Capítulo 19

1106 Palavras
Narrado por Christian O despertador tocou às seis em ponto, mas meus olhos já estavam abertos antes disso. Nunca fui de dormir profundamente, ainda mais agora com tantas mudanças. Pela primeira vez em muito tempo, minha casa estava cheia de vida cheia de vozes, risos, passos apressados pelos corredores… cheia de filhos. E isso, de um jeito estranho, me fazia bem. Me levantei devagar para não acordar Anastácia, que dormia de lado com o braço esticado até onde Stella havia dormido entre nós. A garotinha tinha medo de dormir sozinha, e sinceramente? Eu não a culpava. No corredor, dei de cara com Christopher, já de mochila nas costas, escovando os dentes com um olho meio fechado de sono. — Tá cedo, Pequeno Lobo. — bati de leve em seu ombro. Ele engoliu o creme dental. — Eu gosto de sair cedo. Vai me levar hoje? A pergunta veio como um soco gostoso no peito. Até pouco tempo atrás, ele m*l olhava na minha direção. Agora, ele queria que eu o levasse até a escola. — Claro que vou — respondi, tentando manter o tom casual. Enquanto ele terminava de se arrumar, desci para a cozinha e preparei um café rápido. Anastácia apareceu na escada, com o cabelo preso num coque bagunçado, vestindo um moletom e carregando a pasta dos documentos dos dois pequenos. — Hoje eu vou até a escola pra resolver a matrícula da Stella e do Saimon — disse, pegando uma xícara de chá. — Já liguei ontem, eles disseram que têm vagas na mesma sala do Christopher. Assenti, observando como ela já sabia exatamente o que fazer. — Vai dar tudo certo. Ela sorriu, mas notei aquele brilho contido nos olhos. Não era nervosismo. Era aquele medo sutil de estar se metendo demais em um espaço que, até pouco tempo, era só meu e de Christopher. — Ei — chamei, segurando sua mão. — Eles são nossos filhos agora. Não tem mais espaço meu ou seu. Tem só nosso. Ela respirou fundo e assentiu. — Obrigada por isso, Christian. Por confiar em mim. — Não é questão de confiança. É amor. O caminho até a escola foi surpreendentemente tranquilo. Christopher falava mais do que nunca, contando sobre um campeonato de ciências que estava por vir, e até soltou uma piada sobre como achava que Saimon ia querer competir com ele só por birra. — Vocês dois vão acabar virando melhores amigos — brinquei. Ele revirou os olhos. — Duvido. Ele fica me olhando com uma cara de quem tá me analisando. Tipo um detetive. — Talvez ele só esteja tentando entender o que significa ter um irmão. Christopher ficou em silêncio por alguns segundos antes de murmurar: — É estranho… mas não é r**m. Sorri. Estávamos avançando. Depois de deixá-lo na escola, fui direto para a empresa. Cheguei às oito e quinze. A recepção estava movimentada, como sempre. Cumprimentei alguns funcionários no caminho até o elevador e, ao chegar na minha sala, encontrei Roger me esperando. Ele estava sentado na poltrona ao lado da janela, folheando um contrato com a cara séria de sempre. — Bom dia, Christian — disse, sem levantar os olhos. — Dormiu bem? Fechei a porta atrás de mim, tirando o paletó. — Dormi com uma crianças pulando na minha cama às três da manhã.? Ele riu. — Bem-vindo ao clube dos pais. — Você tem filhos? Rodrigo me encarou. — Não biológicos. Mas já fui tutor de dois sobrinhos por um tempo. Assenti, sentando à mesa. — E o que temos hoje? — Precisamos resolver a fusão com a Bravatti & Cia. Eles não querem ceder na cláusula da participação acionária, e o conselho já está pressionando. Revirei os olhos. Era típico. — A Bravatti acha que pode ditar as regras porque sabe que precisamos da maldita tecnologia deles. — Exato. Mas se você quiser, posso marcar uma reunião com o diretor jurídico deles e tentar uma brecha. — Faça isso. E me mantenha informado. Roger assentiu e começou a recolher os papéis, mas me encarou de repente. — Vi que você está... diferente. — Diferente como? — Menos... aço. Mais carne. Dei uma risada seca. — Isso é uma crítica ou um elogio? — Uma constatação. O dia passou arrastado entre reuniões, telefonemas e decisões que pareciam pesar mais do que o normal. Por volta das duas da tarde, Anastácia me mandou uma foto: Stella abraçada com a diretora da escola, segurando uma ficha de matrícula com a mãozinha levantada em comemoração. Ao fundo, Saimon sentado numa carteira, de braços cruzados, mas com um pequeno sorriso no canto da boca. “Tudo certo. Eles começam semana que vem”, dizia a mensagem. Demorei alguns segundos para responder. Fiquei olhando para a imagem deles como se ainda fosse difícil acreditar que agora eram meus. — Pais são uma droga, às vezes — Roger comentou, entrando na sala sem bater. — Mas, no fim, sempre vale a pena. Levantei os olhos do celular. — Você sempre entra sem bater? — Só quando sei que o assunto vai ser mais interessante do que orçamento de campanha. Joguei o celular sobre a mesa. — Não sabia que você se importava. — Me importo com o fato de você estar distraído. A empresa precisa do Christian centrado. Mas também não posso negar que você parecer humano é… refrescante. Suspirei. — Eu estou tentando. Dividir minha vida entre pai e CEO não é fácil. Roger se levantou e parou na porta. — Ninguém disse que seria. Mas olha... você está indo melhor do que imagina. Quando cheguei em casa no fim do dia, fui recebido por um abraço coletivo no corredor. Stella pulou no meu colo, Saimon me olhou com aquele ar contido de sempre, e Christopher gritou da sala: — Oi, pai! “Pai.” Ainda era estranho. Mas, Deus, como era bom ouvir. Anastácia apareceu na cozinha, com o avental sujo de farinha. — Hoje fizemos cookies. Stella ficou encarregada de colocar as gotas de chocolate. — Eu coloquei muitas! — ela gritou, orgulhosa. — E eu quase perdi um dente — resmungou Christopher, fazendo todos rirem. Jantamos juntos, todos em volta da mesa. Saimon e Christopher ainda trocavam provocações, mas já havia uma certa cumplicidade no olhar. Anastácia observava tudo com um brilho no olhar que só ela tinha. E eu… Eu me sentia inteiro. Pela primeira vez em anos. Mais tarde, enquanto eu observava Anastácia colocar Stella para dormir e Christopher discutia com Saimon sobre um jogo no celular, fui para o meu escritório e fiquei olhando a foto que tínhamos tirado dias antes. Essa era minha família.
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