Narrado por Anastácia
Acordei com o som de passos leves no corredor e um murmúrio abafado vindo da cozinha. Por um momento, achei que estivesse sonhando, mas o cheiro de café fresco e pão na chapa me fez sorrir ainda de olhos fechados. Era uma cena rara.
Vesti meu robe de cetim e fui até a cozinha, encontrando Christian e Christopher lado a lado, cortando frutas. O menino usava uma camiseta folgada de futebol um pouco grande e tentava, de maneira desastrada, espremer suco de laranja.
— Bom dia — murmurei, com um sorriso preguiçoso.
— Bom dia — responderam os dois ao mesmo tempo, quase em uníssono. Aquilo aqueceu meu peito.
— Resolvi deixar você dormir um pouco mais hoje — disse Christian, aproximando-se para me dar um beijo na testa. — E adivinha quem quis ajudar?
Christopher desviou os olhos, envergonhado, mas não recuou. Apenas murmurou:
— É o mínimo depois de ontem. Aquele orfanato... é diferente. Tem alguma coisa lá que... sei lá. Fiquei pensando nas crianças.
— Eu também — respondi suavemente. — Principalmente em Stella e Saimon.
Christian me lançou um olhar cúmplice. Sabíamos o que isso significava.
Depois do café da manhã, sentei com Christopher na varanda enquanto Christian resolvia uma ligação rápida do trabalho.
— Chris — comecei, pegando leve — o que achou do Saimon?
Ele franziu o cenho, pensativo.
— Ele é meio marrento. Mas... entendo. Tipo, ele tá se defendendo o tempo todo. Não confia em ninguém.
— Você foi assim com seu pai né.
— Eu ainda sou, um pouco — respondeu, com um meio sorriso. — Mas menos. Talvez porque... vocês não desistiram de mim.
— E se eu te dissesse que pensamos em adotar o Saimon e a Stella?
Os olhos dele se arregalaram por um instante.
— Sério?
— Sim. Mas só se você estiver confortável com isso. Não queremos que você se sinta deixado de lado.
Ele hesitou por um momento.
— A Stella é legal. Ela tem uma energia boa, tipo... uma irmãzinha mesmo. E o Saimon... bom, se ele não for babaca comigo, acho que pode ser legal também. Eu só... não quero dividir vocês. Já dividi minha vida demais.
Coloquei a mão em seu ombro.
— Você nunca vai ser deixado de lado, Christopher. Nunca. Você é nosso filho, entende?
Ele assentiu, devagar. Os olhos brilhando mais do que deveriam para uma manhã
— Você também é como uma mãe para mim. — ele fala bem tímido e eu sem me conter abracei ele.
_ Você é um fofo Christopher.
— Para eu já sou grande.
(...)
Alguns dias depois voltamos ao orfanato. Sem avisar. Apenas porque o coração pediu. E, mais uma vez, Stella correu até mim como se eu fosse seu porto seguro. Me abraçou apertado e me entregou um desenho com três figuras sorrindo: “EU, VOCÊ, O SAIMON, O CACHINHOS E O TIO”. O papel estava amassado, mas o amor era nítido em cada traço colorido de lápis de cera.
Saimon estava no canto do pátio, chutando pedrinhas. Dessa vez, Christian foi até ele.
— Posso falar com você um segundo? — perguntou, com a voz firme mas gentil.
Saimon deu de ombros e assentiu.
— A Anastácia e eu estamos pensando em adotar você e sua irmã.
Saimon travou.
— Não precisa decidir agora — continuou Christian. — Só queria que você soubesse. Que tem alguém que vê você. Que acredita em você.
— E se eu não quiser? — ele rebateu, com os olhos estreitos.
— Você não é obrigado a nada. Mas se quiser... nós estamos aqui. Não como heróis. Mas como família.
Silêncio.
Então, em um tom baixo e difícil de ouvir, Saimon murmurou:
— Ela já chorou por outras pessoas que prometeram isso antes. E ninguém cumpriu, só dizem isso para nós dá falsas esperanças.
Christian assentiu, respeitoso.
— Eu prometo que a gente volta.
— Os nossos pais nunca voltaram.
— Mais eu vou voltar, você vai vê.
Do outro lado do pátio, Stella brincava com Christopher, que relutantemente deixava ela fazer trancinhas no cabelo dele.
— Se alguém tirar sarro, você vai me defender, né? — ele perguntou, fingindo emburrado.
— Eu dou uma voadora! — ela respondeu, rindo.
E ele também riu. De verdade.
Na hora de ir embora, Saimon se aproximou, ainda um pouco rígido, mas firme no olhar.
— Se vocês voltarem mesmo... eu penso no assunto.
— A gente volta — eu garanti, segurando a mão dele.
E assim saímos dali. Com a sensação de que o coração estava mais cheio e mais pesado. Que estávamos carregando mais do que promessas. Estávamos carregando sonhos, esperanças... e a chance de mudar para sempre a vida de duas crianças.
— Acho que nosso lar está prestes a ganhar novos nomes — murmurei, no carro.
— E novas histórias — completou Christian.
Christopher apenas sorriu tranquilo.
(...)
Nós próximos dias Entramos com os papéis na vara da infância. O processo seria longo, exigia entrevistas, visitas assistidas, avaliações psicológicas… mas nenhum desses obstáculos parecia maior que o amor que começava a nascer.
Christopher se manteve mais calado nos dias que seguiram, mas não de um jeito negativo. Era como se estivesse processando tudo à sua maneira. E eu respeitava isso. Sempre respeitaria.
Na primeira visita agendada com os assistentes sociais presentes, encontramos Stella com dois laços enormes nos cabelos e um vestido amarelo rodado. Ela correu até mim, pulando nos meus braços como se eu fosse uma velha amiga, e não uma mulher que ela conheceu apenas duas vezes.
— Você voltou! — gritou. — Eu sabia!
— Eu prometi, lembra? E sempre cumpro minhas promessas.
— Meu irmão não acreditou. Mas eu acreditei — ela disse com o nariz empinado e um sorriso cheio de dentes de leite.
Saimon, por outro lado, não se aproximou. Estava sentado no mesmo canto de sempre, fingindo que não nos via. Mas eu sabia que via. Sentia os olhos dele em nós, nos observando. Esperando.
Nosso tempo com as crianças foi monitorado de perto. Brincamos de desenhar, lemos histórias e até fizemos um piquenique no gramado do pátio. Stella agarrava Christian como se ele fosse o herói de um conto de fadas. Já Christopher, mesmo mantendo certa distância, tentava interagir com Saimon.
— Gostaria de voltar praticar skate? — ele perguntou, sentando ao lado dele.
Saimon o olhou
— Acho que sim— Ele respondeu.
— Sabe, O meu pai e a Anastácia são legais, acho que se você quiser podemos nos dá bem como família.
— Eu não tenho tanta certeza assim.
— Cara, relaxa e aproveita.—
Christopher deu uma risada.
Saimon não respondeu, mas não virou as costas. Ficamos conversando mais um pouco e quando voltamos para casa, estávamos exaustos. Christian me olhou com ternura e puxou minha mão, fazendo com que eu me sentasse ao seu lado no sofá.
— Você estava muito linda com ela no colo — disse, referindo-se quando eu estava com Stella, que quase dormiu nos meus braços durante a leitura.
— E você parecia um urso protetor com os dois.
Ficamos em silêncio por um tempo, até que soltei um suspiro.
— Você tem certeza, Christian?
— Tenho. Nunca tive tanta certeza de algo na minha vida. E você?
— Tenho. Mas... tenho medo. Medo de não sermos suficientes. De magoar o Saimon se ele não conseguir confiar. E também medo de que o Christopher se sinta de lado.
Ele me puxou para perto e encostou a testa na minha.
— Vamos cuidar de tudo isso juntos. Não tem certo ou errado aqui. Só amor. Amor e paciência. E temos os dois.
Naquela noite, eu estava no quarto me preparando para dormir e Christian tinha ido para o banheiro e de repente escuto batidas na porta.
— Pode entrar.— Christopher veio até meu quarto e se sentou na cama, com as pernas cruzadas.
— A Stella me chamou de "mano". Só... saiu assim.
— E você gostou?
— Não sei. Estranho, mas bom. Tipo, nunca fui irmão de ninguém.
— É... você está virando. Um irmão incrível.
Ele deu um leve sorriso.
— O Saimon me deu um soco de leve no ombro quando eu disse que podia ensinar ele a fazer manobras novas.
— Sério?
— Aham. Acho que é o jeito dele de dizer que gostou de mim. Ou que eu sou irritante. Ainda não decidi.
Eu ri, emocionada.
— Você está indo muito bem, Christopher. Muito mesmo.
Na semana seguinte, tivemos uma nova visita. Dessa vez, levamos Stella e Saimon para passar o dia conosco, monitorados. Fiz um bolo de cenoura com calda de chocolate, enquanto as crianças jogavam videogame na sala.
Saimon não era muito de sorrir, mas naquele dia, flagrei um pequeno quase imperceptível quando ele venceu Christopher numa partida.
Stella correu pela casa, explorando tudo com aquele entusiasmo que só uma criança consegue ter.
— Essa vai ser minha cama? — perguntou, entrando no quarto de hóspedes.
— Por enquanto sim, meu amor. Mas se tudo der certo, a gente decora como você quiser. Com estrelas no teto e unicórnios nas paredes.
— E meu irmão vai ficar perto?
— Vai. Um quarto só pra ele também. Querem ficar próximos?
— A gente sempre ficou juntos. Ele é bravo, mas é meu herói.
Meu coração apertou. Eu sabia o que aquilo significava.
Naquela noite, quando deixamos os dois no orfanato, Saimon hesitou antes de sair do carro. Olhou para Christian, depois para mim.
— Vocês vão mesmo querer a gente? Tipo... mesmo que eu não seja fácil?
Christian não pensou duas vezes.
— A gente não quer perfeição, Saimon. A gente quer você. E sua irmã. Com tudo o que vocês são.
Ele assentiu. E murmurou algo que ficou comigo por dias:
— Eu tô tentando confiar. Mas é difícil. Só... não desistam.
— Nunca — respondi, com a voz embargada.
A assistente social nos ligou dois dias depois. As crianças estavam sendo preparadas emocionalmente para o acolhimento definitivo, e o processo seguiria para a fase final de adoção.
Eu chorei. Christian me abraçou em silêncio. E Christopher apareceu no quarto com um pacote de adesivos.
— Eu comprei pra Stella. Tem unicórnios brilhantes.
— Isso é lindo, Christopher.
Ele deu de ombros, tentando esconder o sorriso.
— O Saimon gosta de jogos de RPG. Achei uns livros na internet. A gente podia comprar pra ele.
— Claro. Vamos fazer isso juntos.
E foi assim que, pouco a pouco, nosso lar foi ficando mais cheio. Mais barulhento. Mais vivo. E meu coração, antes apertado pela impossibilidade de gerar um filho, encontrou paz em saber que ser mãe é muito mais do que parir. É amar, acolher, proteger. E ser o porto seguro de alguém que nunca soube o que era ter um lar.