Capítulo 18

1038 Palavras
Narrado por Anastácia A casa parecia respirar diferente naquela manhã. Eu e Christian acordamos cedo, ansiosos. Desde o momento em que decidimos adotar Stella e Saimon, os dias passaram com um misto de nervosismo e doçura. Foram idas ao fórum, entrevistas com assistentes sociais, conversas com a equipe do orfanato... mas agora, tudo estava certo. Eles viriam para casa. Para o nosso lar. Christian terminava de arrumar o quarto que seria dividido pelas crianças, e Christopher estava no corredor, olhando curioso, mas fingindo desinteresse. - Precisa de ajuda aí? - perguntei, encostando no batente da porta com uma xícara de chá nas mãos. - Precisa sim. Tem um travesseiro rebelde aqui - ele respondeu, divertido. Entrei, rindo, e ajeitei o travesseiro que ele insistia em virar do lado errado. O quarto estava lindo. Havíamos feito tudo com tanto carinho. A cama de Stella era adornada com almofadas floridas e uma colcha lilás com bordado de estrelinhas. Para Saimon, optamos por algo mais neutro, com tons de azul e cinza, e uma pequena escrivaninha perto da janela, onde ele poderia desenhar à vontade. - Acha que eles vão gostar? - sussurrei. Christian se aproximou por trás e me abraçou. - Eu tenho certeza. Quando a van do orfanato estacionou na frente da casa, meu coração disparou. Corri para a porta com as mãos trêmulas, e quando ela se abriu, lá estavam eles: Stella com uma mochila cor-de-rosa nas costas, um sorriso enorme no rosto, e Saimon, mais sério, segurando uma pequena mala e um estojo de desenhos debaixo do braço. - Oi! - Stella disse, com os olhos brilhando. - Essa é mesmo a nossa casa? Me abaixei para ficar na altura dela, sentindo os olhos marejarem. - É sim, meu amor. Agora é a casa de vocês também. Ela pulou no meu colo, os bracinhos se enrolando no meu pescoço. - Eu sabia! Sabia que vocês iam voltar pra me buscar. Olhei por cima do ombro dela e vi Saimon parado no portão, observando tudo com cautela. Christian foi até ele. - Tudo bem Saimon? - ele perguntou, abrindo espaço com o braço para carregar a mala. Saimon hesitou por um segundo, então assentiu com um leve aceno e entrou. Seus olhos vagaram por cada detalhe da casa com curiosidade contida. Quando Christopher apareceu no corredor, os dois trocaram um olhar silencioso. - Oi - Christopher disse, mais tímido do que o normal. - Oi - respondeu Saimon. Foi só isso. Um oi trocado entre dois garotos de 13 anos que entendiam o peso do que estava acontecendo ali, mas não sabiam como lidar com isso. Era um começo. Passei a tarde mostrando a casa para as crianças. Stella ficou encantada com o jardim, onde prometeu plantar flores com meu nome. Já Saimon parecia mais interessado na sala, onde viu alguns quadros nas paredes e perguntou se ele também poderia expor seus desenhos ali. - Claro que pode - respondi. - A parede é nossa. Da família inteira. Na hora do lanche, preparei suco natural e bolinhos de queijo. Christopher ajudou, meio sem jeito, trazendo os copos enquanto observava Saimon com o canto do olho. Sentaram-se os dois à mesa, com Stella entre eles, conversando sem parar sobre como queria pintar o quarto dela com glitter. - Glitter é impossível de tirar depois - Saimon comentou, com a primeira ponta de humor desde que chegou. - Mas é lindo! - Stella rebateu. - E eu quero tudo que brilha. - A gente pode pensar em alguma decoração com brilho, né? - sugeri. Stella assentiu animada, e Saimon apenas deu de ombros, mas com um pequeno sorriso escondido. Depois do lanche, fomos abrir as malas. Enquanto Christian ajudava Saimon a organizar suas coisas, levei Stella até seu quarto. Ela tirou cada item da mochila como se fossem tesouros preciosos: um ursinho de pelúcia já um pouco gasto, um caderninho com recortes de revistas e um porta-retrato sem foto. - Esse porta-retrato é pra foto da minha nova família - ela explicou. - A moça do orfanato falou que era bom trazer um. Senti meus olhos arderem. - E sabe o que mais a gente pode fazer? - perguntei. - Tirar essa foto hoje mesmo. Ela pulou de alegria. - Pode ser agora? - Agora mesmo. Reunimos todos na sala. Christopher ficou entre mim e Christian. Stella insistiu em ficar na frente, abraçada ao ursinho. Saimon tentou se esconder atrás de Christian, mas acabou cedendo quando a irmãzinha puxou sua mão. O clique da câmera capturou aquele momento. Cinco corações. Um lar. Mais tarde, depois do banho e do jantar - arroz, feijão, carne moída e purê, porque Stella disse que era sua comida preferida -, fomos todos nos acomodar na sala para assistir um filme. Stella se aninhou no meu colo, com a cabeça em meu ombro. Christopher e Saimon ficaram lado a lado no tapete, com um balde de pipoca entre eles. A certa altura, vi Christopher oferecer a pipoca primeiro. Saimon pegou sem dizer nada, mas olhou para ele por um segundo a mais. Estavam encontrando um lugar de conforto um no outro. Quando o filme terminou e os olhos de Stella já estavam fechando, ela me olhou sonolenta. - Mãe? Meus olhos se arregalaram. - O quê, meu amor? - Boa noite, mãe. Meu coração disparou. - Boa noite, filha - sussurrei, abraçando-a com força. Olhei para Christian e vi que ele havia parado de respirar por um instante. Seu braço estava em volta de Saimon, que, mesmo calado, não recuava. Aquilo era mais do que suficiente. Naquela noite, depois que todos foram dormir, fiquei sentada no quarto com Christian, observando a casa silenciosa. - Eu não sei explicar - falei, encostada em seu ombro. - Parece que tudo agora faz sentido. - Eu sei exatamente o que você quer dizer. - Você ouviu o que ela me chamou? - Ouvi. E espero que ela diga isso todos os dias da vida dela. Porque você nasceu pra ser mãe, Tácia. Fechei os olhos, sentindo o peito cheio de gratidão. - E você nasceu pra ser pai. Mesmo que tenha demorado pra perceber. Ele riu, me puxando para mais perto. - Ainda bem que você me mostrou.
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