Capítulo 14

1404 Palavras
Narrado por Christopher Junqueira Depois do almoço, voltamos para a empresa. Pela primeira vez, senti que aquele lugar não era só do meu pai, mas que talvez eu pudesse fazer parte daquilo também. Gostei de passar o tempo no Setor de Criação, e meu pai… bom, ele não reclamou, o que já era um avanço. Mas a paz daquele dia durou pouco. Quando saí do elevador, distraído, esbarrei em alguém. O impacto foi forte o suficiente para me fazer cambalear para trás. Levantei o olhar e vi um homem alto, de terno impecável e um sorriso cínico no rosto. — Ora, ora… quem temos aqui? Meu corpo enrijeceu. Eu já tinha ouvido falar dele. Rodolfo. O sócio i****a do meu pai. Ele me olhou de cima a baixo, com um olhar carregado de desprezo. — Então você é o garoto prodígio agora? — zombou, cruzando os braços. — Querendo seguir os passos do papai? Fiquei em silêncio, tentando ignorar, mas ele continuou. — Engraçado… pensei que você fosse apenas mais um erro da juventude do Christian. Aquilo me atingiu como um soco no estômago. Antes que eu pudesse responder, ouvi uma voz firme e carregada de raiva atrás de mim. — O que você acabou de dizer? O ar na sala pareceu ficar pesado. Meu pai estava ali. E, pela expressão dele, Rodolfo estava prestes a se arrepender do que tinha falado. Meu pai se aproximou devagar, os olhos frios como eu nunca tinha visto antes. Rodolfo, que até segundos atrás estava cheio de confiança, engoliu em seco. — Christian, eu só estava brincando… — Brincando? — a voz do meu pai era perigosa. — Você acha engraçado atacar o meu filho? Rodolfo ergueu as mãos em sinal de rendição. — Não precisa exagerar. Foi só um comentário… Mas ele não conseguiu terminar a frase. O som seco do impacto ecoou pelo corredor quando meu pai acertou um soco direto no rosto dele. Foi tão rápido que quase não consegui processar. Rodolfo cambaleou para trás, levando a mão ao rosto, os olhos arregalados de choque. — Você é louco?! Meu pai apenas ficou ali, respirando pesado, os punhos cerrados. — Da próxima vez que abrir a boca para falar do meu filho, eu não vou me segurar. O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor. Rodolfo olhou ao redor, percebendo que algumas pessoas tinham parado para assistir. Com o orgulho ferido, ele apenas apertou os lábios e saiu dali às pressas, sem olhar para trás. Eu ainda estava imóvel, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Meu pai olhou para mim, e eu vi algo diferente em seu olhar. — Está tudo bem, Pequeno Lobo? Engoli em seco e assenti. — Sim… Ele suspirou, esfregando a mão que tinha acertado o soco. — Ótimo. Porque agora eu preciso de gelo. A tensão no meu peito se desfez um pouco, e um pequeno sorriso escapou. Ele tinha me defendido. E eu senti mais uma vez que realmente importava para ele. Meu pai… me defendeu. Ainda era difícil acreditar no que tinha acontecido. Durante tanto tempo, eu imaginei que ele me via apenas como uma responsabilidade, um peso na vida dele. Mas agora, vendo ele ali, com a mão vermelha depois de socar Rodolfo, algo dentro de mim mudou. E o que ele fez para está no evento do dia dos pais. — Você está bem? — perguntei, olhando para a mão dele. Ele bufou e deu de ombros. — Vou sobreviver. Olhei ao redor. Algumas pessoas ainda estavam chocadas com a cena, sussurrando umas para as outras. Meu pai ignorou todos e virou-se para mim. — Vem comigo. Assenti e o segui. Chegamos ao escritório dele e, sem dizer nada, ele abriu um pequeno frigobar, pegou um saquinho de gelo e pressionou contra a própria mão. Ele se jogou na cadeira, fechando os olhos por um momento. Fiquei de pé, sem saber o que dizer. Nunca vi meu pai daquele jeito. Depois de alguns segundos, ele quebrou o silêncio. — Aquele cara é um i****a. — Eu percebi — murmurei. Ele abriu um olho e me olhou de canto, e então soltou um suspiro. — O que exatamente ele te disse? Cruzei os braços e dei de ombros. — Coisas sobre eu ser um erro. O maxilar do meu pai enrijeceu. — Filho da… Ele fechou os olhos e respirou fundo, tentando se acalmar. — Olha, Christopher, tem muita gente que vai falar besteira sem saber de nada. Mas você não precisa dar ouvidos a eles. — Eu sei. Ele ficou me observando por um momento e depois encostou as costas na cadeira. — Só para ficar claro… você não é um erro. Engoli em seco. Aquelas palavras significavam mais do que ele imaginava. Desviei o olhar, sentindo meu peito apertar. — Obrigado. O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Dessa vez, parecia apenas… certo. Como se estivéssemos entendendo um ao outro pela primeira vez. Depois de um tempo, ele voltou ao trabalho. Eu poderia ter ido para casa, mas decidi ficar. Não porque precisava, mas porque queria. Fiquei no Setor de Criação mais um tempo, conversando com Ruby e aprendendo mais sobre os processos. Ela até me mostrou alguns programas de edição digital, e aquilo despertou um novo interesse em mim. Talvez eu tivesse um lugar ali, afinal. No fim do expediente, voltei para o escritório do meu pai. Ele estava revisando alguns documentos, com cara de cansado. — Está na hora de ir? — perguntei. Ele levantou o olhar e olhou o relógio. — Sim. Pegou o paletó e levantou-se. Quando saímos, algumas pessoas ainda nos observavam, principalmente por causa do que tinha acontecido com Rodolfo. Mas meu pai não parecia se importar. Ele apenas seguiu em frente, comigo ao lado dele. O caminho para casa foi diferente daquela manhã. Dessa vez, eu não fiquei apenas olhando a paisagem pela janela do carro. Eu queria falar, contar o que tinha acontecido. Mas meu pai não era do tipo que gostava de conversas longas, então me segurei. Ainda assim, a sensação era incrível. Ele me defendeu. Não hesitou, não pensou duas vezes. Ele me protegeu. E agora, eu m*l podia esperar para contar para Anastácia. Assim que chegamos em casa, Anastácia veio nos receber. Ela parecia feliz em nos ver, como sempre, mas seu olhar logo foi direto para meu pai. — O que aconteceu com a sua mão? — ela perguntou, preocupada. Meu pai apenas resmungou e caminhou para o sofá. — Nada demais. Eu, por outro lado, estava explodindo por dentro e não conseguia segurar o sorriso. — Ele socou um cara hoje! Os olhos de Anastácia se arregalaram. — O quê?! — Sim! Você precisava ver! Joguei minha mochila no chão e fui para o sofá, sentando ao lado do meu pai. — Rodolfo, aquele sócio i****a, começou a falar besteira para mim, e antes que eu pudesse responder, o meu pai já tinha dado um soco na cara dele! Os olhos de Anastácia se voltaram para Christian, completamente chocada. — Christian… é sério? Ele suspirou e massageou as têmporas. — Ele mereceu. — E você vai ter problemas por isso? — Não ligo. Anastácia cruzou os braços, mas um pequeno sorriso apareceu no canto dos lábios dela. — Bem… acho que ele realmente mereceu, então não vou brigar com você. Virei-me para ela, ainda empolgado. — Você precisava ver, Anastácia! Foi incrível! Ela riu, sentando-se na poltrona. — Nunca imaginei que veria Christian Junqueira defendendo alguém com um soco. — Eu também não! Meu pai soltou um resmungo. — Vocês dois já terminaram de fazer isso parecer um grande evento? Anastácia sorriu. — Ah, amor, deixa o Christopher curtir o momento. Você é um herói agora. Ele revirou os olhos, mas não disse mais nada. Eu podia jurar que ele estava segurando um sorriso. Depois do jantar, fiquei um tempo na sala conversando com Anastácia. Meu pai foi para o escritório dele, provavelmente revisar mais contratos. — Ele realmente está mudando, né? — murmurei. Anastácia sorriu de leve. — Eu disse que ele ia mudar. Cruzei os braços. — Ainda parece estranho. — Por quê? Suspirei. — Sei lá… eu passei tanto tempo pensando que ele não se importava. Que eu era só uma obrigação pra ele. Ela me olhou com carinho e estendeu a mão para bagunçar meu cabelo. — Ele demorou, mas está tentando. Assenti, concordando.
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