando meu interesse imediato. — Seu tio-avô tinha ações em empresas grandes e alguns investimentos no exterior. Esses ativos geram um rendimento mensal. A partir do momento em que você se casar, esses lucros passam a ser seus, mesmo que você não possa vender as ações antes do prazo. Me inclinei pra frente, com o coração acelerando pela primeira vez desde que esse pesadelo começou. — Você consegue me dizer quanto, em média, isso renderia por mês? Ele continuou folheando os documentos, atento. — Não tem o valor exato aqui, mas, com base nas estimativas... entre cinco e seis mil euros por mês. Minha respiração travou por um instante. Esse valor seria suficiente. Para a Lia. Para as contas. Para... tudo. O mundo pareceu girar um pouco mais devagar. Meu peito ficou apertado. — Entendo... — murmurei, ainda processando. — E então? Vai aceitar sua herança? Antes que eu pudesse abrir a boca, meu celular vibrou. Olhei a tela: Marina. — Um segundo — pedi, levantando da mesa. Atendi ao me afastar. — Cloe?! — a voz dela estava carregada de indignação. — Oi, amiga... o que aconteceu? — Você ainda não viu?! — rosnou. — Ver o quê, Marina? Fala logo. — Os Salazar vão demolir a Casa Blasco Ibáñez. Meu estômago virou. Não. Aquilo não podia ser real. — O quê?! Tem certeza? — Acabaram de postar o projeto no i********:. — Eu já te ligo. — Desliguei sem esperar resposta. Abri o i********: dos Salazar com as mãos tremendo. E lá estava: o anúncio oficial de um projeto para transformar a histórica Casa Blasco Ibáñez em um hotel cinco estrelas. Luxo, mármore, vidro espelhado e arrogância transbordando de cada imagem. Meu peito se encheu de uma fúria crua, rasgando qualquer resquício de dúvida que ainda pudesse restar em mim. Aquele lugar não era apenas um centro histórico — era também o cenário das minhas lembranças mais vivas. Foi parte da minha infância, da adolescência. Meu avô costumava levar eu, Lia e Marina até lá aos domingos. Depois, caminhávamos pelas ruas antigas até a sorveteria da esquina, onde cada sabor parecia um ritual de afeto. Desde a morte dele, a Casa Blasco Ibáñez se tornou uma extensão do que restou de mim. E mesmo depois de destruírem quase toda a minha família, eu não permitiria que fizessem isso de novo. Voltei à mesa do advogado com os pensamentos fervendo. — Depois conversamos, preciso ir — disse, pegando minha bolsa e saindo sem sequer esperar uma resposta. Mal entrei no carro, o celular começou a tocar novamente. Número desconhecido. — Alô? — Cloe, podemos conversar? A voz era inconfundível. Aquele maldito. Pensei em dezenas de xingamentos que poderia lançar na cara dele sem piscar. Mas me contive. Respirei fundo. Foquei no jogo. — Sim. Encontro você no Flama — falei com firmeza, e desliguei antes que ele pudesse responder. Girei a chave e segui em direção ao restaurante. A raiva fervia, mas a estratégia gritava mais alto. Por mais que meu instinto me mandasse socá-lo verbalmente, eu precisava ser calculista. Provavelmente queria falar sobre o testamento — e eu não podia deixar que ele destruísse o museu. Usaria o testamento ao meu favor. Em duas frentes. Alguns minutos depois, estacionei em frente ao restaurante sofisticado. Saí do carro, ajeitei a postura e caminhei até a entrada com o máximo de confiança que consegui reunir. De longe, o vi já sentado à mesa. Estava elegante, como sempre — e repulsivo, como sempre. Seus olhos me encontraram. Me analisou dos pés à cabeça, devagar, até se fixar nos meus. Manteve o olhar. Queria medir meu humor, talvez. Boa sorte pra ele. Ao me aproximar, puxei a cadeira e me sentei de frente, sem desviar os olhos um segundo. — O que quer falar? — perguntei direto ao ponto, fria como pedra. Não queria gastar sequer o oxigênio daquela sala compartilhando o mesmo espaço com ele. Até o ar parecia tóxico. — Você sabe, Aguilar — respondeu, revirando os olhos antes de soltar um suspiro longo. — Inicialmente... me desculpe por aquele dia. Admito que fui pega de surpresa. Não esperava uma desculpa. Muito menos vindo dele. — Não deveria ter falado com você daquele jeito — continuou, me encarando com firmeza. — Veio com o discurso ensaiado? Ele fechou os olhos, visivelmente tentando se controlar. Um sorriso vitorioso escapou dos meus lábios. — Estou tentando ser simpático, mas você testa a minha paciência. Soltei um riso curto. — Eu aceito o contrato — anunciei, vendo seus olhos se arregalarem de imediato — Com uma condição. Ele arqueou a sobrancelha, desconfiado. — Você não vai demolir a Casa Blasco Ibáñez. A reação foi imediata. Ele riu. Alto. Exagerado. Cínico. E isso só serviu pra alimentar minha raiva. — Você só pode estar brincando — disse, ainda com um sorriso de desdém. Mas eu não estava. Nem um pouco. Minha expressão era uma muralha. Eu estava falando sério. Muito sério.
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