1- Heloisa

1646 Palavras
Já se passaram dois meses desde que me formei. Saí daquela cidade com o coração cheio de esperança e uma felicidade sem fim por ter conseguido. A grana que fui juntando com meu trabalho me ajudou a alugar um apartamento pequeno, com apenas um quarto, banheiro, sala, cozinha conjugada e uma pequena área de serviço. Consegui comprar alguns móveis usados e, na semana passada, fui chamada para uma vaga de secretária em uma das maiores empresas do país. Consegui comprar também roupas adequadas para o serviço em que vou trabalhar. Economizei o máximo possível, não quero ficar sem dinheiro. Nunca sabemos o dia de amanhã. Mas o salário que me foi oferecido vai ser quase o dobro do que eu ganhava. Estou bem feliz e animada, apesar do que ouvi dizer durante a espera da entrevista. Disseram que o dono da empresa é um pouco difícil de lidar, que as secretárias dele não aguentam a pressão e todas pedem demissão. Mas não quero pensar muito nisso. Vou focar no meu trabalho e fazer o meu melhor. Termino de tomar meu banho e fazer minha higiene matinal e, depois de secar o cabelo, vou me arrumar. Escolhi uma saia lápis que vai um pouco acima do joelho, uma camisa social branca com manguinhas até o cotovelo, salto baixinho — ainda não estou habituada, então escolhi os mais baixos — prendo o cabelo em um r**o de cavalo e passo uma maquiagem leve. O apartamento que aluguei não é muito longe do serviço, então vou caminhando mesmo. Chego ao prédio, apresento meu crachá e vou para o elevador. O andar em que vou trabalhar é o último — quinquagésimo segundo. Aperto o botão e, após chegar, sou recepcionada por Carlos. Ele trabalha aqui há anos e me explica o básico que preciso saber para começar. Cheguei quinze minutos mais cedo, o que já me ajuda bastante. — Bom dia, Heloísa, tudo bem? Vou te mostrar o que você precisa saber agora. O restante você vai aprendendo conforme for trabalhando, ok? Ele me mostra onde fica minha mesa e, no computador, a agenda, o e-mail e o que mais preciso saber. Mostra também a sala de reuniões e onde fica a cozinha para preparar os cafés, tanto para as reuniões quanto para o Sr. Nunes. — O nome dele é Thiago Nunes — fala sério, e sei que isso é algo importante —, mas apenas o chame de Sr. Nunes. — Certo — confirmo, olhando ao redor. — Até aqui entendi tudo. — Ótimo, vou para o meu andar. — Ele começa a seguir em direção ao elevador. — O Sr. Nunes chega às 8h em ponto. Tenha a agenda do dia em mãos e não se esqueça do café dele, forte e sem açúcar. — Obrigada, Carlos. — Tento não demonstrar meu desespero. — Imagina. Qualquer coisa, é só me chamar. Carlos se vai, e eu começo a fazer o que precisa ser feito. Coloco o café para passar e vou até minha mesa conferir a agenda desta manhã. Começo a anotar tudo no caderno que está à minha disposição. Oito em ponto, as portas do elevador se abrem e um homem alto e forte, com uma carranca no rosto, sai de lá. Não precisa de apresentações. O homem exala poder. — Bom dia, Sr. Nunes. — Cumprimento, tentando parecer simpática. — Bom dia. — Responde, passando por mim. Menos de um minuto depois, meu telefone toca. — Escritório do Sr. Nunes, bom dia. — Atendo, ainda me recuperando do choque de conhecer meu chefe que, já no primeiro contato, mostrou que talvez o falatório da entrevista seja verdade. — Minha sala. — A voz nada amistosa diz, e logo a ligação é encerrada. Não tenho nem tempo para responder. Decido deixar todos os pensamentos e medos de lado e vou rápido até a cozinha finalizar o café dele. Com a agenda e minha caneta em mãos, sigo até sua porta e, depois de duas batidas, ouço sua autorização para entrar. — Seu café, senhor. — Coloco a xícara sobre a mesa, rezando mentalmente para que não derrame nenhuma gota sobre os documentos. Sou nova demais e ainda não aprendi a voar, para o caso de ele querer me jogar pela janela. — Qual seu nome? — Heloísa. — Me afasto da mesa, segurando firme a caneta entre os dedos. — Heloísa Andrade. — Senhorita Andrade. — Ele finalmente desvia os olhos dos papéis e me encara. — Qual é a minha agenda do dia? Encaro seus olhos por mais um instante antes de me lembrar de onde estou e do que preciso fazer. Abro a agenda com as mãos trêmulas e começo a falar seus compromissos. — O senhor tem uma reunião com os americanos às 10h. — Ele apenas me observa. — Almoço com sua irmã. E, às 15h, reunião com os advogados da empresa. — Certo. — Ele volta a olhar para os papéis à sua frente. — Prepare a sala de reuniões para as 10h. Certifique-se de que não falte nada para ninguém. Quando todos já estiverem lá, você entra. Preciso que anote os pontos principais que forem abordados e também quero que me traga o relatório para essa reunião. Quero analisar. Ele fala sem parar, e eu apenas fico balançando a cabeça. — Vou providenciar. Com licença. Saio de sua sala o mais rápido possível e, assim que chego do lado de fora, me permito respirar. Esse trabalho não será nada fácil. Solto um suspiro e sigo para minha mesa. Melhor começar a fazer o que preciso antes que ele se irrite. Meu chefe não tem cara de quem gosta de repetir o que fala. Serão seis integrantes. Coloco em cada lugar copos, canetas, lápis e uma pasta com o relatório da reunião e folhas em branco. Faço tudo conforme Carlos me orientou e, quinze minutos antes, levo água gelada e deixo para cada um. Também deixo à disposição o café em uma mesa ao lado. Com tudo pronto, volto para minha mesa e, assim que me sento, o telefone toca. — A sala de reuniões está pronta? — Ele nem mesmo me dá tempo de abrir a boca. — Está, sim, senhor. — Respondo, e ele desliga novamente. O pessoal começa a chegar para a reunião, e vou recepcionando e direcionando todos para a sala. Quando todos já estão em seus lugares, o Sr. Nunes sai da sala e me chama para acompanhá-lo. Pego meu caderninho e um lápis e o sigo. — Bom dia, senhores. Como estão? Ele os cumprimenta e, depois das formalidades, a reunião começa. Torço para não entrar em curto. Tantas informações são passadas. Anoto tudo o que é mais importante. O Sr. Nunes é um excelente empresário e consegue fechar o negócio. — Faça um relatório da reunião e me entregue ainda hoje. — Ele fala assim que a reunião se encerra e todos já se foram. — Sim, senhor. Não se esqueça do almoço com sua irmã hoje. — Lembro-o, enquanto ele já segue para sua sala. — Certo. — Pela careta que faz, já havia esquecido. Balanço a cabeça e começo a arrumar a sala antes de voltar à minha mesa para iniciar o relatório. Estou concentrada na tela do computador quando a porta de sua sala se abre. — Estou indo almoçar. Volto em uma hora. — Diz, já passando por mim. Espero as portas do elevador se fecharem, arrumo minhas coisas e sigo para o restaurante da empresa. Pego meu livro e vou lendo enquanto almoço, sempre de olho na hora. Não quero me atrasar. — Oi, você é a nova secretária do Sr. Nunes? Uma jovem de cabelos castanho-escuros com franja, pele bem branquinha e olhos castanhos escondidos atrás de óculos fala comigo. — Oi, sim, sou eu. — Cumprimento-a, simpática, e ela me entrega um sorriso amigável. — Sou Rebeca. Trabalho no TI. — Muito prazer, Rebeca. — Respondo, fechando o livro. — Está gostando do primeiro dia? Ela pergunta, um tanto tímida. Posso ver pela forma como movimenta as mãos. — Estou, sim. É um mundo novo, mas estou gostando. — Que livro você está lendo? Sorrio. Ela chegou até mim pelo livro? — Quando a Noite Cai, da Carina Rissi. Você conhece? — Não, mas imagino que seja bom... — É sim. Você gosta de ler? — Pergunto, vendo-a observar a capa. — Amo. — Sorri. — Os livros são meu refúgio. — Sinto o mesmo, Rebeca. Eles são meus melhores amigos. Confiro o relógio e vejo que preciso ir. — Preciso ir, Rebeca. — Me levanto. — Não quero me atrasar. Nos encontramos por aqui? — Claro. Também vou indo. — Ela se levanta. — Boa sorte no trabalho. — Para nós, Rebeca. Sigo meu caminho; ela segue o dela. O restante da tarde foi tranquilo. Na reunião com os advogados, não precisei participar e, assim que ela acabou, o Sr. Nunes foi para sua sala. Fui atrás e lhe entreguei o relatório da primeira reunião. — Senhorita Andrade — ele diz, enquanto analisa os papéis que entreguei —, você fez um excelente trabalho hoje. — Me olha rapidamente, e um sorriso mínimo surge em seus lábios. — Por hoje está dispensada. Pode ir descansar. — Volta a olhar os papéis. — Continue assim. — Muito obrigada, senhor. — Nem consigo esconder minha alegria. — Tenha um bom descanso. Ele me observa por mais um segundo antes de eu seguir em direção à minha mesa. Depois de pegar minhas coisas, sigo feliz para casa. O primeiro dia foi perfeito. Espero que as coisas continuem assim. Depois de retirar dos pés aqueles sapatos, solto um gemido e sigo em direção à cozinha. Hora de fazer um jantar rápido antes de ir dormir. Quero estar descansada para o dia de amanhã. Vai ser mais um bom dia!
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