Capítulo 16

1453 Palavras
Narrado por Anastácia A van estacionou diante do portão azul do orfanato, e eu sorri ao ver as crianças correndo no pátio como passarinhos soltos, os gritinhos agudos e as gargalhadas me atravessando como luz em um quarto escuro. A manhã estava clara, com um vento leve que dançava entre as árvores, e o cheiro de pão fresco vinha da cozinha do abrigo. Christian desligou o carro e olhou para o banco de trás, onde Christopher terminava de colocar a mochila com os jogos que prometeu mostrar para as crianças. — Pronto, Pequeno Lobo? Christopher assentiu com um meio sorriso. Ele parecia mais leve. Desde aquela atividade na escola, os silêncios entre pai e filho estavam menos densos, mais cheios de significado do que de distância. Ver isso acontecer diante dos meus olhos era um presente. Desci primeiro e abri o portão, sendo recebida por um abraço apertado. — Tia Anaaaa! — gritou Stella, me agarrando pelas pernas. Aquela menina de oito anos tinha um jeito doce que derretia até o coração mais duro. Cabelos enroladinhos presos num r**o de cavalo torto, um vestido rosa de bolinhas e os olhos castanhos mais vivos que eu já tinha visto. — Oi, meu amor! — abaixei-me para pegá-la no colo. — Sentiu minha falta? — Eu contei os dias! Faltava só um! — Um o quê? — Um dia pra você vir! — ela riu, apontando o dedo indicador em meu nariz. — Eu falei pro Saimon que você vinha e ele disse “duvido”. Olhei para o lado e o vi. Saimon estava de braços cruzados, encostado numa parede. Os mesmos treze anos de Christopher, mas com olhos que pareciam mais velhos do que deveriam. Sempre observando, sempre desconfiado. — Oi, Saimon — disse com um sorriso leve. Ele assentiu com a cabeça, sem responder. Christopher ficou ao meu lado, as mãos nos bolsos, observando o garoto com atenção. Os dois se encararam por alguns segundos. Nada hostil, mas havia uma tensão sutil. Como dois animais farejando território. Christian veio logo atrás, e algumas outras crianças correram para abraçá-lo. — Tio Christian, você veio mesmo! — gritou um garotinho loiro.— Você trouxe o meu pirulito? — Eu disse que vinha, não disse? — ele sorriu, bagunçando os cabelos do menino.— Mais é claro que trouxe. Passamos a manhã inteira brincando. Organizamos jogos de tabuleiro, fizemos pinturas com tinta guache e até improvisamos um teatrinho com as crianças menores. Christian e Christopher, juntos, ajudaram os meninos a montar uma torre com caixas de papelão que virou castelo, navio pirata e depois prisão tudo na imaginação fértil deles. Mas mesmo entre as risadas, meu olhar voltava sempre para Stella e Saimon. Stella me seguia como uma sombra. Me dava flores que colhia no jardim, me contava sobre o dente que estava mole, sobre o desenho que fez na aula de artes. E cada vez que ela me chamava de “tia Ana”, meu coração se derretia. Saimon era diferente. Ele não se aproximava tanto. Apenas observava. Em determinado momento, Christopher tentou puxar conversa com ele e por eu está perto acabei ouvindo. — Oi — Oi._ Saimon respondeu com indiferença — Eu sou o Christopher. — Eu sei. _ Sabe? — Sim, a Anastácia me mostrou uma foto sua uma vez. _ Sério, não sabia. — Ele me olhou e eu sorri para ele.— Então, você gosta de skate? — Já andei a muito tempo atrás quando eu tinha um lar.— respondeu Saimon, seco. — Hum. Entendi.— Eles ficam em silêncio e a conversa morreu ali. Christopher voltou para perto de mim, visivelmente incomodado. — Eu acho que ele não foi muito com a minha cara não né. — Calma, ele não confia nas pessoas, Chris. Já se decepcionou demais e você é um Junqueira então. — Mais isso não é desculpa pra ser grosso. Christian se aproximou, pegando uma garrafa de água. — Você também não era muito diferente quando a gente começou a conversar — ele comentou, sem maldade. Christopher bufou, mas não respondeu. Ficamos assim por um tempo, até que a coordenadora do orfanato nos chamou para almoçar. A comida era simples, mas feita com carinho. Arroz, feijão, carne moída e batata palha. Stella sentou ao meu lado, apoiando a cabeça no meu braço. — Você volta amanhã? — perguntou com a boca cheia. — Não sei, meu amor. Talvez semana que vem. — Mas... você não pode morar aqui? Engoli em seco. — Eu queria muito — respondi com sinceridade. — Então me leva com você. Ela disse aquilo com tanta naturalidade que me faltaram palavras. Olhei para Christian, que conversava com um monitor do outro lado do refeitório, e depois para Saimon, que comia em silêncio no canto, sozinho. Meu coração bateu estranho. Mais tarde, enquanto as crianças assistiam a um filme numa sala improvisada com almofadas, chamei Christian até o jardim dos fundos. Ele notou meu semblante. — O que houve? — Eu... queria te falar uma coisa. Algo que venho pensando há um tempo. Ele franziu o cenho, cruzando os braços. — Estou ouvindo. — Christian, eu sei que você e o Christopher estão se aproximando agora. E que isso é muito importante. Eu vejo como está sendo bom pra vocês. E... talvez esse não seja o momento, talvez não faça sentido... mas eu preciso te contar o que sinto. Ele se aproximou, a expressão suave, mas atenta. — Pode falar. — Eu me apaixonei pela Stella. Desde a primeira vez que vi aquela menina, algo dentro de mim mudou. E não é só ela. Eu... também vejo algo no Saimon. Algo que me comove, que me faz querer cuidar. Proteger. Amar. — respirei fundo. — Christian, eu quero adotar. Eu sei que você já tem o Christopher e está construindo essa relação com ele. Eu jamais quero atrapalhar isso. Mas... eu não posso fingir que não sinto. Eu não posso ter filhos, você sabe. E eu... sinto como se esses dois já fossem parte de mim. Ele me encarou por longos segundos. — Você acha que eu me incomodaria com isso? — Acho que você pode achar que estou querendo “substituir” algo, ou atropelar seu momento com o Christopher. — Anastácia... — ele segurou minha mão. — Você é o coração dessa família. Eu jamais impediria você de amar alguém. Ainda mais duas crianças que precisam disso. Só estou surpreso. — Surpreso...? — É. Não por você querer. Mas por não ter me dito antes. — Eu tinha medo da sua reação. Ele riu, baixo. — E eu achando que quem precisava aprender sobre paternidade era só eu. Nos abraçamos ali mesmo, entre as flores do jardim, enquanto o vento bagunçava meu cabelo. Quando voltamos para dentro, vi Christopher e Saimon assistindo ao filme na mesma almofada — separados por uma mochila, claro, mas ainda assim próximos. Christopher me lançou um olhar como quem dizia: “tô tentando”. Sentei ao lado de Stella e ela se deitou no meu colo. — Quando eu crescer, vou morar numa casa com flores. Igual a da minha boneca — murmurou, sonolenta. — Eu conheço uma casa assim — sussurrei, fazendo carinho em seus cachos. — Você me leva? — Talvez... mais rápido do que você imagina. Na volta pra casa, o silêncio era confortável. Christopher olhava pela janela com os olhos semiabertos, cansado, mas tranquilo. Quando chegamos e ele já estava no banho, Christian se aproximou de mim na sala. — Eu também senti algo hoje — ele disse, sério. — Senti o quê? — Que talvez nossa família esteja prestes a crescer. E não tô falando só do Christopher. — Você realmente aceitaria? — Eu aceitaria qualquer coisa que viesse com esse coração aí — ele tocou meu peito com a ponta dos dedos. — Mas vamos fazer isso juntos. Com calma. Com responsabilidade. — Com amor — completei. Naquela noite, me deitei com o coração apertado e cheio ao mesmo tempo. Como se a vida tivesse me mostrado, com duas crianças diferentes, que o amor não nasce só do sangue. E que talvez o que eu mais deseje seja exatamente isso: Construir um lar onde cabem todos os nossos afetos. Onde Stella pode rir sem medo. Onde Saimon pode confiar sem se armar. Onde Christopher pode crescer sabendo que nunca mais estará sozinho. E onde Christian... pode ser não apenas um homem de negócios, mas o pai que sempre esteve dentro dele, esperando apenas um motivo para florescer mesmo depois de tudo. E, com o tempo, talvez esses três meninos tão diferentes, tão parecidos aprendam a se olhar como irmãos. Não de sangue. Mas de amor.
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