Narrado por Christopher Junqueira
Nos últimos dias, algo mudou.
Não de forma drástica, como se um interruptor tivesse sido ligado, mas de um jeito sutil.
Meu pai e eu estávamos nos entendendo melhor.
As conversas não eram mais tão estranhas.
Os silêncios não eram mais tão desconfortáveis.
Foi por isso que, naquela manhã, enquanto tomávamos café juntos, resolvi arriscar.
— Pai, posso ir com você para a empresa hoje?
Ele ergueu os olhos da xícara de café, claramente surpreso.
— Para a empresa?
— É. Quero ver como é lá.
Ele pareceu ponderar por um momento, depois olhou para Anastácia, como se buscasse uma segunda opinião.
Ela apenas sorriu.
— Acho uma ótima ideia.
Ele voltou o olhar para mim.
— Tem certeza de que quer passar o dia todo lá?
Assenti.
— Quero ver como é seu trabalho.
Ele respirou fundo e deu de ombros.
— Tudo bem. Mas se ficar entediado, a culpa não é minha.
Sorri um pouco.
— Combinado.
A ida até a empresa foi tranquila.
Pela primeira vez, fomos conversando no carro.
Meu pai explicou algumas coisas sobre o que ele fazia, sobre as responsabilidades e sobre como algumas reuniões eram “insuportáveis” — palavras dele.
Quando chegamos, fiquei impressionado.
O prédio era enorme, moderno, cheio de gente bem vestida indo de um lado para o outro.
— Parece coisa de filme — murmurei.
Meu pai soltou um riso fraco.
— E você vai ver que, na prática, é menos glamouroso do que parece.
Entramos, e algumas pessoas me lançaram olhares curiosos.
Acho que não estavam acostumadas a me ver ali.
Mas ninguém perguntou nada.
Subimos para o andar da diretoria, e logo estávamos no escritório dele.
Era espaçoso, com janelas enormes e uma vista incrível da cidade.
— Uau.
Ele sorriu de canto.
— Quer dar uma volta ou prefere ficar aqui?
— Posso te acompanhar nas reuniões?
Ele arqueou a sobrancelha.
— Tem certeza?
— Sim.
Ele deu de ombros.
— Então vamos ver quanto tempo você aguenta sem dormir.
(...)
As reuniões não eram tão chatas quanto eu esperava.
Na verdade, achei interessante ver como meu pai lidava com as pessoas.
Ele era firme, direto, e ninguém ousava desafiá-lo.
Foi aí que percebi que, no trabalho, ele era diferente.
Mais confiante.
Mais no controle.
E eu acabei sentindo orgulho dele.
No meio da tarde, enquanto ele revisava alguns contratos, soltei:
— Você é bom nisso, sabia?
Ele ergueu os olhos, surpreso.
— No que exatamente?
— No que faz. Dirigir tudo isso.
Ele ficou em silêncio por um momento e então sorriu de leve.
— Obrigado, Pequeno Lobo.
Sorri de volta.
— De nada, pai.
No começo, ficar no escritório do meu pai parecia uma ideia incrível.
Mas depois de algumas horas assistindo ele revisar contratos e digitar no computador, comecei a me perguntar como alguém conseguia viver assim todos os dias.
O ambiente era bonito, elegante, mas também muito sério.
Eu já tinha assistido a duas reuniões e, para ser sincero, já estava me sentindo cansado.
Então, resolvi arriscar.
— Pai, posso dar uma volta?
Ele ergueu os olhos dos papéis e me olhou com curiosidade.
— Já cansou da experiência corporativa?
— Digamos que eu esperava algo mais… emocionante.
Ele soltou um riso fraco e recostou-se na cadeira.
— Tudo bem. Mas nada de encrenca, entendeu?
— Pode deixar.
Ele me observou por mais um segundo antes de assentir.
— Se precisar de algo, peça para a minha assistente.
— Beleza.
E assim, saí do escritório, finalmente livre para explorar o lugar.
Andar pelos corredores da empresa foi interessante.
Vi muitas pessoas ocupadas, atendendo ligações, digitando em computadores e carregando pastas de um lado para o outro.
Algumas me olharam curiosas, provavelmente tentando entender quem eu era.
Outras simplesmente ignoraram minha presença.
O prédio era enorme, e logo percebi que andar sem rumo talvez não fosse a melhor ideia.
Foi então que notei uma placa indicando “Setor de Criação”.
Isso chamou minha atenção.
Fui até lá, curioso para ver o que encontraria.
O ambiente no Setor de Criação era diferente do resto da empresa.
Ao contrário dos escritórios sérios e silenciosos que eu tinha visto, ali tudo parecia mais… vivo.
Havia pranchetas, telas de computador com designs e até algumas pessoas desenhando à mão.
Para alguém que adorava desenhar, aquele lugar parecia o melhor da empresa.
Caminhei devagar, observando o trabalho das pessoas.
Foi então que uma mulher de cabelo curto e óculos me notou.
— Oi. Você precisa de alguma coisa?
— Ah… — cocei a nuca, sem saber bem o que dizer. — Na verdade, só estou explorando a empresa.
Ela franziu a testa e depois arregalou os olhos.
— Espera… Você é o filho do senhor Junqueira?
— É… sou eu.
Ela sorriu.
— Prazer, sou Ruby. Trabalho na parte de design de produtos.
— Design de produtos?
Ela apontou para um computador.
— Sim, criamos a identidade visual das campanhas e até rascunhamos novos projetos.
Olhei para a tela.
Era um programa de design com alguns esboços abertos.
Algo dentro de mim ficou animado.
— Vocês desenham?
— Sim! Eu, por exemplo, faço os primeiros esboços antes de passarmos para o design digital.
Fiquei olhando, interessado.
— Eu também desenho.
Ela sorriu.
— Sério? Que tipo de coisa você desenha?
— Coisas aleatórias. Pessoas, cenários… Mas nunca fiz nada profissional.
Ela pareceu curiosa.
— Você quer tentar?
Meus olhos brilharam.
— Posso?
— Claro! Vou te arranjar um papel e lápis.
Quando percebi, já estava sentado em uma mesa, completamente envolvido em um desenho.
Esqueci do tempo, das reuniões do meu pai, de tudo.
Ruby e algumas outras pessoas passaram para ver meu trabalho e até comentaram que eu tinha talento.
— Você tem um ótimo traço — Ela me elogiou.
Sorri, satisfeito.
Nunca imaginei que uma visita à empresa pudesse fazer minha confiança com desenhos aumentar.
Mas ali estava eu, no Setor de Criação, me sentindo mais à vontade do que em qualquer outro lugar do prédio.
A hora do almoço chegou rápido.
Eu estava tão envolvido que só percebi quando meu pai apareceu na porta.
— Pequeno Lobo — sua voz ressoou no ambiente.
Olhei para cima, surpreso.
Ruby e os outros funcionários ficaram tensos por um segundo, como se não soubessem como reagir à presença dele.
Mas ele apenas cruzou os braços e olhou para mim.
— Então foi aqui que você veio parar?
Sorri sem jeito.
— Sim. Você sabia que tinha uma área de design aqui?
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Sim, afinal, eu sou dono da empresa.
Revirei os olhos.
— Mas você já veio aqui alguma vez?
Ele hesitou.
— Não com frequência.
Ruby aproveitou para se manifestar.
— Seu filho tem talento para desenho, senhor Junqueira.
Meu pai olhou para o desenho que eu fiz.
Seus olhos percorreram os traços por alguns segundos antes de levantar a cabeça para me encarar.
— Parece bom.
Sorri um pouco.
Ele não era do tipo que elogiava muito, então aquele “parece bom” significava muito.
Ele respirou fundo e apontou com a cabeça para o corredor.
— Vamos almoçar.
Levantei-me e me despedi de Ruby e dos outros.
Saímos juntos do setor e, quando entramos no elevador, ele me olhou de lado.
— Gostou da experiência?
Assenti.
— Gostei.
Ele ficou em silêncio por um momento e depois disse algo que me pegou de surpresa.
— Se quiser, pode voltar sempre que quiser.
Arregalei os olhos.
— Sério?
Ele deu de ombros.
— Se você gostou, por que não?
Sorri.
Talvez aquele dia tivesse sido melhor do que eu imaginava.