Estou amando meu trabalho como secretária. Diferente do que ouvi enquanto aguardava a entrevista de emprego, meu chefe não é um ogro.
Ele é um gato. Gosta de organização e competência — descobri isso trabalhando uma semana com ele.
Tenho me saído bem. Bom, pelo menos o senhor Nunes não gritou nenhuma vez comigo. Chego sempre cinco minutos mais cedo, isso me dá tempo de separar a agenda do dia e preparar seu café. Às 8h em ponto, todos os dias, ele chega, me cumprimenta e vai para sua sala. Menos de três minutos depois, ele me chama. Levo seu café e lhe passo os compromissos do dia.
E hoje não foi diferente. Estou levando seu café e a agenda.
— Aqui está seu café, senhor.
— Obrigado. Sente-se.
Arqueio a sobrancelha, mas faço o que ele pede.
— Senhorita Andrade, em um mês terei um jantar de gala beneficente para ir. É em Washington. Preciso que você me acompanhe.
Fico olhando para ele, sem entender.
— O senhor quer que eu vá para Washington?
Ele dá um meio sorriso.
— Sim. Você tem se mostrado uma excelente funcionária. Por isso estou avisando com trinta dias de antecedência. Anote na agenda. Reserve uma suíte presidencial com dois quartos e compre as passagens. Todos os gastos são por conta da empresa.
Começo a me mexer e anotar tudo no meu caderno.
— Desculpe, senhor, mas eu não tenho passaporte.
— Providencie seu passaporte e visto. Você também vai precisar de roupas de gala. Irei mandar uma vendedora levar alguns modelos de vestidos à sua casa. Escolha alguns. Esse custo será por conta da empresa também, pois você os usará para o trabalho.
— Entendo, senhor. Vou providenciar tudo.
— Heloísa?
Ele me chama pelo primeiro nome. Acho estranho, ele sempre me trata da forma mais formal possível.
— Sim?
— Nada impede você de ir nessa viagem, certo?
— Não, senhor. Eu apenas fiquei surpresa. Vou providenciar meu passaporte e visto. Estarei lá e darei o meu melhor.
— Ótimo. Conto com você.
Saio da sala dele e começo a providenciar isso, além de trabalhar em outras pendências.
A porta do elevador se abre, e uma mulher que transmite elegância sai.
— Thiago está?
Ela pergunta, sem ao menos me cumprimentar. Ela é esnobe, consigo ver no seu jeito.
— Bom dia, senhorita?
Ela respira fundo.
— Samantha Ferre.
— Senhorita Ferre, o senhor Nunes está em uma conferência. Irei informá-lo de que você o aguarda.
— Eu aguardo na sala dele.
Ela diz, já passando por mim.
— Senhorita Ferre, eu preciso anunciá-la primeiro.
Ela para, gira nos calcanhares, me olha de cima abaixo e diz:
— Garota, eu sou a noiva dele. Que espécie de secretária é você que nem a noiva do seu chefe conhece? Espere até eu virar dona disso tudo. Eu a colocarei na rua.
Respiro fundo. Eu pesquisei sobre o senhor Nunes. Ele não tem noiva. Ele foi noivo, mas o noivado foi rompido.
— Senhorita Ferre, peço que aguarde a autorização para entrar. Quanto à minha demissão? Espero até você ser dona disso tudo para falarmos sobre isso. Agora, por favor, aguarde na sala de recepção.
Digo isso e fico parada no lugar, trancando sua passagem. Ela bufa e vai até a sala de recepção.
Vou até o computador e envio uma mensagem interna para o senhor Nunes. Essas mensagens sempre são enviadas para informar a chegada de alguém. Espero não estar encrencada.
Heloísa (interno): Senhor Nunes, a senhorita Samantha Ferre está aqui.
Thiago (interno): Diga a ela que estou ocupado. Hoje não irei recebê-la.
— Senhorita Ferre? O senhor Nunes pediu desculpas, mas hoje ele não pode recebê-la.
— Pois diga a ele que só sairei daqui quando falar com ele.
Heloísa (interno): Ela disse que só sai daqui depois que falar com o senhor.
Thiago (interno): Deixe. Uma hora ela cansa.
Sigo fazendo meu trabalho. Às 11h temos uma reunião com europeus, e sigo organizando a sala de reuniões. O pessoal começa a chegar, e vou direcionando todos.
Heloísa (interno): Senhor, todos o aguardam na sala de reuniões.
Thiago (interno): Vamos lá.
Pego meu caderno e o relatório, e, assim que a porta do escritório se abre, a senhorita Ferre se levanta.
— Thiago, estou há um tempão te esperando para falar com você.
— Está esperando porque quer. Avisei que estou sem tempo. Vamos, senhorita Andrade.
Me levanto e o acompanho.
— Jantamos hoje, Thiago? — Samantha pergunta.
— Estou sem tempo.
Ele responde, e seguimos para a reunião, que acaba já perto das 13h.
Depois que todos saem, o senhor Nunes vem falar comigo.
— Heloísa, peça para entregarem nosso almoço na empresa. Temos uma reunião às 14h, não é mesmo?
— Temos, sim. Irei providenciar o almoço e preparar a sala de reuniões.
— Obrigado. — Ele vai saindo, mas para. — Ah, fez muito bem em barrar a entrada de Samantha. Ela sempre diz que é minha noiva, mas isso não é verdade.
— Só faço o que o senhor pede. Ninguém entra sem ser anunciado.
— Exatamente.
Ele fala e me olha de cima abaixo. Meu chefe é lindo e cheiroso, aparência impecável. Sem contar que é inteligente. Deus, eu aprecio a inteligência de alguém — e esse ponto é máximo para Thiago.
Thiago? Para você é senhor Nunes, Heloísa. Não faça isso. Esse emprego é muito mais do que você um dia imaginou conseguir. Não estrague tudo.
Balanço a cabeça e começo a fazer o que precisa ser feito.
A tarde é cheia de reuniões e, quando tudo acaba, já são 18h.
— Pode ir para casa, Heloísa. Amanhã você me entrega todos os relatórios.
— Obrigada, senhor. Boa noite.
Vou para o elevador e encontro Rebeca. Moramos próximas e, pelo pouco que conversamos, vejo que ela pode ser uma excelente amiga.
— Como foi seu dia?
— Cheio. Reuniões e mais reuniões. E teve também uma tal de Samantha Ferre, dizendo que é noiva do senhor Nunes.
— Ela ainda não desistiu?
— Como assim?
— Eles ficaram juntos acho que três meses, mas por insistência dos pais deles. Thiago nunca gostou dela. Agora ela vive atrás dele.
— E eu achei que só família de pobre tinha problemas.
Rebeca explode em gargalhada.
— Família é tudo parecida. É raro quando alguém tem a sorte de ter o amor da família...
— É verdade...
Chegamos ao meu prédio, nos despedimos e eu sigo para o banho.
Ah, que delícia...
Depois do jantar, caio na cama. Hoje foi um longo dia.