Larissa
Eu deveria ter corrido.
Não depois.
Não alguns minutos mais tarde.
Eu deveria ter corrido no exato momento em que aquele homem colocou a mão na minha cintura e retribuiu o beijo.
Ou melhor...
Eu deveria ter corrido antes mesmo de atravessar o salão.
Antes de ouvir a ideia completamente absurda da Júlia.
Antes de decidir que beijar um desconhecido seria uma boa forma de me vingar do meu ex.
Mas era tarde demais para arrependimentos.
Porque eu já tinha feito a besteira.
E agora estava diante de um homem que me observava como se eu fosse a única pessoa dentro daquele salão.
— Prazer em conhecê-la, futura esposa.
Meu cérebro simplesmente desligou.
— O quê?
Dante Moretti nem piscou.
Nem pareceu perceber que tinha acabado de dizer a coisa mais absurda que eu já tinha ouvido em toda a minha vida.
— Você me ouviu.
Eu tinha ouvido.
Infelizmente, tinha ouvido perfeitamente.
O problema era que minha mente se recusava a aceitar aquela informação.
Futura esposa?
Quem fala uma coisa dessas para uma desconhecida?
Pior.
Quem fala uma coisa dessas depois de ser beijado por uma desconhecida?
Meu rosto começou a esquentar quando me lembrei do que tinha acabado de fazer.
Eu tinha caminhado até ele.
Eu tinha segurado seu terno.
E eu tinha roubado aquele beijo.
Meu Deus.
Talvez eu precisasse mudar de cidade.
Ou de país.
Ou de planeta.
— Não, eu ouvi. Só estou tentando entender se você é louco.
Um sorriso lento surgiu no canto da boca dele.
E Deus me ajudasse...
Aquele homem ficava ainda mais bonito quando sorria.
— Ainda não.
— Ótimo. Então ainda dá tempo de procurar ajuda profissional.
A risada baixa dele percorreu minha pele como um arrepio.
Aquilo não deveria acontecer.
Eu não deveria reparar na voz dele.
Nem nos ombros largos.
Nem nos olhos escuros.
Nem no fato de que o terno parecia ter sido feito sob medida para aquele corpo.
Mas meu cérebro claramente tinha decidido me abandonar naquela noite.
Meu coração ainda estava completamente descontrolado.
Eu conseguia sentir o calor daquele beijo mesmo vários segundos depois.
Era ridículo.
Completamente ridículo.
Eu nem conhecia aquele homem.
Nem sabia quem ele era.
Mesmo assim, meu corpo parecia ter decorado cada detalhe.
A firmeza da mão dele na minha cintura.
O perfume amadeirado.
O calor da pele dele.
A maneira como me puxou para mais perto.
Como se tivesse esquecido que existiam outras pessoas ao redor.
Como se naquele instante existíssemos apenas nós dois.
E isso era impossível.
Não era?
Porque homens como Dante Moretti não esperavam por mulheres como eu.
— Larissa!
A voz da Júlia surgiu atrás de mim.
Graças a Deus.
Minha melhor amiga apareceu praticamente correndo.
Os olhos dela passaram por mim.
Depois por Dante.
Depois voltaram para mim.
E eu vi exatamente o momento em que ela percebeu que alguma coisa tinha acontecido.
— Meu Deus. O que aconteceu aqui?
— Nada.
— Muita coisa.
Nós respondemos ao mesmo tempo.
Júlia arregalou os olhos.
— Certo. Estou perdendo uma parte importante da história.
— Você está perdendo todas as partes importantes da história.
— Então alguém me explica.
— Não.
— Sim — Dante respondeu.
Fechei os olhos.
Eu queria desaparecer.
— Não escuta ele.
— Não escuta ela.
— Vocês parecem um casal brigando.
Meu rosto pegou fogo.
— Nós não somos um casal.
— Ainda não — Dante respondeu.
Meu queixo caiu.
Júlia começou a rir.
E eu considerei seriamente a possibilidade de estrangular os dois.
— Eu vou embora.
— Não vai.
Virei a cabeça lentamente.
— Você tem algum problema com essa palavra?
— Qual delas?
— Embora.
— Tenho.
— Isso é preocupante.
— Discordo.
Cruzei os braços.
Ele continuou me observando.
Sem pressa.
Sem nervosismo.
Sem qualquer sinal de que pretendia me deixar escapar.
E aquilo me deixava absurdamente consciente de mim mesma.
Do meu vestido.
Das minhas curvas.
Do meu corpo.
Um nó se formou no meu estômago.
Porque eu conhecia aquele olhar.
Ou pelo menos achava que conhecia.
Durante anos observei homens olhando para mulheres bonitas.
Mulheres magras.
Mulheres que pareciam ter saído de capas de revista.
Eu nunca fui uma dessas mulheres.
Sempre fui a amiga engraçada.
A amiga gentil.
A amiga confiável.
Mas raramente a mulher desejada.
Por isso o olhar de Dante me confundia tanto.
Porque não parecia haver pena nele.
Nem educação.
Nem simpatia forçada.
Ele me observava como se realmente gostasse do que estava vendo.
Como se minhas curvas não fossem algo que eu precisasse esconder.
Como se fossem exatamente aquilo que chamou sua atenção.
Meu coração acelerou.
Não.
Isso era impossível.
Homens como Dante Moretti não olhavam para mulheres como eu.
Olhavam?
A pergunta surgiu antes que eu pudesse impedi-la.
E isso me irritou.
Porque eu tinha prometido a mim mesma que não deixaria homem nenhum definir meu valor.
Especialmente depois de Rafael.
Especialmente depois de tudo o que ele tinha feito.
— Foi um prazer conhecê-lo, senhor Moretti.
— Dante.
— Senhor Moretti.
— Dante.
— Senhor Moretti.
Os olhos dele brilharam.
— Teimosa.
— Educada.
— Não são a mesma coisa.
— Neste caso são.
Júlia quase engasgou de tanto rir.
— Adeus, senhor Moretti.
Antes que ele pudesse responder, agarrei o braço dela e comecei a andar.
Rápido.
Muito rápido.
Só parei quando estávamos praticamente do outro lado do salão.
Meu coração ainda estava acelerado.
E eu odiava admitir o motivo.
— O que foi isso? — Júlia perguntou.
Soltei uma risada nervosa.
— Sinceramente? Acho que acabei de cometer o maior erro da minha vida.
— Ou a melhor decisão.
— Você não está ajudando.
— Eu nunca ajudo.
— Isso explica muita coisa.
Júlia apoiou uma das mãos no quadril.
— Larissa, aquele homem não conseguia tirar os olhos de você.
— Porque ele é estranho.
— Porque ele está interessado.
— Impossível.
— Por quê?
Abri a boca.
Fechei.
Porque eu sabia exatamente o motivo.
Mas dizer aquilo em voz alta significava admitir que as inseguranças ainda estavam ali.
Vivinhas.
Esperando uma oportunidade para aparecer.
— Porque homens como ele não olham para mulheres como eu.
A expressão divertida de Júlia desapareceu imediatamente.
— Você realmente acredita nisso?
Desviei o olhar.
E aquele simples gesto respondeu por mim.
— Você está sorrindo.
— Não estou.
— Está sim.
— Cala a boca.
Ela começou a rir.
E eu odiei admitir que tinha razão.
Porque alguma coisa dentro de mim ainda estava presa naquele momento.
Naqueles olhos.
Naquela voz.
Na maneira como ele tinha me olhado.
Como se eu fosse bonita.
Não bonita por educação.
Bonita de verdade.
Desejável.
Meu ex fazia questão de me lembrar do contrário.
Durante dois anos ouvi comentários disfarçados de preocupação.
Comentários que machucavam.
Comentários que diminuíam.
E mesmo depois do término, uma parte de mim ainda carregava aquelas cicatrizes.
Por isso o olhar de Dante me deixava tão confusa.
Porque não havia pena nele.
Nem julgamento.
Nem falsa gentileza.
Havia algo muito pior.
Interesse.
Interesse genuíno.
Como se ele tivesse gostado do que viu.
Como se tivesse gostado de mim.
Meu coração apertou.
Porque eu queria acreditar que tudo aquilo era uma brincadeira.
Seria mais fácil.
Muito mais fácil.
Porque a outra opção era assustadora.
A outra opção significava admitir que aquele homem realmente tinha me visto.
Não apenas olhado.
Visto.
— Ele ainda está olhando?
Júlia virou discretamente a cabeça.
— Sim.
Meu estômago afundou.
Antes que eu pudesse me impedir...
Olhei novamente.
E encontrei Dante exatamente onde o havia deixado.
Imóvel.
Observando.
Esperando.
Como se tivesse todo o tempo do mundo.
Como se soubesse que, mais cedo ou mais tarde...
Eu voltaria para ele.
E pela primeira vez naquela noite...
Tive a sensação de que aquele beijo não tinha sido apenas uma vingança impulsiva.
Talvez tivesse sido o começo de um problema gigantesco.
E o pior?
Uma parte de mim não tinha certeza se queria fugir dele.