Sequestro

1533 Palavras
Damon narrando. Ontem, depois de deixar ela no hospital, eu percebi que não vou conseguir me segurar. Não tem como. É uma sensação que me atravessa inteiro, como se algo empurrasse meu peito para frente: eu preciso dela. E vou ter. Não importa o que aconteça. Eu chego em casa ainda cheio dessa certeza e começo a montar todo o plano. Revisão de rota, bloqueio de rua, posicionamento dos carros, tempo de reação, saída rápida. Tudo anotado, detalhado, calculado. Não deixo espaço para erro — erro não existe comigo. Chamo os melhores seguranças, os caras que eu mais confio, que não travam, não tremem, não perguntam o porquê. — Vai dar tudo certo — eu falo, olhando para cada um deles. — Nada pode sair do controle. A ideia é simples e perfeita: causar trânsito na rua do hospital, obrigá-la a descer antes do destino, e pegar ela no intervalo entre a calçada e o prédio. Como somos nós que vamos causar o caos, o trânsito se abre só quando quisermos. Rota livre para fuga. Também já mando comprarem as máscaras. Não quero rosto nenhum sendo filmado. O pessoal do aeroporto está de prontidão, e a casa da viagem já está preparada, limpa, silenciosa, sem ninguém que possa perturbar. Tudo pronto para nós dois, do jeito que tem que ser. Mais tarde, observo ela do meu carro quando sai do hospital. Ela parece cansada, o cabelo levemente bagunçado, a postura mais solta do que o normal. Ela tem esse jeito de trabalhar até o limite e fingir que está tudo bem. Eu seguro o volante com mais força. Vou ter que pedir as férias dela. Ela merece descansar e… merece ficar comigo. Decido resolver isso agora. Pego o telefone e ligo. Ligação on — Oi, é da direção do hospital *****? — Sim, no que posso ajudar? — Sobre a ortopedista Milena… eu queria saber sobre as férias dela. Ela é minha noiva e eu quero levá-la para uma viagem surpresa. — Ah, ela é um amor! — a mulher sorri pela voz. — Mas as férias dela estão atrasadas. Ela só tirou uma, acredita? Tem duas para tirar ainda. Quantos dias seriam? — Agora, só dez. Se precisar de mais, eu aviso. — Perfeito. Manda um beijo pra ela e diz que ela merece descansar. — Eu digo. Obrigado. Ligação off Desligo satisfeito. Isso resolve qualquer futura discussão. Tudo certo, tudo aprovado. Nada vai atrapalhar o que estou planejando. Saio da frente do prédio dela e vou para casa — nossa casa. E é com esse pensamento que empurro a porta, sentindo o ambiente diferente, como se o lugar inteiro estivesse esperando por nós. Minha mulher vai chegar daqui a alguns dias. Os funcionários já sabem que não quero ninguém encarando ela. Só o básico: respeito, silêncio, eficiência. Nada além disso. Vou ter que conversar com ela sobre o trabalho. Eu não quero homens perto dela. Hospital tem muitos. Homens sempre se machucam, sempre procuram médico, sempre dão desculpa para puxar conversa. Quero ela longe disso. Ela pode escolher entre ficar em casa comigo, cuidar de mim quando eu me machucar, ou trabalhar comigo, na minha sala, onde eu vejo tudo. Ela decide. Até onde eu permito. Também penso nas amizades. Bruna não é problema, ela está com meu irmão agora. Pelo menos não vai arrastar minha mulher para festas, baladas, bares. Uma dor de cabeça a menos. Arrumo nossas malas para a viagem. Roupas, produtos, tudo separado. Minha mãe compra tudo que ela pode precisar, e para saber as medidas dela eu pedi para o Gabriel conseguir discretamente. Ele está me ajudando muito ultimamente. Quando vejo as roupas que minha mãe comprou, acho algumas até curtas, pequenas demais, mas como vamos estar sozinhos, não importa. Ela talvez fique brava no começo, mas isso passa. Ela vai entender que só quero o melhor para nós dois. Enquanto estivermos viajando, o Gabriel e minha mãe vão pegar as coisas dela do apartamento e levar para minha casa. Ela não volta mais para aquele lugar sozinha. Só sairemos de lá juntos, depois que ela aceitar tudo o que eu disser. Deixo as malas prontas no térreo e subo para o meu quarto. Tomo um banho e me deito pelado. Amanhã será o dia. Acordo cedo, faço minha higiene, visto roupa preta, desço e tomo café animado. Hoje vai ser perfeito. Saímos todos e deixo um dos seguranças posicionado perto do apartamento dela. Ele avisa quando ela sair. — Ela saiu, chefe — diz pelo rádio. Meu coração acelera. — Iniciem o trânsito — respondo. — E coloquem as máscaras. Colocamos as máscaras, entramos no carro e ficamos atentos. Quando vejo ela descendo do Uber, aceleramos um pouco na direção dela. Ela corre para a calçada, assustada. — Vamos. Eu pego ela — digo, já abrindo a porta. Corro atrás dela. Ela tenta fugir, mas alcanço. Ela grita, bate, chuta. Ela luta muito mais do que eu esperava. Isso só aumenta minha vontade de tê-la perto. É difícil segurar, mas eu consigo. Puxo o pano com a substância do bolso e coloco sobre o rosto dela. Ela tenta resistir, mas enfraquece. Cai nos meus braços. A polícia aparece na esquina. Seguro ela no colo, entro no carro e fechamos a porta. O trânsito se abre só para nós, exatamente como planejado. Chegamos no aeroporto. Desço com ela no colo. Meus homens levam as malas. Eles saem e eu entro no jatinho com ela. Coloco ela na cama da suíte. Ela está com roupa de trabalho, tão linda, tão minha. Pego sua bolsa, fecho a porta. Ela só acorda à noite. Me sento, o avião decola. Ela está segura. Vejo o celular dela, mas tem senha. Desligo. Depois ela me passa. Ela não vai ter nada para esconder. O telefone vibra. É o Gabriel. Ligação on — Cara, você é maluco — ele fala. — Estão comentando disso. Você não podia ser mais discreto? Tipo, sei lá, ser o Uber falso? — Verdade… — coço a nuca — seria bem útil. — Então. — Já fiz. Resolve aí. Apaga tudo. Manda hackear o sistema policial. Não quero exposição. — Ok. Como ela está? — Desmaiada. — Fez como eu mandei? — Sim. Aliás… sabe destravar um celular com senha? — Digital ou olho. — Valeu. Tchau. Ligação off Vou até o quarto e acendo apenas a luz lateral, o suficiente para enxergar o rosto dela, mas sem machucá-la com claridade. O coração chega a bater mais forte quando me aproximo. Ela está completamente entregue ao sono induzido, o peito subindo e descendo devagar, os lábios entreabertos… linda de um jeito que me desmonta e me reconstrói na mesma hora. Seguro a mão dela com cuidado. Não quero acordá-la. Quero aproveitar esse momento só para mim. Aproximo o celular do dedo dela, bem devagar, e quando a digital encosta no sensor, ele vibra e desbloqueia. Fácil. Até mais fácil do que eu imaginei. Saio do quarto, fecho a porta com silêncio absoluto e me sento no sofá da cabine. Abro o celular e começo a olhar tudo. Primeiro as mensagens. É impressionante como ela conversa com todo mundo sendo gentil, educada… mas eu percebo a frequência. Homens demais falando com ela. Médicos, enfermeiros, pacientes agradecendo, colegas… não importa. Eu apago um por um, sem hesitar. Só deixo os contatos masculinos da família dela e da minha. O resto não serve para nada. Ela não precisa de homem nenhum conversando com ela. Só de mim. Depois vou para as fotos. O álbum dela é cheio de momentos simples: ela rindo com a Bruna, ela abraçando a mãe, ela com roupas casuais, ela indo trabalhar. Cada foto me acerta de um jeito diferente. Algumas são tão espontâneas que parecem pequenas janelas para uma parte dela que só eu deveria ver. Seleciono várias e envio para mim. Não tenho vergonha disso. Tenho direito. São minhas memórias dela agora. Continuo explorando e abro a conversa com a Bruna. As duas são próximas demais, dá para ver. E aí eu começo a encontrar umas mensagens que me fazem arquear a sobrancelha. Ela fala umas coisas que não combinam com aquela imagem doce que ela passa na frente de todo mundo. Um lado mais quente, mais solto, mais ousado. Frases que fazem meu estômago virar e a pele esquentar. Ela não é tão santa assim. E isso… isso só me deixa mais preso nela. Termino de olhar e guardo o celular. Me levanto devagar e caminho de volta para o quarto. Abro a porta e fico parado por um segundo, só observando ela dormir naquele colchão enorme, toda pequena, toda frágil, toda minha sem nem perceber ainda. Me deito na cama ao lado, sem encostar nela. Quero que o primeiro toque seja quando ela acordar e me olhar — aquele momento em que ela ainda vai estar confusa, tentando entender onde está, e eu vou estar ali, do lado, pronto para explicar tudo. Hoje à noite ela acorda. E eu vou estar aqui. Para explicar tudo. Para deixar claro que nada disso é temporário. Para mostrar que ela é minha. E que agora… é assim que vai ser. E não existe volta.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR