Bebê

1461 Palavras
Milena narrando. Acordo e me arrumo para trabalhar, pego minhas coisas e vou ao apartamento da Bruna tomar café: — Bom dia! — digo animada. — O que você quer? — Bruna, com seu lindo bom humor matinal, responde. — Tomar café e saber o resultado do teste de gravidez — digo entrando, mesmo sem ser convidada. Ela coça os olhos. — Fala baixo, o Gabriel ainda está dormindo. Eu fiz, mas não consegui olhar o resultado. — Tá, me entrega que eu olho. Ela diz que está no banheiro de visitas, e eu vou até lá. Os dois testes estão positivos. Dou pulinhos de alegria e gritinhos, saio do banheiro e pulo em Bruna, abraçando-a e beijando sua barriga várias vezes: — Oi, bebê da dinda, tudo bem? A dinda te ama muito — digo fazendo carinho na barriga ainda sem relevo, e Bruna paralisa. — O quê? — ela pergunta. — Os dois deram positivo. — Ferrou. O louco vai querer casar essa semana, morar junto... Eu tinha conseguido driblar ele. — Mas você quer, eu sei — digo, lembrando das traumatizantes noites que passei escutando o barulho deles. — Sim. Vamos tomar café. Vou fazer uma surpresa pra ele. — Posso participar ou vocês vão t*****r depois? — Pode participar. — Do sexo? Eca, Bruna, não sou pervertida igual você — digo brincando, e ela gargalha. — Da surpresa, sua b***a. A gente espera você sair pra começar a festa — ela mexe as sobrancelhas insinuando, e eu faço uma careta de nojo. — Tudo bem, vamos comer, porque tem mais uma pessoa aqui, e ele ou ela tem que estar bem. A dinda do piolho tem que ir para o hospital. — Vou fazer torradas e ovos. — Amiga — digo, pensando. — Diga. — Estou pensando em pegar férias e viajar. — Pra onde? — Algum lugar calmo. — Tipo? — ela me olha enquanto quebra os ovos. — Sei lá, praia ou interior — penso que uma chácara ou algo assim seria bem legal. — Sozinha? Assim não tem graça. — Eu até pediria para você ir, mas não quero ouvir você e o Gabe se pegando. — Ai, para! Nem sou escandalosa. — É, eu nem escuto vocês de madrugada... Vocês precisam de isolamento acústico. — Quando eu contar pra ele a novidade, capaz dele querer mudar hoje. Ele é muito ansioso e inseguro. — Inseguro? — pergunto, sem entender. — Sim, ele tem medo de me perder. Às vezes é absurdo o ciúme que ele tem de sócios ou qualquer funcionário da empresa. — Pelo tamanho e jeito dele, achei que não fosse assim. — Pelo contrário. Por isso eu surto. Ele literalmente bateu em um cara só porque segurou o elevador para mim. — Ele é doido, né? — A família dele é pior. Incrivelmente, ele é o amigo "normal" — ela fala tirando os pães da torradeira, e eu faço o sinal da cruz em mim, me protegendo do m*l dos ciumentos. — Deus me livre alguém assim, amiga. — Deus me livre, mas o Damon tá doido pra amarrar o burrinho dele em você. — Hã? — pergunto, sem entender, e ela só ri, me dando meu prato. — Não tem nada para beber aqui? Um café, suco? — Fica à vontade para fazer, amiga. Sinta-se em casa — ela responde, e eu resmungo procurando o pó de café. — Amor! — me viro na direção do Gabe e grito fechando os olhos — p**a merda, Milena! O que você tá fazendo aqui? Me abaixo no chão para não correr o risco de ver mais nada: — Eu vim tomar café, seus ingratos! — Bom dia, meu amor. Vai se vestir que fiz nosso café — Bruna diz, e quando ouço o barulho dos beijos, faço um som de ânsia só para lembrar que ainda estou ali. — Levanta, amiga, ele foi para o quarto — Bruna fala, e eu me ergo. — Você sabe que isso me deixou traumatizada, né? Eu, que já transava pouco, vou ter que ir à psicóloga. É igual ver o p***o de um irmão, Bruna! — falo indignada, e ela ri. — Larga de exagero, amiga. Você já me viu pelada várias vezes. — Viu? — Gabriel chega na cozinha, e eu nem olho para ele de vergonha. — Milena, tem certeza que você é hétero, né? Não quis ficar com a minha mulher? — Sou sapatão, Gabriel. Antes de você, eu e ela éramos um casal acredita? MEu maior arrependimento de vida foi deixar vocÊ conquistar essa mulher, ela é o amor da minha vida — falo irônica, e Bruna ri. Sirvo café para mim e bebo calmamente, percebendo que me meti em uma casa de loucos. Gabriel me olha com raiva, e eu seguro o riso. — Amor, se acalma, é brincadeira, Milena é mesmo o amor da minha vida, mas como melhor amiga, nunca seria romanticamente falando — Bruna fala rindo ainda, e Gabriel semicerrando os olhos para mim. — Ela ainda será minha, um dia, eu tenho fé — digo, provocando, e ele fecha as mãos em punho. — Sorte sua que você é mulher, e eu nunca bateria em uma, mas não me irrita Milena, eu sempre gostei muito da amizade de vocês duas, mas não me faça perder a confiança com brincadeiras bobas e infantis. — ele fala bravo, e eu me sento na banqueta para comer, ele está certo, fui infantil. — Também gosto de você, maninho, mesmo vocês me traumatizando toda vez que venho aqui, peço desculpas por brincade além do ponto, mas eu realmente amo minha amiga, e amo ver o quão bem você faz à ela — ele revira os olhos e pega o celular. — Muito bem vocês dois, fico imensamente feliz de os ver se dando bem, sendo coleguinhas legais um com o outro, de verdade falando, agora, quer carona para o trabalho, amiga? — Bruna pergunta, e quando vou aceitar, Gabriel arregala os olhos. — Na verdade, estamos de folga hoje. Foi m*l, Milena — ele fala, e Bruna o olha, achando suspeito. — Tudo bem, gente. Tenho que ir, e vejo vocês à noite — digo, olhando cúmplice para Bruna. — Umas 19h, esteja aqui, tá bom? — Ok. Pego o elevador com as mãos ainda trêmulas e, quando as portas se abrem, sinto o ar quente do saguão me envolver. Caminho rápido até a calçada, chamo um Uber e fico esperando, tentando controlar aquela ansiedade que insiste em apertar meu peito. Quando o carro finalmente aparece, entro apressada. A corrida segue por alguns minutos, até que uma fila interminável de carros nos impede de avançar. O motorista murmura algo sobre um trânsito incomum, e minha impaciência só cresce. — Pode me deixar aqui mesmo — peço, pagando e descendo. O ar da rua parece mais pesado do que o normal. Sigo o caminho a pé, acelerando o passo. Quando começo a atravessar a rua, um ruído forte me faz virar de repente. Um carro avança como um míssil desgovernado, muito mais rápido do que deveria. Meu coração dispara. Corro para o outro lado da calçada, tropeçando no susto, com a respiração descompassada. Tento me recompor, respiro fundo… mas não dá tempo. As portas daquele carro se abrem num estalo seco, e três pessoas vestidas de preto, máscara no rosto, saem em minha direção com passos firmes, calculados. Meu corpo reage antes mesmo da minha mente: eu corro. Corro como se a rua inteira estivesse desabando atrás de mim. Mas mãos fortes agarram meu braço, me puxam para trás. Eu grito, um grito que arranha minha garganta, e vejo, por uma fração de segundo, uma senhora e um policial virando a esquina e correndo na minha direção. — SOCORR—! Não termino. Algo úmido, um pano áspero, cobre minha boca e meu nariz. O cheiro forte invade meus pulmões, queimando, entorpecendo. Eu tento chutar, me debato com todas as forças que ainda encontro. Minhas unhas arranham, minhas pernas se movem descontroladas… mas tudo começa a ficar lento, distante, como se eu estivesse afundando dentro de mim mesma. Sinto braços me levantando do chão, me jogando contra um corpo quente e firme. Alguém me segura no colo com força, como se eu fosse apenas um peso morto. O som da rua, das pessoas, dos carros, tudo vai desaparecendo aos poucos, engolido por um silêncio pesado e invasivo. Minhas forças acabam. Minha visão escurece. E a última coisa que percebo é que ainda estou no colo de alguém — alguém que respira fundo, como se não estivesse com pressa alguma de me soltar. — Deu tudo certo, meu amor. Apago completamente após ouvir isso, a fala mais assustadora da minha vida.
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