Milena narrando.
Acordo e me arrumo para trabalhar, pego minhas coisas e vou ao apartamento da Bruna tomar café:
— Bom dia! — digo animada.
— O que você quer? — Bruna, com seu lindo bom humor matinal, responde.
— Tomar café e saber o resultado do teste de gravidez — digo entrando, mesmo sem ser convidada. Ela coça os olhos.
— Fala baixo, o Gabriel ainda está dormindo. Eu fiz, mas não consegui olhar o resultado.
— Tá, me entrega que eu olho.
Ela diz que está no banheiro de visitas, e eu vou até lá. Os dois testes estão positivos. Dou pulinhos de alegria e gritinhos, saio do
banheiro e pulo em Bruna, abraçando-a e beijando sua barriga várias vezes:
— Oi, bebê da dinda, tudo bem? A dinda te ama muito — digo fazendo carinho na barriga ainda sem relevo, e Bruna paralisa.
— O quê? — ela pergunta.
— Os dois deram positivo.
— Ferrou. O louco vai querer casar essa semana, morar junto... Eu tinha conseguido driblar ele.
— Mas você quer, eu sei — digo, lembrando das traumatizantes noites que passei escutando o barulho deles.
— Sim. Vamos tomar café. Vou fazer uma surpresa pra ele.
— Posso participar ou vocês vão t*****r depois?
— Pode participar.
— Do sexo? Eca, Bruna, não sou pervertida igual você — digo brincando, e ela gargalha.
— Da surpresa, sua b***a. A gente espera você sair pra começar a festa — ela mexe as sobrancelhas insinuando, e eu faço uma careta
de nojo.
— Tudo bem, vamos comer, porque tem mais uma pessoa aqui, e ele ou ela tem que estar bem. A dinda do piolho tem que ir para o
hospital.
— Vou fazer torradas e ovos.
— Amiga — digo, pensando.
— Diga.
— Estou pensando em pegar férias e viajar.
— Pra onde?
— Algum lugar calmo.
— Tipo? — ela me olha enquanto quebra os ovos.
— Sei lá, praia ou interior — penso que uma chácara ou algo assim seria bem legal.
— Sozinha? Assim não tem graça.
— Eu até pediria para você ir, mas não quero ouvir você e o Gabe se pegando.
— Ai, para! Nem sou escandalosa.
— É, eu nem escuto vocês de madrugada... Vocês precisam de isolamento acústico.
— Quando eu contar pra ele a novidade, capaz dele querer mudar hoje. Ele é muito ansioso e inseguro.
— Inseguro? — pergunto, sem entender.
— Sim, ele tem medo de me perder. Às vezes é absurdo o ciúme que ele tem de sócios ou qualquer funcionário da empresa.
— Pelo tamanho e jeito dele, achei que não fosse assim.
— Pelo contrário. Por isso eu surto. Ele literalmente bateu em um cara só porque segurou o elevador para mim.
— Ele é doido, né?
— A família dele é pior. Incrivelmente, ele é o amigo "normal" — ela fala tirando os pães da torradeira, e eu faço o sinal da cruz em
mim, me protegendo do m*l dos ciumentos.
— Deus me livre alguém assim, amiga.
— Deus me livre, mas o Damon tá doido pra amarrar o burrinho dele em você.
— Hã? — pergunto, sem entender, e ela só ri, me dando meu prato.
— Não tem nada para beber aqui? Um café, suco?
— Fica à vontade para fazer, amiga. Sinta-se em casa — ela responde, e eu resmungo procurando o pó de café.
— Amor! — me viro na direção do Gabe e grito fechando os olhos — p**a merda, Milena! O que você tá fazendo aqui?
Me abaixo no chão para não correr o risco de ver mais nada:
— Eu vim tomar café, seus ingratos!
— Bom dia, meu amor. Vai se vestir que fiz nosso café — Bruna diz, e quando ouço o barulho dos beijos, faço um som de ânsia só
para lembrar que ainda estou ali.
— Levanta, amiga, ele foi para o quarto — Bruna fala, e eu me ergo.
— Você sabe que isso me deixou traumatizada, né? Eu, que já transava pouco, vou ter que ir à psicóloga. É igual ver o p***o de um
irmão, Bruna! — falo indignada, e ela ri.
— Larga de exagero, amiga. Você já me viu pelada várias vezes.
— Viu? — Gabriel chega na cozinha, e eu nem olho para ele de vergonha. — Milena, tem certeza que você é hétero, né? Não quis
ficar com a minha mulher?
— Sou sapatão, Gabriel. Antes de você, eu e ela éramos um casal acredita? MEu maior arrependimento de vida foi deixar vocÊ conquistar essa mulher, ela é o amor da minha vida — falo irônica, e Bruna ri.
Sirvo café para mim e bebo calmamente, percebendo que me meti em uma casa de loucos. Gabriel me olha com raiva, e eu seguro o
riso.
— Amor, se acalma, é brincadeira, Milena é mesmo o amor da minha vida, mas como melhor amiga, nunca seria romanticamente falando — Bruna fala rindo ainda, e Gabriel semicerrando os olhos para mim.
— Ela ainda será minha, um dia, eu tenho fé — digo, provocando, e ele fecha as mãos em punho.
— Sorte sua que você é mulher, e eu nunca bateria em uma, mas não me irrita Milena, eu sempre gostei muito da amizade de vocês duas, mas não me faça perder a confiança com brincadeiras bobas e infantis. — ele fala bravo, e eu me sento na banqueta para comer, ele está certo, fui infantil.
— Também gosto de você, maninho, mesmo vocês me traumatizando toda vez que venho aqui, peço desculpas por brincade além do ponto, mas eu realmente amo minha amiga, e amo ver o quão bem você faz à ela — ele revira os olhos e pega o celular.
— Muito bem vocês dois, fico imensamente feliz de os ver se dando bem, sendo coleguinhas legais um com o outro, de verdade falando, agora, quer carona para o trabalho, amiga? — Bruna pergunta, e quando vou aceitar, Gabriel arregala os olhos.
— Na verdade, estamos de folga hoje. Foi m*l, Milena — ele fala, e Bruna o olha, achando suspeito.
— Tudo bem, gente. Tenho que ir, e vejo vocês à noite — digo, olhando cúmplice para Bruna.
— Umas 19h, esteja aqui, tá bom?
— Ok.
Pego o elevador com as mãos ainda trêmulas e, quando as portas se abrem, sinto o ar quente do saguão me envolver. Caminho rápido até a calçada, chamo um Uber e fico esperando, tentando controlar aquela ansiedade que insiste em apertar meu peito.
Quando o carro finalmente aparece, entro apressada. A corrida segue por alguns minutos, até que uma fila interminável de carros nos impede de avançar. O motorista murmura algo sobre um trânsito incomum, e minha impaciência só cresce.
— Pode me deixar aqui mesmo — peço, pagando e descendo.
O ar da rua parece mais pesado do que o normal. Sigo o caminho a pé, acelerando o passo. Quando começo a atravessar a rua, um
ruído forte me faz virar de repente. Um carro avança como um míssil desgovernado, muito mais rápido do que deveria. Meu coração
dispara. Corro para o outro lado da calçada, tropeçando no susto, com a respiração descompassada.
Tento me recompor, respiro fundo… mas não dá tempo. As portas daquele carro se abrem num estalo seco, e três pessoas vestidas de
preto, máscara no rosto, saem em minha direção com passos firmes, calculados.
Meu corpo reage antes mesmo da minha mente: eu corro.
Corro como se a rua inteira estivesse desabando atrás de mim. Mas mãos fortes agarram meu braço, me puxam para trás. Eu grito,
um grito que arranha minha garganta, e vejo, por uma fração de segundo, uma senhora e um policial virando a esquina e correndo na
minha direção.
— SOCORR—!
Não termino. Algo úmido, um pano áspero, cobre minha boca e meu nariz. O cheiro forte invade meus pulmões, queimando, entorpecendo. Eu tento chutar, me debato com todas as forças que ainda encontro. Minhas unhas arranham, minhas pernas se movem descontroladas… mas tudo começa a ficar lento, distante, como se eu estivesse afundando dentro de mim mesma.
Sinto braços me levantando do chão, me jogando contra um corpo quente e firme. Alguém me segura no colo com força, como se eu fosse apenas um peso morto. O som da rua, das pessoas, dos carros, tudo vai desaparecendo aos poucos, engolido por um silêncio pesado e invasivo.
Minhas forças acabam. Minha visão escurece.
E a última coisa que percebo é que ainda estou no colo de alguém — alguém que respira fundo, como se não estivesse com pressa
alguma de me soltar.
— Deu tudo certo, meu amor.
Apago completamente após ouvir isso, a fala mais assustadora da minha vida.