Capítulo 9

1359 Palavras
Narrado por Christian Junqueira O dia começou com uma reunião inútil e terminou com uma dor de cabeça. Nada fora do comum. Depois de discutir com alguns sócios que acham que sabem mais do que eu sobre minha própria empresa, finalmente dirigi de volta para casa. Mas, mesmo cansado, minha mente não desligava. Pensava em Christopher. Pensava na maneira como ele entrou em casa ontem à noite, como se quisesse passar despercebido. Ele achava que eu não percebia, mas eu via. Eu via cada detalhe. E, mesmo que ele não dissesse, eu sabia que algo estava mudando. Ele estava se abrindo, ainda que fosse pouco. E, por Deus, eu não queria estragar isso. Quando cheguei, Anastácia estava no sofá, lendo alguma coisa. Ela olhou para mim e sorriu. — Chegou cedo hoje. — Milagre, né? Ela riu e se levantou para me dar um beijo rápido. — Christopher já chegou? — perguntei, largando a maleta. — Sim. Tá no quarto desenhando. Fiquei em silêncio por um momento. Anastácia percebeu. — O que foi? Passei a mão no rosto. — Só queria entender o que se passa na cabeça dele. — Ele tá melhor. — Como você sabe? Ela deu de ombros. — Porque eu vejo. Ele confia em mim. Não era uma provocação. Apenas um fato. E eu odiava admitir, mas ela estava certa. Christopher se abria para ela de um jeito que não fazia comigo. E, por mais que isso doesse, eu entendia o porquê. Eu não estive lá quando ele precisou. Agora, estava tentando recuperar o tempo perdido. Mas tempo não se compra. Só se conquista. Suspirei e me joguei no sofá ao lado dela. — Você acha que ele algum dia vai me perdoar? Anastácia segurou minha mão. — Acho que ele já está te perdoando. Só não percebeu ainda. — Tomara meu amor. — Digo e subo até o quarto de Christopher e bati na porta. — Posso entrar? Dessa vez, ele não demorou para responder. — Pode. Quando entrei, ele estava na mesa, lápis na mão, concentrado em um desenho. Olhei para a folha e vi um lobo, forte, com olhos intensos. Meu peito apertou. — Tá ficando bom. Ele deu de ombros. — Só um rascunho. Me aproximei e puxei uma cadeira ao lado dele. — Quer me contar como foi seu dia? Ele hesitou, mas depois disse: — Melhor que ontem. Assenti. — Então, esse Matheus… ele te deixou em paz? Christopher parou o lápis por um instante. Depois, voltou a desenhar. — Sim. Eu não sabia se acreditava nisso. Mas também não queria pressioná-lo. — Sabe, quando eu tinha sua idade, também lidava com gente como ele. Christopher me olhou de canto. — E o que você fazia? Sorri de lado. — Dava um jeito neles. Ele soltou um riso fraco. — Isso parece coisa que você faz paí. Meu sorriso sumiu um pouco. — É verdade. Ele ficou em silêncio. E eu sabia que ele queria perguntar. — Eu sei que você se pergunta por que eu nunca fui atrás de você antes. Christopher abaixou os olhos. Não negou. — E eu não tenho uma desculpa boa o suficiente. Ele mordeu o lábio. — Então, por que agora? Respirei fundo. — Porque eu percebi que não tinha mais tempo pra desperdiçar. Ele ficou encarando o próprio desenho. E, por mais que não dissesse nada, vi que aquelas palavras o afetaram. Não era um perdão imediato. Mas era um passo. E eu aceitaria cada passo que ele estivesse disposto a dar. Depois da conversa com Christopher, fiquei ali observando ele desenhar por mais alguns minutos. A cada traço que ele fazia, ficava mais evidente o talento que tinha. Ele puxou a mãe nisso. Quando finalmente me levantei para sair, percebi que ele parecia hesitante, como se quisesse dizer algo, mas não soubesse como. — Tudo bem? — perguntei, esperando que ele falasse. Ele desviou o olhar e balançou a cabeça. — Nada, não. Assenti, mas fiquei com aquilo na cabeça. O tempo todo, percebia que ele queria pedir alguma coisa, mas se segurava. Como se tivesse medo da resposta. Ou talvez, medo de parecer que estava pedindo demais. Eu precisava fazer algo sobre isso. No dia seguinte, durante o café da manhã, percebi Christopher quieto demais. Ele sempre foi reservado, mas hoje estava ainda mais contido. Anastácia também notou. — Você tá estranho — ela comentou, pegando uma torrada. Christopher mexeu no café, sem olhar para nós. — Só tô pensando em umas coisas. Me inclinei um pouco para frente. — Tipo o quê? Ele hesitou. Depois, respirou fundo. — Meu celular tá bem r**m. Levantei uma sobrancelha. Ele disse aquilo como se estivesse confessando um crime. — Quer um novo? — perguntei, direto. Ele deu de ombros. — Não precisa. Só falei porque… sei lá. Tá travando muito. Fiquei olhando para ele por um momento. Ele realmente não sabia como me pedir algo. O que significava que, antes, nunca se sentiu confortável para isso. E a culpa era minha. Me encostei na cadeira, pensativo. — O seu aniversário tá perto, né? Ele franziu o cenho. — Falta uns meses ainda. — Então, acho que pode ganhar o celular antes. Ele piscou, surpreso. — Sério? — Claro. Vamos hoje à noite escolher um. Christopher ficou em silêncio por um momento. E então, algo raro aconteceu. Ele sorriu. Pequeno, quase tímido, mas sincero. Anastácia me olhou, cúmplice, como se dissesse: Viu? Você está indo bem. Depois do café da manhã, segui para o escritório com um pensamento fixo na cabeça: meu filho não sabia pedir nada para mim. Era um detalhe pequeno, mas me incomodava de uma forma que eu não conseguia explicar. Christopher hesitou antes de falar sobre o celular como se estivesse pedindo um favor, como se não tivesse o direito. E eu sabia de onde vinha essa insegurança. Eu passei anos ausente. Agora, por mais que tentasse me aproximar, ele ainda não confiava o suficiente para simplesmente dizer o que queria. Isso precisava mudar. E eu estava determinado a fazer algo sobre isso. O dia no escritório foi uma bagunça. Assinei contratos, atendi ligações e participei de reuniões intermináveis. Mas, no meio de tudo isso, reservei um tempo para sair mais cedo. Porque hoje, Christopher e eu iríamos escolher o celular dele. E talvez esse fosse só um pequeno gesto, mas eu sabia que para ele significava mais do que apenas um presente. Significava que eu estava ouvindo. E isso era tudo o que importava. Cheguei em casa no começo da noite e encontrei Christopher no sofá com Anastácia. Ele olhou para mim, como se esperasse que eu tivesse esquecido da promessa. Mas eu não esqueci. — Vamos? — perguntei, pegando as chaves. Ele piscou algumas vezes antes de se levantar. — Agora? — Sim. Não era isso que você queria? — Era. Só achei que ia mudar de ideia. Aquilo me atingiu mais do que deveria. Mas não demonstrei. Apenas dei de ombros. — Eu nunca falo algo que não pretendo cumprir. Anastácia sorriu e piscou para Christopher. — Vai lá. Depois me mostra qual escolheu. Ele assentiu, ainda meio surpreso. Mas, no fundo, percebi que estava animado. E eu também. (...) Dirigimos até o shopping sem muita conversa. Christopher ainda parecia desconfiado, como se tentasse entender se isso realmente estava acontecendo. Quando entramos na loja, ele olhou para os celulares expostos, mas hesitou. — Escolhe um — incentivei. — Qualquer um? — Sim. Ele franziu a testa, desconfiado. — Você nunca disse isso antes. — E você nunca me pediu nada antes. Ele desviou o olhar e passou a mão na nuca. — Não queria parecer… sei lá. Suspirei. — Christopher, você não precisa ter medo de me pedir as coisas. Ele apertou os lábios, pensativo. Depois, apontou para um modelo. — Esse é legal. Era um dos mais caros. E eu não me importava nem um pouco. — Então é esse. Ele arregalou os olhos. — Tem certeza? — Sim. Agora escolhe a cor. Depois de alguns minutos, saímos da loja com a sacola na mão. E, pela primeira vez, vi Christopher empolgado ao meu lado.
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