Narrado por Christopher Junqueira
O dia começou melhor do que eu esperava.
Era raro eu dizer isso sobre um dia de escola, mas dessa vez tinha um motivo: eu finalmente estava começando a me enturmar.
Desde que entrei no colégio, sempre
preferi ficar sozinho. Parte porque nunca fui bom em me aproximar das pessoas, parte porque não queria me dar ao trabalho de me apegar a ninguém.
Mas, ultimamente, isso estava mudando.
E tudo começou com um simples “e aí” no corredor.
— Christopher, né? — um garoto mais ou menos da minha idade parou ao meu lado no intervalo. Ele tinha cabelo cacheado e olhos castanhos vivos. — Sou Caio.
Eu assenti, meio sem saber o que responder.
— Vi você desenhando na aula outro dia. Você é bom.
Isso me pegou de surpresa.
— Valeu.
Outro garoto apareceu ao lado dele. Era um pouco mais baixo, tinha cabelo escuro e um boné virado para trás.
— Esse cara aí é viciado em arte — Caio continuou, apontando para o amigo. — Fica vendo vídeos de desenho o dia inteiro.
— Diego — o outro se apresentou, me estendendo a mão.
Hesitei por um segundo, mas apertei.
E foi assim que, sem eu nem perceber direito, fiz duas amizades de verdade.
Os dias seguintes foram diferentes.
Passei a dividir o almoço com eles, a conversar mais durante as aulas, a me sentir… parte de algo.
Era uma sensação nova.
E eu gostava disso.
Mas, como tudo na minha vida, a felicidade nunca vinha sem um lembrete de que as coisas ainda não eram tão simples assim.
E esse lembrete veio no pior momento possível.
A escola estava organizando o evento do Dia dos Pais.
Uma manhã especial onde os alunos podiam trazer os pais para assistir a apresentações, participar de atividades e mostrar trabalhos.
O problema era que, no meu caso, eu sabia como isso ia terminar.
Desde que entrei na escola, nunca levei ninguém nesses eventos.
E Matheus, como sempre, percebeu isso antes mesmo de eu ter tempo de me preparar.
— Mais um ano sozinho, Junqueira? — a voz dele soou quando eu estava no pátio com Caio e Diego.
Ignorei.
Mas ele não parou.
— Deve ser triste não ter um pai de verdade pra te acompanhar nessas coisas.
Meu peito apertou.
Eu sabia que ele só queria me provocar.
Mas, droga, doía.
Caio franziu a testa.
— Qual é, cara, larga do pé dele.
— Tô só falando a verdade — Matheus riu. — Aposto que seu pai nem lembra desse evento.
A pior parte?
Eu também achava isso.
E era exatamente por isso que eu nunca dizia nada.
Porque, no fundo, eu tinha medo da resposta.
Matheus continuava ali, esperando que eu reagisse.
Caio e Diego me olharam, esperando que eu dissesse algo.
Mas eu apenas peguei minha mochila e saí andando, tentando não demonstrar o quanto aquelas palavras tinham me atingido.
Porque tinham.
E muito.
Passei o resto do dia com aquele peso no peito.
A cada vez que olhava para o cartaz do Dia dos Pais no corredor, sentia um nó no estômago.
Eu poderia contar para o meu pai sobre o evento.
Poderia perguntar se ele iria.
Mas, no fundo, uma voz insistente na minha cabeça dizia que ele provavelmente estaria ocupado.
E a última coisa que eu queria era ouvir isso da boca dele.
Então, fiz o que sempre fazia: engoli tudo sozinho.
Na saída, Caio e Diego me alcançaram no portão.
— Cara, por que você não respondeu aquele babaca? — Diego perguntou, parecendo irritado.
Dei de ombros.
— Pra quê? Só ia dar mais motivo pra ele encher o saco.
— Ele só tá provocando porque sabe que pega onde dói — Caio disse.
— E pega? — Diego questionou, direto.
Suspirei.
— Não importa.
— Claro que importa — Diego insistiu. — Seu pai é um cara importante, não é? Aposto que se você chamar, ele vem.
Ri sem humor.
— Você não conhece ele.
Eles trocaram olhares.
E então, Caio cruzou os braços.
— Então chama.
Franzi a testa.
— O quê?
— Chama ele — ele repetiu. — Se ele não vier, aí sim você tem um motivo pra achar que não se importa. Mas se não chamar, nunca vai saber.
Fiquei em silêncio, processando aquelas palavras.
E, pela primeira vez, considerei a possibilidade.
Talvez… talvez eles estivessem certos.
Talvez estivesse na hora de arriscar.
Mas e se a resposta fosse exatamente o que eu temia?
Esse era o medo.
E eu ainda não sabia se estava pronto para enfrentá-lo.
O jantar estava tranquilo.
Pelo menos, para Anastácia e meu pai.
Eu, por outro lado, sentia um peso no estômago desde que entrei em casa.
Caio e Diego tinham insistido que eu falasse sobre o Dia dos Pais.
E, por mais que eu tentasse ignorar o assunto, a verdade era que ele estava me consumindo.
Meu pai não era um cara fácil de lidar.
Ele estava tentando melhorar, eu via isso. Mas, ao mesmo tempo, ele ainda era o cara ocupado, cheio de compromissos, sempre com a cabeça no trabalho.
E era por isso que eu hesitava.
Se eu perguntasse e ele dissesse “não”, significaria que Matheus estava certo.
E eu não queria dar esse gostinho para ele.
Mas, ao mesmo tempo, uma parte de mim, uma parte que eu odiava admitir que existia, queria tentar.
Queria saber se, dessa vez, seria diferente.
Respirei fundo, tomando coragem, e larguei o garfo no prato.
— Pai.
Ele ergueu os olhos, parecendo surpreso por eu ter chamado.
— O quê?
— A escola vai fazer um evento do Dia dos Pais... — comecei, tentando soar indiferente. — Tipo, apresentações e essas coisas.
Ele assentiu, parecendo distraído.
— Sim.
Um silêncio se instalou na mesa.
Mas ele não perguntou mais nada.
E aquilo foi o suficiente para eu sentir um nó na garganta.
Eu sabia.
Eu já sabia a resposta antes mesmo de perguntar.
Mas, ainda assim, doía.
— Eu queria saber se… você pode ir — completei, forçando a voz a soar normal.
Ele suspirou e largou os talheres.
— Claro, quando vai ser?
— Sexta de manhã.
Vi quando a expressão dele mudou, como se tivesse lembrado de algo importante.
E então, veio o que eu temia:
— Christopher, eu tenho uma reunião importante nesse dia.
Meu peito apertou.
— Ah.
Ele continuou:
— É um contrato milionário. Se eu perder essa reunião, posso perder o negócio inteiro.
Eu assenti, rapidamente.
— Tudo bem.
— Não é que eu não queira ir, filho. Mas você entende, não entende?
Eu queria dizer que sim.
Queria dizer que estava tudo bem.
Mas a verdade?
A verdade era que, naquele momento, eu só queria desaparecer dali.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu odiei ter dado esperanças a mim mesmo.