Capítulo 11

948 Palavras
Narrado por Christian Junqueira Desde o jantar, algo em Christopher parecia… diferente. Ele sempre foi um garoto reservado, mas dessa vez, estava mais calado do que o normal. Por mais que tentasse esconder, vi no rosto dele o impacto da minha resposta. E isso me incomodou mais do que eu queria admitir. Eu não podia faltar naquela reunião. Era um contrato milionário, algo que poderia impulsionar minha empresa para um novo patamar. Mas, ao mesmo tempo, uma parte de mim não conseguia ignorar a expressão dele quando ouviu minha resposta. O problema era que, por tantos anos, eu fui um estranho na vida do meu próprio filho. Agora que tentava consertar as coisas, parecia que sempre errava em algo. E talvez, dessa vez, fosse um erro maior do que eu estava disposto a admitir. Na manhã seguinte, fui para a empresa com a mente ainda presa na conversa do jantar. Tentei me concentrar, mas era impossível. Em cada intervalo entre reuniões, pegava o celular, pensando em mandar uma mensagem para Christopher. Dizer que eu sentia muito. Que eu realmente queria ir. Mas nenhuma mensagem parecia suficiente. Então, me afoguei no trabalho. No final da tarde, Anastácia apareceu no meu escritório. Ela entrou sem pedir permissão, como sempre fazia. — Precisamos conversar. Suspirei e encostei na cadeira. — Sobre? — Christopher. Eu já sabia. — Ele está muito triste — ela continuou. — Não diz nada, mas eu vejo. Passei a mão no rosto, frustrado. — Eu não posso faltar nessa reunião, Anastácia. — Eu sei — ela suspirou. — Mas você também não pode continuar tratando seu filho como segunda opção. Principalmente se você está tentando construir o lado de pai e filho. Aquilo me atingiu como um soco. — Não é isso. — Então prova. — Como? Ela me olhou, séria. — Você é um dos homens mais inteligentes que eu conheço, Christian. Se realmente quiser, vai encontrar um jeito. Ela saiu do escritório, me deixando sozinho com meus pensamentos. E, pela primeira vez desde que essa conversa começou, comecei a me perguntar… E se ela tivesse razão? E se houvesse um jeito de fazer os dois acontecerem? Pela primeira vez, ao invés de descartar a ideia, comecei a pensar nela como uma possibilidade. Porque, no fim das contas, nada era mais importante do que meu filho. Fiquei por um tempo olhando para os contratos sobre a mesa. Documentos importantes, reuniões decisivas, negócios que movimentavam milhões. Mas, naquele momento, tudo isso parecia insignificante comparado à expressão de Christopher no jantar. Ele não pediu muito. Não exigiu nada. Só queria que eu estivesse lá. E eu falhei com ele tantas vezes que talvez essa fosse a última chance de provar que ele realmente importava para mim. Peguei o telefone e disquei o número do meu assistente. — Felipe, remarque a reunião de sexta-feira. Houve um silêncio do outro lado da linha. — Senhor, essa reunião é com investidores internacionais. Mudar a data pode… — Ache outra data. — Minha voz saiu firme. — Prioridade máxima. Ouvi o suspiro resignado dele antes de responder: — Certo, senhor. Vou ver o que posso fazer. Quando desliguei, senti algo diferente. Era como se, pela primeira vez em muito tempo, eu estivesse tomando a decisão certa. Mas não contei nada para Christopher. Não queria criar expectativas. Queria que ele soubesse que, dessa vez, seria diferente sem que precisasse me pedir duas vezes. Eu estaria lá. E nada mudaria isso. Os dias passaram e Christopher continuou agindo da mesma forma. Reservado, como sempre. Mas eu percebia os olhares discretos que ele lançava para mim durante o jantar, como se quisesse perguntar algo, mas desistisse no último segundo. Anastácia também percebeu. Ela não disse nada, mas a expressão dela cada vez que olhava para nós dois era clara: ela sabia que eu tinha mudado de ideia. E aprovava minha decisão. Na noite anterior ao evento, cruzei com Christopher no corredor. Ele segurava o celular e parecia distraído, mas quando me viu, hesitou. Era como se quisesse falar algo, mas não soubesse como. — Boa noite, pai — disse, simplesmente. Engoli em seco. Aquilo ainda era novo. Mas me agradava mais do que eu admitiria em voz alta. — Boa noite, filho. Ele assentiu e entrou no quarto. E eu fiquei ali, por um momento, sentindo um peso diferente no peito. Dessa vez, eu não o decepcionaria. Na manhã do evento, me vesti como se fosse para uma reunião importante. Porque, para mim, agora era. Quando Christopher desceu para o café, vi que estava mais quieto que o normal. Provavelmente já tinha aceitado a ideia de ir sozinho. E ver isso me fez perceber o quanto eu precisava mudar. Eu queria que ele soubesse que nunca mais precisaria esperar sozinho. Ele me olhou rapidamente, mas não disse nada. E eu também não. A surpresa viria na hora certa. Quando chegamos na escola, Christopher andava devagar, como se não quisesse chegar logo. Vi os outros alunos animados, alguns chamando pelos pais, alguns correndo em direção a eles. Mas Christopher? Ele parecia se preparar para mais um ano sozinho. Até que ele se virou para se despedir de mim. — Até mais, pai. Mas eu não fui embora. Cruzei os braços e encarei o pátio cheio de pais e filhos. — Onde fica esse evento, mesmo? Christopher franziu a testa. — O quê? Sorri de leve. — Você não achou que eu ia perder, achou? Por um instante, ele só me encarou. E então, algo mudou na expressão dele. Algo que eu nunca tinha visto antes. Alívio. Felicidade. Esperança. Ele não disse nada. Mas, pela primeira vez, não precisou. O brilho nos olhos dele já dizia tudo.
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